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Com o crescimento progressivo da importação do açúcar cubano pelos Estados Unidos e com a constante elevação do consumo de açúcar de beterraba na Europa, no decorrer do século XIX, restava ao setor canavieiro nacional duas alternativas: deixar de exportar o açúcar ou reagir frente à concorrência e se modernizar, implantando um processo de fabricação nos moldes capitalistas.

Neste sentido, Soares esclarece que:

As dificuldades do produto brasileiro no mercado externo decorriam, na época, não somente da concorrência da beterraba, mas também da do próprio açúcar de cana produzido em Cuba, Egito, Java e Martinica, mediante as mais avançadas técnicas de então, enquanto no Brasil permanecia, com algumas melhoras, a velha técnica do período colonial.

A experiência vitoriosa desses países na produção de açúcar, decorrente em grande parte, segundo se admitia, da divisão das tarefas do cultivo e da transformação industrial, inspira o Governo Imperial a estimular a instalação de engenhos centrais no Brasil, por meio da concessão da garantia de juros de até 7% ao ano sobre o capital investido, e de outros favores, às companhias que se propusessem a organiza-los.

O ponto de partida prático da política de centralização industrial é o decreto nº 2.687, de 6 de novembro de 1875, do Governo Imperial. Mediante este decreto, o Governo ficava autorizado, conforme o que dispunha o Art. 1º, para garantir os juros até 5% ao ano e a amortização de letras hipotecárias, emitidas por um Banco de Crédito Real, que se fundar sobre o plano traçado na Lei nº 1.237, de 24 de setembro de 1864. (SOARES, 2000, p. 29)

Ramos (1999 p. 55) relata que a primeira tentativa de modernização do setor se deu por meio da concessão de financiamento subsidiado pelo Estado ao capital estrangeiro para a implantação dos engenhos centrais. Esse modelo de modernização foi derivado da experiência

original de empresários franceses nas Antilhas e consistia em separar as atividades agrícola e industrial. Tal estratégia baseava-se na dissolução da característica mais marcante dos engenhos brasileiros que era a integração vertical para trás2.

Queda (1972) descreve que o governo Imperial promulgou uma série de leis para estimular a fundação de engenhos centrais visando incentivar a industrialização da atividade canavieira. Dentre as mais importantes, o autor ressalta a lei de 6 de setembro de 1875 que reservava 30 mil contos de reis à indústria, concedendo garantias de juros ao capital que fosse investido. Essa medida demonstra que no entendimento do governo imperial era necessário realizar um grau elevado de concentração industrial da produção do açúcar brasileiro, a fim de fazer frente à concorrência externa.

A partir de 1877, teve início a fase intensiva de industrialização do setor com a fundação do Engenho Central de Quissamã, na província do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, na província de São Paulo, o primeiro engenho central inaugurado foi em Porto Feliz (QUEDA, 1972, p. 46-47). Como as construções desses empreendimentos exigiam grandes somas de capital, parte expressiva dos senhores de engenho não dispunha de recursos em escala suficiente para realizar o investimento e, portanto, uma alternativa que parecia viável era entregar a atividade industrial açucareira aos grupos capitalistas europeus. Queda (1972, p. 47-49) explica que a saída para o governo imperial foi buscar financiamento externo semelhante ao modelo empregado na construção das estradas de ferro, que consistia em atrair investimentos estrangeiros com garantias de juros por parte do governo, principalmente na fase de implantação, o que explica a forte presença de grupos ingleses e franceses no empreendimento. Amparados oficialmente pelo Imperador, vários engenhos centrais são instalados e rapidamente o número de unidades pelo o país aumenta. Soares (2000, p. 47) ainda revela que no período em questão a agroindústria canavieira foi marcada pela presença de capitais estrangeiros devido à debilidade do capital nacional, num contexto em que a exportação de capitais das grandes potências capitalistas estava se expandindo, fundamentalmente por meio da Inglaterra.

A implantação dos engenhos centrais em São Paulo se deu concomitantemente ao restante do país:

Em São Paulo, a primeira concessão de garantia de juros e de outros favores para a instalação de engenho central fez-se logo no primeiro semestre de 1876. Pelo decreto nº 6.191, de 3 de maio de 1876, o Governo Imperial, de

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Integração vertical para trás ocorre quando uma firma passa a produzir seus insumos ao invés de comprar de fornecedores, com objetivo de obter maior controle sobre o fornecimento da matéria- prima, visando garantir a quantidade e a qualidade desejadas. Ver Vian (2003, p. 29).

conformidade com os termos do Art. 2º do decreto nº 2.687, concedeu garantia de juro de 7% sobre o capital de 600:000$000 (seiscentos contos de réis) e outros favores, para a construção de um engenho central no município de Capivari, a ser organizado por Joaquin Carlos Travassos e Bernardo Avelino Gavião Peixoto. (SOARES, 2000, p. 33)

Na sequência, Soares (2000, p. 43) descreve que em 1881, a situação geral dos incentivos e concessões para instalação dos engenhos centrais era a seguinte:

Decorridos seis anos de vigência da política de incentivos à fundação de engenhos centrais, as concessões distribuídas em todo o Império somavam apenas 19.700:000$000 de capital garantido ou afiançado, restando ainda a distribuir, portanto, 10.300:000$000. As concessões feitas para a Província de São Paulo atingiam 1.900:000$000, ou seja, pouco menos de 10% do total nacional.

Porém, ainda no período imperial, o capital garantido ou afiançado continuou caindo em todo Brasil e particularmente em São Paulo, conforme observa Soares (2000, p. 44):

Entretanto, as frequentes declarações de caducidade das concessões, decorrentes das dificuldades já mencionadas, fizeram com que o capital garantido ou afiançado de 19.700:000$000, em 1881, para todo o Império, se reduzisse a 8.300:000$000 em 1888 e, portanto, que a distribuição de garantia ou fiança por fazer tenha se elevado de 10.300:000$000, em 1881, para 21.700:000$000 em 1888. O capital garantido ou afiançado na Província de São Paulo caiu, no mesmo período, de 1.900:000$000 para 700:000$000.

No decorrer das últimas décadas do século XIX, Queda (1972, p. 49) salienta que, além da garantia de juros de 7% para os investidores nos engenhos centrais, foram outorgados outros benefícios para incentivar o processo industrial do açúcar, tais como: isenção de diretos e do pagamento de 5% sobre fôrmas e passadeiras para purgar açúcar (20 de março de 1885); a liberação de autorização para explorar engenhos centrais (decreto nº 10.165 de 12 de janeiro de 1889); a concessão de prêmios pelo governo republicano para aperfeiçoar as fábricas de açúcar no Brasil (decreto nº 819, de 4 de outubro de 1890); supressão da fiscalização dos engenhos centrais (decreto nº 2.425, de 2 de janeiro de 1897).

Contudo, segundo Soares (2000, p. 44):

No fim do Império, os resultados obtidos com a política de fomento à instalação de engenhos centrais eram pouco animadores. Proclamada a República, o Governo Provisório apressa-se a ampliar as concessões de favores para a organização desses estabelecimentos. Pelo decreto nº 525, de 26 junho de 1890, elevou-se ao dobro o capital de 30.000:000$000 sobre o qual o decreto nº 2.687, de 6 de novembro de 1875, autorizava o Governo a dar concessões da garantia de juros para o estabelecimento de engenhos centrais.

Como resultado, em 1890, a Tabela 1.5 registra a existência de oitenta e sete concessões para montagem de engenhos centrais no Brasil, não obstante, o número de unidades em funcionamento era inferior.

Tabela 1.5 - Distribuição das concessões para montagem de engenhos centrais no Brasil – Situação em 1890

Estados e Distrito Federal

Fábricas em atividade

ou projetadas Capital Garantido

Pernambuco 21 15.950:000$000 Bahia 15 7.700:000$000 Espirito Santo 3 2.250:000$000 Rio de Janeiro 9 7.500:000$000 Alagoas 8 6.000:000$000 Sergipe 8 5.000:000$000 São Paulo 7 4.000:000$000 Maranhão 4 3.000:000$000 Paraíba 4 2.950:000$000 Rio G. do Norte 3 2.250:000$000 Minas Gerais 2 1.500:000$000 Santa Catarina 1 1.200:000$000 Distrito Federal 1 600:000$000 Pará 1 400:000$000 Totais 87 60.300:000$000

Fonte: Elaborado a partir Carli (1943, p.52).

Entretanto, Soares (2000, p. 41-42) afirma que grande parte das concessões para estabelecimento dos engenhos centrais não tiveram êxito. Tal fato se explica tanto pelos desdobramentos da crise econômica que atingiu o país a partir de 1875, como também pela falta de idoneidade de alguns concessionários, cujo objetivo era apenas em vender suas concessões a terceiros.

Em seguida Soares (2000, p. 45) afirma que:

As providências adotadas pelo Governo Republicano, no sentido de ampliar o número de concessões e o montante global do capital garantido, não surtiram, porém, os efeitos desejados. As 87 concessões existentes e o capital garantido de 60.300:000$000, em 1890, reduziram-se a 54, com o

capital de 40.050:000$000, em fins de 1891, devido à declaração de caducidade de 33 concessões com o capital de 20.250:000$000. A caducidade dos favores resultou do fato de que os concessionários não haviam cumprido fielmente a observância das cláusulas dos contratos a que se tinham obrigado. E já em 23 de abril de 1892, através do decreto nº 798, da mesma data, foi aceita pelo Governo Republicano a desistência de garantia de juros da Companhia Agrícola de Campos, ficando, assim, o número de concessões reduzido a 53 e o capital garantido pelo Estado, a 38.950:000$000. Em São Paulo, as concessões ficaram reduzidas a 4: Companhia Engenho Central de Lorena, com o capital garantido de 700:000$000; Companhia Engenho Central de Capivari, com 550:000$000; Companhia Engenho Central Paulista (município de Porto Feliz), com 400;000$000; e Firmino Joaquim Ferreira da Veiga (em Ubatuba), totalizando 2.400:000$000. Por outro lado, somente os três primeiros engenhos mencionados encontravam-se em atividade na época.

A última concessão para instalar um engenho central foi dada a Antônio Ferreira da Silva Carneiro pelo decreto nº 175, em 25 de abril de 1891, em São Paulo (SOARES, 2000, p. 46). Porém, de acordo com as especificações das cláusulas desse decreto, não se tratava mais de um engenho central propriamente dito, mas de um novo tipo de organização, uma vez que a fábrica de açúcar poderia produzir sua própria cana. Diante disso, o autor atribui que o término efetivo dessa experiência dos engenhos centrais se deu no ano de 1890, pois se considera que, após esse período, a política de incentivos para implantação desses engenhos foi praticamente abandonada pelo governo.

No que se refere às inovações técnicas e econômicas propostas com a implantação dos engenhos centrais, Queda (1972, p. 47-48) afirma que o seu funcionamento estava assentado na separação das atividades agrícola e industrial. Buscava-se com isso a racionalização da fabricação do açúcar através de um reduzido número de unidades fabris com alta capacidade de produção. A ideia básica de separar as atividades de produção fabril e agrícola significava na prática que o controle da parte industrial ficaria com os grupos ligados ao capital estrangeiro, enquanto que os senhores de engenho passariam a meros fornecedores de cana. O autor cita a aprovação do decreto nº 10.393, de outubro de 1889, com o objetivo claro de regulamentar a relação entre os engenhos centrais e seus fornecedores (QUEDA, 1972, p. 49). Em função disso, esse sistema acabou suscitando uma série de conflitos entre os fornecedores de cana e o setor industrial dominado por grupos capitalistas europeus. Um dos fatores que mais dificultava tal relação era o custo elevadíssimo do transporte da cana-de- açúcar, associado às suas características específicas, pois não pode ser armazenada e quando cortada deveria ser processada rapidamente. Além disso, os contratos tinham, em geral, prazo de cinco anos, ao passo que o preço da cana estava sujeito a variações frequentes do valor da

cotação do açúcar, o que implicava em outro importante ponto de atrito entre as duas categorias acima mencionadas.

O resultado desses conflitos provocou uma constante irregularidade no fornecimento da cana que inviabilizou a produção de açúcar com custos competitivos e acabou comprometendo o funcionamento dos engenhos centrais. Outra causa do fracasso desse modelo produtivo foi a proximidade com os engenhos banguês3, que acabou sendo uma alternativa aos fornecedores sempre que os preços oferecidos fossem considerados baixos.

Sobre esse assunto, Queda (1972) observa que uma das características da expansão do capitalismo industrial é a subordinação da atividade agrícola às necessidades da indústria. Porém, o autor considera que nesse caso especifico do setor canavieiro ela falhou, pois, embora tenha havido oficialmente uma separação entre as atividades da agricultura e da indústria, não se conseguiu na prática subordinar a produção da cana às necessidades dos engenhos centrais.

No que diz respeito à experiência dos engenhos centrais em São Paulo, foram adotadas tecnologias para fabricação de açúcar. Essas inovações foram consideradas avançadas para a época, pelo menos no que diz respeito às informações relativas aos engenhos centrais de Capivari e Lorena. Entretanto, em 1891, o nível de atividade das três fábricas existentes em Lorena, Capivari e Porto Feliz, sob essa forma de organização já era muito baixo. Na safra de 1890/91, a quantidade de açúcar total produzida por esses estabelecimentos se mostrava inexpressiva diante das necessidades de consumo do estado de São Paulo. Além do pequeno volume de produção, verificou-se também o baixo rendimento industrial de açúcar em relação ao peso da cana nos engenhos centrais de Lorena, Capivari e Porto Feliz (SOARES 2000, p. 49).

De acordo com Ramos (1999), os engenhos centrais de São Paulo e do Nordeste tiveram problemas semelhantes no que diz respeito às descontinuidades do abastecimento de cana. Mas explica que para a região do Nordeste, a irregularidade do fornecimento de matéria prima não foi o único motivo do fracasso. O autor atribui também às origens históricas do setor no Brasil, que se assentou sob uma estrutura de poder socioeconômico e político extremamente concentrador. O autor menciona que no caso de Pernambuco houve forte resistência dos tradicionais senhores de engenho para abrirem mão do controle de todo o processo produtivo.

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O engenho banguê é geralmente a definição que se dá a uma unidade tradicional de produção de açúcar bruto em pequena escala e com a utilização de técnicas rudimentares, que competiam em vantagem com as usinas por produzirem um açúcar de qualidade inferior, porém mais barato. Ver Meira (2007, p. 109).

[...] essa tentativa de inovação esbarrou na estrutura de poder e de dominação socioeconômica e política que marcava a produção açucareira. Uma estrutura que se assentava na concentração e monopólio da propriedade fundiária. Isto ficaria mais claro a partir do final do século, com o advento da República.

Mais uma vez, comprovava-se um relativo descolamento entre a base material de produção e os valores que sustentam a sociedade. No caso da cana de açúcar, os novos elementos políticos trazidos pelo regime político recém constituído não chegaram a modificar o substrato produtor. A economia brasileira ingressaria no período republicano mantendo intacta a estrutura de dominação vigente no interior do complexo canavieiro, uma estrutura herdada do período colonial e que passara incólume pelo Império. (RAMOS, 1999, p. 67)

Diante do que foi acima exposto, pode-se afirmar que a política de implantação dos engenhos centrais em todo Brasil e particularmente em São Paulo falhou tanto pela escassez de capital que passava o país no período, como também pela falta de idoneidade de muitos concessionários cujo único interesse era realizar uma atividade de especulação mercantil e, finalmente, pela irregularidade no fornecimento da cana provocado pelo conflito entre fornecedores e as unidades fabris.

Portanto, constata-se que a modernização da agroindústria canavieira, tanto âmbito nacional como no caso de São Paulo, não se consolidou durante o período da experiência dos engenhos centrais (1877-1890), mas, como se verá a seguir, tal modernização vai se processar somente através do surgimento das usinas com a incorporação de grandes extensões de terra, ficando dessa forma mantida a principal característica do setor: a integração vertical para trás.

1.5 A modernização das usinas e a supremacia do mercado interno como base de

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