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CAPÍTULO 3. O MITOLOGEMA SACRIFICIAL DA LINGUAGEM

3.1. A ideia de linguagem

O pensamento, diante de tantas homologias escavadas pelo gesto crítico de Agamben – e crítica, aqui, como topologia, de alguma forma antevê e prescreve a necessidade de uma arqueologia filosófica –, acaba por encontrar um caminho para compreender a experiência com a linguagem que a metafísica tem conduzido desde que se propôs pensar o ente, o ón, fazendo-o com o lógos. Os andaimes da escavação (que, talvez, sejam eles próprios o pensamento e tudo que reste do gesto “protoarqueológico”) tanto sinalizaram para um plano primeiro da Enunciação, o próprio ato pelo qual o mortal que abre e se abre ao o-aí da existência e pode falar assume a palavra, colocando em ato a sua capacidade de linguagem como discurso sem possuir uma voz, quanto para a coincidência que se revela acontecer entre esse plano com o campo do significado do ser – o qual pertence à história da metafísica como sendo o seu substrato. Se esse significado afunda no próprio silenciar do lógos (no tolher de toda voz e no ainda não discursivo), então esse fundamento é negativo e a Enunciação é possível porque existe uma Voz. Efetiva-se, assim, o gesto pelo qual Agamben confina o pensamento da Voz, isto é, o pensamento das bases negativas da linguagem humana, com o pensamento do ser, o pensamento da própria negatividade pela qual o ser vem à abertura pelo “ser-o-aí”, isto é, “dá-se” ser, o ser passa a ser o lugar por excelência. Assim, se o shifter é o operador pelo qual se reporta ao ter-lugar da linguagem, à instância “pura” de Enunciação, essa operação põe-se e dá-se na negatividade. Entre o enunciado e a Enunciação, entre a linguagem discursiva e o ter-lugar de toda linguagem, entre ente e ser, existe uma cisão cujo nome é a operação de um shifter, uma Voz:

A Voz, que é aqui pressuposta, é, porém, definida por meio de uma dupla negatividade: de um lado ela é, de fato, suposta apenas como voz subtraída, como ter sido da φωνή natural, e esse privar-se é a articulação originária (ἅρθρον, γράμμα) em que se realiza a passagem da φωνή ao λόγος, do vivente à linguagem; de outro, essa Voz não pode ser dita no discurso do qual mostra o ter-lugar originário.330

Poderíamos dizer, depois de tudo o que foi dito, até mesmo sobre a imagem, que a Voz e a linguagem articulada se relacionam ao modo de um reflexo. Qual um corpo que se coloca diante do espelho e tem seus traços não apenas duplicados (o fora

e o dentro, o real e o virtual), mas como que invertidos (o torto e o direito do real não são os mesmos do mundo refletido do espelho), a Voz “reflete”, como dupla negatividade, a duplicidade da linguagem articulada entre o mostrar e o dizer. Já aqui, então, nessa imagem, vê-se como a linguagem articulada é tomada como o positivo, como o que se apresenta como fenômeno. Mas, na verdade, como insiste Agamben, a positividade da articulação linguística pressupõe a articulação originária de uma Voz, diante, primariamente, da ausência de uma voz, do ingresso radical no ser como lógos, como tópos da existência humana. Onde a linguagem virá a mostrar, e depois falar, a Voz antes de tudo subtraiu a voz animal, consignando o homem ao lógos. Depois disso, a Voz cala- se e aparece, diante do mostrar da linguagem, do apontar do seu ter-lugar, rompendo, portanto, com o mundo natural, como silêncio fundante: “o silêncio - que aqui advém - não é simplesmente suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, o tornar-se

visível da palavra: ideia da linguagem”331. No lugar desse silenciar da natureza onde

desponta o humano, essa palavra muda nos aparece, na terminologia posteriormente utilizada por Agamben332, num rosto, e não numa simples face (o que também possuem os animais), fazendo-se gesto.

O que se apresenta com a exploração cujos andaimes ressoam no silêncio, com a exploração desse silêncio fundamental da Voz, desse fundamento que possibilita e estrutura uma metafísica da Voz, é a própria ideia de linguagem, a sua aparição enquanto tal. Em Ideia da linguagem I, em que se exprime justamente isso que se intitula, o que se encontra é palavra tornada visível, a palavra muda que existe como tal no seu-lugar, o mostrar-se do próprio ter-lugar da linguagem – aquela capacidade que o ser humano possui e pela qual se define, interrompendo a cadeia vocálica da natureza, sem que possa dela falar, pois isso já seria outra coisa que não ela, seria discurso, seria aquisição e enunciação de linguagem. Por conseguinte, cabe falar de uma idade da linguagem, pois a ideia, antes de tudo, “não é, absolutamente, segundo uma interpretação comum, um arquétipo imóvel, mas, antes, uma constelação em que os fenômenos se compõe em um gesto”333. Agamben reencontra-se, aqui, na sua tentativa de compreender a metafísica da

331 AGAMBEN, Giorgio. Idea del linguaggio I in Idea della prosa, p. 103. Grifo nosso.

332 Ideia da prosa (1985) é uma obra que não está próxima de A linguagem e a morte apenas temporalmente, mas também, por assim dizer, no seu campo de “ideias e materiais”. Daqui a importância, portanto, acreditamos, não apenas de relacioná-las, mas de apontar, ainda, os desenvolvimentos que daí se seguiram e culminaram em novos conceitos. Nesse sentido, resgatamos os aportes feitos sobre o gesto em Meios sem fim, no qual Agamben apresenta os deslocamentos que culminaram não apenas em A comunidade que vem, mas também em Homo sacer.

Voz, com a imagem, precisamente o termo que, com a poesia dos trovadores, de Dante e com aquelas que lhe são devedoras, possibilitava acessar o objeto de amor – imagem que, em último sentido, para um poeta, é a imagem da sua própria linguagem, imagem do poetar como caminho para a existência da linguagem, da palavra. Em a Ideia da prosa não existe, a rigor, nenhuma textualidade que se chame Ideia da ideia, mas há, significativamente, uma ideia de um termo a ela conexo, uma Ideia da aparência, na qual, porém, o que se expressa é que “a ideia, a coisa mesma” é “a coisa não mais separada da sua inteligibilidade, mas no meio daquela [da aparência]”334. A linguagem compõe-se, na

sua ideia, como uma constelação dos seus gestos, dos quais se destaca o seu puro mostrar- se, sem télos, no qual apenas existe. Nas fronteiras da linguagem, de uma ideia da linguagem, com a qual pensamento filosófico se confronta, encontramo-la, além da aparência, da miríade de fenômenos da linguagem, como aquilo que aparece como tal, isto é, o próprio ter-lugar da linguagem.

Porém, se a filosofia consagrou o grámma como face visível da articulação, do árthron, e não a Voz, é porque a letra já se deixa capturar no discurso e dissimula a subtração da voz natural. A letra, porém, pressupõe a Voz, a articulação originária que torna possível o discurso articulado, a “voz articulada”, a phonḗ énarthros, que, desde ao menos a reflexão estoica sobre a linguagem, recobre o seu fundamento negativo, a cisão que se constitui como barreira e que resiste à positivação e à discursividade, isto é, o lógos como ter-lugar da palavra como fundamento do lógos como discurso – e isso também afirma, apresentando o articulado e o positivo, o sentido da estrutura negativa do fundamento. Para Agamben, não há possibilidade de a letra ter sido esquecida na história da metafísica335, pois, pelo contrário, ela foi a operação que possibilitou fundar a

articulação linguística além da voz animal, de instituir-se, assim, positivamente, sobre o primeiro sentido de Voz: há uma coarticulação entre letra e privação da voz, entre positividade e negatividade.

A articulação e a cisão encontram-se, agora, radicalmente, e é o nexo, a relação entre ambas que permite demarcar a experiência que a metafísica fez com linguagem, pois a Voz é o que articula a passagem entre o ter-sido e o não mais da voz do animal e o ainda não do discurso, consignando, na negatividade, o homem ao lógos;

334 AGAMBEN, Giorgio. Idea dell’apparenza in Idea della prosa, p. 112.

335 A estrutura dúplice da Voz é assim fortificada de modo a se valer contra possíveis objeções “gramatológicas”, pois não é a phonḗ que aquela reivindica, mas propriamente a sua privação primária (o seu ter-sido) pressuposta pela letra. Se, contudo, a fortificação resiste, ou o seu ataque encontra sucesso efetivo, tais indagações fogem do escopo analítico deste trabalho.

ela, a Voz, é a forma da relação, a articulação originária, entre o que aparece como cindido (o ser e o ente, a língua e a fala):

Essa passagem já é sempre pensada como um ἅρθρον, uma articulação, isto é, como uma descontinuidade que é, ao mesmo tempo, uma continuidade, um privar-se que é, também, um conservar-se (ἅρθρον como ἁρμονία pertencem em origem ao vocabulário da marcenaria: ἁρμóττω significa com-ponho [com- metto], uno, como faz o marceneiro com dois pedaços de madeira).336

Cisão e articulação, fratura e presença, assim, compostos, apontam ao próprio despontar da linguagem a partir da negatividade e à conservação da negatividade no interior da linguagem. Sem a privação, a negatividade não deixa manifestar a sua carga “efetiva” e a articulação perde o seu sentido compositivo, o que também se perderia sem a subsistência da negatividade, o que geraria uma coincidência entre língua e discurso, impensável em relação à fundação metafísica do vivente que tem a linguagem, entre língua e fala. Desse modo, o significado antropogenético dessa estrutura articulatória acompanha a negatividade duplicada e a cisão pressuposta sobre a qual se articula a linguagem. Mais do que isso, leva-a à ambiguidade que caracteriza o modo metafísico de experimentar a linguagem, a qual passa, conforme o modo de expressão agambeniano, a ser e não ser a voz do homem.

Por um lado, portanto, a linguagem não é a voz do homem, pois, se o fosse “como o zurro é voz do burro e o fretenir é voz da cigarra, o homem não poderia ser-o-aí nem apreender o Isto, isto é, não poderia jamais fazer experiência do ter-lugar da linguagem e do abrir-se do ser”337. Sem uma dimensão de transcendência, isto é, o horizonte, de mundo e de linguagem, de um ultrapassamento a partir de um fundar-se, o homem não seria entendido como o ente pelo qual se acessa a totalização dos entes e que pode indagar algo como ser, ou linguagem, nem apareceria como sendo aberto à abertura de mundos, mas estaria apenas como “a água na água”: “porque as plantas e os animais estão mergulhados, cada qual no seio de seu ambiente próprio, mas nunca estão inseridos livremente na clareira do ser – e só assim é ‘mundo’ -, por isso, falta-lhes a linguagem. E não porque lhes falta linguagem, estão eles suspensos sem mundo em seu ambiente”338.

Ora, sendo assim, o fato de que o homem não tenha uma voz, a qual pode ser vista como

336 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 105. 337 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 105.

338 HEIDEGGER, Martin. Sobre o ‘humanismo’, p. 155-156. Não se diz, aqui, desse encontro que provocamos ao lembrar das palavras de Bataille, que sintetizam o problema da transcendência do homem, que eles, Bataille e Heidegger, encontram-se entre si. Porém, o que se pode dizer, de fato, e isso é o que se nos coloca, é que eles acabam por ser encontrados, e talvez mesmo acabem por se encontrar, positiva ou negativamente, no plano-Agamben.

indício da ambiência dos viventes, revela o horizonte da dimensão na qual ele se desdobra como outro – quem se encontra suspenso, mas no seio da negatividade, é o homem.

Justamente porque esses movimentos se colocam na negatividade, contam eles com o lugar vazio entre vivente e lógos. Para Agamben, isso é a própria ideia de linguagem, a qual, no seu lampejo de aparição (e também no lampejo de uma “relação essencial” com a morte), mostra-se apenas ao homem, àquele que se encontra desambientado, pois apenas ele “consegue interromper, na palavra, a língua infinita da natureza e pôr-se por um instante de frente às coisas mudas”339. Só o homem se coloca diante de algo como um isto, a saber, o acesso a uma dimensão na qual a coisa é formulada no seu aparecer: “a rosa informulada, a ideia de rosa, só existe para o homem”340.

Por outro lado, se não tivesse algo como uma voz, porém, esse mesmo evento da linguagem não viria à tona, não se teria como indicá-la. (A imagem deter-se-ia nela mesma, numa pura contemplação – a qual seria condizente, a nos valermos, talvez indebitamente, da cosmogonia cristã, apenas a uma demora na arkhḗ sem lógos.) Coloca- se, aqui, precisamente, o que chamamos de experiência metafísica com a linguagem segundo a tentativa agambeniana de compreensão da metafísica da linguagem: é porque o homem, mesmo estando suspenso na existência sem voz, aferra-se à linguagem, tentando ambientar-se nas palavras, no discurso, que algo como uma Voz adquire operacionalização como “o shifter supremo que permite ao pensamento fazer a experiência do ter-lugar da linguagem e de fundar, com isso, a dimensão do ser na sua diferença com respeito ao ente”341. Uma tal experiência com a linguagem revela-se como

uma metafísica da Voz. Ora, a Voz é, como vimos, o fundamento negativo, mas a experiência que dele se faz, absorvendo a negatividade do entre que a define (subtração da phonḗ e ainda não do lógos, do discurso articulado), impinge o homem – o que para Agamben pode soar algo paradoxal (uma necessária vida na linguagem para o humano, conquanto ele mesmo tenha sido aberto à existência pela linguagem a partir de uma ausência originária de ambiente), segundo o funcionamento de uma máquina ou dispositivo – a uma vivência na linguagem.

A negatividade é fundamento da possibilidade de acesso ao ser, seja pela experiência angustiante do “ser-o-aí” que naquela se encontra suspenso, seja pelo cuidado em relação ao apelo silencioso que emana como “voz do ser”. Porém, nos termos da

339 AGAMBEN, Giorgio. Idea del linguaggio I in Idea della prosa, p. 103. 340 AGAMBEN, Giorgio. Idea del linguaggio I in Idea della prosa, p. 103. 341 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 105.

tradição metafísico-analítica da linguagem que percorremos, quer-se, com isso, dizer: o acesso à linguagem dá-se mediante a articulação, isto é, pressupõe-se o esquecimento da negatividade originária que ela pressupõe (e oculta) como cisão. Na definição aristotélica da qual partimos, e a qual se coloca, assim, como insígnia do pensamento ocidental sobre a Voz, é sob o signo da articulação possibilitada pela assunção da negatividade de uma Voz, da “comissura de impossíveis”, que é pensado “o ἔχειν, o ter do homem [o ter a linguagem], que constitui em unidade a dualidade de vivente e linguagem”. Com a manifestação do sentido articulatório, revela-se que “o homem é aquele vivente que se subtrai e, ao mesmo tempo, conserva-se - como indizível - na linguagem: a negatividade é o modo humano de ter a linguagem”342.

A experiência da linguagem que a metafísica efetiva é uma experiência cindida: ou experimenta o mostrar, a indicação do evento de linguagem (e aí nada pode ser dito, pois não tem voz), ou o experimenta como dizer, como discurso, o qual já se dá no interior do evento de linguagem (e aí só se pode dizer)343. Tal separação entre dois planos de linguagem é a sorte da linguagem no interior da metafísica, e a não coincidência entre eles, ainda, conduz, com a Voz, à estrutura da transcendência, a qual revela o modo fundamental da filosofia e do pensamento que se acercam do ser, uma vez que “(...) apenas porque o evento de linguagem transcende já sempre o que é dito nesse evento, algo como uma transcendência em sentido ontológico pode ser mostrada”344.

Mas aqui também se começa a esboçar a própria tentativa agambeniana de, compreendendo a estruturação da metafísica, buscar uma efetiva experiência com a linguagem, uma experiência que esteja à altura de sua ideia e de sua indicação. O gesto, a pura esfera da gestualidade, a qual indicamos como se abrindo, a partir da ideia da linguagem, como a postura do ente desambientado que se coloca diante da ausência de voz e de palavra, também indica a espécie de mal-estar do homem na sua própria linguagem – não apenas como fala ou discurso, mas diante, também, do encontrar-se abandonado na existência, diante da qual se desdobra uma imperiosa necessidade de língua. Assim, “visto que o ser-na-linguagem não é algo que possa ser dito em proposições, o gesto é, na sua essência, sempre gesto de não se orientar na linguagem, é sempre gag no significado próprio do termo, que indica antes de tudo algo que se coloca

342 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 105. 343 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 106. 344 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 106.

na boca para impedir a palavra”345. O fato de que o homem não se encontre na linguagem,

que ele não tenha nela um caminho previamente traçado, definido, mas que seja abandonado sem voz e sem ambiente, é precisamente o que o gesto visa a resgatar como a experiência dissimulada sob a articulação. Apenas atravessando a negatividade, o homem poderia se encontrar na linguagem, mas isso já seria outra coisa que não o babélico império das línguas soberanas, seria outra experiência que não a da linguagem soberana. Mal-estar: “o homem tem Stimmung, é apaixonado e angustiado, porque se sustém, sem ter uma voz, no lugar da linguagem. Ele está na abertura do ser e da linguagem sem nenhuma voz, sem nenhuma natureza: ele é lançado nessa abertura e desse abandono deve fazer o seu mundo, da linguagem, a sua voz”346. O homem não tem seu

lugar, para Agamben, e nisso ele acompanha o velho mestre, num ambiente, num viver demarcado pela ambiência, mas, sim, tem o seu lugar naquela suspensão da vocalidade da natureza que é o ter-lugar da linguagem. Mas aí, de fato, ele não tem ainda discurso, fala, isto é, lógos voltado a um fim (comunicativo, expressivo...). Ele se encontra, em o- aí, na essência do ter-lugar da linguagem: a ideia de meios sem fim, portanto, vem do desligar-se da articulação metafísica, que faz, na medida mesma da falta de voz do homem, a necessidade do discurso como sendo a sua voz. O gesto aponta para o puro meio sem fim diante do qual o homem se encontra como tal, como sendo aquele que habita o ter-lugar da linguagem.

O que desliga, ao menos tal é a aposta de Agamben, a passagem articulatória entre as duas dimensões (mostrar e dizer) possibilitada pela operacionalização da negatividade como sendo a Voz, o shifter, o comutador entre um plano e outro. E, se a filosofia não deixou sua fuga do mal-estar do homem na linguagem, nem conseguiu de fato atravessá-lo, atingindo a felicidade na suspensão e na contingência, a ciência da linguagem, cuja sorte acompanhamos, também não foge dessa duplicidade. Ou cai diretamente na esfera do significado e do discurso (a semântica e suas variedades), ou, atentando ao plano vocálico da linguagem, constrói, sobre a ideia de fonema, uma investigação que “se apresenta como um análogo perfeito da ontologia”347. Aquilo que não a sua vertente crítica, que se tolhe de toda voz para tornar a experiência do evento mesmo de linguagem não imediatamente configurável nas facilidades da comunicação, tentando acessar os seus limites e a questão do seu fundamento – e os impasses

345 AGAMBEN, Giorgio. Mezzi senza fine, p. 52-53.

346 AGAMBEN, Giorgio. Vocazione e voce in La potenza del pensiero, p. 86. 347 AGAMBEN, Giorgio. Il linguaggio e la morte, p. 107.

saussurianos podem apontar algo nessa direção –, recai no cerne da metafísica ou padece ao lado, suportando todo o encadeamento que parte da voz significante e da Voz. A positividade da articulação, como vimos em relação ao signo linguístico, sintoma semiótico de um problema metafísico, agora, é propriamente desvendada em seu campo originário de formulação, a negatividade que funda a experiência do ser e da linguagem na história da metafísica, pela qual, vale dizer, enfim, tem-se acesso à linguagem como negatividade.

3.2. O mitologema da Voz

Toda essa maquinaria complexa institui uma experiência da linguagem que confina com o silêncio, forma significativa pela qual o sentido se manifesta como mistério, se lembrarmos de um momento fundamental que está no plano de origem do mundo ocidental. Com um gesto de nomeação e categorização conceitual, Agamben expõe não apenas as raízes metafísicas do pensamento sobre a voz, no qual culmina a confrontação com a “essência” da linguagem, mas a Voz como fundamento da metafísica, no sentido originário de arkhḗ, remetendo à dimensão originária do fundamento: “O mitologema da Voz é, portanto, o mitologema original da metafísica; mas, enquanto a Voz é também o lugar original da negatividade, a negatividade é inseparável da

metafísica”348

De forma sutil, o fundamento negativo ganha uma nova indumentária conceitual. A metafísica da Voz torna-se então, a partir da mistérica dimensão do silêncio – e a insistência agambeniana nos mistérios de Elêusis é capaz de mostrar, mais uma vez, o seu caráter substancial –, mitologema da Voz, ou, de forma mais precisa, expõe-se a metafísica como tendo as bases de seu pensamento sobre o ser da linguagem num