• Nenhum resultado encontrado

4. O QUE O CORPUS FORNECE: ANÁLISE DOS DADOS

4.4 A HORA SE APROXIMA: PROGRAMA ELEITORAL (03/10/12)

O programa eleitoral do dia 03 de outubro de 2012 é o último, no primeiro turno, em que o personagem Nildo aparece para o eleitor. Como duração de 8 minutos e 20 segundos, o programa, de início, empenhou-se em mostrar, em síntese, a evolução de Hermano Morais ao longo da campanha: nas pesquisas de intenção de voto paralelamente a derrocada de Carlos Eduardo; nas articulações políticas, recorrendo à nomes nacionais do PMDB “familiarizados” com o povo de Natal, como Michel Temer (vice-presidente da República), Gastão Vieira (ministro do Turismo em 2012), Garibaldi Filho (Senador em 2012), Walter Alves (Deputado estadual em 2012); nas articulações com o povo, com o cidadão comum que o recebe simpaticamente.

Mostrar essa evolução descrita é, indiscutivelmente, essencial numa corrida eleitoral. Mesmo que tal evolução seja mínima em números, insuficiente para uma vitória, em termos de euforia é incontável. Daí surge as especulações que levam ao crescimento no número de “adeptos do voto”: Hermano poderia estar conquistando os indecisos; mudando a escolha daqueles que optaram pelos votos branco ou nulo; e por fim, utilizado sempre nas campanhas, convencendo e englobando aqueles que votariam nos seus opositores, principalmente no candidato pedetista. Agrada mais aos já adeptos e militantes a boa notícia do avanço, que faz emergi a esperança na vitória, no segundo turno. Do que a má notícia do retrocesso, suscitando descrença e desperdício de energia e tempo.

A inserção do Nildo, no programa deste dia, perdurou por 1 minuto e 8 segundos. Os dizeres, em linhas gerais, retomam e reforçam alguns enunciados anteriores, sobre a cultura popular e a veracidade das palavras do personagem, por exemplo.

Vejamos os enunciados:

Fala Locutor Off:

- Êita Nildo que tá chegando o dia da eleição, hein.

Fala Nildo:

- Apois num é. Ói, eu queria agradecer de coração a esse povo que torceu pelo Nildinho. Que intendeu que a voz da cultura popular num pudia ser censurada, né?

Fala Locutor Off:

- Cruz credo, xô censura.

Fala Nildo:

- Homi, butaram mais de cem processos contra eu. Mas a justiça disse: ói, o Nildinho só fala a verdade, e deixem ele em paz. Por isso eu tô aqui, livre, leve e solto. E ficha limpa, visse?

Fala Locutor Off:

- A justiça foi feita, né Nildo?

Fala Nildo:

- Apois. Tem que botar moral, né? E quem tem processo e bronca com a lei é bom botar as barbas de molho, que os homi vão pegar.

Fala Locutor Off:

- Vixe, Nildo. Eu é que num quero perder meu voto.

Fala Nildo:

- Pois então preste atenção em quem tu vai votar, visse? E você meu amiguinho, fale pro seu pai votar em ficha limpa. Pra num perder o voto também, né? E pra sua mãe cante assim, ó: mãmãe se ligue, mamãe se ligue, na hora que for votar. É importante, olhar a ficha, olhar a ficha pro seu voto não sujar. Voto é limpeza.

O locutor anuncia, no início da inserção, a proximidade do dia do pleito (“Êita Nildo que tá chegando o dia da eleição, hein”), dia 6, o primeiro domingo de outubro de 2012, ainda contagiado pelos avanços nas pesquisas de intenção de voto. Em concordância com a expectativa positiva e recorrendo à tradição e às emoções que a acompanham, intentando seduzir o eleitor, profere o discurso de gratidão para como o povo de Natal que o adotou como “mascote da verdade” e representante da cultura popular potiguar (“Ói, eu queria agradecer de coração a esse povo que

torceu pelo Nildinho. Que intendeu que a voz da cultura popular num pudia ser censurada, né?”).

Ainda, no enunciado de gratidão precisa-se a tomada pela palavra “censurada”, que procede de “censura”, empregada pelo locutor no dizer “[...] xô censura”. Há, aqui, tanto no primeiro quanto no segundo emprego da palavra, uma forte retomada, por vias interdiscursivas, à memória dos sujeitos. Censura” é um termo recorrente nas pautas políticas, públicas e midiáticas, que transita e transmuta-se em muitos discursos, como nos sobre liberdade de expressão individual e coletiva e liberdade de imprensa, por exemplo. Repudiar a censura (“credo, xô censura”) é como que repudiar o mal que a habita - é como o “xô satanás”, que dá nome a uma música famosa de uma banda de Axé do Brasil. Sabe- se, pela história e pela memoriados sujeitos, que o emprego dessa palavra nocente reitera memórias discursivas e que por proximidade rememora fatos históricos, como, a exemplo, o período ditatorial no Brasil. Este período da história do Brasil foi, sem dúvidas, um dos que mais cercearam o direito de voz do seu povo: da tortura à morte, o exílio (“ame-o ou deixe-o”), tudo era válido para calar os cidadãos avessos ao regime.

Mais uma vez lança-se mão da perseguição contra o Nildo. Assim como na inserção analisada anteriormente, nesta evidencia-se as representações na justiça eleitoral feitas por Carlos Eduardo contra o personagem e Hermano Morais (“Homi, butaram mais de cem processos contra eu”). Ao colocar-se como vítima, o boneco personifica-se, torna-se passível de processos legais. Uma estratégia que quer, claramente, produzir o sentido de que é inaceitável processar nos termos da lei um simples boneco, um mamulengo que só diverte.

Conforme assinalamos, a justiça, enquanto representação máxima da aplicação de juízos coerentes, orienta as ações dos indivíduos entre o fazer correto e o fazer errado. Novamente, sua atribuição unânime é resgatada quando o personagem Nildo diz que segundo a justiça, ele só fala a verdade e que, portanto, não deveria ser perturbado, assim devendo gozar de toda sua liberdade: “Mas a justiça disse: ói, o Nildinho só fala a verdade, e deixem ele em paz. Por isso eu tô aqui, livre, leve e solto”. Nota-se, como explicitado pela figura 07, que paralelo ao enunciado verbal sobre censura e veredicto, aparece na televisão do cenário a apresentadora do programa eleitoral falando sobre as derrotas de Carlos Eduardo na justiça, amparada por manchetes de jornal.

Figura 7 – Print: Nildo frente às “manchetes da derrota” de Carlos Eduardo De tal forma, o discurso indireto, como procedimento da sintaxe discursiva, é acionado no dizer sobre o veredicto, no qual o personagem vale-se das suas palavras para reproduzir aquilo que foi dito pela justiça – “Mas a justiça disse: ói, o Nildinho só fala a verdade, e deixem ele em paz”. Se o personagem preserva-se a fala da justiça tal qual o acontecimento, acionaria o discurso direto que, segundo Fiorin, “cria um efeito de sentido de ‘verdade’, pois o narrador parece repetir palavra por palavra do outro”, ou seja, é como se a própria justiça estivesse falando. Claramente que o emprego literal do discurso jurídico enfadaria o eleitor, uma vez que vale-se de termos e conceitos com os quais os cidadãos não estão familiarizados, por não fazerem, necessariamente, parte do cotidiano da maioria dos brasileiros – principalmente aqueles que tem aqueles que têm menor grau de escolaridade.

Nos enunciados posteriores há uma inversão, muda-se o investigado. Se dantes era o Nildo pelos comentários que tecia sobre seus oponentes, passa a ser Carlos Eduardo e Vilma pelas administrações anteriores. Ao dizer está livre de quaisquer investigações e não tem pendências com a justiça (é “ficha limpa”), o personagem reflete para Hermano Morais as mesmas condições. Em contrapartida deposita nos candidatos opositores a obrigação de ter a mesma adimplência.

A lei da ficha limpa, Lei complementar nº 135 de 2010, é uma lei de iniciativa popular que reuniu mais de 1,5 milhões de assinatura em todo o Brasil. É uma emenda à Lei das Condições de Inelegibilidade (nº 64 de 1990) cujo objetivo central era aumentar a idoneidade dos candidatos no país. Previa, resumidamente, torna inelegível por 8 anos um determinado candidato que fosse cassado ou renuncia-se para desencontrar a cassação. Foi, então, aprovada na Câmara dos Deputados e no Senado Federal no ano de 2010, com vigência já nos pleitos seguintes, o mais próximo era 2012.

Em todos os seus programas eleitorais, Hermano, em algum momento, recorreu ao tema da lei da ficha limpa, para ele um prato cheio. Mesmo não havendo condenações de Carlos Eduardo ou Vilma, seja por improbidade administrativa ou envolvimento em esquemas fraudulentos, haviam os processos em aberto, tanto no Tribunal de Contas da União (TCU) quanto na Câmara Municipal de Natal, referente ao governo de Vilma e gestão de Carlos Eduardo. Desta forma, toda esta situação é, nos implícitos, no interdiscurso, evidenciada por Nildo: “E quem tem processo e bronca com a lei é bom botar as barbas de molho, que os homi vão pegar”. No plano da expressão, apela para o dizer popular antigo “botar as barbas de molho” (ou “deixar, colocar”) que significa, direcionando para o oponente, dizer que já que ele tem processos judiciais que merecem atenção, deve estar alerta, sobre avisado de que a qualquer momento pode haver o julgamento e sentença da justiça.

Os dois enunciados finais são construídos em cima de duas possibilidades de ação do voto do eleitor: votar errado, no pedetista, logo perder o voto, e votar correto, no peemedebista. Votar em Carlos Eduardo e Vilma de Faria é perder o voto, jogá-lo fora, ignorar sua utilidade e importância social e histórica (“Vixe, Nildo. Eu é que num quero perder meu voto”). Ter cautela e critérios conscientes, em cima dos planos de ações de cada candidato, é o apelo que o Nildo faz no encerramento da inserção (“Pois então preste atenção em quem tu vai votar, visse?”) – claramente que, nas entrelinhas, o melhor projeto é de Hermano.

Por fim, nota-se nos últimos dizeres dessa inserção um certo direcionamento discursivo. Se dantes o boneco dirigia-se aos cidadãos eleitores, aqui dirige-se para os não eleitores, para as crianças: “E você meu amiguinho, fale pro seu pai votar em ficha limpa. Pra num perder o voto também, né? E pra sua mãe cante assim, ó [...]”. Percebe-se essa mudança pela utilização das expressões “você meu amiguinho”, “fale pro seu pai” e “pra sua mãe”. Salienta-se que, comumente, o público a quem

interessa o programa eleitoral é o que está permitido votar, porém, com o enunciado, à uma tentativa de se querer atingir aqueles que não votam, aqui as crianças – há, evidentemente, um pressuposto de que elas estão assistindo ao programa. Novamente o diminutivo –inho (“amiguinho”) é acionado com o intuito de estabelecer uma proximidade afetiva com esses não eleitores, lançando mão do seu estado de boneco, tendo em vista que essa é uma forma comum de se reportar às crianças de maneira não conflituosa. É fatigante tentar mensurar a efetividade dessa estratégia, o que não é nosso objetivo, pois o contexto é totalmente diferente daquele com a qual a criança está acostumada – de relação com um “brinquedo” que fala –, o contexto é político eleitoral. Não é, pois, o pedido, em sim, aos pais que mais pode convencê-los, mas sim os enunciados e sentidos construídos pelo personagem Nildo.

No dizer “mãmãe se ligue, mamãe se ligue, na hora que for votar. É importante, olhar a ficha, olhar a ficha pro seu voto não sujar. Voto é limpeza” há uma paródia textual35 que, novamente, joga com a comparação entre o histórico de Hermano Morais e de seus opositores. Deposita no eleitor o dever de discernir a amálgama dos projetos nocivos e duvidosos da verdadeira “solução salvadora” para os problemas da capital potiguar. A consequência da escolha errada é, além do tempo que terá que conviver com isso, o peso do voto sujo, impróprio, que repercutirá negativamente não só no sujeito, mas em toda a sociedade envolta, mais ou menos, no processo democrático.

4.5 A ELEIÇÃO VOLTOU: PROGRAMA ELEITORAL (13/10/12)