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A importância da infraestrutura de transportes no processo de

CAPÍTULO 1 – ECONOMIA E TRANSPORTES REFERENCIAIS TEÓRICOS E

1.3 A importância da infraestrutura de transportes no processo de

A importância da infraestrutura para o desenvolvimento econômico é reconhecida por diversos autores, de diferentes áreas. Barat (2011) define infraestrutura como a parte inferior de alguma estrutura, onde estrutura é um conjunto, formado por várias partes ordenadas, que serve de sustentação e funciona como base de um sistema onde as partes se relacionam. Este conceito de infraestrutura foi definido pela

Economia e pelas Ciências Sociais e, do ponto de vista filosófico, o marxismo o disseminou como um conjunto de relações sociais e econômicas que determina as superestruturas, estas representando o complexo das ideologias e das instituições religiosas, filosóficas, jurídicas e políticas dominantes em uma sociedade (BARAT, 2011, p. 217).

Diversas organizações que lidam com a questão do desenvolvimento econômico definem infraestrutura de modo particular, mas com diversas semelhanças. O Banco Mundial a define como aquilo que abrange e subsidia os setores, sejam os domicílios ou os setores produtivos, dotando os lugares com energia, telecomunicações, saneamento básico, fornecimento de água, habitações e vias de circulação. Para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), além de fornecer energia elétrica, telecomunicações e saneamento básico, infraestrutura também deve envolver a logística – rodovias, ferrovias e portos. A CEPAL, entende que infraestrutura é bem mais abrangente e deve envolver serviços públicos como fornecimento de água, energia elétrica, gás natural, coleta de resíduos sólidos, drenagem, irrigação, tecnologia da informação e comunicação, além de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. O BID entende a infraestrutura como um conjunto de estruturas e instalações de engenharia, que, geralmente, possuem vida útil longa e sobre as quais ocorrem as ações fundamentais para o desenvolvimento produtivo, político e social de um país. O IPEA, por sua vez, entende que infraestrutura possui conceitos com distintas abordagens: Uma diz respeito à infraestrutura social e urbana e, a outra, à infraestrutura econômica23 (IPEA, 2010).

23 Infraestrutura social e urbana envolve o suporte aos cidadãos e seus domicílios, com o fornecimento de

habitação, saneamento e transporte urbano. A infraestrutura econômica tem por função principal, dar suporte às atividades econômicas do setor produtivo, dotando o território com rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e produzindo e fornecendo energia elétrica, gás natural, petróleo, biocombustíveis e telecomunicações. (IPEA, 2010).

Para a economia, infraestrutura pode ser conceituada como a base material ou econômica de determinada região, sociedade ou organização, ou seja, é “o conjunto das instalações necessárias às atividades humanas, tais como os sistemas de logística e de transportes, de energia elétrica, de telecomunicações [...]” (BARAT, 2011, p. 217). A existência de diversos conjuntos infraestruturais servem de suporte para os serviços públicos e fomentam o desenvolvimento da região onde está presente. Em suma, o conceito de infraestrutura está diretamente ligado ao atendimento das necessidades cotidianas da vida social, pois desenvolvem serviços essenciais que proporcionam melhorias no padrão de vida, no caso das pessoas individuais, e “na medida em que os serviços decorrentes delas se incorporam como insumos às funções de produção” (BARAT, 2011, p. 218), favorecem o desempenho das empresas.

Conforme (BRANDÃO & SARAIVA, 2011), os projetos de infraestrutura possuem características diferenciadas dos projetos de investimentos tradicionais. Estes projetos necessitam de longo prazo para a sua maturação, exigindo maior volume de recursos para sua implantação e, por isso, requerem maior tempo em seu planejamento24. Como destaca Egler (2013, p. 68),

o papel dos investimentos em infraestrutura e serviços públicos na alavancagem do desenvolvimento econômico regional deve considerar a relação entre a concentração e dispersão em seus diferentes aspectos, não apenas quantitativos, mas principalmente qualitativos. Um projeto pode estar localizado em um centro regional, mas seus efeitos espaciais podem se multiplicar em toda uma região, introduzindo mudanças que promovem o desenvolvimento.

Uma oferta eficiente de serviços públicos infraestruturais é importante para a promoção das políticas que visam o desenvolvimento econômico. Não há dúvidas de que “uma adequada disponibilidade de infraestrutura e de seus serviços correlatos é condição indispensável para que o país possa desenvolver vantagens competitivas, alcançando maior grau de especialização produtiva” (IPEA, 2010, p. 16). A eficiência da infraestrutura instalada leva a ampliação da produtividade e, por consequência, da competitividade, movimentando o sistema econômico e, ao mesmo tempo, promovendo o bem estar social. Os efeitos desse

24 Esses fatores, quando associados à existência de fortes incertezas de mercado, elevam o risco do projeto a um

nível em que os investidores privados somente irão investir se houver alguma forma de mitigação de risco por parte do governo (BRANDÃO & SARAIVA, 2011, p. 191).

processo promovem todos os setores da economia, levando ao surgimento de novos investimentos.

Quando um investimento em infraestrutura é realizado, os impactos na economia são sentidos imediatamente. Estes investimentos podem representar melhoria diretamente no escoamento da produção, ampliando, assim, a capacidade de abastecimento dos mercados, o que, indiretamente, pode favorecer o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Os investimentos em infraestrutura, sejam eles realizados pelo Governo ou por empresa privada, têm a função de favorecer a rentabilidade do sistema produtivo, potencializando o desempenho econômico. A presença de um sistema de infraestrutura econômica funcional (rodovias, ferrovia, portos e telecomunicações), em determinado país, “constitui mecanismo concreto de articulação das economias nacionais, e destas com a economia mundial, ao possibilitar a materialização dos fluxos de comércio” (IPEA, 2010, p. 17). Daí decorre o fato de não se poder negar a importância da presença de um conjunto de infraestrutura econômica bem articulada em determinado território.

Esta presença da infraestrutura, sobretudo a de transportes, favorece a elevação da produtividade regional. A disponibilidade, variedade25 e conservação desta infraestrutura é o que condiciona a continuidade de seu uso para, com isso, se atingir o desenvolvimento econômico26. Uma infraestrutura de transportes adequada também favorece à produtividade do trabalho. O trabalhador terá melhor qualidade de vida se gastar menos tempo no deslocamento de casa para o trabalho, o que pode implicar melhorias de rendimento.

Por exercer impactos indiretos na relação capital e trabalho e sobre vários outros aspectos de eficiência, a realização de investimentos em infraestrutura pode promover melhorias microeconômicas. A presença de infraestrutura adequada favorece na decisão individual da empresa, ao reduzir os custos de transações quanto a recepção e distribuição de matéria prima e produtos. Diretamente, cada segmento da infraestrutura econômica exerce impacto direto ou indireto sobre as empresas. São impactos que podem alargar a capacidade de produção através dos custos, tecnologias e facilidade na distribuição dos produtos.

Em se tratando de logística e dos transportes, uma melhoria das condições das estradas e modais alternativos pode possibilitar o alcance de áreas remotas, o que pode gerar um aumento na oferta de mão de obra pela possibilidade de deslocamento populacional; ampliar a demanda pelos mais

25 A existência de modais alternativos para o escoamento – ferrovias, cabotagem etc. – pode baratear os custos

logísticos da empresa e ampliar sua eficiência, possibilitando uma elevação na competitividade de seus produtos (IPEA, 2010).

26 Por exemplo, estradas pavimentadas e bem conservadas reduzem os custos de manutenção e eleva a

diversos produtos, graças ao aumento da capacidade de escoamento; ou simplesmente facilitar o escoamento da produção para os mercados interno e externo (IPEA, 2010, p. 18).

Quanto ao comércio internacional, uma boa infraestrutura favorece a redução dos preços relativos da produção local, favorecendo o segmento exportador. Com relação às importações, os preços também são reduzidos e pressionam os produtos nacionais. Além disso, uma boa infraestrutura que favorece a redução dos preços “permite a importação de um maior volume de bens de capital, viabilizando a renovação e a modernização tecnológica do parque industrial” (IPEA, 2010, p. 19).

No caso do Brasil, o crescimento econômico verificado até a década de 1970 ocorreu graças aos investimentos estatais em infraestruturas, sobretudo de transportes, energia e telecomunicações, como será discutido no capítulo seguinte.

A infraestrutura de transportes, em particular, passou a fazer parte do planejamento público brasileiro a partir da década de 1930. Essas obras foram financiadas através do endividamento externo do governo e das empresas estatais (BRANDÃO & GOMES, 2011). Neste período, o Estado passou a induzir o processo de industrialização que necessitava da expansão do sistema de transportes para ocorrer e,

de início, promoveu a expansão da infraestrutura rodoviária e, posteriormente à Segunda Guerra Mundial, realizou investimentos vultosos e atuou nas operações ferroviárias, dos portos, da energia elétrica e das telecomunicações, por meio de organizações estatais que sucederam as antigas empresas privadas que exploravam os serviços por meio de concessões (BARAT, 2011, p. 228).

A expansão da infraestrutura, sobretudo a de transportes, favoreceu a ampliação e unificação do mercado interno, incorporando regiões mais distantes, ampliando a fronteira agrícola. Assim, o desenvolvimento industrial foi induzido pela ampliação do consumo. E isso foi crucial para o processo de acumulação, porque

os transportes constituem o vetor mais importante para a manutenção da coesão territorial, na medida em que são responsáveis pela circulação de mercadorias e pessoas no território nacional e, por consequência, pela integração do mercado doméstico e pelo escoamento da produção para o exterior (EGLER, 2013, p. 72).

Lessa (2009, p. 87) afirma que foi o “sonho da industrialização e da modernização urbana, principalmente que impulsionou a infraestrutura brasileira”. Este foi o período que

representou um dos melhores momentos do crescimento econômico brasileiro. Os grandes investimentos na expansão da infraestrutura permitiram que o país transitasse da fase de “mero exportador de matérias – primas, construindo uma economia diversificada, com sólida base na industrialização” (BARAT, 2011, p. 229).

Porém, a profunda crise do Estado brasileiro, iniciada na década de 1980, impediu a continuidade da expansão da infraestrutura, iniciando um processo de deterioração que se agravou com o passar dos anos, impedindo, ainda, o ciclo de expansão econômica, como se destacará o capítulo seguinte. Foi no esgotamento do modelo desenvolvimentista que o estado perdeu a sua capacidade de investimento em infraestrutura e a crise da economia, com as altas taxas de inflação, fez retrair também o investimento privado (BRANDÃO & GOMES, 2011). Nesse período, a infraestrutura instalada entrou em processo de deterioração, implicando em sérias perdas para o setor produtivo e ameaçando o desenvolvimento econômico.

Barat (2011) elaborou uma lista das consequências que podem ocorrer ao processo de desenvolvimento econômico quando os investimentos em infraestrutura, seja a continuidade de sua expansão ou a sua deterioração, que podem provocar: estagnação da oferta pela ausência de ampliação da capacidade, considerável queda na qualidade dos serviços, redução do nível de profissionalização dos serviços, desmonte de algumas estruturas públicas, elevação dos custos das atividades econômicas provocada por gargalos na oferta de serviços e incapacidade de atender à demanda causada pela ampliação das escalas produtivas.

Nos anos 1990, com o Plano Real, a economia voltou a dar sinais de estabilidade, e foram lançadas as bases para a volta do desenvolvimento.

As novas condições propiciaram a volta dos investimentos privados, incentivados pelo amplo programa de privatizações promovido pelo governo federal. O inicio do novo milênio encontrou o Brasil preparado para iniciar uma nova fase de crescimento. A ascensão da China e a crescente importância da parceria comercial com o Sudoeste Asiático e com os nossos vizinhos na América Latina alteraram o foco restrito às trocas Norte – Sul com os Estados Unidos e Europa e permitiram ao Brasil aumentar a sua visibilidade mundial (BRANDÃO & GOMES, 2011, p. 15-16),

sobretudo na década de 2000, que voltam os investimentos em infraestrutura de transportes no Brasil. Entre 2003 e 2014 o governo lançou diversos programas para ampliar, recuperar e construir novas estruturas, conforme será demonstrado em tópico específico no Capítulo 2.

À luz da definição de Marx para o processo de acumulação e circulação de capital, pode-se afirmar que a existência de uma rede de infraestrutura de transportes favorece esse processo, pois implica em menor giro do capital empregado. Seja entre o fornecimento de

matéria prima e a produção final, a existência de rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos favorecem a distribuição de mercadorias, de maneira mais rápida, para o mercado, retornando o capital investido, que poderá ser reinvestido, induzindo novas atividades econômicas, que contribuem com o lucro capitalista, mas que, se bem direcionado, pode contribuir com um desenvolvimento das forças produtivas.

CAPÍTULO 2 - O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO