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1. Imagens, identidade e ‘turistificação’ do território

1.2. A identidade e a autenticidade dos lugares

Em 1983, Yi Fu Tuan destacava uma característica presente na relação entre as pessoas e os lugares: a construção de significados e sentidos impulsionam a transformação dos espaços e dos lugares.

Com efeito, a experiência pessoal (a relação pessoal de experienciar os lugares e os espaços) constitui um elemento insubstituível do processo de apropriação e significação dos lugares (Ponte, Bonfim e Pascual, 2009). De acordo com estas ideias, é importante perceber desde logo que as pessoas são seres activos e têm um papel essencial no processo de apropriação dos lugares, bem como, da atribuição de diversos significados e esses lugares.

Esse envolvimento e a atribuição de inúmeros significados aos lugares levam a que

Proshansky et al. (1983, apud Hauge, 2007) tenha considerado que a identidade de um lugar

(‘place-identity’) corresponde a uma subestrutura da identidade pessoal (‘self-identity’), assemelhando-se por exemplo, ao género e à classe social. É portanto, uma identidade composta por percepções e compreensões relativas ao ambiente. Por outro lado, as concepções

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e as percepções vinculadas a tais lugares podem ser organizadas em dois grupos distintos. O primeiro diz respeito, a memórias, a pensamentos e a valores, enquanto que o segundo se refere às relações com diversos ambientes/cenários, como por exemplo a casa, a escola, o bairro, entre outros (Hauge, 2007). Isso significa, que a identidade de um lugar pode construir-se a partir do que resulta do contacto do indivíduo com o lugar.

Também Relph (1976, apud Marandola, 2010) identificou três componentes essenciais do envolvimento das pessoas com os lugares: a configuração física, as actividades e os significados. Por outro lado, ele defende que a essência da experiência dos lugares assenta em dois conceitos-chave, o de interioridade (‘insideness’) e o de exterioridade (‘outsideness’); ‘estar dentro de um lugar’ significa que pertencemos a esse lugar e que nos identificamos com ele, e quanto ‘mais dentro’ estivermos desse lugar, maior será a identidade e identificação com o lugar (Marandola, 2010).

A identidade de um lugar pode portanto, ser compreendida como uma construção pessoal, na qual as experiências directas com o ambiente físico se modificam. Em última instância, tais experiências são transformadas pelos processos cognitivos, alguns dos quais falamos anteriormente (Ponte, Bonfim e Pascual, 2009).

Noutra perspectiva, a de Duarte e Lima (2005), a identidade associada ao lugar diz respeito à relação que se estabelece entre o indivíduo e o lugar, referindo-se também às consequências dessa relação na “definição subjectiva da identidade pessoal” (Duarte e Lima, 2005: 2). Outras abordagens referidas pelas mesmas autoras referem que a estrutura da identidade é caracterizada por uma dimensão de conteúdo e por uma dimensão avaliativa. A primeira “consiste nas características que o indivíduo considera que o descrevem e que no seu conjunto, o tornam uma pessoa única” (Duarte e Lima, 2005: 4). Por sua vez, a dimensão avaliativa, relaciona-se com o facto de cada elemento de conteúdo ter associado a si um valor/afecto positivo ou negativo.

De um modo geral, o conceito de identidade e os elementos identitários através dos quais sustentamos e construímos determinada identidade são orientados em grande medida, por quatro princípios básicos. Esses princípios são, o da distintividade, o da continuidade, o da auto-estima e o da auto-eficácia (Duarte e Lima, 2005). O primeiro refere-se ao desejo de manter uma singularidade pessoal, ou no que concerne à identidade associada ao lugar, coincide com a percepção de aspectos únicos do lugar, que permitem distingui-lo de outras. Disso são exemplo, as características arquitectónicas e ambientais, os serviços, o estilo de vida, ou as

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particularidades dos habitantes. O princípio da continuidade, é o “ (…) desejo de manter a continuidade ao longo do tempo e situação, ou, de outra forma, entre o (s) autoconceito (s) anterior (es) e o autoconceito actual” (Duarte e Lima, 2005: 4). O realojamento de uma comunidade é um bom exemplo, já que a alteração do contexto ambiental irá provocar

mudanças nas características da identidade. Já o da auto-estima,“refere-se à avaliação positiva

do self ou do grupo de pertença, estando relacionado com o sentimento de valor que é atribuído ao mesmo (…) ” (Duarte e Lima, 2005: 4). Assim, de acordo com algumas abordagens sobre a noção de identidade, identifica-se um padrão no qual as pessoas carregam uma carga histórica muito grande, sentem orgulho por associação a algo. O último princípio, o da auto-eficácia tem que ver com o grau e a forma como o ambiente satisfaz as necessidades do indivíduo e por isso vai de corresponde ou supera as suas expectativas pessoais.

Ainda sobre a identidade associada ao lugar, destaca-se a perspectiva de Gustafson (2001) que reflecte a importância da relação do indivíduo com o lugar. Nessa abordagem são três os pólos que influenciam e determinam os significados atribuídos a determinados lugares:

Eu3, Outros4 e Ambiente5. Por sua vez, entre estes pólos podem emergir outro tipo de

significados, como é o caso daqueles que têm por base o conhecimento formal e informal do indivíduo sobre o lugar.

Esta relação entre a identidade e o lugar tem também uma grande importância quando relacionada com o turismo. Nessa concepção, a identidade de um lugar pode desempenhar duas funções essenciais, ainda que distintas. Por um lado, tem a capacidade de proporcionar por exemplo, o fortalecimento de uma coesão a um nível interno, como é o caso de uma coesão subjacente a uma identidade nacional. E ao nível externo, permite uma abertura ao mercado do turismo. É nessa ligação e nessa dependência que a identidade associada aos lugares é inevitavelmente sustentada por uma ideia de autenticidade.

Importa por fim perceber que não existem identidades fixas, mas antes processos de identificação; a identidade é por isso móvel e forma-se enquanto se transforma de acordo com os diferentes condicionantes biológicos, geográficos e históricos, como acontece a título de exemplo, com a memória colectiva (Barretto, 2007).

3 Estes significados derivam de memórias e experiências pessoais (Gustafson, 2001).

4 Significados que advêm das características, traços e comportamentos identificados nos habitantes, baseados várias vezes em estereótipos

(Gustafson, 2001).

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Com efeito, a relação entre a identidade e a autenticidade tem-se acentuado ao longo das décadas, sobretudo quanto maior a importância atribuída ao turismo, no que diz respeito ao desenvolvimento dos territórios. Esta relação é também reforçada através da análise semântica dos conceitos, uma vez que o termo autenticidade significa “qualidade do que é autêntico; identidade; veracidade” (Costa e Melo, 1995: 214).

Outras definições como as de De Kadt (1992, apud Dewailly, 1998), que se refere ao conceito como um dos principais elementos da experiência do visitante, podem destacar-se aqui. Porém, a questão do autêntico quando relacionada com o turismo, não se aplica exclusivamente ao turista pois todos os consumidores de património, incluindo a população local por exemplo, têm percepções diferentes daquilo que define e constitui a autenticidade.

Para Dewailly (1998) tem-se assistido ao reforço das “banalidades do turismo”. Isso significa que enquanto a diferenciação dos produtos regionais tem vindo a aumentar gradualmente, a identidade local cede a pressões externas da indústria turística, vendo-se forçada a adoptar uma identidade homogénea. Também Figueiredo (2012) refere que apesar das especificidades históricas e culturais dos países e dos territórios, e também o lugar que a ruralidade foi adquirindo em diversos contextos (sinais de uma determinada diversidade de representações e consumos do rural), a crescente ‘turistificação’ destes territórios tem levado à adopção de imagens e valores sociais globalizados e hegemónicos acerca do mesmo.

Assim, se para a comunidade local questões como as relacionadas com a memória, o apego/ligação e a simbólica do lugar são de vital importância - aqui a autenticidade detém um papel imprescindível porque acentua a relação com significado; para os visitantes aquilo que contrasta com o familiar, ou seja, o exótico e o sentido pitoresco da sua experiência e exploração, é mais relevante (Dewailly, 1998). Por outras palavras e analisando a importância do património, esse passou a ser encarado como uma “garantia de identidade” (Barretto, 2007: 98), tanto para os turistas como para a população local, já que os primeiros procuram contactar com aquilo que é diferente e os segundos tendem a querer diferenciar-se.

A questão do autêntico, é portanto bastante questionável e já Urry (2002) referia que os turistas têm consciência da ‘encenação’ da autenticidade. Apesar disso, para o turista parece não ser muito relevante ter conhecimento de que se trata muitas vezes de encenações e recriações, desde que essas sejam de qualidade e se adquiram os benefícios pretendidos com a viagem.

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Reforçando por fim a complexidade existente na relação entre a identidade e a autenticidade no que reporta a questões relacionadas com o turismo, importa perceber que se por um lado o turismo tem sido aplicado segundo a promessa de desenvolvimento de territórios, especialmente aqueles que não têm conseguido ‘acompanhar’ outros, por outro lado, essa ‘turistificaçao’ exige que se mantenham traços identitários e tradicionais para consumo dos turistas.