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2. O fenômeno visto de dentro: olhares da literatura evangélica.

2.1 A igreja é extremamente necessária e importante.

As pessoas podem trocar tudo, de casa, de cônjuge, de trabalho, de religião, até de Deus, só não podem trocar é de paixão49.

Igreja, por que me importar? : Redescobrindo o prazer da vida em comunidade, do

famoso escritor Philip Yancey, foi publicado pela primeira vez nos E.U.A. em 199850.

48 Além destes é preciso citar outros livros de americanos publicados no Brasil que também expõem este olhar, a

saber: Revolução de Geoge Barna, publicado em 2007 pela editora Abba Press, Cristianismo Pagão : Analisando

as Origens e Práticas da Igreja de Frank Viola e George Barna, publicado em 2008 e Mais Perto de Deus de

Darin Hufford publicado em 2012 pela editora Sextante.

49 Fala do personagem Pablo Sandoval, no filme “O segredo dos seus olhos”, lançado em 2009, do diretor

49 Neste livro Yancey narra sobre a igreja da qual ele fez parte durante a infância e a adolescência. “Olhava o mundo pelos vitrais coloridos da igreja: ela ditava o que eu devia crer, em quem devia confiar e como devia me comportar” (YANCEY, 2006, p. 13).

Esta igreja era extremamente legalista, fundamentalista, fechada em relação à sociedade e racista (YANCEY, 2006, pp. 14 e 15). Resultado? “Uma religião baseada em coisas externas é muito fácil de descartar, e foi o que eu fiz por um tempo” (YANCEY, 2006, p. 15).

Yancey não está preocupado em relatar a sua trajetória de volta para a igreja neste texto, mas sim, procurando responder ás seguintes questões: “Por que se importar com a igreja? Será que a igreja realmente é necessária para os crentes?” (YANCEY, 2006, p. 16). A motivação para responder a estas questões, está no desejo de demonstrar, para aqueles que estão dentro ou fora, ou ainda aqueles que estão pensando em sair, a necessidade que se tem da igreja.

O autor pontua que, o que lhe fez mudar de atitude para com a igreja, não foi encontrar uma comunidade ideal como ele imaginava, mas sim alterar o seu modo de olhar para a mesma. Yancey descreve algumas formas de olhar e, em cada um desses olhares, ele narra experiências que vivenciou, sendo parte de uma igreja no centro da cidade de Chicago.

Olhar para cima: “Na igreja posso olhar para o púlpito, como espectador, ou olhar para cima, para Deus” (YANCEY, 2006, p. 22).

Olhar ao redor: A igreja é o espaço onde podem congregar pessoas de classes sociais, etárias e de formação distintas, homens e mulheres, o evangelho pode comunicar a todos (YANCEY, 2006, pp. 23 - 27).

Olhar para fora: “aprendi que a missão da igreja se estende às necessidades da vizinhança” (YANCEY, 2006, p. 27).

Olhar para dentro: “quando vou à igreja, olho para dentro e peço a Deus que me purifique dos venenos de rivalidade e crítica, me enchendo de sua graça” (YANCEY, 2006, p. 30).

Além dos olhares, Yancey constrói várias metáforas, que ele chama de “atualizadas”, em comparação com as metáforas paulinas presentes nas cartas do Novo Testamento, sobre a

50 O título do livro em inglês é: Church, Why Bother? : my Personal Pilgrimage. Numa tradução livre: Igreja,

para quê? : Minha peregrinação pessoal. A primeira tradução deste livro para o português no Brasil ocorreu em

50 igreja. Por fim, ele tenta animar seus leitores a encararem as dificuldades do serviço na igreja, a despeito das diversas dificuldades que surgem no cotidiano eclesiástico.

Outra obra dedicada à mesma temática é de PeggySue Wells e Pat Palau, O que fazer

quando não queremos ir à igreja, publicada em 2008, pela editora Vida.

O livro está dividido em catorze capítulos, em cada um deles há um breve texto, que abarca mais ou menos o tema proposto para aquele capítulo e na sequência há uma série de depoimentos, que deveriam estar relacionados àquele assunto.

Não é possível ter certeza, mas a introdução do livro permite inferir que os depoimentos foram dados por colaboradores da Luis Palau Evangelic Association51. Porém, não há nenhuma explicação sobre como, quando e quantas pessoas realizaram os depoimentos e ainda estranhamente alguns depoimentos não estão na primeira pessoa.

As autoras, não realizam uma reflexão ou discussão sobre as angústias, tristezas, medos ou motivações, do porque das pessoas não quererem ir à igreja. Há sim, breves comentários sobre os erros cometidos pelas igrejas.

Parte-se da afirmação que “vamos à igreja porque temos o mesmo Pai celestial, somos uma família e, como tal, tratamo-nos bem. [...] todos nós nascemos na família de Deus e, seja como for, precisamos aprender a viver juntos” (WELLS & PALAU, 2008, p. 23). Ou seja, a igreja é uma família e não se abandona a família, independente das crises e das feridas que ela cause.

Conforme as autoras: “Não frequento uma determinada igreja porque ela é perfeita, mas porque é o lugar onde Deus deseja que nos reunamos como família” (WELLS & PALAU, 2008, p. 30).

Ao longo do texto há reiteradas afirmações sobre a importância da igreja e que se deve ir à mesma, em especial aos domingos. A seguir algumas destas ideias:

• Jesus Cristo estabeleceu a igreja para o nosso bem! Afastar-se completamente dela é como jogar a água da banheira com o bebê dentro (WELLS & PALAU, 2008, p. 139). • “O conselho que dou a todo cristão é o mesmo: frequente a igreja regularmente. [...]

Muito embora nossas igrejas não sejam perfeitas, procure não desenvolver um espírito crítico” (WELLS & PALAU, 2008, p. 9).

51 Trata-se de uma agência missionária evangélica que recebe o mesmo nome do marido de uma das autoras do

51 • “... precisamos ir à igreja porque as pessoas do grupo ao qual estamos unidos e ao qual pertencemos estarão lá. A adoração constante na companhia de outros cristãos controla nossa bússola e temperatura espirituais” (WELLS & PALAU, 2008, p. 24).

• “A igreja é um bem, uma ferramenta, uma comunidade, uma comunhão e um lugar que devemos frequentar” (WELLS & PALAU, 2008, p. 26).

• “Nada pode substituir a igreja com “i” minúsculo52” (WELLS & PALAU, 2008, p.

30).

• “Sei que é impossível de reunir-se e dizer honestamente: ‘Não adiantou nada’” (WELLS & PALAU, 2008, p. 66).

• “Assumi o compromisso de ir à igreja regularmente. Quando tenho vontade de ficar em casa, é Satanás trabalhando para me dar uma desculpa” (WELLS & PALAU, 2008, p. 67)53.

• “Concentre-se nos aspectos positivos [da igreja]; entregue os negativos a Jesus Cristo e confie nele” (WELLS & PALAU, 2008, p. 140).

Não há, por parte das autoras, nenhuma preocupação em escutar os sem igreja, há apenas uma insistente e quase enfadonha necessidade de se afirmar e reafirmar que a igreja é importante e se deve pertencer a uma comunidade local.

Gente Cansada de Igreja, do pastor Batista, Israel Belo de Azevedo, foi publicado em

2010, pela editora Hagnos é outra obra de referência para o tema em questão.

Azevedo admite que haja muitas pessoas cansadas e desanimadas nas igrejas evangélicas e isto ocorre por diversos fatores. Alguns citados pelo autor são:

Por vezes na igreja sobra cérebro para discutir temas irrelevantes e falta inteligência e criatividade para encontrar soluções novas para um tempo novo que tem as carências de sempre (AZEVEDO, 2010, p. 17).

Há gente cansada porque deu muito e acabou sufocada pela incompreensão e pela crítica. Há gente cansada por não ter feito nada. Há gente cansada que se cansou da sua própria acomodação. Há gente cansada de esperar atitudes coerentes (AZEVEDO, 2010, p. 18).

Para o autor, o resultado deste cansaço é a não utilização dos dons que os cristãos possuem e no estágio seguinte é o afastamento da igreja. Ao longo do texto, Azevedo deixa claro que o caminho, para superar o cansaço, o desânimo e o desencanto com a igreja é que

52 “A congregação local é a igreja com “i” minúsculo” (WELLS & PALAU, 2008, p. 18). 53 Este trecho foi extraído da parte dos depoimentos.

52 cada cristão atenda ao desafio que o apostolo Paulo apresentou ao seu discípulo Timóteo54 e desperte o dom que há em si.

Tendo esta solução como ponto de partida, há uma explicação sintética sobre o que são os dons e a diferença para com o fruto do espírito: “Os dons são os trilhos pelos quais viaja o fruto do Espírito” (AZEVEDO, 2010, p. 76). Também há um capítulo agrupando em categorias os diversos dons citados no texto bíblico.

A construção lógica da argumentação do autor é que “todo cristão tem um ou mais dons. Se você acha que não tem nenhum, tem algo errado com você. Na verdade, você tem um dom; apenas o desconhece; porque não o quer ou não busca saber” (AZEVEDO, 2010, p. 76). Porém, o dom é “uma habilidade espiritual, transitória ou permanente, dada a alguém pelo Espírito Santo para ser usada na igreja local55, visando a edificação dos crentes” (AZEVEDO, 2010, p. 70).

À qual conclusão se chega com este axioma? “experimente dar louvor a Deus fora da igreja. Aos poucos, você vai se esquecendo do louvor. [...] experimente fazer de Deus a sua prioridade fora da igreja, e o resultado será uma vida centrada em si mesmo” (AZEVEDO, 2010, p. 115).

Para o autor, a igreja é extremante importante e quem está cansado ou não tem mais o desejo de pertencer a uma comunidade de fé local, precisa alterar os seus conceitos e convicções, para estar inserido na igreja, pois “podemos medir o tempo que gastamos com ele [Deus] pelo tempo que passamos na igreja” (AZEVEDO, 2010, p. 64).

Do mesmo autor acima referido, o pastor Israel Belo de Azevedo é o livro Igreja.

Acabou? publicado em 2011, pela editora Hagnos.

Ao ler o título e o autor do livro, o leitor pode imaginar que o assunto abordado será o processo de desinstitucionalização que está ocorrendo no meio evangélico. Porém, não é bem isso que ocorre. O autor procura ao longo dos dezesseis capítulos, (que não são necessariamente uma sequência) demonstrar a importância da igreja, através da explicação de textos bíblicos, em especial os extraídos do livro de Atos.

O livro não possui introdução, conclusão e nem bibliografia. Apesar de em nenhum momento do texto haver a indicação de que os textos são originados em sermões, é esta a impressão que se tem ao final da leitura.

54 Conforme o texto bíblico da segunda carta de Paulo a Timóteo, capítulo um versículos de seis a onze. 55 Grifo do autor da dissertação.

53 Em todo o texto não há os termos sem igreja, desigrejados ou outros correlatos, porém a dois trechos em que o autor indiretamente, utilizando a sua metodologia de comentar textos bíblicos ou cita-los, toca no assunto. São eles:

Outro equivoco é pensar que a igreja-igreja56 é dispensável. Cada cristão é santuário

do Espírito Santo (veja 1Co 6.19), mas não é uma igreja. A igreja é uma comunidade de pessoas regeneradas.

Jesus se refere à igreja (cuja palavra significa assembleia, reunião) como um conjunto de pessoas (veja Mt 18.17). O livro de Atos se refere à igreja como uma coletividade que se reúne (At 5.11), em casas ou sinagogas (AZEVEDO, 2011, p. 70).

Um pouco mais à frente o autor chega à seguinte conclusão:

As epistolas são, em sua maioria, dirigidas às igrejas formadas por várias pessoas. Não existe igreja no singular; só no plural. Eu não sou uma igreja; faço parte de uma; somos uma igreja.

Cristão sem igreja é uma contradição. Cristão sem igreja é cristão fraco. Cristão sem igreja é cristão que abençoa pouco, talvez nada (AZEVEDO, 2011, p. 71).

Apesar de ao longo do texto haver comentários sobre as dificuldades e os erros que as igrejas evangélicas cometem para Azevedo o problema ou a culpa por estar fora da igreja é da própria pessoa, que optou pela não pertença e fora da igreja não é possível ser cristão, nem abençoar outras pessoas.

Os Sem-Igreja: Buscando caminhos de esperança na experiência comunitária, do

brasileiro Nelson Bomilcar, foi publicado em 2012, pela editora Mundo Cristão.

Bomilcar atua como pastor há muitos anos, além de seu envolvimento com entidades evangélicas para eclesiásticas, como ABUB, VPC, MPC, Jocum57 dentre outras. Este livro é escrito após um período em que o autor passou fora de igrejas institucionalizadas, participando de um grupo informal chamado no name, e posterior retorno à igreja, porém, já não como pastor de uma igreja local e sim com um ministério itinerante. (BOMILCAR, 2012, pp. 3 – 28).

O livro é escrito em primeira pessoa, com diversos relatos sobre a vivência do autor no meio evangélico e sobre seus referenciais para a sua vida religiosa. Porém, não há uma descrição sobre o período em que ele estava neste grupo informal de cristãos.

56 Para o autor igreja-igreja, é um grupo de pessoas que se reúnem, periodicamente em um mesmo local e

possuem uma instituição civil.

57 ABUB: Aliança Bíblica Universitária. VPC: Vencedores por Cristo. MPC: Mocidade para Cristo. Jocum:

54 Neste livro, o autor reconhece que os sem igreja crescem de maneira “avassaladora” no Brasil e que os mesmos possuem reclames e questões “pertinentes, relevantes e urgentes” (BOMILCAR, 2012, p. 15).

Em síntese, este autor persegue dois objetivos em seu livro: Primeiro uma proposta declaradamente “pastoral, não acadêmica” (BOMILCAR, 2012, p. 21), nas palavras do autor: “não tenho a intenção de oferecer a receita de bolo de um assunto tão sério e delicado como este” (BOMILCAR, 2012, p. 28).

Segundo: em diversos momentos o autor reconhece como o espaço da igreja é um local suscetível a causar danos emocionais e espirituais a seus integrantes, como no trecho abaixo:

Minha experiência não é diferente da experiência de muitas pessoas que viveram bons e maus momentos como igreja – com bênçãos e cicatrizes, com encantamentos e com decepções. Constatamos essa realidade de igreja, que é real e ambígua, a partir de grandes desafios, principalmente do universo protestante de grande herança histórica, na grande maioria das vezes vivenciada de forma fortemente institucional e estrutural e com uma organização muitas vezes exacerbada, engessada e previsível (BOMILCAR, 2012, p. 28).

Por outro lado, há também criticas aos sem igreja.

Alguns sem-igreja se transformam em pessoas negativas, graves, pesadas, desesperançosas. Não desejam mais partilhar sua caminhada cristã e preferem manter- se em seus casulos e em suas bolhas, fora da comunidade (seja ela formal, seja informal), vivendo uma liberdade sem limites, sem qualquer tipo de sujeição ao irmão ou a autoridade, desconsiderando o próximo e estando alheio ao senso de serviço, de partilha e de missão (BOMILCAR, 2012, p. 26).

Ao longo do livro, Bomilcar trabalha sua argumentação para convencer os que estão dentro e fora da igreja, a não desistirem da experiência comunitária de “ser igreja” (expressão que ele utiliza reiteradas vezes), que mesmo institucionalizada pode proporcionar aos cristãos que servem e se esforçam para compartilhar a jornada. Nas palavras do autor:

Creio sinceramente que não devemos desistir de buscar caminhos de esperança, que nos encorajem a seguir a experiência comunitária de ser igreja. A proposta de vivenciarmos a comunhão que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo – a de, apesar de nossas diferenças e opiniões, preservarmos a unidade em amor enquanto servimos a ele e ao próximo na implantação de seu reino – continua sendo contagiante e desafiadora (BOMILCAR, 2012, p. 193).

55

Dê Outra Chance à Igreja, livro do americano Todd Hunter, foi publicado nos E.U.A.

em 2012. No final do mesmo ano a Editora Ultimato já disponibilizava o mesmo nas livrarias brasileiras.

Hunter informa logo no início que “este livro é destinado a todos aqueles que frequentaram a igreja e sentiram que ela deixou a desejar. Contudo, em algum lugar em seus corações, anseiam por uma vida espiritual ao modo de Jesus” (HUNTER, 2012, p. 17).

Após atuar durante muitos anos como pastor, Hunter entra em crise, em suas palavras: “me vi lutando para relacionar a igreja às práticas da minha vida diária. Foi a primeira vez na minha vida que perdi o ânimo de congregar” (HUNTER, 2012, p. 17).

Um dos principais auxílios, para ele nesta fase, foi a descoberta do movimento de formação espiritual, que tem entre seus principais expoentes Richard Foster, Eugene Peterson, Dallas Willard, James Houston entre outros. Este movimento trabalha com uma espiritualidade contemplativa, que valoriza a quietude, meditação a partir da leitura da bíblia e a mística da relação com Deus (HUNTER, 2012, p. 10).

Hunter praticamente não discute sobre o porquê das pessoas terem deixado a igreja. Em sua opinião, o problema está naqueles que saíram. O autor acredita que “98% da crítica contra a igreja está ligada ao que acontece em apenas uma hora da semana” (2012, p. 31).

Qual a solução para este problema? Os sem igreja e os que estão na igreja, mas, realizam criticas a mesma, deveriam focar nas práticas espirituais da igreja.

Hunter utiliza a maioria dos capítulos, do segundo ao nono, para descrever o que seriam estas práticas.

Dissidentes da Igreja : Entendendo e Defendendo a Igreja, é um pequeno livro

publicado em 2012, pela editora Reflexão.

O livro parte do aumento de números de evangélicos indeterminados58 constatado nas pesquisas do IBGE, nos últimos anos e apresenta sete razoes para a existência de pessoas sem igreja, a saber: decepção, abuso religioso, individualismo, cultura da descartabilidade, balança injusta59, antinomismo60 e descredibilidade dos de dentro.

58 Neste livro o autor utiliza os termos: decepcionados com a igreja, sem igreja, desigrejados pós-igrejas e

dissidentes da igreja como sinônimos.

59 “Abandonaram a igreja por não aceitarem que algumas pessoas, que ainda sustentam pecados mundanos,

possam fazer parte do mesmo grupo ao qual pertencem. [...] esses dissidentes colocaram o caráter de seu próximo em uma balança de perfeições e esperam que tais pessoas fossem perfeitas, no entanto foram surpreendidos” (CORRÊA, 2012, p. 38).

56 Como diz o subtítulo do livro, o mesmo procura claramente defender a “igreja instituição”61 do equivoco, talvez, a pesar do autor não afirmar, mas esta é a sensação que se tem nas entrelinhas, do erro herético de ser um cristão sem pertencer a uma igreja organizada. Os trechos selecionados abaixo expõe o olhar de Corrêa sobre a questão.

• “Cristãos sozinhos enfrentam problemas grandes demais para eles, pois não têm a força da comunhão para dividir o problema. Cristãos sozinhos choram mais lágrimas do que cristãos que vivem em comunhão na igreja, porque não têm com quem dividir as lágrimas” (CORRÊA, 2012, p. 33).

• “Os dissidentes estão certos em suas críticas a uma igreja que não é relevante para a sua sociedade, mas estão falhando ao abandonarem a mesma” (CORRÊA, 2012, p. 46).

• “Já aqueles que não sentem falta de congregar com outros irmãos, e se unir como corpo de Cristo visível aqui na terra, fica o pensamento de Willian Tample quando diz que “aqueles que nada têm em comum não sofrem por estar separado62”” (CORRÊA, 2012, p. 50).

Para este autor a igreja instituição é importante e necessária, pois nela é possível ter oportunidade para: ter comunhão, desenvolver-se espiritualmente, exercer os dons, ter filhos cristãos e evangelizar (CORRÊA, 2012, pp. 47 - 55).

Desigrejados : Teoria, História e Contradições do Niilismo Eclesiástico63, do pastor congregacional, Idauro de Oliveira Campos Junior, foi publicado em 2013, pela editora Contextualizar.

O texto de Idauro Campos é claramente apologético, sua pesquisa concentra-se em demonstrar as incongruências do movimento que pejorativamente é chamado de “niilismo eclesiástico”64. Seu esforço está em defender a igreja de Cristo, que ele tanto ama (CAMPOS, 2013, pp. 229, 230). A epigrafe do livro na pagina 13 traz o seguinte texto: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Jesus Cristo)”.

61 Termo utilizado pelo autor do livro, por exemplo, na página 31.

62 Esta frase está no livro Para ler a história da igreja de Jean Comby, na página 184.

63 Este livro é a dissertação de mestrado do autor em Ciências da Religião, cursado no Seminário Teológico

Congregacional do Rio Janeiro. Este curso não é reconhecido pelo MEC.

64 Para Campos “o termo niilismo deriva do latim (‘nihilo’) e significa ‘nada’. Com o construto ‘niilismo

eclesiástico’ se pretende classificar os cristãos que advogam um cristianismo totalmente despido de formas, estruturas e concretude institucional” (2013, p. 27).

57 Como os evangélicos sem igreja são um movimento muito disperso, sua argumentação concentra-se principalmente em desconstruir o livro Cristianismo Pagão : Analisando as

Origens e Práticas da Igreja, de Frank Viola e George Barna, publicado no Brasil em 200865. Neste livro Viola e Barna advogam um cristianismo sem: templo/edifício, ministros ordenados e sem sermões previamente preparados, ou seja, um rompimento com o modelo utilizado pelas igrejas evangélicas, trazendo como solução para as práticas “pagãs” que se instalaram dentro do cristianismo, reuniões informais nos lares.

Uma boa parte do livro de Campos, da pagina 89 a 136 é utilizada com apresentações resumidas de movimentos restaurocionistas dentro de grupos/igrejas cristãs ao longo de vinte séculos, são eles: Montanismo, os pais do deserto, donatismo, Pedro Bruys e Henrique de Lausanne, Hugo Speroni, Joaquim de Fiore, os anabatistas, os quakers, os darbistas e o cristianismo arreligioso de Dietrich Bonhoeffer.

Para o autor, o fato destes movimentos terem sido reconhecidos ao longo da história como restaurocionistas ou heréticos pelo cristianismo “oficial”66 conecta-os com os desigrejados contemporâneos. A apresentação destes grupos se dá apenas para demonstrar que “o movimento dos desigrejados, portanto, não é novo. [...] (e) não configuram em nenhuma novidade para o cristianismo” (CAMPOS, 2013, p. 136).

Em seu trabalho de desconstrução, Campos demonstra a institucionalização presente em Israel, através do Antigo Testamento e a institucionalização das igrejas durante o primeiro século, através do Novo Testamento (CAMPOS, 2013, pp. 139 - 157) e apresenta grandes questões institucionais da igreja que os desigrejados (leia-se Viola e Barna) não questionam, logo realizam uma contradição, são elas: o credo apostólico, os quatro primeiros concílios e o