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Os aspectos tratados até o presente ponto demonstram como se deu o processo histórico e social da mulher nordestina em suas particularidades e lutas contra estigmatizações sociais e enfrentamento de dificuldades específicas, que as fazem ser vítimas de preconceito e discriminação.

74 BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. 2006.

Algumas particularidades históricas e sociais ocorridas no Nordeste brasileiro serviram como base para a criação de estigmas e estereótipos relacionados aos nordestinos. Desse modo, a identidade nordestina foi construída historicamente tanto por práticas culturais específicas relacionadas, principalmente, à necessidade de adaptação a dificuldades climáticas, particularidades linguísticas na fala do português, crenças e religião, quanto por um aspecto subjetivo de solidariedade, diante das dificuldades geradas pela localização geográfica alvo de repetidas secas, que foram empecilhos ao desenvolvimento econômico, da prática de acentuada de clientelismo e do coronelismo, que contribuíram para a criação de um estigma que relaciona as pessoas nordestinas à preguiça, à falta de disposição para o trabalho e mesmo de capacidade para uma ascensão social ou financeira.

Há de se destacar, ainda, como influenciadoras do estigma em relação ao Nordeste, as condições desiguais de infraestrutura, especialmente nas zonas semiáridas que sofrem com as secas, quando se compara com outras regiões do Brasil, principalmente Sul e Sudeste, o que será abordado com maior verticalidade a seguir.

Considerando a cultura como elemento dinâmico que se desenvolve constantemente, tanto sob a influência de fatores positivos, quanto pela influência de valores negativos75, impera

mencionar como fatores de grande influência para a construção da identidade cultural nordestina: o clientelismo e o coronelismo, fenômenos políticos relacionados ao domínio de poder no século XIX brasileiro.

O clientelismo76 consiste na prática de concessão de proteção e favores em troca de

lealdade política e pessoal, mecanismo do qual dependia a vitória eleitoral na Primeira República do Brasil77. Essa troca de favores facilitava a rotina de pessoas ligadas aos políticos que, quando conseguiam vencer as eleições, concediam-lhes regalias e favoritismos, deixando os eleitores da oposição em desvantagem.

75 BAQUERO, Marcello. Construindo uma outra sociedade: o capital social na estruturação de uma cultura política

participativa no Brasil. Revista Sociologia e Política, Curitiba, n. 21, nov. 2003. p. 90.

76 Frise-se que o clientelismo não é exclusividade do Brasil. Carvalho assevera seu reconhecimento na literatura

internacional, na qual possui uma noção geral de que “implica troca entre atores de poder desigual. No caso do clientelismo político, […] o Estado é a parte mais poderosa. É ele quem distribui benefícios públicos em troca de votos ou qualquer outro tipo de apoio que necessite”. (CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. In: CARVALHO, J. M. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p. 240).

77 PASE, H. L.; MÜLLER, M.; MORAIS, J. A. O clientelismo nos pequenos municípios brasileiros. InPensamento

Plural. Pelotas: 1181-199 janeiro – junho 2012. Disponível em: http://pensamentoplural.ufpel.edu.br/edicoes/10/08.pdf. Acesso em dezembro 2017.

Esse mecanismo era acionado através da figura do “coronel”, mandão local que, por possuir prestígio junto a governantes e estruturas econômicas, possuía instrumentos para suprir as demandas dos eleitores. Esta figura surge na Primeira República, como representante do poderio e influência econômica, numa tentativa de manter a ordem patriarcal diante das mudanças em curso.

O sistema funcionava da seguinte forma: o trabalhador rural recebia ajuda e proteção do coronel mediante voto daquele no candidato a cargo político indicado por este. Para Leal78, o coronelismo constitui uma adaptação através da qual resíduos do poder privado coexistem com um regime de governo representativo.

O coronelismo perdeu força nos anos 1960, quando o governo populista ampliou o poder de voto aos analfabetos e com a organização da população rural em sindicatos e sua educação para a cidadania. Aos poucos, uma tomada de consciência foi tomando forma79.Todavia, tais fenômenos influenciaram fortemente a vida social no Nordeste brasileiro, de modo que perduram resquícios de suas práticas até os dias atuais, como se estivessem arraigados na cultura da Região.

O clientelismo dominante no modelo de relações no Nordeste estava acompanhado, ainda, por um traço característico da cultura ibérica e seus frutos coloniais no Novo Mundo: o desprezo pelas virtudes do trabalho e pelo conceito de responsabilidade pessoal. Assim, havia predileção da preguiça em detrimento ao trabalho, e da promoção pessoal por meio de um bom relacionamento com o patrão ao invés do progresso por esforço próprio, contribuindo para a formação de uma atitude de dependência frente aos “favores” dispensados pelos detentores de melhor condição econômica.

Como assevera Vivian Schelling, devido ao predomínio da vida e valores rurais, até anos entrados do século XX, por falta de algo que fosse além de “ruptura parciais” (sic.) com o passado colonial, a vida urbana veio a ser caracterizada pelo sistema clientelístico. As formas populistas de liderança, encarnadas na figura de Getúlio Vargas como ‘pai dos pobres’, a prática generalizada de utilizar a burocracia de Estado como fonte de distribuição clientelista e a ausência de uma ideologia industrial por parte da burguesia e de consciência de classe entre o

78 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo: the municipality and representative government in Brazil. Oxford, Cambridge

University Press, 1977.

79 SCHELLING, Vivian. A presença do povo na cultura brasileira: ensaio sobre o pensamento de Mário de

operariado constituem os traços deixados pela estrutura social do engenho na composição da sociedade brasileira contemporânea80.

No Nordeste, o clientelismo e o coronelismo contribuíram para a criação de um estigma que relaciona as pessoas nordestinas à preguiça, à falta de disposição para o trabalho e mesmo de capacidade para uma ascensão social ou financeira, que faz com que sejam vítimas de discriminação até os dias atuais.

Como exemplo, pode-se citar o difícil acesso à água no Nordeste, resultante da falta de políticas públicas eficazes em garantir a solução para o problema. Através do clientelismo, permite-se o uso da política de águapara atender aos interesses político-eleitoreiros através do armazenamento de água em poços, barragens e açudes, que se efetivam sobretudo nos intermitentes períodos de estiagens prolongadas81.

A descentralização da política de água no Brasil, que passou a funcionar sob o manto da parceria e da presença do Estado mínimo82, certamente atingiu as oligarquias agrárias, em particular as do Nordeste, que, ao longo de séculos, valeram-se das políticas públicas para aumentar seu patrimônio. Nessa seara, há um desafio a ser enfrentado: o de introduzir mudanças na política de água, principalmente, na região semiárida nordestina, que tem longa tradição na centralização da água, na politização do seu uso, no assistencialismo e na ausência da participação da maioria dos usuários, além de contar com a unilateralidade das políticas governamentais83.

80 SCHELLING, Vivian. A presença do povo na cultura brasileira: ensaio sobre o pensamento de Mário de

Andrade e Paulo Freire. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. p. 244.

81FURTADO, Celso. Seca e poder. São Paulo: Fundação PerceuAbramo, 1998. 82

A primeira política de águas surgiu no primeiro governo de Getúlio Vargas, após a Constituição de 1930, com o Decreto n. 24.643/1934. Através dela, o poder público, por intermédio do Ministério da Agricultura e órgãos reguladores, deveria administrar o uso da água para a indústria, para geração de energia elétrica e para a agricultura. Mais do que qualquer política, aquela, da água, se estruturara como androcêntrica, uma vez que as mulheres brasileiras se mantinham, na ocasião, legalmente sob o domínio do pai ou do marido (FISHER, IzauraR. A participação das mulheres na gestão da água no espaço público: rebatimentos nas relações familiares. Acta Científica XXIX Congreso de La Asociación Latinoamericana de Sociologia. ALAS, Santiago de Chile: 2013. Disponível em: http://actacientifica.servicioit.cl/biblioteca/gt/GT11/GT11_RufinoFischerI.pdf. Acesso em agosto 2017.) O outro ajuste na política de água ocorreu com a Constituição de 1988, quando se previu a gestão dos programas de recursos hídricos no Brasil por órgãos como o Comitê de Bacias Hidrográficas e Órgãos Gestores, que passaram a ter o poder de deliberar sobre as vazões de águas a serem liberadas e as regras de uso e conservação, que devem ser decididas através de participação democrática. Ainda, a criação da lei 9.433/2007 instituiu um novo modelo de gestão dos recursos hídricos a ser implantado numa plataforma de poder pautada no padrão da descentralização.

83GARJULLI, Rosana. Os recursos hídricos no semi-árido. Ciência e Cultura. São Paulo. v. 55, n. 4, p. 38-39, Dec.

2003. Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009- 67252003000400021&lng=en&nrm=iso>. Acesso em agosto 2017.

O assistencialismo se manifesta quando a estiagem se prolonga e se confirmam as secas: é declarada situação de calamidade pública, as autoridades organizam a distribuição de água por carro-pipa para os usuários, e as filas são formadas ao longo do itinerário ou pontos de distribuição. Tal mecanismo alimenta o clientelismo, preservando, por gerações, o poder de grupos políticos e famílias dominantes na região (resquícios dos antigos “coronéis”) 84.

Um exemplo se visualiza nas precárias condições de infraestrutura da zona rural nordestina, que trazem impactos importantes no rendimento do trabalho e nas jornadas das mulheres rurais.Dados do IBGE85 mostram que, entre 2003 e 2009, mesmo tendo melhorado o acesso dos domicílios rurais à infraestrutura básica, resistem grandes desigualdades entre regiões e as Regiões Norte e Nordeste são as menos estruturadas.

A disparidade mais gritante se dá com relação aos domicílios rurais que não possuem ainda canalização interna de água: na região Sul, em 2009, apenas 4,7% dos domicílios rurais não a possuíam, enquanto que, na região Nordeste, a porcentagem estava ainda em 49,6%.

A falta de canalização de água dificulta todos os trabalhos domésticos de limpeza, lavagem de roupa, preparação da comida, que ainda recaem sobre as mulheres rurais86. A situação é mais grave nas regiões semiáridas que suportam longo período de estiagem, pois a dificuldade de acesso à água penaliza especialmente as mulheres, responsáveis por transportá-la: “são frequentes as longas caminhadas que fazem, sobretudo as mulheres e crianças sertanejas, em busca de água para suprir as necessidades diárias do consumo doméstico; no mais das vezes, água imprópria e contaminada, não recomendada para o consumo humano”87.

Outro fator que contribui para o agravamento das desigualdades no Nordeste é o de que as políticas são planejadas de forma universal, desconsiderando as diferentes características dentro da própria Região. Como os efeitos da seca não atingem toda a população e território da mesma forma, uma política unificada se faz ineficiente, de modo que os produtores

84 DINIZ, Paulo C. O.; PIRAUX, Marc. Das intervenções de combate à seca às ações de convivência com o

semiárido: trajetória de ‘experimentalismo institucional’ no semiárido brasileiro. Cadernos de Estudos Sociais. Vol. 26. Nº 2, p. 227-238, Recife, jul/dez, 2011. Disponível em: https://periodicos.fundaj.gov.br/CAD/article/view/1457. Acesso em agosto 2017.

85 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Anos

2003 e 2009. Dados disponíveis em <http://www.sidra.IBGE.gov.br/PNAD/PNADpb.asp?o=3&i=P>. Acesso em agosto 2017.

86 In: BARSTED L. L.; PITANGUY, J. (Org.) O Progresso das mulheres no Brasil 2003–2010. Rio de Janeiro:

CEPIA; Brasília: ONU Mulheres, 2011.

87 LOPES, Eliano S.A. e LIMA, Silvana L.S. Análise do Programa Um Milhão de Cisternas Rurais – P1MC, no

Município de Tobias Barreto, Estado de Sergipe. S/l, 2005. Disponível em <http://www.fundaj.gov.br/geral/observaNordeste/eliano2.pdf>. Acesso em agosto 2017. p. 9.

potencialmente mais resistentes, que possuem grandes propriedades e mecanismos para enfrentar a seca com menor esforço, são beneficiados pelas mesmas políticas sociais que os menos abastados.

O Nordeste sofreu os efeitos da globalização da década de 1990, efeitos esses que, para Octávio Ianni88, continuam a se expandir em processos histórico-sociais, econômicos, políticos e culturais. Uma das marcas da globalização, a competição desigual, afeta a região nordestina de modo especialmente agravado em decorrência das secas, não enfrentadas em outras localidades do país, fazendo com que se acentuasse a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas, situadas no Sul e Sudeste. Há disparidades no que diz respeito ao patamar de crescimento econômico alcançado por cada região, em particular, que reflete em âmbitos diversos da sociedade.

Alguns dados mostram disparidades regionais importantes. A exemplo, cite-se os números referentes à assistência de saúde entre as regiões brasileiras. Em análise de dados, estudo do IPEA concluiu que, em 2009, a relação de médicos por mil habitantes é desigual entre as regiões: enquanto a média nacional fica em 3,1 médicos por mil habitantes, nas regiões Norte e Nordeste são inferiores (1,9 e 2,4 respectivamente) e superiores nas regiões Sul e Sudeste (igualmente 3,7). A conclusão do Instituto mencionou as regiões Nordeste e Norte como “menos desenvolvidas”, veja-se:

Estas informações permitem concluir que há uma concentração de profissionais mais bem qualificados (instrução de nível superior) nas regiões mais desenvolvidas – Sul e Sudeste – em detrimento das regiões menos desenvolvidas – Norte e Nordeste –, sendo que a região Centro-Oeste possui índices mais próximos da média nacional.89

Outro exemplo preocupante é a taxa de mortalidade infantil, obtida através da contagem do número de crianças que morre, em um dado local, antes de completar um ano de idade, a cada mil nascidas vivas. Através dessa estatística, é possível medir a eficácia dos sistemas de saúde, saneamento básico, educação e da própria qualidade de vida em cada lugar.A região Nordeste é líder nessa estatística, se comparada a outras regiões do país: em 2008, o IBGE constatou que a taxa de mortalidade infantil no Nordeste era de 52,8 para cada mil habitantes, bem superior à

88 IANNI, Octávio. Teorias da globalização. 9. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

89 BRASIL. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Presença do Estado no Brasil: Federação, suas unidades e

municipalidades. Saúde. 2009. Disponível em:

http://www.ipea.gov.br/presenca/index.php?option=com_content&view=article&id=13&catid=3&Itemid=12. Acesso em setembro 2017.

média brasileira, que era a taxa de 34,8 por mil, e às taxas das demais Regiões (Norte: 32,7; Sudeste: 25,7; Sul: 22,8; Centro-Oeste: 26,1)90.

Políticas públicas mais igualitárias entre os complexos regionais brasileiros fazem-se necessárias, com vistas a proporcionar infraestrutura adequada para a população (saneamento ambiental), maiores investimentos em saúde, redistribuição dos recursos hospitalares, subsídios para a alimentação, além do processo de conscientização familiar.

No âmbito da educação, verificam-se, também, diferenças regionais, principalmente para as camadas mais pobres da população. Fúlvia Rosemberg e Edith Piza, em estudo, afirmam que:

Residir no Nordeste ou Sudeste não afeta as oportunidades de ser alfabetizado se o rendimento for superior a dois salários mínimos; ter 10 ou 39 anos também pouco afeta – entre sulinos e nordestinos – as oportunidades de aprender a ler e a escrever, se os níveis de rendimentos forem superiores. Porém, ser pobre nestas regiões afeta, e muito, as oportunidades de letramento. Assim, para todas as faixas etárias, os índices de analfabetismo são piores nas regiões que concentram um maior número de pobres. 91

Hédio da Silva observou, em estudo encomendado pela UNESCO, que, em 2002, a pobreza estava concentrada no Nordeste brasileiro, onde estavam “63% dos pobres do país e apenas 15% dos ricos”92.

Os números acerca da violência não são menos alarmantes: em dados colhidos pelo IPEA para o Atlas de 2017, Altamira, no Pará, lidera a relação dos municípios mais violentos. Em seguida, aparecem Lauro de Freitas, na Bahia (97,7); Nossa Senhora do Socorro, em Sergipe (96,4); São José de Ribamar, no Maranhão (96,4); e Simões Filho, também na Bahia (92,3). As regiões Norte e Nordeste somam 22 municípios no ranking dos 30 mais violentos em 2015. Por outro lado, entre os 30 mais pacíficos, 24 são municípios da região Sudeste.93

Com relação à violência contra a mulher, a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher apresenta uma radiografia da violência de

90 BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Departamento de População e Indicadores Sociais.

Projeto UNFPA/BRASIL (BRA/98/P08) - Sistema Integrado de Projeções e Estimativas Populacionais e

Indicadores Sócio-demográficos. Disponível em:

https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/tabela1.shtm. Acesso em setembro 2017.

91 ROSEMBERG, Fúlvia; PIZA, Edith. Analfabetismo, gênero e raça no Brasil. In: BÓGUS, L.; PAULINO, Y.

(orgs.). Políticas de emprego, políticas de população e direitos sociais. São Paulo, Educ, 1997, p. 125.

92 SILVA JÚNIOR, Hédio. Discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais / Hédio Silva Jr. –

Brasília: UNESCO, 2002. P. 21. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001297/129721por.pdf. Acesso em setembro 2017.

93 BRASIL. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da violência 2017. Disponível em:

gênero no Nordeste brasileiro, que reforça a necessidade de se desenvolver ações e programas multisetoriais e multidisciplinares, demonstrando que 27% de todas as mulheres com idades entre 15 - 49 anos já foram vítimas de violência doméstica ao longo da vida e que 17,27% das mulheres nordestinas foram agredidas pelo menos uma vez ao longo da vida.94.

Mesmo diante desses fatores, deve-se afastar do discurso vitimista de que Sul e Sudeste do país exploram o Nordeste, retirando dos atores políticos dessa região a responsabilidade que lhes cabe pela ineficiência no combate aos efeitos da seca.

Para Albuquerque Júnior95, "são discursos presos a essa lógica da vitimização, da culpa sendo posta sempre no 'outro', criando um 'eu' descomprometido com sua própria condição", de modo que os interesses internos à própria região constituíram-se em obstáculos a medidas modernizadoras, "bloqueando o ímpeto de mudanças nas relações sociais".

O próprio sistema clientelista passou a se utilizar das contradições existentes no cenário nacional para distanciar ainda mais a possibilidade de redução das desigualdades, como se esse o Sudeste do Brasil fosse um exemplo a ser seguido, sendo que o Nordeste não conseguiria alcançá-lo nunca em razão das condições climáticas e geográficas. Por trás dos panos, o interesse era apenas fazer permanecer o poderio nas mãos da elite governante.

Mesmo na ausência de elementos de análise mais acurados, o senso comum mostra-se suficientemente adequado para se constatar os efeitos perversos das desigualdades sociais e econômicas inter e intra-regionais, assim como a incapacidade - obviamente ligada a interesses divergentes, nem sempre explicitados - dos sucessivos governos, quanto à formulação de políticas de prevenção dos impactos negativos das secas96.

O que não se pode olvidar é que, em razão da diversidade geográfica, climática, social e cultural, o povo nordestino viveu transformações axiológicas de maneira diversa do restante do país, o que deve ser levado em conta na aplicação dos direitos antidiscriminação.

Os aspectos tratados até o presente ponto demonstram como se deu o processo de construção sócio-histórica da mulher e da pessoa nordestina, suas particularidades, suas lutas

94Essa pesquisa foi realizada em 2016 pelo Instituto Maria da Penha-IMP em parceria com a Universidade Federal do

Ceará e o Instituto para Estudos Avançados de Toulouse, na França. CARVALHO, José Raimundo; OLIVEIRA, Victor Hugo de. Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Instituto Maria da Penha, 2016. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/wp- content/uploads/2016/12/Pesquisa-Nordeste_Sumario-Executivo.pdf. Acesso em agosto 2017.

95 ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Massangana; São

Paulo: Cortez, 1999, p. 310.

96 ARAÚJO, M. L. C. de. Seca: fenômeno de muitas faces. Cadernos de Estudos sociais. Recife. Vol. 16. N.1.

contra estigmatizações sociais, assim como o enfrentamento de dificuldades específicas, que as tornam vítimas de preconceito e discriminação.

Os processos sociais vivenciados por mulheres nordestinas no Brasil, do qual se teve