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A ideologia interpela os indivíduos em sujeitos

No documento O Sujeito no discurso: Pêcheux e Lacan (páginas 84-87)

CAPÍTULO 2 O sujeito no discurso (pêcheux, 1975-78)

2.1.4 Discurso, ideologia e a forma sujeito do discurso

2.1.4.1 A ideologia interpela os indivíduos em sujeitos

O que fundamentalmente interessa a Pêcheux, e o que confere o acento próprio de

Semântica e discurso às teses de Althusser, pode ser reduzido a dois pontos principais: em

primeiro lugar, a constatação de que “a evidência da existência espontânea do sujeito” o constitui, ao mesmo tempo, como “origem ou causa de si”, reafirmando as teses empiristas; em segundo lugar, a afirmação, apenas sugerida no texto de Althusser, de que a evidência do

sujeito é coextensiva à evidência do sentido, “presente em toda filosofia idealista da

linguagem”, de acordo com a qual o sujeito é induzido à crença de que “uma palavra designe uma coisa ou possua um significado”, através da qual podemos associar os efeitos ideológicos de todo discurso (SD: 153).

Todo nosso trabalho encontra aqui sua determinação, pela qual a questão da constituição do sentido junta-se à da constituição do sujeito, e não de um modo marginal [...] mas no interior da própria “tese central”, na figura da interpelação (SD: 153).

É em torno dessa “tese central” da interpelação que a articulação entre ideologia e inconsciente se impõe no texto de Pêcheux. “Essas duas categorias não se encontram aqui por

acaso”, diz Pêcheux, embora reconhecendo que em relação a essa articulação “o essencial do trabalho teórico ainda permanece por fazer” (SD: 152). “O caráter comum das estruturas-

funcionamentos designadas, respectivamente, como ideologia e inconsciente, é o de dissimular sua própria existência no interior mesmo do seu funcionamento” (ibid), cujo efeito ideológico é, justamente, a evidência do sujeito e a evidência do sentido.

Como pensar teoricamente a figura da interpelação? Proponho tomá-la a partir dos seguintes pontos, desenvolvidos a partir da exposição de Pêcheux (SD: 154 - 156):

1- Como figura, ilustração, a interpelação não é propriamente um conceito, mas uma forma da apontar o sujeito, não apenas para evocá-lo ou designá-lo, mas para invocá-

lo (“Você, por quem eu derramei essa gota de sangue”; “Ei, você aí!”). Pêcheux a

aproxima tanto de uma figura religiosa quanto policial. Ela define assim o sujeito em seu estatuto jurídico, o que dá sentido à expressão segundo a qual os indivíduos são interpelados em sujeitos.

2- O ato de invocação se desdobra, por outro lado, “de uma maneira tal que o teatro da consciência é observado dos bastidores, lá de onde se pode captar que se fala do sujeito, que se fala ao sujeito, antes de que o sujeito possa dizer: ‘Eu falo’”. Ela aponta indiretamente para a presença do Outro, ali mesmo onde o sujeito é invocado.

3- A interpelação demonstra “o vínculo superestrutural — determinado pela infra- estrutura econômica — entre o aparelho repressivo de Estado [...] e os aparelhos ideológicos de Estado, portanto, o vínculo entre o “sujeito de Direito” e o “sujeito ideológico” (que se toma por idêntico a si e pronuncia: “sou eu”, em resposta àquela sua invocação).

4- A tese da interpelação diz que é o indivíduo, e não o sujeito, que é interpelado pela ideologia. Seu mérito é o de, em primeiro lugar, apontar para a discrepância indivíduo / sujeito, e de não pressupor a existência do sujeito senão a partir da própria interpelação que o constitui. Podemos dizer que é por esse paradoxo que o sujeito é

chamado à existência.

5- Esse mesmo paradoxo admite a interpretação adicional de que, na verdade, a interpelação tem um efeito retroativo, que faz com que todo indivíduo seja “sempre- já-sujeito”, isto é, ela parte da evidência do sujeito, que o supõe como “único, insubstituível e idêntico a si mesmo”. Do contrário, a tese da interpelação reeditaria, de outra forma, a ilusão subjetiva de uma origem ou fonte do sujeito. Temos aqui uma espécie de tautologia. Trata-se da circularidade que podemos aferir a partir da injunção jurídica: “Senhor Fulano de Tal, o senhor poderia me dizer o seu nome?”, pela qual uma identidade é verificada. O que esse paradoxo revela é que a ‘evidência’ da identidade dissimula que esta identidade é o resultado de “uma identificação- interpelação do sujeito, cuja origem estranha é, contudo, estranhamente familiar” (SD: 155). Ele advém igualmente da circularidade pela qual a criança pode contar a si mesma no enunciado, como no exemplo: “tenho três irmãos: Pedro, Gabriel e eu” ou no diálogo ao telefone: — “quem fala?” — “é o meu pai”. Esse retorno do estranho no

familiar aponta para o efeito de pré-construído, isto é, o efeito de discrepância pela

qual um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado “antes, em outro lugar, independentemente” (SD: 156). O efeito de pré-construído pode, assim,

ser considerado a “modalidade discursiva da discrepância pela qual o indivíduo é

interpelado em sujeito... ao mesmo tempo em que é sempre-já-sujeito” (SD: 156).

6- Essa discrepância, presente na interpelação do indivíduo em sujeito, funciona “por contradição”. Essa contradição pode ser percebida sob a forma de uma série de

sintomas articulados ao “funcionamento do significante” no processo de interpelação-

identificação. Ocasião de retomar a observação de Pêcheux segundo a qual esse “funcionamento do significante” aproxima o inconsciente freudiano do processo ideológico do assujeitamento. Recorrendo à definição de Lacan de que “o significante representa o sujeito para um outro significante" — diferentemente do signo, que

representa alguma coisa para alguém —, é possível, segundo Pêcheux, aproximá-la

da formulação do “sujeito como processo (de representação) interior ao não-sujeito

constituído pela rede de significantes, no sentido que lhe dá J. Lacan: o sujeito é ‘preso’ nessa rede” (SD: 157). Essa formulação considera que “o sujeito resulta dessa

rede como ‘causa de si’” (SD: 157), sendo essa contradição (produzir como resultado uma causa de si) o que caracteriza a interpelação como um processo no qual “os ‘objetos’ que nele se manifestam se desdobram, se dividem, para atuar sobre si enquanto outro de si” (SD: 157).

Detenhamo-nos mais sobre esse último ponto, crucial para o tensionamento entre Pêcheux e Lacan. A expressão “ser preso na rede” designa, para Pêcheux, o processo constitutivo do sujeito, isto é, o efeito-sujeito propriamente dito. Duas observações se impõem. A primeira nos leva a associar a expressão “não-sujeito” à própria rede significante que antecede e antecipa o sujeito, no sentido, por exemplo, do comentário de Althusser: “antes de nascer a criança é sempre-já-sujeito, designado a sê-lo na e pela configuração ideológica familiar específica em que é ‘esperada’ depois de ter sido concebida” (ALTHUSSER 1970/1980, p. 103). Nesse caso, é a ideologia familiar, na forma assumida pela rede dos significantes, que configura um não-sujeito e que, paradoxalmente, toma a criança esperada como um sempre-já-sujeito. A segunda observação deriva da ambigüidade que o verbo “prendre” pode assumir na frase em francês ― “le sujet est ‘pris’ dans ce

réseau”36―, na medida em que remete tanto à idéia de um aprisionamento do sujeito — seu

assujeitamento, para sermos mais precisos — como à sua apreensão nessa rede, no sentido em que apreendemos um objeto nas mãos. Trata-se de uma anterioridade lógica ou

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ideológica? De qualquer maneira, para Lacan, a apreensão do sujeito na rede significante não poderia se dar sem a necessária divisão subjetiva nesse processo, o que é consoante com a produção de sintomas e das formações do inconsciente de um modo geral, mesmo que o sujeito não se reconheça nelas em função da identificação que a interpelação produz. O inconsciente se distingue, assim, para Lacan, do plano imaginário onde se sustentam as identificações do sujeito.

Para retomar a argumentação de Pêcheux, é o “apagamento do fato de que o sujeito resulta de um processo” (SD: 157) que leva às “fantasias metafísicas” concernentes à dimensão do sujeito como ‘causa de si’. Pois, enquanto sujeitos falantes, os indivíduos são

todos recrutados pela ideologia, recebendo como evidente “o sentido do que ouvem e dizem,

lêem ou escrevem” (SD: 157). Pêcheux se refere a essas fantasias como efeito Münchhausen, “em memória do imortal barão que se eleva nos ares puxando-se pelos próprios cabelos” (SD: 157), o que equivaleria a postular o paradoxo que toma “o sujeito do discurso como origem do sujeito do discurso” (SD: 158).

No documento O Sujeito no discurso: Pêcheux e Lacan (páginas 84-87)