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3. FIÉIS VASSALOS

3.2 A Igreja e a Revolta de Beckman

Até aqui temos chamado atenção para o bispado como um novo poder inserido na estrutura política do Maranhão seiscentista, percebendo que o bispo foi bastante atuante naquela sociedade, tendo sido, inclusive, um dos agentes responsáveis pela construção daquela opressão reclamada por Beckman e sectários. Por isso, o papel do bispo neste processo merece atenção, pois como o mais poderoso agente da Igreja no Maranhão, ele certamente estabeleceu uma posição ante ela e os revoltosos. Mas além do bispo, outros agentes eclesiásticos, individualmente ou em grupo, estiveram diretamente envolvidos no conflito e suas atuações não devem ser desprezadas, pois além de estarem atreladas aos procedimentos do bispo, foram fundamentais para o desenvolvimento da revolta.

No primeiro domingo da Quaresma de 1684, os principais da terra e o governador interino reuniram-se na catedral para a missa. O pregador daquele dia era o 336 Fredrick B. Pike. “The municipality and the system of checks and balances in Spanish American

colonial administration”. Academy of American Franciscan History. 1958.

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Senhora do Carmo, o seu vice-provincial, frei Ignácio Ventoso levantava sua voz contra os governantes do Maranhão. Não temos acesso direto às palavras proferidas por aqueles religiosos em suas pregações naquele dia. Mas, em todos os cronistas, a

interpretação é uma só: Moraes conta que “um religioso” pregava “tão apaixonado na ponderação do contrato”, de forma que dele teriam resultado as misérias dos homens

nas fazendas e a perdição do Maranhão;338 para Bettendorff, “declaravam os pregadores

seus apaixonados ânimos contra o estanque, picando em os inocentes missionários da

Companhia de Jesus, do que já deram conta a Deus, justo e reto juiz”;339 para Berredo,

pregaram “com expressões tão vivas no ódio do estanco, [...] a principal origem das

enfermidades [..., que] não deviam esperar milagres para seu remédio, quando o tinham

nas suas próprias mãos”.340 Por outro lado, João Francisco Lisboa argumenta que o sermão decisivo foi o proferido na matriz do Carmo, quatro dias antes do levante.341 Berredo conta que o provedor-mor Francisco Teixeira de Moraes procurou advertir ao capitão-mor Balthasar Fernandes sobre o perigo iminente representado por aquelas pregações, mas o governador interino parece não ter se preocupado. Afinal, ele mesmo presenciara um daqueles sermões e viu os aplausos dos fieis às palavras do pregador na catedral.

Além dos carmelitas, os religiosos de Santo Antônio participaram ativamente, inclusive cedendo o pátio do seu convento para as duas reuniões realizadas antes da revolta: a primeira, em data incerta, num domingo, quando foram formuladas as principais críticas à Companhia de Comércio e aos jesuítas. Bettendorff comenta que, sobre a primeira, concluíram que deveriam tirá-la, por ser “danosa à República” e sobre os segundos, deveriam tirar-lhes o poder temporal, embora não tivessem cogitado sobre a expulsão. Na segunda reunião, realizada na noite do dia 23 de fevereiro, os capuchos foram os primeiros a sair batendo nas casas para convocar o povo para decidir sobre aqueles assuntos em sua clausura; à porta do convento assentava-se Manuel Beckman

como “presidente”. Por outro lado, não há qualquer notícia da participação de algum

eclesiástico na reunião promovida por Beckman em seu engenho de Vera Cruz no rio

Mearim, onde nasceu aquela “horrorosa máquina da discórdia”, nos termos de Berredo.

338

Moraes, Op. Cit., p. 313.

339Bettendorff, Op. Cit. P. 360.

340 Berredo, Op. Cit. p. 320. Note-se, aliás, que este discurso baseado na medicina foi o mesmo

empregado por Beckman no momento do levante, conforme descrito na introdução deste capítulo.

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final de 1683 e o início de 1684, os eclesiásticos aderiram aos seus conteúdos. Parece que os discursos saíram dos papéis para as pregações religiosas no mês de fevereiro e estas aumentaram no interim entre as duas reuniões realizadas em Santo Antônio. João

Lisboa aponta que “no púlpito engendravam-se comédias burlescas acomodadas ao

intento, em que os assentistas e os seus parciais figuravam de fariseus, e o povo de São Luís, para lhe puxarem pelos brios adormecidos, de bobo, e objeto de escárnio de seus

opressores”.342 Quando a revolta explodiu na madrugada do dia 24 de fevereiro, o número de eclesiásticos envolvidos não era pequeno. Entre os principais religiosos, contam-se frei Ignácio Ventoso, provincial do Carmo, frei Ignácio da Fonseca e Silva, vigário-geral e ex-comissário da Inquisição no Maranhão, o carmelita Elias de Santa Thereza, o franciscano Inácio de Assumpção, e outros.343

A essa proliferação de discórdias entre povo, clero e governantes assistia o bispo D. Gregório dos Anjos, sem, ao que parece, fazer nada. À efetiva e plural atuação do clero nestas questões políticas contrapõe-se o posicionamento do bispo, uma figura quase totalmente ocultada pelos cronistas durante a revolta. A historiografia deu pouca atenção à sua atuação, quase desculpando-o pela sua “indiferença”. Por isso, a impressão é que o bispo esteve ausente do momento ou absteve-se de participar. Bettendorff aponta que alguns chegaram a falar contra ele, mas que “defendeu-se

valentemente, mostrando a falsidade que lhe queriam imputar”.344D. Francisco de Paula

e Silva afirma que o governador acusou o bispo de falar “descompostamente” contra o

estanco, mas diz que tal acusação deu-se pelo fato do bispo apenas denunciar a corrupção da empresa; mostra ainda que o bispo foi advertido acerca daquelas

342

Lisboa apud Meireles, Op. Cit. p. 86.

343Nota-se um problema nas referências dos nomes dos padres envolvidos na revolta, que não foi possível

dirimir, nem confrontando os autores, nem por meio da documentação. Contudo, pode-se fazer o seguinte

alerta: “Ventoso” era o apelido daquele Ignácio; além disso, há dois Ignácios, cujos sobrenomes são

parecidos, e provavelmente um deles é o “ventoso”, pois seu nome sofre variações nas obras, quase confundido com Ignácio de Affonseca e Silva, nomeado por Maria Liberman como o comissário do Santo Ofício no Maranhão, junto a Manoel de Brito. Contudo, não dá para saber se o Ignácio Affonseca

comissário é o mesmo Ignácio Fonseca “ventoso”. No mais, Liberman diz que o outro Inácio de

Assumpção era franciscano. Mas Berredo diz que um Inácio da Assunção, carmelita, provincial da sua ordem, presidia o estado eclesiástico junto com o vigário Ignácio da Fonseca e Silva. Bettendorff diz que

o Inácio carmelita era apelidado de “ventoso”, mas não diz qual era seu sobrenome. Estas informações

estão muito dispersas nos escritos destes autores, já citados.

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não coibir tais abusos.345Os motivos, contudo, são inteiramente ignorados.

Essa visão é problemática, pois naquele mesmo tempo, o bispo travava um grave conflito de jurisdição com a justiça régia e estava em querela com a câmara de Belém por tê-los excomungado, sendo a excomunhão invalidada pelo ouvidor-mor do Maranhão. Ora, se o bispo incomodava-se com os poderes temporais, porque não se moveria ante os poderes eclesiásticos? Inicialmente, pode-se considerar que os agentes envolvidos eram muitos e a situação do bispo era desfavorável a uma intervenção direta. O quadro político que favoreceu a revolta de 1684 está impregnado da atuação do clero, regular ou secular. A historiografia que tratou das revoltas coloniais deu pouca ou quase nenhuma atenção ao papel fundamental dos agentes eclesiásticos, seja contribuindo para a explosão das rebeliões, seja atuando diretamente nelas. Luciano Figueiredo, por exemplo, tem estabelecido importantes questões sobre as revoltas ocorridas no Estado do Brasil entre os séculos XVII e XVIII as quais têm sido lidas por diversos motivos, políticos, econômicos, identitários, sociais etc., mas pouca atenção tem sido dada ao caráter religioso dos movimentos.

A Igreja aparece muito pouco, talvez porque tenha-se entendido que ela não influenciou aquelas revoltas ou porque não tenha prestado atenção na atuação do corpo

eclesiástico antes e durante os conflitos. Essa “ausência” da Igreja nas revoltas

provavelmente tem a ver com o fato de que não havia bispado em algumas regiões nas quais explodiram as mais emblemáticas revoltas no Estado do Brasil: 1640 em São Paulo, 1661 no Rio de Janeiro e 1720 em Minas Gerais; a exceção é 1710 em Pernambuco, quando o bispo D. Manuel Álvares da Costa era também governador interino da capitania durante as alterações dos mascates, ante o que ficou bastante acuado, conforme demonstra Evaldo Cabral de Mello.346Mesmo sem bispos, é provável a participação em menor ou maior grau de religiosos nas revoltas coloniais, a menos que a revolta de Beckman seja uma exceção.347

345 D. Francisco de Paula e Silva. Apontamentos para a História Eclesiástica do Maranhão. Bahia:

Typographia de S. Francisco, 1922. p. 5.

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A conjuntura política seiscentista de Pernambuco que desencadeou as alterações de 1710 foi amplamente concorrida com o clero, segundo o autor. Como se vê, o caso parece com o ocorrido no Maranhão, décadas antes. Ver: Evaldo Cabral de Mello. A Fronda dos Mazombos: nobres contra

mascates, Pernambuco, 1666-1715. São Paulo: Editora 34, 2012. pp. 103-128, 251-368. 347

Rodrigo Bentes Monteiro aponta que em várias rebeliões ocorridas no Estado do Brasil, os religiosos estiveram presentes, sendo vitimados no caso dos jesuítas ou contrariando a revolta, no caso dos beneditinos em São Paulo (1640) e no Rio de Janeiro (1660), que protegeram os sujeitos do governo ou da elite perseguidos pelos revoltosos destas capitanias. Ver: Rodrigo Bentes Monteiro. O Rei no Espelho:

das alterações na América portuguesa, como, aliás, ocorreu na revolta de Beckman, perde-se de vista a imbricação entre os elementos eclesiásticos da revolta e os elementos políticos dos clérigos nela envolvidos. Por um lado, há o exemplo dos motins do Maneta em Salvador, quando o arcebispo348 foi acionado para acalmar a revolta de 1711, segundo Luciano Figueiredo.349 Por outro lado, em São Luís, a Igreja foi diretamente afetada pela revolta de 1684, pois os jesuítas foram expulsos do Maranhão. Mas estes pontos de contato são escassos. A revolta de Beckman não aparece muito nestes estudos das revoltas coloniais, mas oferece uma questão a mais a ser discutida no quadro dessas rebeliões na América portuguesa.

Quais eram os papeis da Igreja na revolta? Pergunta semelhante já foi feita por D. Felipe Condurú Pacheco em sua História Eclesiástica do Maranhão: “Qual a

participação da Igreja nesse movimento?” Na sucinta resposta dada, ele elencou vários

setores do clero maranhense como participantes ativos, sobretudo por questões econômicas.350 Natural e acertadamente, esse questionamento tem de ser entendido de forma plural, porque a Igreja, embora fosse um corpo, não era homogênea, nem física ou ideologicamente. Era um corpo pluricelular, como afirma José Pedro Paiva.351Bispo, párocos e ordens religiosas atuavam cada qual segundo interesses próprios bem definidos. Por exemplo, a disputa entre os jesuítas e os religiosos de Santo Antônio não pode ser reduzida à economia, especificamente no controle dos índios e no comércio das especiarias, como quiseram os contemporâneos da revolta. É bem verdade que este foi um fator preponderante, mas havia mais elementos de interação. Todavia, Condurú Pacheco não abordou discursos, nem estratégias possíveis, elementos imprescindíveis para uma resposta mais convincente acerca do papel da Igreja na revolta, ainda que escassamente disponíveis.

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Trata-se do famoso D. Sebastião Monteiro da Vide, que atuou no disciplinamento daquela sociedade de forma ampla. Na ocasião do Motim do Maneta, o arcebispo foi acionado pelo governador geral do Estado do Brasil para tentar acalmar os ânimos dos revoltosos. Deu certo, mas temporariamente. Assim que o bispo acabou seu ritual religioso, ao qual os revoltosos fizeram reverência, estes voltaram à ativa, continuando seu protesto. Ver: Camila Teixeira p.41,42. “As Duas Espadas do Poder”: As Relações de

Tensão e Conflito Entre o Poder Secular e o Poder Eclesiástico na Bahia (1640-1750). Dissertação de

Mestrado em História Social. UFBA, 2012.

349Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. “Além de Súditos: notas sobre revoltas e identidade colonial

na América portuguesa”. Tempo, 2000, nº 10, p.7.

350D. Felipe Condurú Pacheco. História Eclesiástica do Maranhão. S.E.N.E.C. Departamento de Cultura.

Maranhão, 1969. p. 16.

351José Pedro Paiva. “As relações entre o Estado e a Igreja após a Restauração. A correspondência de D.

Vera Cruz, Jorge de Sampaio, escrivão da ouvidoria, e frei Ignácio, carmelita. Este religioso esteve envolvido na revolta desde o início. Após os primeiros atos, reuniu-se com Beckman e o vigário-geral Ignácio da Fonseca e Silva na casa de Manoel de Mattos, vizinho à matriz, de onde resolveram expulsar os jesuítas. Lá mesmo instituíram a Junta dos Três Estados (nobreza, clero e povo). No Estado da Nobreza ficaram Beckman e Eugênio Ribeiro Maranhão; no do Povo, Francisco Dias Deiró (negro, segundo João Lisboa) e Belquior Gonçalves; no Eclesiástico, ficaram o vigário Ignácio da Fonseca e Silva e o carmelita Ignácio de Assunção. Depois de terem ordenado a prisão do governador interino em sua própria casa e a dos jesuítas no seu colégio, e terem festejado o sucesso da revolta com o Te Deum na catedral de São Luís, os revoltosos criaram uma junta de governo, formada por João de Souza de Castro, Manoel

Coutinho e Thomaz Beckman. O “conselheiro” dessa junta governativa era o carmelita

Inácio de Assunção.

A participação do estado eclesiástico aumentava cada vez mais. Com a necessidade de se notificar a Alcântara e Belém sobre a revolta de São Luís, não acharam ninguém, exceto um voluntário mercedário. Após ouvirem a missa rezada pelo frei Luiz de Pestana no altar de Bom Jesus, no prestigiado convento de Nossa Senhora das Mercês, os revoltosos pediram a este religioso que fosse ao Grão-Pará levar suas cartas, que escreviam ao bispo e à câmara de Belém. Após entregar a correspondência, foi embora para o reino, sem autorização de quem quer que seja. O mais provável é que, fingindo-se de adepto da revolta, achou neste emprego de correio o meio para fugir daquela crise, sobre a qual não discordava, nem concordava.

Mas o estado eclesiástico, apesar de ser um, estava dividido. Enquanto muitos padres incentivavam os tumultos, um dos principais alvos da revolta era a Companhia de Jesus. É possível que tenha havido religiosos favoráveis aos jesuítas, mas ante todas as informações disponíveis, parecia ser unanimidade o pensamento do clero contra aqueles religiosos. Contudo, mesmo não favoráveis aos jesuítas, muitos clérigos também não concordavam com a revolta, como o mercedário Francisco Pereira.352 Por outro lado, ao contrário da imagem de mansos e calados cordeiros que o padre João 352Um fragmento de uma carta escrita por ele ao frei João de Brito, no Pará, em outubro de 1684, diz que: “Aviso mais a Vossa Paternidade, em como está esta nossa terra em grande aperto, o povo levantado, os

padres da Companhia fora do Estado, o estanco fechado, a obediência do governador também levantada, e tudo o mais em grande aperto; o portador que é o frei Luiz [Pestana] dará maior informação, que o chegou o povo com grandes gritos na portaria deste convento, temendo dizer mais, por andarmos todos

prontos para o abate, em seu próprio discurso ele deixou escapar várias vezes que os jesuítas fizeram de tudo para livrar-se daquela crise.

Desde antes do início da revolta, quando os ânimos estavam sendo acesos pelos pasquins de Beckman e pelas pregações nas igrejas, Bettendorff fez-se presente na câmara de São Luís para responder aos senhores da terra que os jesuítas poderiam abrir mão imediatamente do poder temporal sobre os índios, desde que aqueles mesmos homens se responsabilizassem ante o príncipe, pois isso contradizia sua última determinação sobre o assunto na lei de 1680. A cisão do corpo eclesiástico ficou mais evidente, quando na mesma ocasião Bettendorff pronunciou que o poder temporal dos jesuítas limitava-se a “administrar” os índios, mas que a “repartição” deles era um poder exclusivo do bispo e outras autoridades. Com isso, é como se dissesse que, se os senhores quisessem índios para o trabalho nas lavouras, deveriam questionar ao bispo e não aos jesuítas. Em uma só fala, Bettendorff embaraçava aos vereadores por confrontar sua fidelidade ao príncipe e transferia de si para o bispo a querela sobre os índios. Mas ele tinha razão sobre a repartição dos índios: basta lembrarmos que o próprio bispo entrara nessas disputas em 1681, ao reservar para si 300 índios!

Depois, já presos no colégio de Nossa Senhora da Luz, enquanto Beckman

estava em Alcântara na difícil tarefa de convencer aquela capitania da revolta, “trataram

os padres, por via de umas petições feitas, de sua conservação, mas como aquele

botafogo logo voltou, não puderam efetuar coisa alguma”. Certamente, usaram as

brechas concedidas pela revolta, ao permitir que a Companhia nomeasse procuradores para administrar seus bens. Por outro lado, se o retorno de Beckman atrapalhou aquele jogo dos bastidores dos jesuítas, deve ser porque alguém tentou ajudá-los

indevidamente, sendo logo descoberto. Isso é uma suspeita válida, visto que “não

faltava gente de bem em a cidade por parte dos padres, que dizia matando-se Manuel

Beckman, cabeça do motim, ficava quieto tudo” ou que “até as senhoras mais tementes a Deus, queriam sair à praça e gritar com lágrimas contra seus maridos”.353 O próprio Bettendorff não dá mais detalhes e não diz a quem aquelas petições foram dirigidas, nem quem foi encarregado de entregá-las. Como Beckman atrapalhou os planos jesuítas, provavelmente aquelas cartas não foram enviadas, sendo destruídas.

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dos eclesiásticos, pelo ataque efusivo aos jesuítas, ou pelo recurso a elementos simbólicos do catolicismo. Aliás, ela foi iniciada após a procissão do Senhor dos Santos Passos, entre a matriz de Nossa Senhora do Carmo e a Santa Casa de Misericórdia. E a expulsão dos jesuítas foi marcada para o domingo de Ramos. Pelo que se vê, os demais religiosos não viram vexame algum em ordenar a prisão aos jesuítas em seu colégio ou mesmo em considerar boa a proposta de sua expulsão ou ainda efetivamente expulsá-los

do Maranhão, na máxima expressão do “sacrilégio”. Um agravante do ponto de vista da ideologia religiosa, é que os jesuítas foram embarcados no navio de um “herege, inglês de nação”, nos termos de Bettendorff: o protestante Henrique Bren, que andava fazendo

negócios pelo Maranhão naquele tempo. Transportar dezenas de padres deve ter sido um belo negócio, pois é óbvio que ele não o fez gratuitamente. Desconhece-se, contudo, o preço das passagens ou o valor em dinheiro ou mercadorias recebido por este serviço.

No dia 26 de março de 1684, os jesuítas receberam ordens para se preparar para a expulsão: rezaram missas, benzeram-se e repartiram ramos entre si. Souberam usar o dia sagrado para tentar causar alguma comoção pública e até o conseguiram. Beckman e sua esposa, dona Maria de Almeida e Cáceres, atalharam Bettendorff, como amigos que eram, para que ficasse em sua casa, mas este negou-se, preferindo sofrer as penas da expulsão junto a seus irmãos de religião.354 Sua estratégia se revelaria surpreendente. A desculpa dada a Beckman era só para garantir que fosse mesmo embarcado para Lisboa. Seu plano era entrar na presença do agora rei D. Pedro II, para

denunciar aquela “sacrílega e infernal obra que tinham principiado” os revoltosos.

Anteriormente, em uma das acaloradas discussões entre Beckman e Bettendorff, este afirmou em sua Chrônica que disse àquele que “isso não havia de parar em o Maranhão, mas havia de ir a El-Rei, o qual, dando-se por muito mal servido, poderia mandar um governador que dissesse: enforquem Manuel Beckman”. Assim, a expulsão dos jesuítas, em vez de representar a derrota dos religiosos, favoreceria a sua vitória; e quando os revoltosos pensavam estar aliviados, seu fim estava sendo preparado.

Ora, a Companhia de Jesus era um dos elementos intermediários entre o rei e a sociedade colonial. Quando o bispado foi criado, esse papel eclesiástico foi dividido e