CAPÍTULO 3 – A PNEP/SUAS: INSTITUCIONALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
3.2. A implementação do CapacitaSUAS: resultados, dificuldades e desafios
Conforme a proposta do percurso metodológico diante da natureza complexa da temática, foi delimitado um recorte temporal da pesquisa, demarcando o período de constituição da Política Nacional de Assistência Social – PNAS em 2004, até a divulgação do Censo do Sistema Único de Assistência Social realizado em 2015.
Nesse sentido, em relação ao CapacitaSUAS, é importante destacar que até dezembro de 2014, todos os Estados e o Distrito Federal já haviam aderido formalmente ao programa, que havia certificado 13.568 trabalhadores e 10.728 estavam em processo de capacitação. Esse conjunto de 24.296 trabalhadores representa 65,55 % do total da meta de 37.062 trabalhadores capacitados, estabelecida na primeira etapa de pactuação com os estados (CRUS, 2015, p. 38).
Nesse processo de avaliação do programa observou-se alguns desafios na implementação do programa, como por exemplo, identificou-se que no âmbito de vários entes federativos não se tinha estruturado adequadamente uma área de formação e capacitação, o que ocasionou certo atraso na implementação das ações. Outro aspecto formal de dificuldade na implementação do programa CapacitaSUAS foi a compreensão jurídica diversa por parte de alguns Estados, os quais levaram a um certo atraso na formalização dos contratos entre os entes estaduais e as IES para execução do programa.
Outro desafio foi a questão formal da dificuldade que se observa na implementação do CapacitaSUAS em âmbito estadual da elaboração dos Termos de Referência (TR) para contratação das IES e para acompanhamento e gestão dos contratos formalizados. Para superar esse obstáculo a SAGI disponibilizou um documento padrão a ser utilizado e ajustado por cada unidade, também foi dado assessoria técnica na elaboração dos documentos em cada região (CRUS, 2015).
Outra dificuldade encontrada na implementação do programa foi a ausência de docentes para ministrar os conteúdos com experiência acadêmica nos temas relacionados ao SUAS, com compreensão sobre os avanços e normatizações da política. Para superar esse obstáculo foram necessárias as Oficinas de Alinhamento, nas quais se discutiam e se
aprimoravam os instrumentos didáticos e os projetos pedagógicos, com a participação de consultores especializados.
As oficinas representam espaços de discussão sobre o cotidiano na execução dos serviços socioassistenciais, desconstruindo mitos em relação aos programas sociais e possibilitando a troca de experiências, reforçando a perspectiva pedagógica junto aos professores das IES responsáveis pela execução das ações de capacitação32. A principio se coloca como um momento oportuno para discussão das questões estruturantes do cotidiano dos trabalhadores do SUAS, permitindo ser um espaço de reflexão e crítica sobre suas ações (BOAS et al, 2015)
Os relatórios de visitas técnicas elaborados para o monitoramento da execução presencial dos cursos apresentam que os resultados foram bastante satisfatórios, principalmente no que se refere à avaliação positiva dos aspectos pedagógicos e de infra- estrutura33, no que concerne aos aspectos pedagógicos, sobre os aspectos teóricos em consonância com os aspectos práticos e também que o princípio da aprendizagem significativa está sendo alcançado, já que as avaliações positivas nesse sentido foram acima da média (BOAS; FERRARI; CASTRO et al, 2015).
Portanto o papel do ministério e dos Estados na implementação do CapacitaSUAS, juntamente com as IES que compõe a RENEP/SUAS demonstra que a estrutura institucional do programa está dando efetivos resultados, apesar de se ter em mente a necessidade de se aprimorar constantemente com base nas avaliações contínuas realizadas como parte do ciclo de implementação dessa política de educação permanente e de se buscar a melhoria das condições de trabalho no âmbito desse sistema.
O CapacitaSUAS em consonância com a PNEP/SUAS demonstra uma tentativa de fortalecimento enquanto instrumento de organização e planejamento das ações de formação e capacitação dos trabalhadores do SUAS, que possui limitações relacionadas a questões estruturais de condições de trabalho, além de lidar propriamente com as expressões da questão social. Um exemplo de limitação estruturante na qual a política esbarra são os vínculos precarizados de trabalho os quais estão submetidos os trabalhadores no âmbito do SUAS.
32 Segundo Crus (2015, p. 38): “A partir de 2014, foi introduzida uma dinâmica de sensibilização dos participantes nas Oficinas de Alinhamento, com a leitura de cartas dos usuários dos programas sociais recebidas pela ouvidoria do MDS, com relatos de situações cotidianas que envolvem a demanda por serviços e benefícios socioassistenciais. As realidades retratadas nas cartas permitiam uma reflexão dos participantes quanto ao perfil desses cidadãos e a necessidade de promover o melhor atendimento possível às suas demandas. Com isso, reforça-se também o entendimento sobre o papel e importância dos processos formativos para a qualificação do SUAS e a garantia de acesso aos direitos sociais”.
33 Por exemplo, o índice de satisfação em relação à disponibilidade de infra-estrutura os dados disponíveis são: 71% (sala de apoio); 84% (sala de aula adequada ao tamanho da turma); 56% (espaço adequado para as oficinas de aprendizagem); 87% (garantia de acessibilidade).
Quanto aos resultados, imediatamente se percebe a reestruturação das equipes técnicas estaduais, gerando maior integração entre estas e o MDS, disseminando a política e a execução das suas ações no âmbito da gestão do trabalho. Nesse sentido que se colocam os desafios principais para a coordenação nacional do programa, tais como formar as equipes para o desempenho qualificado de suas atribuições.
Os desafios que se colocam à gestão do programa estão relacionados ao modelo de implementação do CapacitaSUAS, a partir de uma coordenação nacional responsável pelo planejamento central das atividades formativas, da elaboração dos conteúdos e da gestão financeira e no assessoramento técnico na elaboração de documentos normativos. Esse instrumento pretende acabar com a sobreposição de ações no âmbito das atividades de capacitação e formação dos trabalhadores da assistência social, a partir de um esforço colaborativo e de uma reestruturação institucional.
No processo de implementação é importante destacar que o papel dos estados que exerceram um papel significativo no âmbito da PENP/SUAS, desde a realização do diagnóstico de necessidades de formação a nível regional e local que levou a elaboração dos respectivos Planos Estaduais de Capacitação, mobilizando os trabalhadores e gerenciando os contratos com as entidades executoras (BOAS; FERRARI; CASTRO et al, 2015).
Outro resultado expressivo da implementação do CapacitaSUAS foi a estruturação de uma rede de instituições em nível nacional incluindo previamente o credenciamento e habilitação das entidades de ensino superior para ministrar os cursos definidos a partir de critérios específicos, colocando em consonância a gestão de políticas sociais com a universidade. As oficinas de alinhamento permitem ainda que os participantes da RENEP/SUAS possam realizar a troca de experiências e percepções em relação ao programa (MDS, 2015). Esse processo resultou na aproximação entre academia e o dia-dia do trabalho na prestação de serviços socioassistenciais e na execução das políticas sociais.
Nesse sentido que Crus (2015, p. 42) aponta os principais desafios para continuação do programa, que vão desde a busca pelo fortalecimento das equipes dos estados responsáveis pelas ações de formação e capacitação; aprimoramento no assessoramento técnico por conta das mudanças de governos e de gestão estadual; ampliar a oferta de programas de formação para as entidades da RENEP/SUAS; garantir o compartilhamento contínuo de experiências e monitorar as demandas constantes dos planos de educação permanente; aperfeiçoar as estratégias de avaliação e monitoramento no âmbito da política e realizar a articulação e mobilização contínua das IES cadastradas na RENEP/SUAS para que ampliem a temática localmente por meio do ensino, pesquise e extensão.