3.4 EXPERIÊNCIA-SOFRIMENTO
3.4.1 A Igreja como poder de opressão
existência por um único encontro, muito menos por encontros exclusivamente bons ou maus. Todo sujeito circula por diferentes possibilidades. Vive na busca da viabilização dos bons encontros, pois são esses que permitem que ele seja afetado e afete o outro na produção e na construção de desejos.
A experiência-sofrimento seria esses maus encontros que fornecem forças para que o sujeito continue a viver na busca de forças que aumentem a potência de agir para a efetivação de bons encontros. Não é estanque, muito menos é uma repetição do igual. São movimentos, linhas que se aproximam e se afastam, que podem provocar transformações, construindo e desconstruindo modos de existência. Com esse entendimento de existência-sofrimento, não reduzimos os sujeitos à doença. Não serão tratadas as doenças, mas sim os sujeitos que se encontram em situação de sofrimento, com suas variadas experiências de vida, dor, angústia e abandono, mesmo que seja por si próprio. (DELEUZE, 1988b).
Falaremos dessas experiências-sofrimento que diminuem as potências de agir, mas que ao mesmo tempo permitem que o sujeito lute pela busca de bons encontros. Esses encontros marcam e transformam não só os sujeitos, mas também as sociedades, até porque o sujeito é um ser social. Algumas dessas forças ditam regras a serem seguidas e cumpridas, outras estão em todos os espaços de circulação. Todas participam da teia da vida.
Neste último eixo temático, as categorias que o compuseram foram as seguintes: a Igreja como poder de opressão; as instituições totais continuam atormentando e a cura continua sendo esperada; família e sociedade: padrões impostos e imutáveis.
3.4.1 A Igreja como poder de opressão
A igreja e suas intervenções foram temas bastante polêmicos, que geraram diversas discussões em vários momentos dos encontros. Diferentes posturas foram assumidas, defendidas e rechaçadas, mas esse foi um espaço onde as diferenças
eram possíveis e as vozes eram ouvidas.
Qualquer igreja, qualquer igreja reprime os outros...reprime sim. Não pode usar batom, não pode usar uma calça comprida, não pode trabalhar nos sábados, não pode fazer isso no sábado ou no domingo, não pode comer carne de porco. (Rubi, usuário. Filme:
Chocolate)
Todos concordavam que a Igreja possui um poder muito grande sobre os sujeitos e que esse poder é utilizado em nome da massificação de comportamentos. Essa foi a opinião que durante os encontros foi a mais defendida e manifestada. Tal massificação não permite a manifestação do diferente e mantém a Igreja como líder, dona do poder. Para que esse poder surta efeito sobre os sujeitos, os participantes das Igrejas utilizam estratégias que geram medo e culpa. Utilizam ainda os nomes dos santos, de Deus e de Jesus como instrumentos de opressão. Os sujeitos, por acreditarem e aceitarem aquilo que os representantes legais manifestam, submetem-se ao imposto. Assim, esses sujeitos têm afetos abafados, seus desejos são recriminados e seus comportamentos julgados como inadequados. Isso promove revoltas em algumas pessoas e em outras a docilidade dos corpos.
Só que a igreja católica a partir do momento em que descobriram que ela queimava pessoas vivas na antiguidade eles pararam pra pensar. Tanto é que eu troquei de religião!... e depois começou a abrir mais igrejas, para abrir mais os olhos das pessoas de uma forma diferente. (Raposa, usuário. Filme: Chocolate)
Quando os sujeitos se incomodam com as atitudes impostas pela Igreja e possuem força para mudar, eles tentam de alguma forma imprimir seus comportamentos de revolta. Isso não significa que sejam criadas manifestações agressivas ou violentas. Alguns simplesmente mudam de Igreja ou criam suas próprias Igrejas. Essas atitudes de mudança são uma tentativa de agenciar encontros produtivos.
Segundo Almeida et al (2006), a religiosidade na saúde mental não é uma controvérsia apenas nas discussões entre os usuários de saúde mental, mas também no mundo acadêmico. A religiosidade para esses autores pode estar relacionada tanto com questões negativas quanto com positivas. É necessário que o profissional de saúde mental possa ouvir e auxiliar no direcionamento da religiosidade de forma que essa venha a contribuir no cuidado psicossocial, pois é
sabido que a religiosidade faz parte da vida das pessoas. É importante que esses profissionais entendam do envolvimento que existe dos sujeitos com a religiosidade, para que sejam evitados abusos religiosos, principalmente onde há maior vulnerabilidade social. A vulnerabilidade social muitas vezes enfraquece o sujeito, reduz suas potências de agir, diminui o número de intercessores momentaneamente e limita o acesso às linhas de fuga, o que aumenta a possibilidade de fortalecer aqueles que histórica e culturalmente já são fortes e dominantes.
A Igreja também pode exercer um poder positivo sobre os sujeitos, fortalecendo suas relações e motivando a luta pela vida. Esse tipo de poder apareceu durante os encontros, principalmente na fala daqueles que conseguiram enfrentar uma grande dificuldade. Apareceu, ainda, nos relatos de participantes que estão atualmente enfrentando uma dificuldade e não possuem rede social qualificada para fornecer suporte. Esses últimos sujeitos precisam encontrar um lugar que lhes dê força para continuar e, muitas vezes, esse lugar de acolhimento é a Igreja.
Em outros momentos, a Igreja aparece como uma das responsáveis em impedir que os sujeitos se desenvolvam, cresçam e aumentem seus poderes de escolhas. Nessas falas, ela também é instituição que exerce um poder velado de proibição, que impede que os sujeitos se tornem seres críticos e formadores de opiniões. O sujeito se torna mais um entre tantos e a Igreja permanece com o domínio. Tais depoimentos foram trazidos, na sua maioria, por participantes que identificam terem sofrido violências em suas histórias de vida por parte da Igreja. Refiro-me aqui a diversos tipos de violências: aquelas de deixam marcas físicas e as que cristalizam alguma subjetivação no sujeito, são as marcas internas. Ambos os tipos de violências, nesses casos, foram geradores de força para que os sujeitos pudessem se transformar e continuar a viver.
A conclusão que eu chego é que todos eles querem ser o dono da verdade, enquanto o dono da verdade morreu em silêncio numa cruz... a religião é uma utopia...é uma forma também de oprimir a pessoa. De não dar liberdade das pessoas fazerem o que elas gostam. (Rubi, usuário. Filme: Chocolate)
É importante notar que muitos sujeitos continuam percebendo a Igreja como uma instituição que impõe seu poder na sociedade. Não é mais um poder que se dá principalmente por meio da estrutura física, mas também pela imponência de suas
obras. É um poder que aparece diluído no cotidiano e na vida da sociedade. Não é mais uma instituição total, exatamente nos moldes que nos coloca Goffman (2003), mas continua sendo uma instituição total em uma sociedade de controle.
3.4.2 As instituições totais continuam atormentando e a cura continua sendo