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3.1 A CÂMERA: FOTOGRAFIA COMO OBJETO

3.1.1 A imagem digital

Uma imagem digital pode ser obtida pela conversão da luz em sinais elétricos, depois em dados numéricos que são interpretados para gerar uma imagem formada pela luz emitida por uma tela ou projetor, ou para ser impressa a partir dessas informações. No caso da fotografia, a luz capturada pode ser a luz refletida por uma ampliação (imagem impressa) ou a que passa por uma superfície fotossensível revelada (filme fotográfico), e que são lidas por um scanner, ou a luz refletida por uma cena e capturada diretamente por um sensor eletrônico nas câmeras digitais.

A fotografia digital tornou mais rápido e fácil o processo para o público amador, possibilitando a visualização imediata da imagem e o seu armazenamento em um arquivo digital. A transformação da luz em sinal elétrico e sua codificação em dados numéricos é explicada por Wagner Souza e Silva:

Nas câmeras fotográficas tradicionais, a superfície fotossensível é composta por uma película transparente, com sais de prata que escurecem em contato com a luz. Já nas câmeras fotográficas capazes de gerar uma imagem digital, essa superfície é composta por minúsculos componentes eletrônicos - os fotodiodos - capazes de modular a carga elétrica quando expostos à luz, que será convertida para informação digital. Essa conversão da carga elétrica em informação digital (conversão A/D) nada mais é do que a tradução dos valores dos sinais elétricos em códigos formados pelo agrupamento de apenas dois dígitos, os bits um e zero, que, na realidade, significam "sim" ou "não" no que diz respeito à existência de informação elétrica discreta (low e high). Tal informação digital resultante de dada informação luminosa é denominada pixel - termo originado da aglutinação da expressão picture element. (2016, p. 114).

Desta forma, não existe mais uma imagem física, mas informações numéricas que, quando acessadas, são interpretadas em um processo de decodificação, permitindo “restituir sob forma visível (perceptível) o universo de pura abstração das matemáticas, ao mesmo tempo em que possibilitam também descrever numericamente as propriedades da imagem” (MACHADO, 1997, p. 172).

A facilidade trazida pela visualização da imagem instantaneamente permitia que as fotos fossem apagadas e refeitas de acordo com o desejo do fotógrafo na mesma hora da captura, sem a necessidade de esperar que o filme fosse revelado e as fotos ampliadas. Tudo isso ocorreu graças ao desenvolvimento de aparelhos eletrônicos cada vez menores, mais complexos e avançados, ao mesmo tempo em que tornou o processo ainda mais acessível para os usuários amadores, reforçando o conceito da caixa preta. Wagner Souza e Silva diz que

O discurso tecnológico, portanto, foi aprimorado e tornou-se cada vez mais inacessível para aquele que tem a câmera fotográfica digital apontada para uma paisagem ou um familiar. O paradoxo é evidente, à medida que a tecnologia se torna mais e mais requintada, e, portanto, mais complexa e mais inacessível, as câmeras tornam-se mais automáticas e mais acessíveis, e os procedimentos para a obtenção de imagens exigem menos laboriosidade. (SOUZA e SILVA, 2016, p. 117).

A transformação da imagem física em dados numéricos também é importante para a compreensão de outra mudança na maneira como elas são utilizadas hoje. Por se tratar de números que são lidos como elementos visuais, estas propriedades podem ser alteradas mais facilmente com o uso de programas de manipulação de imagens em computadores e, agora, nos smartphones, diferente da imagem analógica, que dependia de um processo lento que envolvia interferências antes ou depois da revelação do negativo e da ampliação de cada nova cópia.

É verdade que muito do que a manipulação digital permite hoje também era possível nos processos tradicionais, mas não com a mesma agilidade. Por exemplo, qualquer ajuste de contraste numa imagem em papel preto e branco levava alguns minutos para ser efetivado e avaliado. Por meio de um ampliador, projetava-se um negativo em uma folha de papel fotográfico ainda não exposta, a folha era então banhada por alguns segundos (cerca de trinta) na química para revelação (revelador); depois, o processo era interrompido (banho de um minuto em ácido acético), para, por último, ser fixado (banho no fixador por cerca de trinta segundos). A partir daí era possível tirar a prova fotográfica do ambiente iluminado pela luz vermelha e avaliá-la em condições luminosas normais. Era ainda necessário, porém, lavar a cópia em água corrente por cinco minutos. Após a secagem (se em estufa, alguns minutos, se em ambiente normal, algumas horas), a fotografia propriamente dita estava pronta. (SOUZA E SILVA, 2016, p. 119).

No sistema digital, essas alterações tornaram-se muito mais rápidas e menos trabalhosas, a visualização é imediata o resultado é até reversível, pela preservação dos dados no histórico do programa. “O que o tratamento digital faz é apenas alterar os dados numéricos dos pixels da imagem, sendo que as possibilidades de recombinações praticamente tenderiam ao infinito em uma imagem digital composta por milhões de pixels.” (SOUZA E SILVA, 2016, p. 117).

A manipulação digital da imagem se dá por meio de programas ou aplicativos que seguem rotinas pré-estabelecidas para atingir objetivos desde a simples alteração de tons ou matizes, até alterações mais complexas como a inclusão de elementos ou a fusão de imagens. Porém, para realizar estas alterações, além de ser necessário saber como operar os programas, é preciso ter um objetivo em mente. Wagner Souza e Silva aponta que esse objetivo muitas vezes já está definido na hora da captura. Sendo assim, a fotografia seria um processo no qual a captura é apenas a primeira de diversas etapas da produção da imagem final (2016, p.114).

O autor alerta que, na fotografia analógica, também havia uma preocupação com o processo (2016, p. 121). Quanto mais o fotógrafo conhecia os procedimentos de captura, revelação e ampliação, melhor poderia controlar a imagem final. Essa preocupação, mais comum entre os profissionais, era uma forma de tentar visualizar a cena capturada para prever as escolhas necessárias durante o processo de revelação e ampliação, o que com a fotografia digital pode ser considerado menos necessário, pois todas as câmeras já permitem a visualização imediata da imagem. Hoje, essa tentativa de visualização passou para o processo de pós-produção, sendo que as ferramentas necessárias para esse processo se encontram ao alcance dos amadores. O hábito de manipular as imagens traz uma consequência curiosa. “Na tomada, a fotografia digital, a despeito de ser revelada imediatamente, é ainda apenas

um projeto, até mais do que a imagem latente na fotografia tradicional” (SOUZA E SILVA, 2016, p. 119), ou seja, a fotografia digital aparece imediatamente, mas ainda pode ainda não estar terminada, enquanto a analógica demorava todo o processo de revelação e ampliação, porém, para a maioria dos usuários, estava pronta.

A tendência atual é encarar o registro fotográfico efetuado pela câmera como a mera obtenção de uma matéria-prima que deverá ser posteriormente trabalhada e transformada por algoritmos de tratamento da imagem. "Fotografia" agora é o nome que se dá ao resultado de um processo de edição e não à marca deixada pela luz sobre uma superfície fotossensível. (MACHADO, 1997, p. 174).

Na verdade, a fotografia continua sendo um processo da captura até a finalização, porém agora, todo esse processo está nas mãos do usuário, que não precisa do conhecimento técnico especializado para realizá-lo. Se na época do laboratório analógico era preciso conhecer o processo químico de revelação e ampliação, e, nos primeiros anos da manipulação digital, era preciso instalar e conhecer inúmeras ferramentas de um programa caro, pesado e por vezes não tão simples, hoje aplicativos possuem poucas funções (como brilho, contraste, cor), com visualização dos efeitos em tempo real, além de filtros prontos com os efeitos visuais mais populares. Esses recursos estão disponíveis nos atuais smartphones, que reuniram os recursos necessários para a realização e popularização de todo o processo, da captura até a publicação da imagem fotográfica.