ÍNDIOS NÃO-ALDEADOS: UM CONVITE À REFLEXÃO SOBRE AS ARTICULAÇÕES ENTRE IDENTIDADE E TRABALHO
2 UM CONVITE À REFLEXÃO SOBRE AS POPULAÇÕES INDÍGENAS NÃO- NÃO-ALDEADAS
2.1 A identidade indígena: questionamentos e equívocos
Conforme indica Cantelmo (2000), o ímpeto de se deslocar marca a história humana. Seja em busca de melhores condições de vida, fugindo de riscos naturais ou políticos, buscando resguardar práticas culturais ou religiosas ou ainda pela aspiração tanto de conhecer o novo como se auto-conhecer, os seres humanos sempre buscaram dirigir-se a outros espaços físicos.
A trajetória brasileira, por exemplo, é marcada por extensos movimentos migratórios. O deslocamento populacional se fez presente a partir do nordeste no período compreendido entre as décadas de 1950 e 1980 e foi o responsável pelo abastecimento de uma mão-de-obra essencial ao processo de industrialização que então ocorria no sudeste do país. E, contemporaneamente, o Brasil recebe em seu território outros povos que, sob a condição de refugiados, procuram fugir de condições que colocam suas vidas e suas integridades em risco5.
A busca pelas cidades apresenta, no contexto dos povos indígenas, a marca do anseio por melhorias. Mas ela também fornece um testemunho quanto à precariedade de condições de vida que marcam seu cotidiano e a atratividade exercida pelos meios urbanos. Como apontam Teixeira, Mainbourg e Brasil (2009):
Com o tempo, as transformações que ocorriam no país passaram a ter reflexos no cotidiano da população indígena. Grande parte dela, ou por não ter legalizada a terra em que vivia, não possuir meios de nela sobreviver, não desfrutar condignamente de serviços sociais básicos, ou simplesmente ser atraída pela vida urbana (especialmente os jovens), acabou por migrar para as cidades (TEIXEIRA;
MAINBOURG; BRASIL, 2009, p. 535).
Além disso, o deslocamento tem como pano de fundo o processo geral de urbanização e é influenciado pelo progresso tecnológico e pela expansão dos meios de transporte:
Os condicionantes da migração indígena em direção às cidades têm como aliados importantes o progresso e a universalização dos meios de comunicação de massa, bem como as facilidades crescentes de locomoção na área indígena e, dela, em direção à cidade, considerada, cada vez mais, como referência para a satisfação de necessidades antigas e novas (TEIXEIRA; MAINBOURG; BRASIL, 2009, p. 535).
A ida para a cidade, seja esta escolha feita de modo autônomo, seja em função de premências sociais, suscita questionamentos frequentes sobre a identidade indígena, como apontado no depoimento de Paulo Wassu Cocal, cacique da etnia Wassu Cocal:
5 Os deslocamentos de grandes grupos populacionais levantam controvérsias e desafios. É freqüente a estigmatização e discriminação do migrante. No caso dos refugiados, em especial, ao envolverem grupos étnicos originários de outros países, também a xenofobia e a violência podem ser identificados em diferentes contextos.
A questão do índio em contexto urbano é a seguinte, a gente tem essa dificuldade e os órgãos públicos falam assim: “o senhor é de onde?”, “eu sou do estado de Alagoas”, “e a sua aldeia se localiza lá?”, “sim, se localiza lá”, “que é que o senhor está fazendo aqui?” Isso é pesado. Isso é duro, gente. [...] se eu responder assim: “O que é que está fazendo um japonês aqui no Brasil? O que é que está fazendo um coreano? [...] E aí? O que é que o índio está fazendo na cidade? Ele também está buscando a melhora, ele também está buscando o que é melhor para a vida dele, para o povo dele (COCAL, 2016, p. 91).
Em concordância com Dubar (2005, p. 136), considera-se que identidade é “o resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições.” E Castells (2000, p. 22) acrescenta: a identidade decorre da “construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais interrelacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras fontes de significado”.
A presença de povos indígenas no meio urbano traz para o centro do debate a reflexão sobre que elementos garantiriam a identificação de um grupo humano como indígena.
Para Cunha (2012):
Comunidades indígenas são, pois, aquelas que, tendo uma continuidade histórica com sociedades pré-colombianas, se consideram distintas da sociedade nacional. É índio quem pertence a uma dessas comunidades indígenas e é por elas reconhecido (CUNHA, 2012, p. 103).
A autoidentificação e o reconhecimento grupal são, contudo, confrontados cotidianamente com estereótipos associados aos índios. Tais representações envolvem segundo Araújo, Carvalho e Carelli (2010) quatro equívocos que questionam reiteradamente a identidade destes povos.
O primeiro equívoco refere-se à consideração dos diferentes grupos étnicos como um bloco homogêneo, que compartilharia as mesmas características culturais. Esta representação anula diferenças e especificidades, tomando os mais diversos modos de vida como equivalentes.
Haveria, sob este ponto de vista, um modelo único de ser índio. Línguas distintas, cosmologias, religiões, hábitos e costumes plurais são, sob este ponto de vista, menosprezados em suas diversidades.
O segundo equívoco é a consideração de que as culturas indígenas seriam atrasadas ou primitivas. A negação dos saberes produzidos pelos grupos originários subestima suas
contribuições e, mais do que isso, tende a evocar a assimilação à cultura dos brancos como caminho desejável.
O terceiro equívoco refere-se a uma espécie de congelamento da imagem dos povos originários. Como apontam Araújo, Carvalho e Carelli (2010), disseminou-se uma representação segundo a qual um índio deve estar:
[...] nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi descrito por Pero Vaz de Caminha. E essa imagem foi congelada. Qualquer mudança nela provoca estranhamento. Quando o índio não se enquadra nessa imagem, vem logo a reação: “Ah, este aí não é mais índio, já está civilizado” (ARAÚJO; CARVALHO;
CARELLI, 2010, p. 24)
Para os autores, todos os povos mantêm contato com outros povos:
Às vezes, essas formas de contato são conflituosas, violentas. Às vezes, são cooperativas, se estabelece o diálogo, a troca. Em qualquer caso, os povos se influenciam mutuamente. O conceito que nos permite pensar e entender esse processo é o conceito de interculturalidade. E o que é a interculturalidade? É justamente o resultado da relação entre culturas, da troca que se dá entre elas. Tudo aquilo que o homem produz em qualquer cultura e em qualquer parte do mundo – no campo da arte, da técnica, da ciência – tudo o que ele produz de belo merece ser usufruído por outro homem de qualquer outra parte do planeta (ARAÚJO;
CARVALHO; CARELLI, 2010, p. 25)
Contudo, lembram os autores, as trocas que envolveram historicamente os povos indígenas e os brancos foram marcadas por grande assimetria de poder. Deste modo, aos povos originários não foi permitido escolher de forma autônoma que trocas e apropriações eles gostariam de realizar. Ao contrário, a história de aproximação com os brancos tem tido como marca violências também de ordem simbólica. Não obstante tal constatação, Araújo, Carvalho e Carelli (2010) indicam que não se pode supor uma pureza cultural. Todas as culturas realizam permutas e os povos indígenas ao se apropriarem de bens de outros grupos podem resignificá-los: “A interculturalidade é uma construção conjunta de novos significados, onde novas realidades são construídas, sem que isso implique abandono das próprias tradições”
(ARAÚJO; CARVALHO; CARELLI, 2010, p. 27)
Já o quarto e último equívoco refere-se à consideração de que os índios pertencem ao passado, representando uma espécie de antítese do progresso. Eles deveriam ser civilizados, pois tudo o que traziam consigo seria anacrônico ou oposto ao desenvolvimento.
Estes quatro equívocos guardam entre si muitos pontos de aproximação. O estranhamento em relação aos índios não-aldeados apóia-se, muitas vezes, nestas representações que negam, menosprezam e diluem as identidades culturais destes grupos. Sob a égide de tais estereótipos,
a presença nas cidades de populações indígenas eriça a desconfiança sobre o quão genuínos estes indivíduos seriam. Ser ou não ser índio, passa a ser então um tema passível de avaliação segundo critérios que enfocariam o quanto estas pessoas estão distantes da natureza e/ou ostentam signos e valores brancos. A presença no contexto urbano é, então, uma condição que suscita o enfrentamento de preconceitos e estranhamentos. E o questionamento desta identidade também traz reverberações associadas ao tema do trabalho.
3 ALGUMAS PALAVRAS FINAIS: OS POVOS INDÍGENAS, O TRABALHO E