4. A REGULAMENTAÇÃO DO TRABALHO
4.1 A ideia de regulamentação das relações de trabalho: da formação da
A ideia de regulação das relações de trabalho é típica do século XIX, que vai se concretizar efetivamente apenas no século seguinte. Sua origem histórica está intrinsicamente relacionada à crescente radicalização dos conflitos sociais surgidos principalmente como reação aos efeitos nefastos da emergência e às crises do capitalismo industrial na Europa Ocidental122.
Embora a ideia de classe, numa acepção objetiva, remonte ao período da desagregação das sociedades de laços familiares, o fenômeno da consciência de classe, ao qual a luta por melhores condições de trabalho aparece historicamente atrelada, só aparece muito tempo depois.
A consciência de classe, com efeito, é um fenômeno social da era industrial moderna. Seu aparecimento só pode ser sentido a partir da primeira década dos anos 1800, mas não depois de 1830 ou 1840, não se restringindo apenas à chamada “classe operária”, atingindo outros estratos da sociedade,
122 MELEU, Marcelino; MASSARO, Alessandro Langlois. “O papel da OIT frente aos desafios
121 como a burguesia, à época, em ascensão e a aristocracia em declínio123.
Referindo-se aos estudos pioneiros de Lukács sobre a formação da classe operária, Eric Hobsbawm assinala que as condições para o surgimento da consciência de classe se aglutinaram somente com a transição do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista. Com o adensamento das trocas mercantis característico da sociedade capitalista, testemunha-se também o incremento da coesão de seus agentes:
Economicamente falando, todas as sociedades pré- capitalistas possuem coesão incomparavelmente menor como entidades únicas do que a economia capitalista. Os diversos setores de uma sociedade pré-capitalista são muito mais independentes entre si, e suas dependências econômicas recíprocas muito menores. Quanto menor for o papel da troca de mercadorias em uma economia, mais setores da sociedade serão economicamente autossuficientes (como os setores da economia rural), mais distantes, indiretos e ‘irreais’ serão os laços entre o que as pessoas realmente vivenciam como economia, política ou sociedade, e o que na realidade constitui a estrutura política, econômica etc., mais ampla dentro da qual elas atuam124.
123 Cf. HOBSBAWM, Eric J. Mundos do trabalho: novos estudos sobre a história operária.
Trad. Waldea Barcellos; Sandra Bredan. 4. ed. rev. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. [capítulo II – Notas sobre consciência de classe e ideologia].
122 Os efeitos sociais que acabariam dando azo às demandas organizadas pelo reconhecimento de direitos no âmbito das relações de trabalho, com a formação de um proletariado urbano que almejava condições de vida mais dignas, têm sua origem nas transformações sociais decorrentes da Revolução Industrial. É por essa razão que o conjunto de eventos que essa rubrica compreende é considerado como um marco na história da tutela jurídica do trabalho.
Em estudo sobre a emergência do direito do trabalho, qualificado como um dos produtos da dupla revolução europeia, Freitas Jr. observa que:
Em sua manifestação mais característica, esse movimento deu ensejo ao nascimento da indústria e, com ela, à divisão social do trabalho e à especialização do trabalhador, alienado em cada fragmento da atividade produtiva (linha de produção). Paradoxalmente, à fragmentação do trabalhador na linha de produção correspondeu a aglutinação de grandes contingentes de operários no mesmo espaço fabril e urbano, oferecendo as condições para uma pujante vida associativa e para o aparecimento do sindicato. Num outro aparente paradoxo, a rápida expansão da atividade econômica produtiva, com a formação de um verdadeiro "mercado consumidor", num primeiro momento, em vez de ocasionar distribuição de renda e melhoria nas condições de vida dos trabalhadores,
123 deu ensejo a um duplo efeito de 1) aumento da acumulação e da concentração de capital com o aprofundamento das desigualdades entre empresários e trabalhadores, e 2) exploração desumanizada do trabalho sob condições aquém das indispensáveis à sua dignidade125.
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra por volta de 1769, quando se verificou aquilo que os historiadores denominaram de “partida para o crescimento sustentável”, logo se alastrou para diversas partes da Europa e, depois, do mundo, levando consigo mais do que seus resultados desejados.
O aumento da produtividade, a diversificação dos produtos disponíveis no mercado, o desenvolvimento das telecomunicações, da navegação e a criação de meios de transporte então inexistentes, veio acompanhada de efeitos sociais perversos.
Com efeito, o sucesso da industrialização dos países centrais, sobretudo entre seus precursores, sustentou- se na criação de um exército de mão de obra barata, que viria a suportar os piores efeitos da Revolução Industrial. Nada obstante seu estrondoso sucesso, logo a expansão capitalista se mostraria vulnerável a ciclos de declínio, que intensificariam o descontentamento que levaria à agitação e mesmo à revolução.
125 FREITAS JR., Antonio Rodrigues de. “O trabalho à procura de um direito: crise econômica,
conflitos de classe e proteção social na Modernidade”. Estud. Avançados, ago 2014, v. 28, n. 81. p. 72/73.
124 O progresso do capitalismo industrial, observa Eric Hobsbawm, estava “longe de ser tranquilo, e por volta de 1830 e princípios de 1840 produzia grandes problemas de crescimento, para não mencionarmos a agitação revolucionária sem paralelo em qualquer período da história britânica recente”126.
Embora especialmente evidente na Inglaterra, as primeiras crises desse novo modo de produção não foram um fenômeno exclusivamente britânico. Elas atingiram as mais diversas áreas compreendidas na zona de expansão do capitalismo e suas consequências mais profundas foram de natureza social.
Impactando especialmente as condições de vida da classe dos trabalhadores, que suportavam não apenas os “custos” humanos desse novo modo de produção, então sem proteção de seus direitos mais elementares, mas também as consequências de suas crises, o descontentamento não se restringiu a estes indivíduos.
Trabalhadores e queixosos da pequena burguesia logo se uniram em movimentos de massa, para reivindicar direitos, cuja radicalização produzia levantes revolucionários. Seu espectro de manifestações ia desde reações
126 Era das revoluções: 1789-1848. Trad. Maria Tereza Lops Teixeira; Marcos Penchel. 22.
125 mais simplórias, como aquela materializada no movimento de destruição das máquinas (ludismo), às quais alguns atribuíam a culpa pela situação de miséria e exploração em que viviam, até revoluções sociais mais profundas.
Nesse sentido, a arguta análise de Eric Hobsbawm:
A transição da nova economia criou a miséria e o descontentamento, os ingredientes da revolução social. E, de fato, a revolução social eclodiu na forma de levantes espontâneos dos trabalhadores da indústria e das populações pobres das cidades, produzindo as revoluções de 1848 no continente e os amplos movimentos cartistas na Grã-Bretanha. O descontentamento não estava ligado apenas aos trabalhadores pobres. Os pequenos comerciantes, sem saída, a pequena burguesia, setores especiais da economia eram também vítimas da revolução industrial e de suas ramificações. Os trabalhadores de espírito simples reagiram ao novo sistema destruindo as máquinas que julgavam responsáveis pelos problemas; mas um grande número de homens de negócio e fazendeiros ingleses simpatizava profundamente com estas atividades dos seus trabalhadores luditas porque também eles se viam como vítimas da minoria diabólica de inovadores egoístas127.
127 Idem, p. 64/65.
126 No século XIX, estes movimentos de reação passaram a ser alimentados, no campo intelectual, por uma gama de trabalhos teóricos, que iam desde a defesa da união do capital e do trabalho para a superação da questão social (a exemplo da Encíclica Rerum Novarum), até a defesa da tomada dos meios de produção pela classe trabalhadora:
Concentração da riqueza + exploração desumana do trabalho + presença do sindicato: estão dadas as condições para a radicalização e a politização dos conflitos sociais. Um ambiente de conflitualidade, como não é difícil inferir, propício a hospedar toda a sorte de doutrinas políticas de apelo radical. Um espectro de ativismo "emancipatório" para o qual não faltaram defensores de doutrinas que iam da extinção imediata do Estado (anarquistas) às inúmeras postulações de sua transformação radical (fabianos, trabalhistas, cooperativistas, socialistas, comunistas). Nesse ambiente surgem iniciativas políticas de notáveis e, em alguns casos, indeléveis efeitos sobre a história política dos séculos XIX e XX.128
O ponto culminante dessas lutas pela consagração dos direitos trabalhistas, alimentadas pela emergência da consciência de classe e por doutrinas voltadas à solução da questão social, se observou apenas no início do século XX, com a criação de uma série de associações de cunho privado voltadas a discutir a regulamentação do trabalho.
128 FREITAS JR. Art. cit., p. 73.
127 Essas experiências embrionárias, cuja atuação não se arrefeceu nem mesmo durante a 1ª Guerra Mundial, somaram-se ao temor despertado pela Revolução Russa de 1917, para constituir o reconhecimento do Direito do Trabalho no primeiro pós-Guerra. Esse reconhecimento foi levado a efeito no mesmo instrumento que marcou o fim da Primeira Guerra mundial, o Tratado de Versalhes. Sua parte XII, com efeito, instituiu a Organização Internacional do Trabalho como organismo componente da velha Liga das Nações129.
O artigo 427 do Tratado instituiu as diretrizes a serem observadas na elaboração desse novo direito, constituindo- se assim num dos mais importantes marcos da história do Direito Internacional do Trabalho:
1º – O princípio diretivo antes enunciado de que o trabalho não há de ser considerado como mercadoria ou artigo de comércio;
2º – O direito de associação visando a alcançar qualquer objetivo não contrário às leis, tanto para os patrões como para os assalariados;
3º – O pagamento aos trabalhadores de um salário que lhes assegure um nível de vida conveniente, em relação com sua época e seu país;
4º – A adoção da jornada de oito horas ou a duração semanal de quarenta e oito horas;
129 Idem, p. 75.
128 5º – A adoção de um descanso semanal de vinte e quatro horas, sempre que possível aos domingos. 6º – A supressão do trabalho das crianças e a obrigação de impor aos trabalhos dos menores de ambos os sexos as limitações necessárias para permitir-lhes continuar sua instrução e assegurar seu desenvolvimento físico.
7º – O princípio do salário igual, sem distinção de sexo, para um trabalho de igual valor.
8º – As leis promulgadas em cada país, relativas às condições de trabalho deverão assegurar um tratamento econômico equitativo a todos os trabalhadores que residem legalmente no país. 9º – Cada Estado deverá organizar um serviço de inspeção, que inclua mulheres, a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a proteção dos trabalhadores.
Com o fim da Liga das Nações e a criação das Nações Unidas, a Organização Internacional do Trabalho é incorporada à ONU como sua primeira agência especializada. Desde então, a OIT tem desempenhado um papel de relevo na evolução do Direito do Trabalho, orientando e prescrevendo diretrizes para a consecução das relações trabalhistas, nos mais diferentes ordenamentos nacionais, afinadas com os princípios materiais da dignidade da pessoa humana.
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