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Diante das transformações impostas pelo fator histórico a religião não ficou imune, segundo Queiruga, o cristianismo necessita empreender uma nova caminhada, no qual o diálogo esteja presente, pois a nova sociedade dinâmica exige a reestruturação no modo de repensar teologicamente para atualizar a compreensão da experiência da fé. Portanto se faz necessário recuperar o

sentido original do conteúdo da fé, transformando o que for preciso, para o cristianismo voltar a ser significativo41.

Pois, na medida em que a autoridade da Igreja tradicional foi sendo subjugada e o Estado moderno adquiriu seu caráter baseado em leis abstratas, a liberdade individual tornou-se o tema a ser defendido pela sociedade moderna. O efeito dessa luta contra a opressão, a favor da liberdade individual, legou ao homem religioso um leque amplo de opções religiosas. O homem torna-se um andarilho ou um religioso peregrino marcado pela pouca coerência, inconstância de escolhas e volubilidade. Como um ser mutante e mutável ele se locomove dentro de um mundo pluralizado de escolhas religiosas, ancorado no próprio intimismo, senhor do sentido e significado que quer atribuir á própria existência.

Durante toda a Idade Média, a Igreja Católica não só foi uma força produtora de conhecimento, mas uma força modeladora de uma visão de mundo, de uma ordem social e de formulações simbólicas ancoradas no

ethos42 religioso cristão. O catolicismo elaborou um “quadro de visão” sobre o

homem e sobre o mundo. Em outras palavras, o catolicismo organizou uma conduta de vida, uma rede de valores e uma visão de mundo, sem falar nas

41 Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres.

Fin del cristianismo premoderno. p. 208-209.

42 Segundo Clifford Geertz, o

ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida,

seu estilo moral e estético e sua disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete. A visão de mundo que esse povo tem é o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito da natureza, de si mesmo, da sociedade. Esse quadro contém suas idéias mais abrangentes sobre a ordem. Cf. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1989. p. 143-1444.

Analogamente à cultura, podemos dizer que o catolicismo também se compreende como um sistema de sinais, símbolos, concepções, manifestações expressas e transmitidas histórica e culturalmente nos âmbitos espiritual, político e cultural. Todo o arcabouço religioso do catolicismo é um construto cultural. Os símbolos, as concepções, a cosmovisão, tudo isso foi construído no decorrer dos séculos, ou seja, a tradição católica foi construída no decorrer do tempo.

concepções teológicas e metafísicas acerca de Deus. Durante séculos, o catolicismo foi entendido como um sistema de interpretação do mundo. O mundo, o homem e os valores eram interpretados a partir de uma perspectiva religiosa católica. A Modernidade põe em crise essa perspectiva religiosa do mundo, tirando-a do front do pensamento e empurrando-a para os porões do

conhecimento e da ciência, pois, esta não necessita de uma linguagem religiosa para discutir os problemas do mundo. Diante desse processo a visão única de religião entra em crise possibilitando uma pluralidade religiosa. Nesse panorama, a teologia é chamada a repensar o cristianismo – nossa hipótese segue nesse rumo –, a sair do horizonte pré-moderno; a instituição, por sua vez, é chamada a renovar-se com coragem, acreditando no processo de democratização do poder eclesial.

Dada a sua longa trajetória histórica, o catolicismo carrega uma conotação política, social e cultural forte e pesada. Além de compreender-se como um sistema de interpretação do mundo, o catolicismo sempre se compreendeu como uma realidade pública que, através de suas representações e símbolos, estava marcadamente presente em todas as esferas da sociedade. Em outras palavras, o catolicismo ocupava um lugar central no mundo ocidental e era um elemento poderoso que conferia significado ao cosmo e ao homem. A Modernidade, porém, tenta enclausurar a religião na sala da vida particular e privada do homem, tirando sua relevância da vida pública. Tenta enfraquecer a religião como força social e se sustenta sem a presença pública da mesma. Esse afastamento da religião da vida pública era visto pelos cristãos como um mergulho no caos, uma suspeita de que se poderia estar perdido num mundo absurdo e sem rumo. Para Hans

Küng a Igreja Católica manteve uma atitude antimoderna com orientação espiritual da patrística e da Idade Média em relação à Modernidade. Segundo ele,

A Igreja Católica procurou conservar seu paradigma medieval e da Contra-Reforma até o Concílio Vaticano II, por meio de decretos autoritários, sanções disciplinares e estratégias políticas. Diante da ameaça da Modernidade no século XIX e de modo especial do liberalismo e do socialismo, ela se refugiou na centralização e burocratização.43

Isso possibilita pensar que na Igreja Católica existia certo medo de um processo de desintegração e desconstrução de sua estrutura religiosa que dava sentido a sociedade. Ela temia que outras estruturas culturais tomassem seu lugar. Ela deveria funcionar corretamente para manter a ordem social. Pensar o catolicismo como estrutura é compreendê-lo como um conjunto de princípios, idéias, concepções, doutrinas, valores, visão de mundo e símbolos que abrangem um amplo campo de conhecimento, de representação, de ação e de interpretação do homem e do mundo. Trata-se de um conteúdo denso e complexo, produto de um processo histórico e cultural secular. Ou seja, a noção de estrutura permite pensar o catolicismo como um bloco em choque com uma Modernidade pluralista.

Também podemos levantar a hipótese de que a configuração histórica do cristianismo abarca todas as possibilidades, pois não é legitima a pretensão de uma única forma – caso da Igreja Católica – ser ela somente verdadeira.

43 KÜNG, Hans.

Teologia a caminho: fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo,

Desde as origens o cristianismo sempre foi plural em suas configurações históricas44, mesmo sem ter presente ou assumir essa multiplicidade. Pois, à

medida que ocorrem mudanças ou a cada novo encontro cultural há necessidade de transformações para continuar sendo um horizonte de sentido. O encontro entre fé cristã e a cultura possibilita a abertura a uma postura de diálogo, ocorrendo uma socialização no processo que cada parte dá e recebe, ensina e aprende. Isso pode ficar claro na relação ao diálogo inter-religioso, que foi possibilitado pelo pluralismo religioso imposto pela Modernidade, colocando em xeque toda tradição cristã.