3.1 SOBRE DISCURSOS
3.1.1 A ideologia e as suas formas
106 De modo geral, podemos afirmar que existem duas perspectivas básicas e distintas que marcam as posturas teóricas para a análise do discurso: a norte-americana e a europeia. Nosso foco se dá na linha europeia. A percepção norte-americana parte da relação entre o lugar social do sujeito e a fala, com atenção ao seu processo de enunciação, alguns autores colocam que essa contribuição por se dar no interior do linguístico, analisa o texto de modo redutor. Para mais informações ver: Charaudeau e Maingueneau (2016); Maingueneau (2015); Brandão (2002).
Sobre a ideologia há uma quantidade abundante de debates que abordam essa noção, sendo por isso um conceito que aparece muitas vezes de forma confusa e controversa incorporando variados valores. Já sobre os discursos, como vimos, materializam realidades a partir de uma concepção ideológica. Visto que os discursos se concretizam nos espaços circunscritos por condições objetivas e subjetivas muitas vezes por meio da opressão concordamos com Eagleton (1997), que deixar em eclipse e obsolescência o conceito de ideologia é absurdo, já que ele é capaz de criticar essas condições e direcionar possibilidades de transformá-la.
O termo ideologia traz o prefixo grego “ideia” do “protótipo ideal”. Literalmente significa “ver”, em “forma” e “aparência”. O conjunto tem como base a ideia unida ao “logos” que remete ao sentido de “discurso” e de “estudo”. Por fim, a percepção desse traçado etimológico nos conecta ao discurso da forma ideal ou ao estudo da aparência.
Outro modo de entendimento do conceito, simplificado, é apresentado pelo Dicionário Priberam da Língua Portuguesa107, são três concepções básicas; primeira: ciência da formação das ideias; segunda: tratado sobre as faculdades intelectuais; terceira: conjunto de ideias, convicções ou princípios filosóficos, sociais e políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade (ex.: ideologia política). O dicionário Michaelis108 destaca que ideologia é a ciência da formação das ideias; um tratado das ideias em
abstrato; sistema que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades, e; maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas: ideologia socialista.
Em todas as colocações sobre o conceito de ideologia temos como panorama geral um direcionamento para a compreensão das ideias que caracterizam um grupo social, consequentemente, com repercussão sobre os indivíduos e suas ações.
Se abarcássemos uma concepção mais ampla direcionada à ideologia, se a incorporássemos relacionada aos valores vigentes reproduzidos em uma determinada, sociedade o debate poderia até ser profícuo, mas seria longo e complexo, levando em consideração que desde a antiguidade existem formas de se pensar em uma consciência social coesa. Por isso elaboramos uma explanação pontual em acordo com a emergência do termo e seus principais usos.
A gênese da expressão ideologia é relativamente recente, sua origem se dá em bases iluministas, aparecendo pela primeira vez no ano de 1815, no livro Elements de idéologie.
107107 Disponível em: < https://www.priberam.pt/dlpo/>. Acesso em: 26 mar. 2018. 108 Disponível em: < http://michaelis.uol.com.br/>. Acesso em: 26 mar. 2018.
Criada por Antoine Destutt de Tracy, membro da elite de cientistas e filósofos os quais constituíam a ala teórica francesa, despontou como um sinônimo da atividade científica capaz de analisar o pensamento como parte da zoologia da ciência geral do humano. Nesses termos tratava uma associação de ideias como fenômenos naturais capazes de exprimir a relação do corpo humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente. Partia do pensamento vigente na época que se a ciência repousa em ideias, então, seria necessário esmiuçar as leis dessas ideias. O método para a sua análise estava ancorado nos rigores científicos impostos pelo positivismo, opondo-se a metafísica, a teologia e a psicologia (WILLIANS, 1979; EAGLETON, 1997; KONDER, 2002; CHAUÍ, 2004; BOSI, 2010).
Na contramão dessa perspectiva externa-se o sentido desdenhoso cunhado por Napoleão Bonaparte ao sentir o seu autoritarismo ameaçado pelo idealismo revolucionário. Esse ataca os ideólogos e, principalmente, De Tracy, desqualificando-os e expondo-os enquanto responsáveis pelos infortúnios franceses; coloca-os enquanto figuras nebulosas, abstratas e; desconhecedoras da realidade concreta. Esse discurso notabiliza um novo sentido atrelado à ideia de falsa consciência. Logo, a ideologia que era o estudo científico das ideias humanas passou a significar o próprio sistema de ideias. Igualmente um ideólogo ao invés de ser um estudioso das ideias passou a ser alguém que as expunha motivado por algum tipo de interesse. O que, aliás, antecipa o sentido acolhido por Marx ao propor que a ideologia se trata de uma ideia abstrata de “apologia política” (EAGLETON, 1997, p. 69).
Em “A Ideologia Alemã”, Marx (1999) segue essa concepção de falsa consciência dada ao vocábulo e constrói o conceito como equivalente à ilusão: uma concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida real. Ou melhor, a ideologia, de acordo com a formulação de Marx, não é simplesmente a mentira: ela pressupõe algum tipo de conhecimento concreto da realidade e a distorce a ponto de traí-la. Essas distorções ideológicas não são resultantes de conspirações e tramas que estão a serviço da burguesia, embora elas existam e se aproveitem delas, mas são sua base e a causa está, justamente, na própria organização da sociedade e em seu processo de complexificação que reduziu aos indivíduos a capacidade de compreender de modo mais amplo as distintas relações sociais, naturalizando-as (KONDER, 2002). Para Marx, claramente, ideologia é um conceito pejorativo, um conceito crítico que implica em ilusão, ou se refere à consciência deformada da realidade que se exerce através da ideologia dominante. Isso se dá porque o estudioso se debruça sobre a crítica ao sistema capitalista e ao desnudamento da ideologia burguesa. “Se as ideias são apreendidas como entidades autônomas, então isso ajuda a naturalizá-las e a desistoricizá-las; e esse é, para o jovem Marx, o segredo de toda a ideologia” (EAGLETON, 1997, p. 70).
Para Eagleton (1997) os estudos que envolvem o conceito de ideologia estão divididos em duas grandes orientações teóricas caudatárias de dois filósofos alemães do século XIX, Hegel e Schopenhauer. A primeira, oriunda de Hegel (A fenomenologia do espírito) desdobra- se do idealismo para o materialismo, traçando o debate iniciado por Marx e Engels (A ideologia alemã) até as inúmeras produções do marxismo ocidental. A segunda concepção parte de Schopenhauer (O mundo como vontade e representação) ganhou força subsequentemente com as obras de Nietzsche, Freud e, em linhas gerais, na obra de Foucault e dos pós-estruturalistas.
Para Mannheim, o sentido da ideologia não se restringe apenas a um conjunto fechado de representações e valores que estão ligados a determinados interesses. Além, são valores projetivos com objetivos que direcionam às perspectivas futuras baseados na reelaboração de uma construção feita no passado. Por isso relaciona a ideologia com o conceito da utopia uma vez que afirma o papel ideológico de projeção do futuro na utopia, tanto por buscar objetivos futuros, quanto por poder influenciar na ação social visando à construção de um mundo melhor. A ideia de utopia em Mannheim amplia o conceito de ideologia não apenas como uma descrição e justificativa, mas como uma projeção de futuro e modo de se repensar o próprio passado (BOSI, 2010, p. 82).
Já Walter Benjamin desenvolve a sua contribuição por intermédio do que ele chama de “escovar a história a contrapelo”; metáfora utilizada a fim de compreender, alicerçado na história, o conceito de utopia presente em Marx, Engels e Hegel apoiado nas relações entre passado e presente, com os olhos postos no futuro. É uma união em pensamento e ação de passado, presente e futuro.
Em Mikhail Bakhtin como a linguística deve ultrapassar a ótica da língua como sistema, recusa o fechamento do texto, então formula uma análise que põe em relação à ideologia com a psicologia afirmando a primazia da ideologia na construção da consciência individual. Aponta a impossibilidade de se entender isoladamente a língua, uma vez que essa é um signo social e ideológico por excelência, transcendendo a abordagem marxista, combinando-a com o freudismo e o estruturalismo. Inclusive, são os estudos de Mikhail Bakhtin e Roland Barthes que possibilitam a análise dos meios e das condições nas quais os sentidos são socialmente construídos e experimentados nos distintos tipos de discursos sociais.
Para Paul Ricoeur (1977, p.68) a ideologia aparece de modo reduzido quando as tendências marxistas a encerra na convicção da falsa consciência. Não que o autor queira combater esse direcionamento, mas chama atenção para o seu caráter restritivo. Colabora com o alargamento do debate ao interpretar, inicialmente, o conceito como resposta à necessidade o qual os grupos sociais têm de “conferir-se uma imagem de si mesmo”, isto é, uma necessidade
de representar-se no sentido teatral do termo, para si mesmo e para o outro. A lembrança é o elemento fator da formação das ideologias, ela sedimenta ideias enquanto as situações se transformam segundo as identidades que constrói. Como consequência o discurso é a consagração da ideologia, pois tem um caráter codificado e esquemático. Com base no discurso as ideologias são sedimentadas e em tal caso o pensamento crítico cede lugar à simplificação do discurso integrador, o que ocorre na contramão da análise, da interpretação e do julgamento, atividades intelectuais fundadoras do espírito científico. Logo, para Ricouer a ideologia aparece no reino da opinião (doxa), do estereótipo, da frase feita prestando-se facilmente a jogos de prestígio (BOSI, 2010, p. 136).
De acordo com Willians (1979; 2011) a questão da ideologia extrapola os estudos marxistas e coteja três noções comuns que circunscrevem o conceito: a primeira refere-se a um conjunto de crenças e valores de uma classe; a segunda é análoga à falsa consciência e; a terceira diz respeito ao processo de produção de ideias e significados culturais. Em suma, um sistema de crenças e valores de uma classe social que repercutem sobre a dinâmica do pensamento social e falseia o real a fim de assegurar a perpetuação da sua posição de classe. Nesse ínterim, a linguagem, em seu enredo cultural, é primordial para a constituição de ideias, imagens e símbolos que organizam, delimitam e classificam os grupos ou classes, o que só é possível por intermédio da ordem de produção do discurso hegemônico. O que favorece aos que produzem o discurso legitimado em detrimento de outros grupos, sendo esses últimos suscetíveis ao descrédito, aos clichês e estereótipos em suas práticas.
Diversos autores construíram definições sobre a ideologia que trazem à tona os diversos corpus de significados existentes, talvez a noção mais comum seja a alegação de que a ideologia tem a ver com a legitimação do poder de um grupo social dominante ou classe. Porém, Eagleton (1997) aponta que a ideologia refere-se às representações empíricas vivenciadas pelo homem e que como tal pode e deve ser alterada. As relações vivenciadas e transformadas forneceriam as ferramentas necessárias para a constante mudança da sociedade, dilacerando com as condições propícias de dominação.
Para a filósofa Marilena Chauí (2004), a ideologia se traduz em um conjunto sistematizado de representações e condutas no qual deve-se questionar “o que” e “como” deve pensar, sentir, valorizar e agir os membros de uma sociedade. Contudo, subscreve-se como um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter regulador, cuja função é justificar racionalmente aos membros de uma sociedade dividida em classes as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir essas diferenças às divisões na esfera da produção. Longe disso, sua incumbência é suprimir as diferenças de classes e fornecer aos
membros da sociedade o sentimento de identidade social a partir de referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a humanidade, a liberdade, a igualdade, a nação ou o Estado.
Baseados nesses autores endossamos que na atualidade não se deve primar por um estatuto ontológico para definir a ideologia, ao contrário, para que o termo sirva como ferramenta de análise deve ultrapassar os limites dos significados fechados e ir além da bipolarização. Queremos dizer que não devemos apreender a ideologia fundamentados no discurso de quem é privilegiado ou não nas distintas esferas de poder, isso porque nos comunicamos através de ideias e de ações que constituem formas culturais e comportamentos sociais, dessa maneira todos nós participamos do processo de elaboração de ideologias. Ou seja, não estamos isentos de (re)produzi-las.
Temos em conta que a ideologia não é apenas proveniente dos grupos privilegiados nas relações de poder, não é produzida somente pelas classes dominantes, uma vez que não só são esses grupos que produzem valores. Inclusive, os valores de um determinado momento se destaca mais do que a classe que o produziu; como não é só a classe dominante que produz valores se torna mais adequado pensar em valores dominantes de uma época, do que pensar propriamente em uma classe produtora de valores. Não há uma ideologia só de grupos, classes, religiões, políticas ou de outro elemento isolado; o que há são os elementos em conexões sutis do discurso, seja o discurso das fotografias, do turismo, do estilo de vida, dos tipos de lazer e viagens, ou outros. Com tais características o jogo da ideologia é complexo e parte de uma rede de valores vinculados em distintos segmentos, tempos e espaços.