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A ideia de fronteira

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2. O RISCO PRÓPRIO DA FÉ

2.2. A fronteira como lugar do risco

2.2.1. A ideia de fronteira

Tillich é conhecido como pensador da/de fronteira. Na verdade, foi ele próprio quem definiu assim seu pensamento. Na introdução a Na fronteira, de 1936, ele disse que o símbolo “fronteira” representaria a relação entre sua obra e sua biografia. Mas o que esse termo significa no pensamento tillichiano? De que maneira seu pensamento pode ser caracterizado como fronteiriço? Acho que podemos identificar nos textos de Tillich duas compreensões de fronteira, que não são opostas, mas complementares. A primeira delas é a ideia de algo que se situa entre duas diferentes realidades, um espaço que surge do encontro entre diferentes, que é resultado de ambos, mas não se identifica propriamente com nenhum; o outro é a ideia de limite, de termo, de delimitação de um espaço, que pode ou não ser transcendido, mas que se coloca constantemente como horizonte.

A ideia de fronteira como espaço entre realidades aparece mais claramente quando Tillich tenta apontar as circunstâncias e fatores a partir dos quais seu pensamento se configurou. Ele conseguiu perceber ao longo de sua vida situações fronteiriças que determinaram, por exemplo, preferências por determinados temas ou pela maneira de abordá-los. Por exemplo, o termo “kairós”, central em seus textos sobre história, sobre a relação entre religião e política e sobre a cristologia, segundo ele, é resultado de suas tentativas de

conciliar cristianismo e socialismo no que ele chamou de socialismo religioso. É nesse sentido que Rodrigues (2009, p. 24) afirma que “em Tillich, experiência pessoal e ideias não se dissociam, mas convivem, dialeticamente, por meio de relações fronteiriças”.

No texto de 1936 a fronteira é pensada como um “entre” (between). Tillich se reconhece como alguém formado entre o temperamento de seu pai, de um entusiasmo vital, próprio do oeste alemão e o da mãe, mais melancólico e meditativo, mais característico do leste da Alemanha; entre seus primeiros anos de vida no interior da Alemanha e sua mudança para Berlim; entre diferentes classes sociais; entre a realidade, representada pela filosofia, e a imaginação, representada por seu gosto para as artes, especialmente a literatura e a pintura; entre a teoria e a prática; entre a heteronomia, representada pela autoridade de seu pai, que ele associou à autoridade da igreja, e a autonomia, representada pela quebra de tabus; entre a teologia e a filosofia; entre a igreja e a sociedade, ou entre suas atividades como pastor e como boêmio e livre pensador; entre a religião e a cultura, temas que o tornaram conhecido nos círculos acadêmicos e o acompanharam ao longo de sua obra; entre influências da tradição idealista e do marxismo em seu pensamento; e entre a experiência de germanidade e a de migrante nos Estados Unidos. Esse “entre”, que é a fronteira, significa a presença dos elementos fronteiriços, mas significa também que do encontro desses elementos surge um novo espaço que, ainda que não desligado deles, os supera. Mas a fronteira não é um espaço confortável. É tensão entre polos e constante necessidade de revisão de pressupostos. Para Tillich (1974b, p. 273), “o homem localizado sobre várias fronteiras experimenta em muitas formas a inquietude e limitação interna da existência. Sabe da impossibilidade de alcançar a serenidade, a segurança e a perfeição”.

A ideia de fronteira como limite foi desenvolvida por Tillich em uma conferência de 1962, proferida por ocasião da entrega de um prêmio que lhe foi conferido por uma associação de livreiros na Alemanha. A época era marcada pela Guerra Fria e a construção recente do muro de Berlim. Certamente Tillich tinha como horizonte a divisão do mundo em dois blocos, simbolizada pelo muro, e a divisão de sua nação – não somente simbólica – como horizonte de sua compreensão de

fronteira. Na conferência ele afirma, inicialmente, que a fronteira se caracteriza por tensão e movimento. “Não é estática, mas, antes, vai e vem de maneira constante; se trata de um avançar/retroceder, cujo objetivo consiste em criar uma terceira área além dos limites territoriais, onde alguém pode parar por um momento sem ficar isolado em meio a limites precisos” (TILLICH, 1976, p. 47).

Apesar de Tillich iniciar falando da fronteira como um entrelugar, ele fala também da necessidade de se cruzar essa fronteira. Nesse sentido ela não é espaço, mas limite. A fronteira não é espaço de paz, mas aquele (seja pessoa ou nação) que a deseja precisa cruzar fronteiras na busca da compreensão do diferente. Ele explica que a paz da compreensão não é a ausência de tensões, mas o que atualmente se chama de tolerância. O contrário da paz seria a guerra, o desejo de alcançar o outro lado não pelo cruzar da fronteira, mas por sua eliminação.

No âmbito da consciência há a fronteira do próprio ser. Essa fronteira é o outro. O outro é nosso limite, é aquilo que não se é, é o estranho, o desconhecido. É onde percebemos nosso limite, nosso além. Mas quando alguém se defronta com esse limite não percebe apenas o que não se é, mas, a partir do que não se é, o que se é. “Contempla no espelho do outro suas próprias limitações e retrocede, pois, ao mesmo tempo, em sua limitação reside sua segurança, e esta agora se vê ameaçada” (TILLICH, 1976, p. 48). Esse retroceder, entretanto, é transformador, porque quando se cruza a fronteira já não se é mais o mesmo. Tillich diz que o fanatismo é um tipo de experiência de fronteira mal sucedida, resultado da dificuldade de aceitar a insegurança gerada pelo espelho que é o outro. O fanático destrói sua consciência agarrando-se a suas antigas convicções e torna- se agressivo por sua fraqueza, desejo de cruzar os próprios limites e incapacidade de descobrir que segue refletindo-se no outro (TILLICH, 1976, p. 49).

A maior fronteira, aquela a que todo ser vivo está sujeito, é a finitude. Ela concede cor de transitoriedade a todas as coisas. Esse, entretanto, é um limite que não se quer cruzar, mas que precisa ser aceito. O anseio de superação desse limite é expresso no símbolo vida eterna. Mas esse símbolo muitas vezes tem sido distorcido, criando a ideia de “duração sem fim”, o que pode também

converter-se no símbolo do inferno. A finitude é a fronteira instransponível que, por ser intransponível deve ser aceita, do contrário, corre-se o risco de se cair em um estado demoníaco de confundir a condicionalidade da existência com a incondicionalidade do divino. É nesse sentido que Tillich (1976, p. 63) afirma: “Nada que seja finito pode cruzar a fronteira que o separa da infinitude”.

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