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A identidade é algo que nos define

No documento Centro Universitário de Brasília (páginas 116-121)

5. Resultados e Discussão

5.2 Questões de identidade

5.2.1 A identidade é algo que nos define

Alguns comentários dos/as participantes defendem a ideia de que todos/as têm a necessidade de “encontrar sua própria identidade”, de “descobrir quem é de verdade”. Nessa busca, é importante encontrar espaços onde sua identidade é respeitada, valorizada. Onde cada pessoa possa falar abertamente e com segurança sobre o que pensa, o que sente, o que acha sobre alguma coisa.

Não sei o que falar mais sobre mim. Acho que eu vou me descobrir mais, assim, ao longo dessa pesquisa. (Alice).

A questão é você encontrar a identidade, encontrar a identidade. Não ficar, por exemplo mudando de opinião, como ela disse. Você chegar ao ponto em que você vai se encontrar e aí você não muda. (Alice)

Tipo, o psicólogo nem a escola vai dizer “ah, você é isso”, mas pode ajudar ela, pode mostrar o caminho por onde você pode ir pra formar sua identidade

e mostrar como você é. Às vezes a família não ajuda. (Cláudio)

Muitos também não se aceitam, desconhecem também, não sabem... e elas têm que ter a oportunidade de saber o que é. Com o que elas se identificam pra que elas se sintam à vontade com isso também né? (Erica)

O conceito de identidade tem se alterado, desde a modernidade tardia, de uma concepção de essência imutável que se mantém a mesma ao longo do tempo, para uma ideia de impermanência, fluidez, contradição e descontinuidade (Hall, 2009). Entretanto, não é incomum perceber nos discursos cotidianos essa ideia que aparece nas falas dos/as participantes de que há algo dentro de cada um/a de nós que nos define e nos identifica e que, muitas vezes, se encontra escondido, disfarçado, exigindo de cada um esforço para descobrir-se, compreender-se e aceitar-se.

O psicólogo ajudaria muito uma pessoa a poder criar a sua identidade, o seu caráter, no meio social, mais concreto. Porque muitas vezes a gente pensa assim ah, nossa identidade é criada a partir do momento que a gente entra num grupinho aqui e, segundo as convivências, muitas vezes boas conversações, ou más conversações nos transformam. E não é isso. A gente tem que ter uma identidade concreta. É aquilo ali e pronto. Onde eu estiver vai ser aquilo ali. Se eu estou na escola, é aquilo ali. Se eu estou no trabalho, é aquilo ali. Não muda. É a minha identidade, entendeu? É que nem o documento RG. Tá lá, não muda. (Alice)

Vocês acham que o psicólogo iria ajudar a pessoa a encontrar a identidade? Não é a pessoa mesmo que tem que se encontrar ou então o meio que ela vive? (Silvia)

Nas falas dos/as adolescentes, percebe-se a crença de que no interior de cada um/a de nós existe uma essência que nos identifica e que é nossa tarefa trabalhar para descobri-la, valorizá-la, defendê-la de ataques externos e mesmo de reinventá-la e atualizá-reinventá-la de acordo com as exigências que nos chegam a todo o momento (Bauman, 2004, 2005; Rose, 2011). Alguns/as participantes chegam a defender a ideia de que o/a psicólogo/a na escola pode ajudar os/as alunos nessa busca. É uma compreensão que muito se aproxima das considerações de Rose (2011). No trecho a seguir, o autor defende que o atual regime de self que regula as vidas dos sujeitos, seus relacionamentos com os outros e consigo mesmo, tem forte ligação com a ideia de psicologização desses sujeitos.

Foi nessas sociedades [ocidentais, modernas] que a Psicologia nasceu como uma disciplina científica, como um conhecimento positivo do indivíduo e como uma maneira particular de dizer a verdade sobre os humanos e de agir sobre eles. Além disso, ou ao menos assim parece, nessas sociedades os humanos passaram a entender a si mesmos e a se relacionarem consigo mesmos como seres “psicológicos” – passaram a narrar e a interrogar a si mesmos, em termos de uma “vida psicológica interior” que guarda os segredos de sua identidade, a qual eles devem descobrir e realizar, este que é o padrão segundo o qual se deve julgar uma vida autêntica (Rose, 2009, p. 39).

As análises realizadas por esse autor nos ajudam a refletir sobre o papel da psicologia na criação e na reprodução de certos modelos de identidade que reforçam o entendimento de que os humanos são seres integrados, coerentes e regidos por uma essência que deve ser descoberta e compreendida se quiserem viver em equilíbrio e harmonia. Essa concepção de ser humano comporta um conjunto de práticas que estão disponíveis para os/as interessados/as em se descobrirem e trabalharem para sua auto realização. De forma mais específica:

As disciplinas psi se disseminaram rapidamente através de sua pronta tradutibilidade para programas de reforma dos mecanismos de autodireção dos indivíduos, seja na clínica, na sala de aula, no consultório, na coluna de aconselhamento das revistas ou nos programas confessionais de televisão. É claramente verdade que as disciplinas psi não gozam de um respeito público particularmente alto, e que seus praticantes são frequentemente alvos de pilhéria. Mas não devemos nos deixar enganar por isso – acabou por tornar-se impossível conceber a subjetividade, experienciar a subjetividade própria ou de outrem, ou governar a si ou a outros sem as disciplinas psi (Rose, 2009, p. 56).

Qual o problema com essa ideia de que existe uma essência que nos define e à qual podemos dirigir para sermos felizes? Entre outras implicações, essa concepção de sujeito ignora que somos seres imersos em contextos culturais que canalizam nossas experiências nesse mundo e que constrangem nossas possibilidades de identificação numa ou em outra direção (Bruner, 1996; Geertz, 1989; Madureira & Branco, 2015; Valsiner, 2012). Por trás dessa concepção também reside outro

problema: impõe aos sujeitos a obrigação de atuarem no controle de suas subjetividades em busca da felicidade que “merecem” e essa obrigação pode ser causadora de muita angústia e frustração (Bauman, 2005; Rose, 2011). Além do mais, como afirma Bauman (2005), nem todos têm acesso às oportunidades de fazer uso dessas ferramentas que lhes prometem sucesso na busca por sua individualidade, uma vez que esses recursos, muitas vezes, não estão disponíveis para quem não tem dinheiro para custeá-los.

A psicologia pode trabalhar numa direção diferente? Certamente que sim. Pode atuar partindo de uma compreensão de que a construção dos sujeitos é um fenômeno dinâmico fortemente marcado pela cultura e que conta com a participação ativa dos sujeitos que resignificam, a todo momento, as mensagens culturais a que estão sujeitos (Madureira & Branco, 2015; Valsiner, 2012). Considerando que os sujeitos não são o que são em razão de alguma “essência” que habita os seus interiores, mas que, imersos em contextos culturais que canalizam seus modos de ser, podem assumir diferentes identidades e se transformarem continuamente.

No ambiente escolar, os/as psicólogos/as podem trabalhar não no sentido de curar ou de controlar os sujeitos, mas na direção de promover que as diferentes vozes que compõem a escola possam se sentir seguras para se expressarem e que sejam efetivamente respeitadas (Madureira, 2013). Nesse sentido, Rose (2011) também defende que a psicologia pode trabalhar numa direção diferente, menos individualizante e mais ocupada em contribuir para que os diferentes sujeitos possam viver em coletividade.

governo que produz pessoas da forma como sonha. Pelo contrário, eles vivem suas vidas num movimento constante, que atravessa diferentes práticas, as quais os subjetivam de maneiras diferentes. Dentro dessas diferentes práticas, as pessoas são tratadas e entendidas como seres humanos de diferentes tipos. As técnicas que permitem a alguém relacionar-se consigo mesmo enquanto um sujeito dotado de capacidades únicas, merecedoras de respeito, vão de encontro a práticas de relação consigo mesmo enquanto um alvo da disciplina, do dever e da docilidade (Rose, 2011, pp. 57 e 58).

No documento Centro Universitário de Brasília (páginas 116-121)