O Aparecimento de Seitas e Heresias. A Condição da Igreja.
Juntamente com o desenvolvimento da doutrina teológica, desenvolviam-se também as seitas, ou como lhes chamavam, as heresias na igreja cristã. Enquanto a igreja era judaica em virtude de seus membros, e até mesmo depois, quando era orientada por homens do tipo judeu como Pedro e até mesmo Paulo, havia apenas uma leve tendência para o pensamento abstrato e especulativo. Entretanto, quando a igreja em sua maioria se compunha de gregos, especialmente de gregos místicos e desiquilibrados da Ásia Menor, apareceram opiniões e teorias estranhas, de toda sorte, as quais se desenvolveram rapidamente na igreja. Os cristãos do segundo e terceiro séculos lutaram não só contra as perseguições do mundo pagão, mas também contra as heresias e doutrinas corrompidas, dentro do próprio rebanho. Neste comentário consideraremos apenas algumas das mais importantes seitas desse período.
Os gnósticos (do grego "gnosis", "sabedoria") não são fáceis de definir, por serem demasiado variadas suas doutrinas, que diferiam de lugar para lugar, nos diversos períodos. Surgiram na Ásia Menor — foco de idéias fantásticas — e eram como que um enxerto do Cristianismo no paganismo. Eles criam que do Deus supremo emanava um grande número de divindades inferiores, algumas benéficas e outras malignas. Criam que por meio dessas divindades, o mundo foi criado com a mistura do bem e do mal, e que em Jesus Cristo, como uma dessas "emanações", a natureza divina morou durante algum tempo. Igualmente interpretavam as Escrituras de forma alegórica, de modo que cada declaração das Escrituras significava aquilo que ao intérprete parecesse mais acertado. Os gnósticos progrediram durante todo o segundo século, cessando suas atividades com o término do século.
Os ebionitas (palavra hebraica que significa "pobre") eram judeus-cristãos que insistiam na observância da lei e dos costumes judaicos. Rejeitaram as cartas do apóstolo Paulo, porque nessas epístolas Paulo reconhecia os gentios convertidos como cristãos. Os ebionitas eram considerados apóstatas pelos judeus não-cristãos, mas também não contavam com a simpatia dos cristãos-gentios, os quais, depois do ano 70, constituíam a maioria na igreja. O ebionitas diminuíram, gradualmente, no segundo século.
Os maniqueus, de origem persa, foram chamados por esse nome, em razão de seu fundador ter o nome de Mani, o qual foi morto no ano 276, por ordem do governo persa. O ensino dos maniqueus dava ênfase a este fato: "O universo compõe-se do reino das trevas e do reino da luz e ambos lutam pelo domínio da natureza e do próprio homem." Recusavam a Jesus, porém criam em um "Cristo celestial". Eram severos quanto à obediência ao ascetismo, e renunciavam ao casamento. Os maniqueus foram perseguidos tanto por imperadores pagãos, como também pelos cristãos. Agostinho, o maior teólogo da igreja, era maniqueu, antes de se converter.
Os montanistas, assim chamados por causa do seu fundador se chamar Montano, quase não podem ser incluídos entre as seitas hereges, apesar de seus ensinos haveram sido condenados pela igreja. Os montanistas eram puritanos, e exigiam que tudo voltasse à simplicidade dos primitivos cristãos. Eles criam no sacerdócio de todos os verdadeiros crentes, e não nos cargos do ministério. Observavam rígida disciplina na igreja. Consideravam os dons de profecia como um privilégio dos discípulos. Tertuliano, um dos principais entre os Pais da Igreja, aceitou as idéias dos montanistas e escreveu em favor deles.
Acerca dessas seitas, consideradas como heresias, a dificuldade em compreendê-las ou julgá- las está no fato de que (com exceção dos montanistas,
e até mesmo estes, até certo ponto) seus escritos desapareceram. Para formar nossa opinião acerca deles, dependemos exclusivamente daqueles que contra eles escreveram, e todos sabemos que escreveram inspirados pelo interesse da causa que defendiam; não eram imparciais. Suponhamos, por exemplo, que a denominação metodista desaparecesse, com todos os seus escritos; e que mil anos mais tarde, estudiosos procurassem conhecer seus ensinos pesquisando os livros e panfletos combatendo John Wesley, publicados durante o século dezoito. Como seriam erradas suas conclusões, e, que versão distorcida do metodismo apresentariam!
Vamos agora, procurar descobrir a condição da igreja durante os séculos de perseguição, especialmente no término, no ano 313.
Um dos efeitos produzidos pelas provações por que passaram os cristãos desse período, foi uma igreja purificada. As perseguições conservavam afastados todos aqueles que não eram sinceros em sua confissão de fé. Ninguém se unia à igreja para obter lucros ou popularidade. Os fracos e os de coração dobre abandonavam a igreja. Somente aqueles que estavam dispostos a ser fiéis até à morte, se tornavam publicamente seguidores de Cristo. A perseguição cirandou a igreja, separando o joio do trigo.
De modo geral, nessa época, o ensino da igreja estava unificado. Tratava-se de uma comunidade de muitos milhões de pessoas, espalhadas em muitos
países, incluindo muitas raças e falando vários idiomas. Apesar de tudo isso, tinham a mesma fé. As várias seitas surgiram, floresceram e pouco a pouco desapareceram. As controvérsias revelaram a verdade e até mesmo alguns movimentos heréticos deixaram atrás de si algumas verdades que enriqueceram o "depósito" da igreja. Apesar da existência de seitas e cismas, o Cristianismo do império e dos países vizinhos estava unido na doutrina, nos costumes e no espírito.
Era uma igreja inteiramente organizada. Já descrevemos o sistema de organização na era apostólica. No terceiro século a igreja já estava dividida em dioceses, controlando as rédeas do governo, com mãos firmes. A igreja era um exército disciplinado e unido, sob uma direção competente. Dentro do império romano exteriormente organizado, mas interiormente em decadência, havia "outro" império de vida abundante e de poder sempre crescente, que era a igreja cristã.
A igreja multiplicava-se. Apesar das perseguições, ou talvez por causa delas, a igreja crescia com rapidez assombrosa. Ao findar-se o período de perseguição, a igreja era suficientemente numerosa para constituir a instituição mais poderosa do império. Gibbon, historiador dessa época, calculou que os cristãos, ao término da perseguição, eram pelo menos a décima parte da população. Muitos escritores aceitaram as declarações de Gibbon, apesar de não serem muito certas. Porém, o assunto foi
recentemente cuidadosamente investigado e a conclusão a que os estudiosos chegaram, foi esta: O número de membros da igreja e seus aderentes chegou a vários milhões sob o domínio de Roma. Uma prova das mais evidentes desse fato foi descoberta nas catacumbas de Roma, túneis subterrâneos de vasta extensão, que durante dois séculos foram os lugares de refúgio e reunião, e de cimitério dos cristãos. As sepulturas dos cristãos nas catacumbas, segundo o demonstram as inscrições e símbolos sobre elas, conforme cálculos de alguns, sobem a milhões. Acrescente-se a esses milhões muitos outros que não foram sepultados nas catacumbas, e veja-se então quão elevado deve ter sido o número de cristãos em todo o Império Romano.