• Nenhum resultado encontrado

O termo agronegócio ou agribusiness foi formulado por Davis e Goldberg (1957), como sendo “a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas; das operações de produção na fazenda; do armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícola e itens produzidos a partir deles”.

No Brasil, o termo é usado para se referir a um tipo especial de produção agrícola, caracterizada pela agricultura em grande escala, baseada no plantio ou na criação de rebanhos e em grandes extensões de terra. O agronegócio é entendido como a soma de quatro segmentos: (a) insumos para a agropecuária, (b) produção agropecuária básica ou, como também é chamada, primária ou “dentro da porteira”, (c) agroindústria (processamento) e (d) distribuição (CEPEA, 2012).

A partir da segunda metade do século XX, o agronegócio brasileiro passou por diversas transformações, orientadas pela modernização tecnológica da agricultura, a aberturada economia internacional e a globalização, impondo novas condições à competitividade (EMPRESA BRASILEIRA..., 2003). Dentre as transformações do agronegócio brasileiro, as mais relevantes ocorreram no início da década de 1970, marcada pela intensificação do processo de mudanças no agronegócio. O crescimento acelerado da população, a intensa migração rural/urbana e, principalmente, a opção política pelo modelo agrícola exportador forçou a busca do aumento da eficiência produtiva das áreas ocupadas e a incorporação de novas áreas, através da expansão da fronteira agrícola (EMPRESA BRASILEIRA..., 2003). Esse modelo objetivava

oferecer alimentos em quantidade suficiente para a população urbana e produzir commodities necessárias à geração das divisas requeridas pelo modelo macroeconômico adotado no País.

A geração de novos conhecimentos na área de CT&I tornou-se um imperativo para a competitividade, levando ao início da estruturação de um sistema de PD&I para o agronegócio, com significativos impactos no agronegócio nacional (EMPRESA BRASILEIRA... 2003). Chaddad e Jank (2006) ressaltam que a crescente competitividade do agronegócio brasileiro é atribuída a diversos fatores, incluindo investimentos em pesquisa agrícola tropical e disponibilidade de crédito agrícola, o que levou a significativos ganhos de produtividade desde 1970.

A Figura 11 apresenta o resumo da evolução histórica do agronegócio no país, na visão do Instituto de Inovação (2006).

Figura 11 - As fases do Agronegócio Brasileiro Fonte: Instituto Inovação (2006).

Até meados do século XX, o país não fazia nenhum investimento tecnológico e apresentava baixa competitividade no mercado externo e as pesquisas ocorriam de acordo com a preferência dos pesquisadores. Todavia, esse modelo não era suficiente para que níveis elevados de produtividade fossem alcançados, dada a falta de sistematização das atividades e a inexistência de uma política de desenvolvimento tecnológico (INSTITUTO INOVAÇAO, 2006). Após a criação da Embrapa, a pesquisa agropecuária incorporou novas características, tornando-se sistemática, atendendo a uma política de desenvolvimento do agronegócio, a inovação gerada chegou ao produtor de forma simplificada, facilitando a assimilação.

De acordo com Campanhola (2005), a geração, adaptação, transferência e adoção das inovações tecnológicas do setor público para o setor produtivo agropecuário têm tido papel fundamental no sucesso do agronegócio brasileiro. Foram criadas e incorporadas centenas de variedades de grãos, hortaliças, forrageiras e fruteiras adaptadas às diferentes condições de solo e clima. Foram desenvolvidas linhagens e cruzamentos de animais com expressivos ganhos de produtividade, rusticidade e tolerância a doenças e práticas de manejo do processo produtivo, adequadas às diferentes condições de recursos naturais e socioeconômicos. Esses avanços têm possibilitado ao agronegócio ocupar posição de destaque no processo de desenvolvimento brasileiro (CAMPANHOLA, 2005).

Para Gasques et al. (2004), o agronegócio é claramente um caso de sucesso. Sua competitividade internacional é patente em muitas culturas; a produtividade da agropecuária avança, revelada pelo aumento da produção sem correspondente aumento da área plantada. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA (2010), o Brasil é um dos principais fornecedores de produtos agropecuários para o mundo (Figura 12).

Figura 12- Produção e exportação agropecuária Brasileira em 2009 Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2010).

O Brasil exporta diversos produtos agropecuários, com destaque para o açúcar, café, suco de laranja, soja e carnes. Na mudança de uma economia mono exportadora para uma poli exportadora, como a de hoje, a pesquisa exerceu um papel fundamental (INSTITUTO INOVAÇAO, 2006).

A produção nacional de grãos tem crescido a taxas médias anuais elevadas e esse aumento da produção ocorre quase exclusivamente apoiado no crescimento da produtividade, uma vez que a área pouco tem se alterado. Os dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA indicam que, no período de 1960 a 2010, a produção de grãos no país aumentou mais de 774%, ou seja, se o Brasil mantivesse a mesma tecnologia de 1960 teria de ocupar mais 145 milhões de hectares de terra (Quadro 7).

1960 2010

Habitantes (milhões) 70 190.7

Produção de Grãos (milhões de toneladas) 17.2 150.8

Área (milhões de hectares) 22 47.5

Produtividade (Kg/ hectares) 783 3,173

Quadro 6- Evolução da produção de grãos 1960 - 2010

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2010).

A produção pecuária, por sua vez, aumentou 251%, enquanto que a área de pastagem aumentou apenas 39%, o que significa que se fosse utilizada a mesma tecnologia de 1960, teria de destinar mais 259 milhões de hectares de terra para pastagem (Quadro 8).

1960 2010

Rebanho (milhões de cabeça de gado) 58 204

Área de pastagem (milhões de hectares) 122,3 170

Produtividade (cabeça por hectares) 0,47 1,2

Quadro 7– Evolução da produção de gado no período de 1960 a 2010 Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2010)

De acordo com Gasques et al. (2004), esse desempenho da agropecuária tem sido essencial para a regularidade da produção do agronegócio. Outra evidência do papel da pesquisa no desenvolvimento do agronegócio foi apresentada por Bonelli (2002), pois mostrou que áreas de expansão recente fazem parte de uma revolução invisível realizada especialmente pela pesquisa.

Segundo Hayami e Rutan (1985), a agricultura em todo o mundo mudou a partir de um sistema baseado em ciência e essa mudança foi responsável por mais da metade do crescimento da produção agrícola desde os anos sessenta em países desenvolvidos. O investimento público em pesquisa agrícola é, portanto, crucial (PAL; JHA, 1996).

Embora o setor privado invista fortemente em P&D, que leva às inovações que ajudam a aumentar a produtividade do agronegócio, esse setor se concentra principalmente em áreas que oferecem oportunidades de lucro significativas, ou seja, um mercado com fortes direitos de

propriedade intelectual (HUFFMANN et al., 2011). Esses mesmos autores citam alguns fatores que tornam imprescindível a pesquisa pública para o agronegócio:

- Pequenos agricultores não conseguem suportar os custos de P&D para desenvolver novas tecnologias agropecuárias.

- Empresas agroindustriais não podem esperar por muito tempo para recuperar os custos de inovações.

- Os agricultores e os consumidores precisam de informações objetivas e transparentes para fazer um bom investimento e a disseminação do conhecimento nos setores públicos é uma fonte acessível de informações tecnológicas.

- As empresas agroindustriais não podem recuperar os benefícios das descobertas científicas básicas que avançam as fronteiras do conhecimento, porque essas descobertas são incertas e podem produzir bens públicos que podem não ser comercializados.

De Carli e Wehrmann (2010) destacam que o Brasil, para se manter na vanguarda tecnológica em busca do disputado mercado internacional, principalmente de commodities agrícolas, necessitará ampliar os investimentos em P&D.

Para Alston e Pardey (2009), apesar dos longos atrasos, centenas de estudos de custo- benefício têm relatado que os investimentos públicos em P&D agropecuário produziram alto retorno para o agronegócio. Apesar disso, há uma desaceleração na taxa investimento público em P&D agropecuário, e um aumento de investimentos na pesquisa privada para esse setor. Infelizmente, as grandes defasagens entre o investimento público em pesquisa resultam em consequências graves que podem não ser visíveis hoje, mas podem afetar negativamente o agronegócio durante um longo período de tempo no futuro (ALSTON; PARDEY; ROSEBOOM, 1998).

Esta opinião é corroborada por Hoag e Fathel-Rahman (2000), que acreditam que, apesar das notáveis contribuições da pesquisa agropecuária para a sociedade, o financiamento público tem diminuído desde a década de 1970. A pesquisa agropecuária recebe menos de 2 por cento do orçamento do governo federal, apesar do grande aumento no índice de produtividade apresentada.

Pode-se tomar como exemplo o caso da Embrapa, que apesar de ser considerada a grande responsável pelo acentuado crescimento da inovação tecnológica no agronegócio nacional, tem, nos últimos anos, executado um orçamento real decrescente para execução das pesquisas.

Em 1975, a Embrapa tinha um orçamento de R$ 393.031, 00 (em valores de 2012), sendo que 60% desse montante era direcionado para execução de pesquisa e 40% para pagamento de pessoal. Em 1980, o orçamento foi de R$ 1.386.226,00, porém houve uma clara inversão do direcionamento desses recursos, sendo que os recursos destinados à pesquisa representaram 45%, enquanto que 55% foram destinados ao pagamento de pessoal. Essa inversão no investimento dos recursos se acentuou ao longo das décadas. Em 1990, 76% do orçamento foi destinado para pagamento de pessoal e 24% para pesquisa. Em 2000, a folha de pagamento consumiu 70% do orçamento e em 2013 esse percentual foi de 73%, sendo destinado somente 27% do seu orçamento para execução de pesquisas (APÊNDICE I).

Esses dados demonstram que, ao longo da década, houve um forte investimento na contratação de pessoal para execução de pesquisas na Embrapa, porém, esse fato resultou na inversão drástica do direcionamento dos recursos da instituição. Atualmente, mais de 2/3 de seu orçamento é destinado à folha de pagamento, restando menos de 30% para a execução de pesquisas.

Infelizmente, o financiamento público tem diminuído, enquanto que as necessidades de alimento têm aumentado. Alguns dos ganhos que se vê hoje são o resultado de investimentos realizados na década de 1990. Segundo Maccunn e Huffman (2000), as consequências do baixo investimento público em P&D agropecuário pode levar até 30 anos para se recuperar (MCCUNN; HUFFMAN, 2000).