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A imagem da Linha Dividida: os graus de conhecimento e realidade

No documento 2013FernandoDalaSanta (páginas 76-78)

4.2 O objetivo último da filosofia: a Forma do Bem

4.2.2 A imagem da Linha Dividida: os graus de conhecimento e realidade

Ainda restava muito a discutir acerca da posição ocupada pela Forma do Bem na metafísica platônica, especialmente sobre a maneira pela qual a filosofia seria capaz de ascender até o sumo Bem. Dessa forma, o estatuto onto-epistemológico102 da imagem do Sol como equivalente sensível de uma metaideia ou metaprincípio inteligível, conduz naturalmente a discussão para o estabelecimento de uma imagem complementar, capaz de evidenciar a hierarquia entre os diferentes graus de realidade; bem como entre as fases pelas quais deve passar o entendimento, desde as percepções mais elementares até a contemplação do Ser em si mesmo. Para tanto, Platão insere a metáfora da linha dividida, que “se apresenta como símbolo do percurso do conhecimento que se eleva pouco a pouco até o grau supremo da contemplação, passando a alma por quatro graus de conhecimento sucessivos” (ROGUE, 2005, p.109).

Sócrates propõe que se imagine uma linha cortada em duas partes díspares, uma representando o sensível e outra o inteligível, sendo que cada segmento seria dividido novamente, em igual proporção (409d). Na base da linha encontramos o segmento das imagens, identificadas com as sombras e os reflexos na água ou em objetos compactos, lisos e brilhantes e tudo mais que fosse desse gênero (510a), representando o primeiro estágio do mundo sensível e a percepção que se tem dele, ou seja, a imaginação (eikasia).

Um pouco acima, mas ainda na esfera do sensível, estão os modelos das imagens do estágio anterior: a seção da crença (pístis), onde se encontram os animais e as plantas, bem como o homem e todas as suas produções (510a). Os dois campos nos quais se divide a representação do mundo sensível estão sob o domínio da doxa, “razão pela qual, em primeira instância, a metáfora da linha enuncia a divisão principal da gnoseologia platônica (mundo sensível: opinião – mundo inteligível: ciência)” (TRABATTONI 2010, p. 113). Mesmo levando-se em conta somente a análise do segmento sensível da linha, já se percebe uma gradação ontológica no que tange ao maior grau de realidade dos objetos em relação às suas

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imagens, bem como a escalada epistêmica representada pela passagem da percepção inicial das imagens para o conhecimento dos objetos que lhes serviam como arquétipos.

Na parte superior da linha está o mundo inteligível, mundo das realidades abstratas, perene pelo fato de ser o abstrato mais real do que o concreto. A primeira fase dessa esfera é a do raciocínio (diánoia), identificada com a geometria e a aritmética. Piettre (1981, p. 36) ressalta que a parte da linha que corresponde à diánoia é análoga a que se refere à pistis, pois ambas tratam dos os mesmos objetos; a diferença repousa no fato de o raciocínio tomar os objetos como hipóteses de realidades inteligíveis, enquanto a crença os tem como reais.

Portanto, era isto o que eu queria dizer com a classe do inteligível, que a alma é obrigada a servir-se de hipóteses ao procurar investigá-la, sem ir ao princípio, pois não pode elevar-se acima das hipóteses, mas utilizando como imagens os próprios originais dos quais eram feitas as imagens pelos objetos na secção anterior, pois esses também, em comparação com as sombras, eram considerados e apreciados como mais claros (511a).

O estágio do raciocínio seria intermediário entre a opinião e a inteligência, visto que as investigações não eram capazes de alcançar o princípio. Afirma Havelock (1994, p. 243) que na metáfora da linha, Platão tem o cuidado de assinalar que as figuras geométricas contêm as Formas, mas que em si mesmas não são inteiramente abstratas, por serem visíveis ou por utilizarem elementos visíveis.

E finalmente, no topo da linha encontramos a inteligência (noiesis). Para Trabattoni (2010, p. 114) o termo noiesis foi introduzido para distinguir dentro do pensamento em geral, o raciocínio que não se move a partir de hipóteses sensíveis em direção ao mundo da experiência, mas se move em direção ao alto, em busca do princípio não-hipotético103, “e

depois se desenvolve como processo alternado de sínteses (do múltiplo ao uno), inteiramente inserido no âmbito das Ideias”. Platão se refere a esse último estágio da linha como aquele em que o intelecto prescinde de qualquer espécie de imagem de cunho sensível, pois se ampara em hipóteses enquanto tais (511b-c).

Na seção da geometria e das matemáticas em geral, o raciocínio por hipóteses se caracterizava por um modelo metodológico de cunho analítico, e por essa razão não era capaz de chegar ao princípio não-hipotético, pois esse princípio (que seria o próprio Bem) somente poderia ser alcançado através do “poder da dialética” (511b), que caracteriza o último

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segmento do inteligível. A respeito desse último estágio da linha, Rogue (2005, p.108) afirma que “em frente dos inteligíveis, a alma cessa de errar; o múltiplo e a mobilidade do devir cedem lugar à imobilidade e à identidade em si das Ideias. Na contemplação das Ideias os filósofos atingem a verdade pela qual se encontram tão apaixonados104”.

Os quatro graus de realidade expressos na metáfora da linha correspondem às quatro potencialidades cognitivas da alma: “no mais elevado, a inteligência, no segundo, o entendimento; ao terceiro entrega a fé, e ao último a suposição, e coloca-os por ordem, atribuindo-lhes o mesmo grau de clareza que seus respectivos objetos têm de verdade” (511d- e). Platão pretende demonstrar a perfeita comunhão entre a ordem ontológica da realidade e o aspecto epistemológico da percepção da alma sobre essa realidade, sugerindo o determinante papel desempenhado pela educação no processo de ascensão ao sumo Bem, embora essa relação fique clara somente após a análise da célebre alegoria da caverna.

No documento 2013FernandoDalaSanta (páginas 76-78)