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O REPERTÓRIO APROPRIADO À INICIAÇÃO COM O PÍFARO O presente capítulo, que trata do repertório selecionado para a iniciação com o

3.1 A IMPORTÂNCIA DA DIVERSIDADE DE MÚSICAS

Nossa contemporaneidade é caracterizada pela possibilidade de acesso a uma pluralidade de músicas. Para que a formação de um iniciante esteja conectada com esta realidade, é fundamental que o repertório de ensino básico de um instrumento, e portanto de um método, em sentido lato ou estrito, contemple músicas de diferentes estilos, gêneros, épocas e até culturas.

A diversidade é a principal diretriz que norteou a montagem deste repertório proposto aqui para a iniciação com a Flauta Pífaro. Por considerar que, no momento da escolha de peças para os principiantes, seja imprescindível que o professor tenha à mão uma ampla gama de opções, foram selecionadas 35 músicas que apresentam características distintas. Há melodias adequadas a diferenciados níveis de desenvolvimento técnico para que se possam trabalhar vários aspectos, de acordo com a demanda peculiar de cada aluno.

Como ponto de partida, é essencial que o professor leve em conta a realidade cultural do iniciante, que chega com referências musicais próprias e interesses específicos. Enfatizo, por isto, a importância de se cultivar um espaço especial para as músicas brasileiras. Dentre estas, no repertório aqui apresentado para o Pífaro há exemplos de canções da música popular urbana; de melodias de manifestações de cultura popular (músicas folclóricas); de composições de música instrumental e de pequenas peças de música erudita.

A presença de canções (músicas que possuem letra) brasileiras no repertório selecionado é marcante. Isto se fundamenta porque os iniciantes naturalmente tendem a ter uma a ligação afetiva mais imediata com uma música que possua uma letra que, de alguma maneira, seja significativa para ele. De fato, no ambiente cultural da maioria das crianças, as canções são mais comuns do que as músicas puramente instrumentais. Em processos de iniciação à musica, sobretudo com crianças, seja em aulas de musicalização ou de instrumentos (como a flauta doce por exemplo), é freqüente que a alfabetização musical ocorra através da utilização didática de canções.

A letra de uma canção pode ser, efetivamente, um elemento catalizador do processo de aprendizagem e memorização da melodia. Em sua dissertação de mestrado, a professora de Flauta Doce, Maria Tereza Castro, apresenta a seguinte afirmativa, com a qual concordo de forma plena:

Muitas vezes, é mais fácil para a criança se lembrar de uma melodia quando ela está ligada a uma letra. A letra funciona, desta forma como mediador da memória. Além disso, o movimento das sílabas tônicas do texto possibilita a percepção de uma métrica [...] (CASTRO, 1999. p.76)

Por sua vez, Rosa Lucia dos Mares-Guia escreve em seu livro:

A canção, através das articulações da melodia e do texto, propicia à criança a compreensão da forma, a partir da percepção de sua estrutura interna. Após cantar, tocar ou ouvir uma canção, a criança, devidamente estimulada pelo professor, é capaz de descobrir o número de partes, as frases e semi-frases de que se compõe. (MARES-GUIA, 2004. p.16)

Considero importante que os principiantes de instrumento aprendam a cantar as melodias que tocam porque a apreensão da imagem sonora do contorno rítmico- melódico está diretamente relacionada à fluência e à expressividade musical. Principalmente em músicas que possuem uma maior complexidade rítmica (apresentando, por exemplo, notas pontuadas, ligaduras, síncopes, etc) e que, por esta razão, são difíceis de se ensinar exclusivamente a partir da leitura de uma partitura, o professor poderá utilizar a letra da canção como um recurso didático, pois, através da sonoridade e do sentido das palavras, pode-se mais facilmente perceber e apontar os acentos naturais da melodia, e também delimitar seus segmentos.

Além de músicas de nosso País, este repertório para o Pífaro contempla também algumas músicas tradicionais de outros países, como Irlanda e Japão. Há diversos exemplos de música de erudita (melodias de composições orquestrais e de pequenas peças originais para Flauta e Piano e para Piano Solo).

Ademais, com o intuito de suprir algumas lacunas detectadas no repertório selecionado, inseri também quatro pequenas melodias que compus para se tocar com acompanhamento de uma gravação. “Chorin 1”, “Chorin 2”, e “Chorin 3”, adequados ao início da aprendizagem, foram criados a partir de gravações- acompanhamento (playbacks) de três Chorinhos Didáticos de Altamiro Carrilho e a

melodia “A outra visita dos bichos” foi composta tendo como base o playback da música “A visita dos bichos”, do compositor mineiro Flávio Henrique. Além dessas, inventei outras três curtas melodias, que são especialmente apropriadas ao primeiro estágio do aprendizado com o Pífaro (elas serão analisadas ao final do capítulo).

Com a finalidade de proporcionar uma visão panorâmica da diversidade do repertório aqui proposto para o Pífaro, apresento uma listagem que contêm o nome e o compositor de cada música e que as organiza de acordo com as seguintes categorias:

CANÇÕES DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA:

• Saudades dos Aviões da Panair Milton Nascimento • Promessas do Sol Milton Nascimento • Raça Milton Nascimento • Cravo e Canela Milton Nascimento • Ponta de Areia Milton Nascimento • Tristeza do Jeca Angelino de Oliveira

• Asa Branca Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira • Lugar Comum João Donato e Gilberto Gil • Ciranda da Bailarina Edu Lobo e Chico Buarque • Canto do Povo de um Lugar Caetano Veloso

• Canção do Amanhecer Gilvan de Oliveira

• Da Maré Ricardo Breim e Luiz Tatit MÚSICA DE TRADIÇÃO ORAL BRASILEIRA:

• Sabiá lá na Gaiola [domínio público brasileiro]

MÚSICA BRASILEIRA PARA FLAUTA E PIANO (ERUDITA, DE CARÁTER DIDÁTICO): • Baião Francisca Aquino

MÚSICA INSTRUMENTAL BRASILEIRA:

• Amazônia Egberto Gismonti • Tupyzinho Carlos Malta • Esfera Juarez Maciel

• Vento (Wind) Marco Antônio Guimarães (UAKTI) • Fogo Marco Antônio Guimarães

MELODIAS CRIADAS PELO PESQUISADOR

A PARTIR DE PLAYBACKS de MÚSICAS INSTRUMENTAIS BRASILEIRAS:

• “Chorin 1” (a partir dos Chorinhos Didáticos de Altamiro Carrilho) • “Chorin 2” (a partir dos Chorinhos Didáticos de Altamiro Carrilho) • “Chorin 3” (a partir dos Chorinhos Didáticos de Altamiro Carrilho) • “A outra Visita dos Bichos” (a partir de “Visita dos Bichos” de Flávio Henrique)

MÚSICAS ERUDITAS ESTRANGEIRAS (COM ORQUESTRA OU COM PIANO): • O Pássaro de Fogo Strawinsky

• Carmina Burana Orff • For Childrens Bartók • Gymnopédie 3 Erik Satie • Berceuse Brahms

MÚSICAS ERUDITAS (DIDÁTICAS) PARA FLAUTA E PIANO: • Poeme Petite Lewallen

• Noturno Lewallen

MÚSICAS TRADICIONAIS DE OUTROS PAÍSES:

• Suo Gan [tradicional do Japão] • Over the Sea to Sky [tradicional da Irlanda] • Down by the Sally’s garden [tradicional da Irlanda]

• Amazing Grace [tradicional nos EUA (desde o sec. XVIII)]

MÚSICA INSTRUMENTAL ESTRANGEIRA:

OBSERVAÇÃO:

Quanto à música contemporânea, apesar de ainda não terem sido encontradas peças que fossem adequadas à iniciação com o Pífaro, os alunos poderão ter oportunidades de contato com elementos musicais próprios da atualidade, por diversas outras vias. Ao eleger a criatividade como um dos pilares da iniciação ao instrumento (em consonância com uma diretiva da área de Educação Musical), o professor propicia o engajamento dos alunos em processos de improvisação e composição musical, que incluem algumas das características da música de nossa época. Utilizando os instrumentos alternativos (pequenos tubos e a áqua-flauta), tocando apenas com o bocal do Pífaro ou com ele inteiramente montado, os iniciantes podem realizar efeitos sonoros (como glissandos e frulattos), e outros sons inusitados (como um ruído similar ao vento, que é realizado ao se soprar o instrumento, tendo sido alterada a posição original do bocal em um giro de 45º para fora). Em diversas improvisações musicais, as crianças aprendem a dialogar musicalmente e a inventar “estórias”. Experimentam-se interessantes sonoridades em contextos musicais não-tonais ou sem temperamento e também não-métricos (derivados da ausência de pulsação ou de compassos definidos). Com a mediação de grafias não-convencionais (em escrita proporcional ou de outros tipos) podem-se trabalhar diversos aspectos. Os principiantes também podem montar estruturas a partir de cartões (que apresentam, por exemplo, fragmentos melódicos ou gráficos) e, ainda, lidar com o acaso em partituras de formas abertas. Em todas estas atividades, o que realmente importa é o envolvimento e a expressividade musical .

3.2 - A PROGRESSIVIDADE NO REPERTÓRIO: