Capítulo 3: Experiências do entendimento
3.4 A ideia do Ser perfeitíssimo
capacidade de ação que exige a natureza humana. Spinoza pensa em termos de superação de um limite de percepção, e não de simples teoria do conhecimento. Conhecer é ampliar um campo de visibilidade, e isso permite a quem experimenta tal ampliação traçar um plano de junção de forças no campo da vida em comum. No De Intellectus, tal plano faz parte de um projeto de pensamento que está associado à ação feliz (TIE 14).
Por isso, a análise dos limites dos modos iniciais de percepção não se restringe a uma crítica meramente formal sobre a sua insuficiência teórica. A operação por signos externos faz produzir enunciados já aceitos no campo das relações sociais. O problema é que essa operação prende-se ao limite dos valores de uma sociedade moderna, que visualiza quase sempre o gozo da aquisição em detrimento da ação exigida pelo entendimento. Para expressar sua força, o entendimento somente pode ser exercido como um processo contínuo, ou seja, um processo de elaboração das condições mesmas de expressividade exigidas por ele. Portanto, a ideia verdadeira que a mente exige no início de sua caminhada é a superação de um limite imaginativo e existencial. Nessa superação, o gozo da aquisição dos bens ordinários deve se tornar secundário em relação ao esforço para que outros possam experimentar a inteligibilidade da Natureza mediada pelo próprio entendimento.
afirmar as ideias perante outros. O movimento das ideias é inseparável das condições efetivas de acessibilidade a elas por outros. Pois a reforma é a experiência de um movimento que procurará se autoconstituir através das ideias derivadas do Ser perfeitíssimo – que é também o ponto de interseção entre as vidas singulares. Portanto, a reforma é um movimento unido à totalidade. Um movimento em que pensar e agir tornam-se indissociáveis.
A perspectiva do entendimento envolve desde já a ideia de que o real tem seus fios necessários. Há os fios imanentes ao processo do real. Não há nada fora do processo que possa ser causa do real. E o entendimento reflete os acontecimentos a partir desses fios. É uma ação própria ao que interessa o humano. Pois a imanência da reflexão é afirmada no plano de um movimento ético-cognitivo. Essa afirmação é a capacidade de compartilhar problemas a respeito das transições na existência e no pensamento. Trata-se de mostrar que os estilos de vida e as formas de pensar são modos de transições no real. Transições necessárias, uma vez que só é possível realizar o que nossa condição suporta, exige. Seja de um modo confuso ou adequado, estamos sempre no limite do que é compatível ao nosso ser. Não quebramos os fios da necessidade. É possível conhecer certos fios, e assim produzir passagens na própria existência.
A noção do que é necessário conhecer liga-se diretamente à nossa possibilidade de constituir um novo estilo de vida e uma percepção mais apurada do real. A possibilidade de um caminho se abre à medida que nasce uma transição compatível com a nossa potência. E a transição se faz como organização de uma perspectiva existencial adequada ao que nossa natureza exige internamente.
Uma parte das condições de realização de um pensamento autônomo nasce no interior da própria labuta com o pensamento. Com os instrumentos próprios, inicia-se uma passagem a uma perfeição maior, capaz de engendrar, no movimento, uma quantidade de força que retorna ao próprio movimento e o faz constituir relações compatíveis. A força nativa é um ponto de aglutinação de um conjunto de forças já existentes.214 Nesse ponto de aglutinação, decide-se agir segundo o afeto de uma transição em curso. É uma transição em que a experiência do pensamento é vivida como ação apropriada ao nosso ser – e como constituição de alianças.215
214 Bernard Rousset pensa que tal força nativa é tão somente uma potência eficiente que decorre de nós mesmos:
“une force (qui forge et se forge) qui vient de nous, non des choses extérieures, et qui va produire, à partir de la naissance et au cours du temps, des contenus et de nouveaux instruments”. Cf. op. cit., p. 212.
215 Podemos entender a transição como produção de ideias unida à alegria das alianças entre as forças que já operam transições.
É certo que o afeto de conhecer pode ser enfraquecido quando um objeto qualquer aparece como um fim que o transcende, tornando, assim, o pensamento um mero meio. O auge da sapiência216 é iniciado justamente através da prudência de não cair na armadilha de imaginar um objeto qualquer como finalidade do desejo. E, após isso, entender que a exigência do pensamento se dá como afirmação absoluta da união entre as forças modais que somos e a Natureza inteira. Tal afirmação se dará no De Intellectus como transição existencial, mediada pela ideia de um Ser que envolve três elementos: a) ser o ponto de interseção entre as ideias, b) afirmar um campo de relações imanentes, ou seja, de união entre as coisas; e c) ser critério de publicização das ideias.
A noção do Ser perfeitíssimo envolverá objetivamente esses três elementos. Ora, pensar um ponto de interseção entre as ideias é possível à medida que, em nós, já há um sentido de pertencimento ao conjunto das relações modais, que são evidenciadas através das relações mesmas que já experimentamos.217 Temos uma experiência da vida em comum, uma vez que existir é saber-se no espaço de relações onde certos bens são valorados e compartilhados, sendo tais valorações e compartilhamentos uma forma de perceber o sentido em comum dos bens.
Perceber a interseção entre as partes é algo que experimentamos. Por isso mesmo, torna-se possível ao entendimento conceber uma noção que envolve a ideia de totalidade. O problema é que a ideia de ponto de interseção pode ser corrompida, uma vez que certos bens da vida ordinária são vistos como finalidades do desejo. Porém sabemos que o próprio entendimento exige uma percepção que abole esses bens como fins. Pois, segundo a perspectiva do entendimento, o desejo empreende um caminho em que a ideia de interseção constitui-se como auto-organização de um todo que pode não se submeter à ânsia de querer certos objetos como fins.218 Portanto, constituir a ideia sobre o que pode ser um verdadeiro ponto de interseção é pensar o Ser perfeitíssimo como gênese de um movimento que não visa a um fim fora do movimento mesmo. Na verdade, Spinoza deslocará, no De Intellectus, a forma de pensar que vê nos bens perecíveis o móvel da ação. Para ele, há um plano de interseção onde tudo acontece segundo as normas imanentes ao plano, e não segundo um fim que separa o desejo de seu movimento imanente. Por isso, conceber uma ideia que expressa o nexo entre todas as ideias, que poderão ser descobertas e compartilhadas é uma perspectiva
216 TIE 31: sapientiae culmen.
217 A intuição de que estamos ligados a um conjunto de relações que nos ultrapassa, e é condição de nossa existência, acontece como percepção de que as partes estão unidas ao todo.
218 Laurent Bove pensa tal processo como “désir en acte d´auto-organisation”. Cf. Spinoza. Philosophe de l´amour, Publications de l´Université de Saint-Étienne, 2005, p. 146.
que abole a noção de fim. Uma noção equívoca, produzida através de crenças inadequadas em certos bens.
Assim, a primeira condição para afirmar a ideia do Ser perfeitíssimo (ideae Entis perfectissimi) encontra-se na evidência de um pertencimento ao conjunto das relações que forma um todo em si mesmo. Por isso, afirmar um eu pré-existente às relações é manter uma linha de pensamento em que se reforça um sentido de separabilidade da mente em relação ao todo. O puro eu, como condição do pensamento, forja uma cisão entre as condições reais e o próprio pensamento. Spinoza evita desde cedo essa cisão. Ao invés de iniciarmos a trajetória do pensamento a partir de uma entidade formal pré-existente, seja a alma e (ou) um Deus transcendente, começamos através da percepção de que há uma união entre a mente e a Natureza, pois há uma relação indissociável entre as partes e o todo. É sempre a partir de uma relação imanente que é possível formar uma ideia verdadeira qualquer. Transitamos de uma existência real, em que a imaginação recolhe efeitos de realidades, até ao campo das noções que serão úteis à própria existência. O problema é que a transição não deixa de ser obstruída por certas formas de imaginação. Uma dessas formas é o finalismo. A outra é exatamente a ideia do eu como entidade pré-existente ao conjunto das relações onde a existência humana é de fato experimentada.
O que precede qualquer existência não é algo da ordem da substância individual, e sim um campo de relações onde a existência individual se efetiva. É a ordem das interseções que garante os movimentos de uma vida, assim como garante a possibilidade de se exprimir como força em transição ativa. Com Spinoza, livramo-nos de imaginar a existência humana em termos de eu, ou seja, de individualidade abstrata. É a partir de um todo onde as partes são constituídas que podemos formular a percepção de uma realidade singular. O fato é que toda realidade singular somente se individua no interior de um todo onde há forças em relações umas com as outras, e não a partir de uma substância individual que transcenderia as relações mesmas. Spinoza organiza a possibilidade de pensar a singularidade da existência humana a
partir da perspectiva dos encontros entre as forças presentes no conjunto das relações vividas.
A noção do Ser perfeitíssimo como o ponto de interseção entre as ideias é idêntica à noção de ente absoluto como origem e fonte de tudo219, pois, esse ente não é evidente senão
219 TIE 42: [...] originem et fontem totius Naturae [...]. Gilles Deleuze interpreta a relação entre o Ser perfeitíssimo e as ideias a partir da capacidade que têm as ideias de reproduzir “automaticamente” o encadeamento das coisas na natureza: “A partir de l´idée de Dieu, la production des idées est en elle-même une reproduction des choses de la nature; l´enchaînement des idées n´a pas à copier l´enchaînement des choses, il reproduit automatiquement cet enchaînement, dans la mesure où les idées sont produites, elles-mêmes et pour leur compte, à partir de l´idée de Dieu”. Cf. Gilles Deleuze, Spinoza et le problème de l´expression , Paris:
Minuit, 1968, p. 124.
através das ideias dos acontecimentos que ocorrem e jamais se separam no interior do absoluto. Trata-se de pensar os fios das relações atados uns aos outros, de modo que o sentido de união esteja preservado de qualquer ingerência imaginativa, que queira impor uma superioridade da mente em relação às coisas, ou de um Deus transcendente em relação aos acontecimentos. Trata-se, ainda, de evitar que as faculdades humanas possam ser imaginadas como fechadas sobre si mesmas, ou seja, fora das relações onde elas de fato se efetivam. O Ser absoluto é o lugar onde todos os encontros são e podem ser reais. Podemos pensar esse Ser como os próprios acontecimentos ligados através de um núcleo comum220, capaz de formar as singularidades de cada acontecimento. Logo, o que entra em jogo é sempre a ideia de uma interseção entre o que ocorre e o fio de ligação entre os elementos presentes no ocorrido.
A ideia do Ser perfeitíssimo é a afirmação mesma de um campo de relações que forma o todo da Natureza. Ora, à medida que Spinoza faz dessa ideia a condição de seu método, de seu pensamento mesmo, ele começa abrir a perspectiva de que há uma possibilidade de compartilhar as ideias pelo fato mesmo de que as coisas se relacionam umas com as outras dentro de um processo contínuo de reciprocidade e produção. Então, o dinamismo que envolve a noção do Ser perfeitíssimo se estabelece, uma vez que, sendo ela o próprio campo de relações, cabe ao pensamento descobrir os elementos de contato entre as ideias que irão formar o nosso modo de percepção no real.
Ora, pensar em termos de ponto interseção é afirmar que há, entre as ideias, um plano comum, ao qual elas pertencem, e podem ser compartilhadas. E mesmo as percepções separadas do movimento real da Natureza, por exemplo, as ficções, se explicada a sua constituição, perceberemos que, nas suas produções, há uma debilidade imaginativa ao confundir e misturar certas propriedades das coisas que, de fato, não se misturam.
Ter a ideia do Ser perfeitíssimo como plano onde todas as derivações são possíveis é estabelecer um todo de conexões em que os movimentos das ideias podem ser distinguidos em termos de aproximações fracas e fortes. As primeiras estariam sempre ligadas a uma forma de abstração que separa o entendimento do movimento da própria Natureza, e as segundas fariam-nos entrar no movimento contínuo de descobertas de ideias capazes de nos lançar num trabalho de aperfeiçoamento da percepção e do ato de compartilhá-las. Logo, não se trata apenas de distinguir a ficção segundo um critério formal, mas, ao lado da formalidade,
220TIE 110: jam aliquid commune statuendum est, ex quo hae proprietates necessario sequantur / “deve-se estabelecer alguma coisa comum, da qual se sigam necessariamente estas propriedades ”.
estabelecer um critério em que todas as ideias podem ser apreciadas segundo um critério de uso, isto é, um critério ético-cognitivo.
Quanto mais as relações de que somos constituídos ajudam a prolongar em nós um afeto de inteireza, ou seja, de pertencimento a um todo humano, mais somos aptos a transitar e perceber as aproximações fortes entre as ideias. A noção inicial do Ser perfeitíssimo é a visão primordial que possibilitará a derivação de todas as aproximações entre as ideias. E a força das relações entre as ideias se dará à medida que o ponto de contato entre seus elementos forma um todo consistente, verdadeiro. Ora, ao mesmo tempo em que o processo constitutivo das ideias a partir do Ser perfeitíssimo se abre ao entendimento, abre-se também a possibilidade de constituir relações existenciais mais fortes. O plano de imanência das ideias é, efetivamente, celebração do comum.