O espaço urbano se organiza de acordo com as mais diversas di- nâmicas inerentes à cidade. Sua forma decorre, entre outros aspectos, dos modos de produção e consumo no meio urbano e se configura a partir do conjunto dos mais diversos dispositivos relacionados à circulação, à habi- tação, ao trabalho, à recreação. Seja determinado por planos urbanísticos bem fundamentados, atentos a aspectos do entorno de dado sítio urbano e às especificidades dos elementos nele existentes, seja oriundo de parce- lamentos graduais do território, mais ou menos espontâneos e incongru- entes, o espaço urbano é dotado sempre de lacunas, espaços residuais que escapam do esforço de organização do qual decorre a forma das cidades. Trata-se de espaços residuais, de sobras de terreno os quais permanecem insubmissos à ordem urbana, à margem das atividades comumente reali- zadas na cidade.
Desde nesgas de terreno que sobram do traçado viário a extensos canteiros junto a avenidas, desde lotes com declive muito acentuado a glebas em áreas brejosas, os espaços livres residuais da cidade não são aco- lhidos por nenhuma intencionalidade que os defina a priori. São áreas in- decisas, à margem dos propósitos urbanos, nas quais não é previsto o aco- lhimento de qualquer uso. Isso não significa, contudo, que nada se passe nesses espaços ou que nenhuma prática aconteça neles. Sob o ponto de vista da organização e do planejamento urbano, os espaços residuais cor- respondem, muitas vezes, a áreas nulas, desprovidas de sentido por não terem qualquer utilidade, por serem desperdiçadas no funcionamento da cidade. Sob o ponto de vista das práticas cotidianas do espaço, por outro lado, são espaços abertos ao porvir das situações mais diversas. Enquanto resíduos das decisões que definem a cidade, os espaços indecisos são ricos
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abrigos àquilo que não tem cabimento, àquilo que não é admitido na ci- dade.
De maneira geral, são espaços por onde é possível circular, ainda que não tenham sido previstos como estruturas de circulação; são espaços nos quais é possível a ocorrência das mais diversas trocas culturais, artísti- cas, embora sejam desprovidos de qualquer institucionalização; são espaços onde se pode constatar diferentes modos de lazer, embora nada os defina como área recreativa; são espaços habitados, no sentido amplo do termo, ainda que não sejam terrenos habitacionais. Trata-se de espaços indefini- dos, para os quais não há qualquer finalidade prevista, pois, na organização da cidade. Na ausência de fins práticos, os espaços residuais se definem, sempre provisoriamente, de acordo com os diferentes modos pelos quais são reconhecidos: um mesmo resíduo ora pode convidar à permanência, ora é visto de passagem; ora se abre às brincadeiras de crianças, ora é re- fúgio para meditação; ora acolhe o convívio em grupo, ora atende à soli- dão. A indefinição dos espaços residuais, assim, é a condição para sua aber- tura às mais diversas possibilidades.
Conformados pelas sobras da organização de áreas contíguas, os espaços residuais possuem as formas mais variadas. Embora seus aspectos formais sejam estabelecidos ao acaso, não se pode dizer que tais espaços sejam amorfos40. Definidos sempre como parcela que excede à equação da cidade, como resíduo da definição formal de espaços adjacentes, os contornos dos espaços residuais delimitam as porções de terra que, por alguma razão, sobraram do parcelamento do solo, da implantação de in- fraestruturas urbanas, da construção de edifícios. Sob o ponto de vista de suas formas, os resíduos decorrem, portanto, do desenho urbano pelo qual
40 Entendendo que a toda forma corresponda um conteúdo próprio e que todo conteúdo imprescinda de uma forma cabível para existir enquanto conteúdo, os espaços residuais serão aqui abordados enquanto unidade (LEFEBVRE, 2001: 91) definida por seus aspectos formais e pelos significados que lhes são próprios. Mais adiante, a propósito da forma urbana, as reflexões de Henri Lefebvre sobre forma e conteúdo serão, novamente, referenciadas neste estudo.
111 o feitio da cidade é regido, correspondendo ao negativo desse desenho, ao que é formado como a exclusão de todas as formas desenhadas e que permanece entre elas. Sob o ponto de vista dos conteúdos acolhidos pelos espaços indecisos, pode-se dizer que os sentidos que não têm cabimento na cidade, que não podem ser absorvidos por sua racionalidade e que dela escapam na condição de resíduo, constituem as camadas de significado que subsistem nesses espaços. Embora desprovidos de intencionalidade, des- prezados, desajeitados, os espaços residuais participam do tecido urbano, correspondendo, em outras palavras, à dimensão inoperante da cidade.
Há espaços que sobram, pois, das lógicas produtivas que determi- nam a existência física e as fisionomias da cidade e que, enquanto refugo dessas lógicas, escapam de suas intencionalidades, de suas determinações, de seu funcionamento. A compreensão de que o ser inoperante da cidade subsiste em seus resíduos permite afirmar que tais espaços são dotados de existência concreta e recobram, portanto, uma ontologia própria. Os es- paços residuais não são a parte da cidade desprovida de forma, ainda que suas formas muitas vezes sejam desconcertadas; não são espaços privados de sentidos, ainda que seus significados permaneçam, muitas vezes, laten- tes no cotidiano; eles não são a porção do urbano destituída de vida, em- bora frequentemente sejam espaços ermos. Participando do tecido urbano, mas não incorporados pelas funcionalidades da cidade, os espaços residuais podem ser abordados não apenas por exclusão em relação às demais loca- lidades urbanas, não apenas por negação à organização da cidade. Ao con- trário, o reconhecimento desses espaços enquanto um ente específico do urbano, um ente de característica residual, e a integração desses espaços a práticas cotidianas permite que se ateste a infinidade de possibilidades às quais eles permanecem entreabertos. Para tanto, cabe inferir, de partida, que os resíduos da cidade são espaços eminentemente habitados.
Se se entende a ideia de habitar em seu sentido amplo, relacionado à construção de um mundo, portanto a um fazer41, os espaços residuais
41 Segundo Martin Heidegger, a ideia de habitar associa-se ao fazer (do grego poiesis) pelo qual o homem trabalha a Terra, criando, na obra, o seu mundo.
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podem ser percebidos na espessura que os constitui, espessura formada por camadas de memórias, de tempos, de práticas, de sentidos, de diferentes materialidades, espessura que permite, justamente, que esses espaços sejam habitados. Se, por um lado, as plantas rústicas que recobrem a terra exposta dos espaços residuais os habitam, por outro lado, estes espaços são também habitados pelas pessoas que por ali cortam caminho, em percursos cotidi- anos, recalcando nos capins e nas ervas a trilha formada por seus passos. São espaços habitados pelos pássaros que vêm alimentar-se de plantas fru- tíferas que ali tenham brotado e também pelos garotos que veem nesses espaços florestas sombrias ou campos ensolarados que abrigam seus sonhos e suas brincadeiras. Também habitam os espaços residuais os juncos e as plantas que crescem à beira de córregos, as poças enlameadas e aqueles que nelas afundam os pés ao se aproximarem, por qualquer motivo, das águas correntes.
A aproximação às relações estabelecidas entre os seres que habitam os espaços incultos e que permitem remontar à paisagem em situações triviais da cidade interessa a este estudo, justamente, sob a perspectiva do mundo cultivado. Estas reflexões acerca dos espaços residuais, portanto, não são elaboradas enquanto justificativa para que tais terrenos sejam in- distintamente mantidos em situação de abandono, nem tampouco, por outro lado, como indicativo para que eles sejam ocupados pragmatica- mente em resposta a demandas operacionais da cidade. É com vistas ao entendimento da existência de práticas possíveis associadas aos resíduos, práticas pelas quais tais espaços possam ser considerados em sua condição
Embora descuidados, desprovidos de intenções de cultivo, os espaços residuais da cidade, por meio de práticas igualmente residuais, podem ter sua superfície habi- tada. “O homem cuida do crescimento das coisas da terra e colhe o que ali cresce. Cuidar e colher (colere, cultura) é um modo de construir. O homem constrói não apenas o que se desdobra a partir de si mesmo num crescimento. Ele também constrói no sentido de aedificare, edificando o que não pode surgir e manter-se mediante um crescimento. Construídas e edificadas são, nesse sentido, não so- mente as construções, mas todos os trabalhos feitos com a mão e instaurados pelo homem” (HEIDEGGER, Martin. Poeticamente o homem habita. In. Martin Hei- degger. Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002).
113 residual, como área dotada de significados, que são aqui propostas algumas considerações sobre a noção de resíduo e sobre os espaços residuais.
Os espaços residuais, que raramente são representados em carto- grafias urbanas, possuem traços fisionômicos pelos quais é possível identi- fica-los em sua condição de resíduo. A rusticidade da natureza que neles tem acolhimento evoca, para além dos aspectos de uma ruralidade que é estranha ao meio urbano, os traços daquilo que é inacabado, incompleto, inculto e que subsiste nos terrenos baldios. Em situações muito específicas, os espaços residuais podem ser apontados em levantamentos cartográficos como áreas vazias à espera de qualquer empreendimento, o que, contudo, em nada considera as fisionomias próprias destes terrenos. Antes de pro- curarmos compreender as características muitas vezes transitórias destes terrenos, fundamentais para as possibilidades de experiências de paisagem a eles associadas, cabe, justamente, refletirmos sobre os espaços residuais, sobre o que faz com que eles existam imiscuídos no tecido urbano e sobre as possibilidades de participação dessas áreas numa vivência cotidiana.
Assumindo, como uma assertiva inicial, que a existência de terre- nos baldios, desinteressados, ocorre como resíduo decorrente de toda forma de organização territorial e que a condição de tais espaços é de tal modo efêmera que eles são sujeitos a transformações constantes associadas às mais diversas práticas que neles possam se processar, cumpre investigar, a princípio, o que se pode entender por resíduo. Em sequência, pretende- se observar de que modo essa noção se relaciona aos terrenos baldios, de acordo com as reflexões de diferentes autores e, ainda, as relações existen- tes entre os espaços indecisos e a possibilidade de experiências de paisagem na cidade.
A noção de resíduo que norteia a abordagem dos espaços irreso- lutos da cidade aqui proposta se ampara fortemente no pensamento de Henri Lefebvre. De maneira geral, em seu livro Metafilosofia, o autor apre- senta a impossibilidade de apreensão da totalidade das realidades existentes por meio de conceitos. Há algo das realidades que sempre os extravasa, que não pode ser assimilado por apreensões conceituais. Associada ao de-
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vir, que é sempre inesgotável, atual e presente, a porção do real que trans- borda dos conceitos ou, em outras palavras, o resíduo, situa-se na indeter- minação, na abertura que subsiste a toda construção racional (LEFEB- VRE, 1967: 82). Se o poder criador do qual procede a construção dos conceitos não se pode definir por completo, caso contrário se esgotaria, o que há de mais precioso desse poder é, justamente, a superação do conceito. Nesse sentido, a superação designa um vir a ser que não pode configurar-se e esgotar-se em um discurso. [...]. Há na superação um risco, uma possibilidade de malogro ao mesmo tempo que de realização, uma promessa, um desafio se quiserem, traços comuns de toda ação criadora. Na supe- ração e enquanto há superação, o discurso e o Logos (inteli- gência discursiva, razão lógica e analítica) se esforçam por al- cançar o devenir analisando-o, descrevendo-o de acordo com iluminações e pontos de vista diferentes, formalizando- de todas as maneiras possíveis. Jamais o conseguirão comple- tamente: o devenir se mostrará inesgotável e, no entanto, atual e presente. Diante das operações do entendimento e do discurso, persistirá sempre um resíduo (LEFEBVRE, 1967: 82).
Lefebvre identifica os resíduos a partir da linguagem, meio pelo qual se processam as construções humanas. Pode-se dizer, de maneira ge- ral, que os resíduos são inerentes a todas as formas de linguagem. Cabe esclarecer, contudo, o modo como o autor compreende as noções de poi- esis e praxis, intimamente associadas à noção de resíduo e à possibilidade de sua assimilação. Provém da poiesis, isto é, da verdadeira criação42, da atividade que desvela ao espírito a sua beleza43, o conjunto da obra hu- mana. No âmbito da poiesis, Lefebvre compreende que a linguagem não
42 LEFEBVRE, 1967: 375.
115 é a responsável pela criação, mas sim o meio pelo qual a obra assume formas sensíveis. Os resíduos irredutíveis da linguagem, os quais escapam, justamente, de abordagens teóricas, passam a ser assimilados pela praxis, isto é, por uma conduta prática oposta à noção de teoria, alimentando a atividade criadora, ou em outras palavras, a poiesis. Lefebvre afirma que seria preciso que a meditação filosófica paradoxalmente se ocupasse, por meio do fazer prático, do resíduo dito irredutível, ou seja, do resíduo que não pode ser deduzido em termos teóricos por ser inerente ao mundo vivido.
O universal com o verdadeiro se descobre; encon- tra-se no fim; atinge-se realizando-se. E, então, a filosofia não pode permanecer filosofia. Ou bem o mundo não filosófico persiste diante da filosofia e do mundo filosófico, seja como adversário resoluto e realidade tenaz, seja como resíduo difi- cilmente redutível (“vivido” ou “empiria”). Nesse caso, a universalidade alcançada é apenas fictícia. O conflito entre o mundo não filosófico, isto é, a filosofia que se quer mundo, e o mundo filosófico, não se fará sem prejuízo para a filosofia e o filósofo. Para sair desse conflito e resolve-lo, só há um caminho: que a filosofia se torne mundo, não enquanto filo- sofia, mas enquanto projeto que se realiza no mundo e cuja própria realização é negada ao longo da superação (LEFEB- VRE, 1967: 110-111).
Contudo, a filosofia à qual se volta a crítica de Lefebvre, ante suas incongruências com o mundo vivido, frequentemente se isola em seus próprios sistemas, em suas próprias lógicas. Segundo o autor, “o filósofo vai, pois, instalar-se no rigor: em um rigor de aparência, de aparelho e de aparato. Desprezará os empiristas do exterior, os práticos” (1967: 126). O rigor teórico que rege o pensamento filosófico pressupõe a fragmentação do mundo para que se possa compreender muito bem, com a vontade do rigor, o ser de uma ou de outra parcela, permanecendo todo o resto entre parêntesis. Ao proceder desse modo, contudo, o pensador terá quebrado
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o mundo enquanto totalidade e, por ter rompido as conexões entre as realidades existentes “para substituí-las pelas suas articulações rigorosa- mente definidas, [...] em nome do rigor, terá suspendido o rigor” (LEFE- BVRE, 1967: 127).
O filósofo e a filosofia podem ainda achar um refú- gio: o logos. Não esta ou aquela linguagem especializada, mas a linguagem. A filosofia proclama-se, sem sorrir e sem temer o pleonasmo: logologia. O filósofo torna-se o homem da lin- guagem em geral; nela descobre o bloqueio da verdade. Mas é ele que se acha cercado de todos os lados. O lógico co- manda o ataque, especialista do rigor formal e do discurso coerente. Quer uma língua universal, demonstrativa, utilizá- vel pelas máquinas, fundada em uma semântica geral, axio- matizada e formalizada segundo o modelo das matemáticas. O assalto mais violento é desfechado pelos partidários do es- truturalismo, pelos teóricos da informação e os cibernéticos. Querem ocupar a esfera do discurso, dela expulsar os outros habitantes e a partir daí empreender reides e razias nos domí- nios e Estados vizinhos. Mas o escritor ataca também o filó- sofo. Quer sua língua e sua linguagem bem próprias, irredu- tíveis ao discurso, mesmo que seja ao preço de uma destrui- ção do discurso, de suas estruturas e de suas leis (LEFEBVRE, 1967: 127).
Enquanto decorrência inevitável da linguagem, associados, por- tanto, a toda criação humana, os resíduos podem possuir naturezas muito distintas, variáveis de acordo com suas origens. Os domínios matemáticos, por exemplo, têm como resíduo o drama44. Segundo Lefebvre (1967:
44 “As condições que fazem surgir as possibilidades também podem mantê-las em estado virtual, na presença-ausência. Não seria esta a raiz do drama, o ponto de emergência das nostalgias?” (LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2004. pp. 102).
117 204), tais domínios não suportam limitação alguma e, entretanto, ao não conseguirem racionalizar por completo a natureza, fazem surgir diante de si um irracional. Se a apreensão matemática demonstra, com isso, suas limitações, o resíduo que ela produz, por sua vez, é infinito. Na dupla determinação da realidade humana a que se refere Lefebvre, de um lado, o número indica a finitude da razão lógico-matemática; de outro, o drama indica o infinito que é residual a essa finitude, a impossibilidade da lógica matemática racionalizar tudo o que existe.
Se a matemática ilumina, como resíduo, o drama, a religião, se- gundo Lefebvre (1967: 376) deixa como resíduo irredutível a vida carnal; a estrutura e o estruturalismo designam como resíduos o tempo, a história e as particularidades específicas de cada instante; à linguagem musical re- siste o barulho; a técnica e a máquina produzem em sua porção residual o sexo e o desejo; no que se enfurece contra a liberdade, o Estado a gera como resíduo; a centralização estatal salienta nas especificidades regionais sua realidade residual; a burocracia acua em vão o que foge às condutas previsíveis, o singular, e, então, o funda como resíduo; a sociedade capi- talista tem como seu resíduo irredutível o proletariado; a arte tornada cul- tural deixa a criatividade em seu plano residual; a mimesis (isto é, a imita- ção, a representação) deixa escapar a poiesis; a filosofia não dá conta de absorver o cotidiano; a natureza subsiste como resíduo posto em evidência pela cultura. É, justamente, no potencial criativo do conjunto desses resí- duos que Lefebvre aposta, no “mal-estar e no descontentamento irredu- tíveis sob as satisfações parcelares: a cotidianidade, a juventude, a ‘desvi- vência’, o subdesenvolvimento, etc.” (LEFEBVRE, 1967: 375)
Cada sistema deixa um resíduo que lhe escapa, que lhe resiste, e de onde pode partir uma resistência efetiva (prá- tica). Em particular, a redução semântica, que procura fundar um sistema – o estruturalismo – retrocede. [...] A essência de cada tentativa de redução (ou, antes, o fato de que tem uma essência, porque tende a constituir um sistema específico, um “mundo”, uma “mundialização”: o Estado, a técnica, etc.) mostra que não se trata de uma transcendência. A diversidade dos resíduos e seu caráter residual só tem sentido nos e pelos
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sistemas que tentam reabsorvê-los. Os próprios símbolos, en- quanto resíduos irredutíveis à pura significação, procedem da physis (a “natureza”, esse resíduo posto em evidência pela cultura e pelo culturalismo) e não de uma hermenêutica. Ex- pressão e simbolismo fazem parte do campo semântico con- cebido ele próprio como parte da praxis (LEFEBVRE, 1967: 374).
Com a organização racional do tecido urbano, a cidade vê escapar em sua dimensão residual os espaços indecisos. A afirmação de Lefebvre a respeito da tentativa de reabsorção dos resíduos pelos sistemas dos quais eles decorrem mostra-se válida para o caso dos espaços residuais da cidade: frequentemente certas nesgas de terrenos ociosos são incorporadas a lotes maiores e recebem toda a sorte de empreendimentos imobiliários; cantei- ros baldios são pavimentados, desaparecendo entre a trama de passeios pú- blicos ou pavimentos carroçáveis; margens de córregos são capinadas e revestidas por camadas de concreto armado ou desaparecem por completo quando empreendido o tamponamento dos cursos d’água; glebas públicas são apropriadas pela iniciativa privada e loteadas em terrenos aproveitáveis; glebas privadas são desapropriadas pelo poder público e se tornam objeto de projetos de infraestruturas, equipamentos ou edifícios públicos.
Apesar de todas as tentativas de reabsorção pelo sistema – a cidade – dos resíduos que delas decorrem – os espaços irresolutos –, há sempre expressões, por ínfimas que sejam, da persistência da realidade residual subjacente ao meio urbano. Mesmo que se procure eliminar todas as so- bras de terrenos, que se incentive, de algum modo, a incorporação destas aos lotes contíguos, ainda assim haverá terrenos muito declivosos ou muito encharcados, entre outras razões, que serão impraticáveis a essa intencio-