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A IES: Faculdades Integradas Copérnico – parceira do projeto

3 ESTUDANTES DE PEDAGOGIA EM ESCOLAS PÚBLICAS NO

3.3 Terceiro plano do cenário: o projeto Bolsa Alfabetização e algumas

3.3.1 A IES: Faculdades Integradas Copérnico – parceira do projeto

Desde junho de 2007, as Faculdades Integradas Copérnico são uma das “parceiras” da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo no projeto Bolsa Alfabetização.

A Secretaria da Educação do município em que a instituição está localizada, na Grande São Paulo, tem dois projetos dos quais os alunos participam: um voltado ao atendimento de crianças em idade pré-escolar que não estão regularmente matriculadas na rede municipal de ensino e outro em que os estudantes atuam em salas de Ensino Fundamental em que há alunos com necessidades educacionais especiais.

Antes do início da parceria com a Secretaria Estadual de Educação, a instituição já participava, também, do projeto homônimo implantado anteriormente pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, o Ler e Escrever, quando o atual governador do estado, José Serra, do PSDB, era prefeito do município.

O projeto Bolsa Alfabetização, da SEE, tem o duplo objetivo de contribuir para melhorar a alfabetização das crianças, em seu primeiro ano de escolarização do Ensino

Fundamental, e favorecer uma melhor formação dos futuros professores no que diz respeito à alfabetização.

Para alcançar esses objetivos, firma parcerias com Instituições de Ensino Superior que mantêm cursos de Letras e Pedagogia.

Cabe às IES selecionar os alunos de acordo com critérios previamente definidos e encaminhá-los para as diretorias de ensino, mediante um repasse, para a instituição, no valor de R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais por classe de 1ª série atendida.

Esse valor é fixo, para todas as instituições, mas cada uma delas repassa o valor da “bolsa” para os estudantes de acordo com as mensalidades cobradas e em conformidade com o plano de custos aprovado na parceria. Na IES em que atuo, o valor da bolsa é um pouco superior ao da mensalidade, de forma que os alunos recebem mensalmente a diferença entre ambos.

Depois de cadastrados pela IES, os alunos são encaminhados para uma Diretoria de Ensino de acordo com sua opção e com a disponibilidade de vagas. Esses procedimentos são efetivados diretamente no site do projeto, pela IES. Numa segunda etapa, os alunos comparecem pessoalmente à Diretoria de Ensino e escolhem a escola em que gostariam de atuar, de acordo com as vagas disponíveis (correspondentes ao número de primeiras séries existentes em cada escola). O principal critério para essa escolha consiste na localização das escolas, por sua proximidade à residência dos alunos ou facilidade de acesso via transporte público.

Os alunos são o elo de ligação entre a IES e a escola pública. Não estão previstas outras formas de interação entre elas, uma vez que o diálogo entre as duas partes será mediado sempre e apenas pela “equipe de gestão do projeto”, composta por membros da SEE-SP e da FDE. Desta forma, é a equipe de gestão que centraliza e faz a intermediação entre escolas e IES.

Uma relação mais intensa entre ensino superior e escola pública tem sido defendida por diferentes autores, como Boaventura de Sousa Santos.

Santos acusa a universidade de recolher-se “ao papel de questionar o discurso dominante sobre a crise da escola pública” e não ter se esforçado “em formular alternativas” (SANTOS, 2005, p. 82). Também defende que “a universidade deve assumir formas mais densas de responsabilidade social”, desde que criadas as condições para isso: autonomia e meios financeiros (SANTOS, 2005, p. 91).

O autor defende, entre outros pontos, a “valorização da formação inicial e sua articulação com os programas de formação continuada” e a “colaboração entre pesquisadores

universitários e professores das escolas públicas na produção e difusão do saber pedagógico, mediante reconhecimento e estímulo da pesquisa-ação” ((SANTOS, 2005, p. 84).

Sem dúvida, uma instituição universitária, especialmente pública, poderia oferecer todo seu potencial humano e procedimental em relação à pesquisa, mais do que é possível acontecer em instituições privadas.

O projeto em questão mobiliza diferentes atores na direção sugerida por Santos, ao promover algum nível de envolvimento com a pesquisa e ao favorecer uma parceria com a escola pública.

No entanto, é possível identificar dois obstáculos em relação a esse ponto.

Inicialmente, o perfil das instituições que aderiram ao projeto: a maioria delas privadas, de acordo com os dados divulgados no site do projeto em dezembro de 2008, com uma única exceção que era uma universidade municipal. Além disso, apenas nove eram universidades e as trinta instituições restantes, faculdades isoladas, integradas ou centros universitários, o que sem dúvida tem reflexos importantes quanto às possibilidades de realização de pesquisas. Este perfil das instituições parece estar relacionado à atratividade exercida pela bolsa, que no caso das instituições privadas representa a permanência dos alunos em seus cursos e a garantia de recebimento das mensalidades com os repasses de dinheiro público (em oposição aos altos índices de inadimplência dos alunos não-bolsistas).

Em 2009, com a ampliação do projeto para o interior do estado de São Paulo, esse quadro sofreu pequenas alterações, como a adesão de algumas universidades públicas (como a UNESP) ao projeto.

Cabe destacar também que a forma e os objetivos dessa parceria não foram definidos pelas IES e nem tampouco por uma demanda dos estabelecimentos escolares, mas nasceu e se mantém graças a uma instância intermediária, representada pela Secretaria de Estado da Educação e pela FDE.

As IES não se relacionam diretamente com as escolas públicas e não são os parceiros que Santos defendia, ao abordar uma forma de ação voltada para a reconquista da legitimidade da universidade: a pesquisa-ação, que consistiria “na definição e execução participativa de projetos de pesquisa, envolvendo as comunidades e organizações sociais populares a braços com problemas cuja solução pode beneficiar dos resultados da pesquisa”, articulando interesses sociais com interesses científicos (SANTOS, 2005, p.75).

O presente trabalho refere-se a uma instituição de ensino superior que não se enquadra no conceito de universidade. Trata-se antes de uma faculdade privada, que, portanto, têm um histórico e uma forma de atuação específica, voltada predominantemente para o ensino, mais

do que para a pesquisa. Cabe destacar, porém, as possibilidades abertas pelo Projeto Bolsa Alfabetização em ao menos duas das áreas de ação identificadas por Santos: o acesso à educação superior e a relação com a escola pública.

Santos argumenta que, na maioria dos países o que houve não foi tanto uma democratização do acesso, mas sim uma “massificação”, com forte segmentação do ensino superior. Como em boa medida os entraves ao acesso ao ensino superior estão localizados na educação básica, Santos propõe que uma das medidas seja a promoção, pelas universidades, de “parcerias ativas, no domínio pedagógico e científico, com as escolas públicas”. Argumenta que o auxílio aos estudantes das classes trabalhadoras não deveria ser em forma de empréstimos, que endividam os estudantes por longos anos no futuro, e sim bolsas que poderiam ser concedidas,

mediante contrapartidas de trabalho nas atividades universitárias no campus ou fora do campus. Por exemplo, estudantes de licenciatura poderiam oferecer algumas horas semanais em escolas públicas, como tutores, ajudando alunos com dificuldades de aprendizagem (SANTOS, 2005, p. 69).

No caso específico da IES que estamos analisando, a bolsa oferecida favorece principalmente a permanência do estudante em um curso de graduação, uma vez que contempla alunos a partir do segundo semestre do curso. Entretanto, diversas IES utilizam a bolsa como atrativo para aqueles que estão iniciando, divulgando o projeto em seus sites e impressos publicitários.

Com as largas portas de entrada das instituições privadas, muitos estudantes de classes trabalhadoras têm acesso ao ensino superior. No entanto, o que se observa é a grande vulnerabilidade destes estudantes: são altos os índices de desistência, ainda nos primeiros semestres.

Permanecer no curso significa arcar com despesas relativas à locomoção, já que muitos estudantes residem longe do local em que estudam, e ainda com a aquisição de materiais e custos da alimentação, especialmente em se tratando de estudantes que conciliam os estudos com atividades profissionais.

Mesmo dentre os alunos que permanecem, são muitos os casos de inadimplência, decorrente da dificuldade para pagamento das mensalidades.

Desta forma, ao lado de uma grande porcentagem de alunos que trabalham, também é grande o número de alunos que participam de projetos que oferecem bolsas ou outras formas de apoio financeiro, tais como o “Bolsa Escola da Família” e os programas desenvolvidos pela prefeitura do município em que a IES está situada.

O Programa Escola da Família, também da Secretaria de Estado da Educação, foi criado em 2003, no governo de Geraldo Alckmin, do PSDB, quando Gabriel Chalita era Secretário da Educação. Esse programa guarda algumas semelhanças com o Bolsa Alfabetização, por promover a inserção dos estudantes no universo das escolas públicas mediante o pagamento de uma bolsa para ajudar a custear o curso superior em que estavam matriculados. No Escola da Família, estudantes universitários atuam nos finais de semana em escolas públicas estaduais, desenvolvendo atividades abertas à comunidade (alunos, suas famílias ou outras pessoas interessadas). Em contrapartida à sua atuação nas escolas, a Secretaria da Educação custeia 50% das suas mensalidades, até o limite de R$ 267,00 (duzentos e sessenta e sete reais), sendo o restante da mensalidade assumido pelas Instituições de Ensino Superior (SÃO PAULO, 2009b).

Além desses projetos e programas desenvolvidos nos âmbitos municipal e estadual, há ainda alunos que são bolsistas do ProUni ou tem financiamento estudantil (Fies).

O ProUni (Programa Universidade para Todos), criado pelo Governo Federal em 2004 (presidência de Luiz Inácio da Silva, do Partido dos Trabalhadores), concede bolsas de estudos parciais e integrais para estudantes de baixa renda, matriculados em IES privadas, em troca de isenções fiscais e previdenciárias concedidas pelo Estado. Além dos critérios financeiros (renda familiar per capita inferior a três salários mínimos, para bolsa parcial, e inferior a um salário mínimo e meio, para bolsa integral), os estudantes aptos a receber estas bolsas submeteram-se ao ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e obtiveram médias consideradas satisfatórias para atribuição da bolsa. Não é um programa que prevê, portanto, uma contrapartida dos estudantes (BRASIL, 2009b).

O Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior) é descrito pelo Ministério da Educação como um programa “destinado a financiar a graduação no Ensino Superior de estudantes que não têm condições de arcar integralmente com os custos de sua formação”, matriculados em instituições privadas, “cadastradas no Programa e com avaliação positiva nos processos conduzidos pelo MEC” (BRASIL, 2009c). Uma das possibilidades que os alunos têm atualmente é o financiamento do restante da mensalidade quando a Bolsa do ProUni é parcial (50% ou 25% do valor). Em relação a este financiamento, caberia considerar a ressalva feita por Santos quanto ao endividamento dos estudantes nos anos futuros.

Recentemente, esses programas passaram a ter ações que pretendem atrair os estudantes para cursos de licenciatura e favorecer a formação de professores. No caso do ProUni, os professores concursados das redes estaduais ou municipais não precisam comprovar a renda mensal para concorrer à bolsa. O intuito é favorecer o acesso ao Ensino

Superior aos docentes que não têm graduação. No Fies, o incentivo para os alunos que optam por cursos de Licenciatura é a redução da taxa de juros, que para esses cursos ela é inferior à dos demais.

Em outros programas que prevêem uma contrapartida de trabalho dos estudantes, como o Bolsa Escola da Família, a atuação dos mesmos não é orientada pela IES, mas por profissionais ligados à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. No Projeto Bolsa Alfabetização, objeto de análise nesta tese, a IES tem um papel definido de seleção, acompanhamento dos alunos e formação, responsabilizando-se em parte pela atuação dos alunos nas escolas públicas, bem como pela administração dos recursos repassados.