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III. NÚCLEO EPISTEMOLÓGICO

III.1.2 A Implantação da Geografia Científica (1934 – 1956)

A criação da Universidade de São Paulo (1934) e do Rio de Janeiro (1940), em 1938 é implantado o curso de geografia da Universidade Federal do Paraná, e a fundação da AGB - Associação Brasileira de Geógrafos (1934) marcam a implantação da geografia cientifica no Brasil, durante o governo de Getúlio Vargas. O IBGE é criado pelo “Estado Novo”, tendo o seu Conselho de Nacional de Geografia (CNG) – talvez o único órgão institucional de caráter institucional diretamente ligado ao poder central de um Estado – logo aderido a União Geográfica Internacional (UGI) (MONTEIRO, 1980. p.10), estas instituições são criadas com o objetivo de aumentar o conhecimento sobre o território nacional.

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O período de 1930 a 1971 compreende a construção de uma base de regulação do governo; tem-se o renascimento da importância atribuída aos parques nacionais nos Estados Unidos, durante o Neal Deal, acabou por influenciar as políticas de preservação no Brasil. O Decreto n° 23.793, de 23 de janeiro de 1934, previa a criação de parques nacionais e de áreas florestais protegidas nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste (CUNHA, 2005. p.46).

A geografia ibegeana diferenciava-se da geografia surgida nas universidades por ter caráter mais pragmático relacionada ao Governo, considerada a geografia oficial. De acordo com Monteiro (1980. p.10) “o fato mais decisivo para que lhe imputasse esse caráter foi aquele assumido pela necessidade de determinar as “divisões territoriais” do país.”

Após a fase de instalação dos cursos de Geografia e História tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro por Deffontaines, a cooperação cultural francesa colocaria na primeira, 1935, Pierre Monbeig, geógrafo jovem em busca do seu “doctorat”

que assumindo a orientação da cadeira de Geografia, passou ativa e eficazmente à formação dos geógrafos da USP. Deve ser ressaltado o fato de que desde aquele início não foi descuidada a formação especializada do pessoal docente dos quadros do departamento (MONTEIRO, 1980. p.11).

O crescimento populacional desordenado e concentrado na faixa litorânea do país e a necessidade de reestruturar a ocupação levaram a criação de unidades de conservação, voltadas para a proteção das manchas restantes da Mata Atlântica situadas num eixo que se prolonga das regiões Sul e Sudeste, e que se alarga até o Nordeste. Em 1937, foi criado o Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro parque nacional do país, localizado no Rio de Janeiro e em 1939 o Parque Nacional do Iguaçu. Nas décadas de 1950 e 1960, a criação de unidades de conservação no Centro-Oeste e a efetivação da primeira Floresta Nacional da Amazônia, a FLONA de Caxuana, estavam associadas ao processo de transferência do capital nacional para o interior do país e a política de abertura das estradas. Todavia, a definição de 13 unidades de proteção da Mata Atlântica, de um total de 26 criadas no período, demonstrou ser essa área objeto de maior atenção no período considerado (1930 a 1971). Esse período foi marcado ainda pela adoção de mecanismos legais de regulação dos

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usos dos recursos naturais, com a promulgação, em 1934, dos códigos florestais, das águas e das minas (CUNHA, 2005. p.47).

Em 1940, Francis Ruellan foi contratado como professor da Universidade do Brasil e como assistente técnico do CNG do IBGE; devido a dupla função executada por esse geógrafo muitos foram os licenciados em geografia e história que vieram a fazer parte do CNG do IBGE. O CNG neste período enviou seus geógrafos mais categorizados para realizar aperfeiçoamento nos Estados Unidos. Uma das conseqüências desse evento foi a contratação, como assistente técnico daquele órgão do IBGE, do Eminente geógrafo alemão Léo Waibel, que a segunda Guerra Mundial (o nazismo mais diretamente) havia levado aos Estados Unidos e a Universidade Wisconsin, onde fora professor de alguns geógrafos do CNG. Pode-se dizer que a formação básica do Rio de Janeiro foi resumida a Ruellan-Waibel (MONTEIRO, 1980. p.12).

Embora sob a influência direta desses mestres europeus, seria injusto afastar da formação geográfica desse período a contribuição indireta que, dentro do panorama cultural de então, estudiosos brasileiros ofereceram a essa formação. Deste período destacam-se contribuições fundamentais, por meio de obras respeitadas (e exaltadas inclusive pelos próprios mestres europeus), como as de Caio Prado Júnior, Roberto Simonsen, Sérgio Millet, Arthur Ramos, entre outros (op.cit. p.13).

Dentre a produção “oficial” pode ser destacada a preocupação com os estudos regionais e divisão administrativa do Brasil que culmina com um trabalho que pode ser apontado como um dos mais expressivos do período:

aquele de Fábio M. S. Guimarães sobre “Divisão Regional do Brasil” (1941) amplamente calcado nos aspectos naturais (op.cit. p.14).

A orientação metodológica da geografia refletida nesse período e subsequente é o da escola francesa de influência lablacheana. De Martonne é o alicerce nos aspectos físicos, enquanto Brunhes, L. Febvre, Demangeon, lideram a abordagem dos aspectos humanos (op.cit.).

Em 1948, no 11° aniversário do CNG a Divisão de Geografia foi colocada em novas instalações, foi constituída de cinco seções regionais e uma grande seção de estudos sistemáticos (dividida em setores) apresenta-se um significativo reflexo das coordenadas metodológicas, principalmente de importação Norte-Americana, que nortearam a pesquisa geográfica do IBGE.

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No discurso proferido por Fabio M. S. Guimarães naquela ocasião, fica clara a proposta de justapor o sistemático ao regional, essa idéia já presente nas preocupações de Hartshorne sobre a natureza da geografia (op.cit.).

É importante ressaltar o papel da AGB na formação da geografia brasileira entre o período de 1948 a 1956. Pode-se considerar que a AGB ganha um novo fôlego, e de acordo com Monteiro (1980. p.15) a principal característica deste período é o crescente interesse pelas atividades de campo, a atividade fundamental foi a própria difusão e dinamização promovida nos encontros anuais da AGB.

O envio sistemático de geógrafos bolsistas à França e aos Estados Unidos é uma característica desse período. Restabelecidos os serviços culturais franceses no após guerra, a embaixada daquele país, a partir de 1946, passou a fornecer para Rio de Janeiro e São Paulo um considerável número de bolsas de estudos para geógrafos brasileiros, nas principais Universidades da França. No Rio manteve-se no CNG uma ligação de bolsistas para os Estados Unidos, Canadá em número bem mais reduzido do que aquele destinado à França (op.cit. p.16).

O fim da Segunda Guerra Mundial chamou a atenção do mundo para o poder de destruição das bombas atômicas. A intensificação dos testes nucleares e a de usinas movidas a material radiativo fizeram crescer as preocupações com o futuro da humanidade. Livros como The Limits of the Earth, lançado por Osborn em 1953, e Silent Spring, lançado por Rachel Carson em 1962, chamavam a atenção para problemas ambientais do planeta (crescimento populacional e contaminação química da água e do solo, respectivamente) (CUNHA, 2005. p.47).