• Nenhum resultado encontrado

2 FORMAÇÂO SOCIOESPACIAL, COOPERAÇÃO, GOVERNANÇA

2.4 A importância do desenvolvimento regional

Todas as sociedades, independentemente da legislação nacional e da interferência da economia externa já vivenciaram processos de governança eficazes ou não. Os desafios são menores quando se governa um território com estabilidade financeira, crescimento econômico e bons indicadores sociais. Por outro lado, em nações com características opostas ou com elevado índice de corrupção política, a gestão, por maiores que sejam os recursos naturais e humanos, é mais complicada.

Também é preciso considerar que o sistema capitalista intensificou o processo de globalização, fomentado pelos interesses das grandes corporações, do capital financeiro e de grupos rentistas. Os reflexos expandiram na sociedade, tanto benéficos como prejudiciais, pois, mudanças constantes da estrutura produtiva acirram o aprofundamento das já existentes desigualdades socioeconômicas.

Quanto aos benefícios é possível elencar avanços nos setores de saúde, transporte, telecomunicações, indústria, produção de alimentos, entre outros.

Assim, em determinadas regiões e ou localidades o capital promove desenvolvimento. Por outro lado, têm-se regiões altamente subdesenvolvidas, com diferenças nos índices de desenvolvimento humano. Neste sentido, é essencial considerar que não existe modelo rígido e padronizado de desenvolvimento. É fundamental pensar nos desequilíbrios econômicos, políticos e sociais de um país para conceber um processo de desenvolvimento coerente com capacidades de exercê-lo de forma bem-sucedida (BIANCHI, 2007).

Em geral, existe preocupação de como vão sobreviver as gerações em várias regiões do planeta, assim como será o futuro das próximas gerações. Tais questões se estendem diante do cenário de crises socioambiental. A crise se revela pela hegemonia do capital financeiro e fictício sobre o produtivo, ou seja, parece que a mola propulsora dos demais problemas se dá no sistema econômico, qual seja, o capitalismo. O modelo político-econômico que rege o sistema está ancorado nas bases da conquista e da guerra pelo domínio de recursos naturais e também humano com a exploração da força do trabalho.

Diante do exposto, vale repensar se a condução da organização social tem o Estado como regulador ou se seriam as grandes corporações financeiras, o lobby.

No cotidiano de cada um, podem-se encontrar respostas especialmente quando existe ineficiência na gestão do Estado. Assim, são questionamentos pertinentes: o que fazer para mudar tal quadro? Quais as possibilidades de solução para o enfrentamento da crise sistêmica que assola grande parte da população mundial?

São indagações sem respostas objetivas, contudo é fato que as estratégias a serem adotadas devem envolver a coletividade, a cooperação, ações de desenvolvimento local, regional, nacional e global.

Para Etges e Degrandi (2013), no Brasil e em outros países em desenvolvimento, a flexibilização das fronteiras imprimiu ao desenvolvimento perspectiva cada vez mais vinculada à lógica do mercado. Os governos promoveram a abertura econômica ao capital externo, facilitaram a inserção de indústrias estrangeiras e aumentaram o volume de produtos importados. Assim, o Estado favoreceu as grandes corporações globais e estabeleceu relação direta entre o global e o local, lançando lugares específicos à dinâmica do comércio internacional.

A partir da segunda metade do século XX, notoriamente, da crise da década de 1970, a aceleração do capitalismo e a crescente globalização favoreceram o liberalismo econômico. Assim, no final da década de 1980, a doutrina do neoliberalismo fez com que o mercado, mais uma vez, fosse considerado a força motriz do desenvolvimento. A partir de então, entidades privadas fortaleceram e passaram a adquirir protagonismo nas transações internacionais, conduzindo as dinâmicas no âmbito econômico, político e social.

A ótica do desenvolvimento linear passou a ser questionada em meados da década de 1980, o que fez com que diversos elementos, tais como a centralização excessiva, falta de participação dos beneficiários em ações e a implementação de propostas pouco relacionadas aos interesses e necessidades verdadeiras de seus demandantes. Questões que passaram a estimular especialistas a revisar e autocriticar suas convicções teóricas e práticas sobre intervenções.

De acordo com Myrdal (1965), cabe ressaltar os efeitos regressivos do movimento do capital em direção ao aprofundamento das desigualdades socioeconômicas regionais. As indústrias globais, ao buscarem localidades mais ricas, com infraestrutura consolidada e cenário mais propício à produtividade, fomentam a concentração do desenvolvimento em localidades específicas. Tal

concentração, além de gerar externalidades diretas no território onde estão localizadas, impacta em outros espaços geográficos.

O estímulo à migração de pessoas é um deles; principalmente dos indivíduos com idade ativa para o trabalho e com maior qualificação que se direcionam aos grandes centros desfalcando aquelas localidades mais isoladas. Neste sentido, Dupas (2007), atenta para o progresso disseminado pelos grupos hegemônicos através da globalização. O progresso é compreendido como mito, lançado como o caminho para o desenvolvimento, mas que, em realidade, reflete benefícios concentrados.

Tal perspectiva traz a reflexão acerca do papel dos países em desenvolvimento na dinâmica da globalização, onde suas contribuições são limitadas ao processo de acumulação de pequenas elites globais, estando omitidas da construção e disseminação do que se entende por desenvolvimento. Com os efeitos do neoliberalismo a promoção do desenvolvimento regional, passa a ser centrada na sociedade civil juntamente com os gestores dos municípios, notoriamente a partir da criação de instituições formais que assegurem o desenvolvimento do capital humano.

O neoliberalismo praticado pelos governantes diminui progressivamente o papel do Estado, que em muitos casos fica incapacitado de atender as demandas da sociedade. Por outro lado, aumenta o desempenho do capital financeiro, pois o Estado fica a serviço do capital, perde a função primordial de servir a população.

Santos (2011, p. 9-10) pontua:

Fala-se, igualmente, com insistência, na morte do Estado, mas o que estamos vendo é seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil. Esses poucos exemplos, recolhidos numa lista interminável, permitem indagar-se, no lugar do fim da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologização maciça, segundo o qual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações.

A ausência do Estado se reflete no âmbito da(s) cidade(s), ou seja, políticas que poderiam promover justiça espacial urbana e reduzir as desigualdades socioespaciais deixam de ser prioridade.

A busca pela superação da estagnação econômica dos países tem sido, no decorrer das décadas, percorrida através da construção de múltiplos modelos

teóricos que vislumbram o desenvolvimento. A partir da compreensão das dinâmicas do sistema econômico vigente, das suas estruturas produtivas e da divisão de forças dos atores, tem se buscado prever seus desdobramentos, positivos e negativos, e propor modelos que forneçam alicerces a um projeto de crescimento contínuo e estável. Em geral, não tem funcionado, até pelo fato de a internacionalização da economia funcionar em redes, assim a crise de uma nação reflete diretamente ou indiretamente em outras.

A compreensão da dinâmica do crescimento econômico tem se construído constantemente no decorrer das transformações geográficas, demográficas e tecnológicas mundiais. Assim, a redefinição das dinâmicas econômicas das sociedades, desencadeadas com o passar das décadas, demandaram a inclusão de novas variáveis no escopo das análises do desenvolvimento econômico.

As questões relacionadas ao meio ambiente e aos avanços tecnológicos passaram a ocupar espaço crescente no pensamento econômico. Entretanto, muito embora tenham sido produzidos inúmeros modelos e diagnósticos econômicos, as teorias clássicas e neoclássicas ainda exercem importante influência na compreensão da economia contemporânea.

Diante do exposto, fica evidente a necessidade de repensar o desenvolvimento diante das crises econômicas, políticas, socioambientais, nas escalas global, nacional, estadual, regional e municipal. Para tanto, é importante reconhecer os obstáculos e potencialidades dos territórios, principalmente rever o modelo de desenvolvimento regional. Neste contexto, o território, suas características e processos identificados, são aspectos fundamentais para se repensar o desenvolvimento regional, considerando as especialidades, a inserção na dinâmica do capitalismo e as demandas locais daí resultantes.

No entender de Etges e Degrandi (2013), as disparidades nos níveis de desenvolvimento têm conduzido à construção de posição cada vez mais importante das regiões no processo de desenvolvimento econômico, tendo em vista seu potencial de articular as necessidades e potencialidades locais, com os interesses e investimentos dos atores globais.

Conforme Santos (2011), as particularidades e diversidades regionais têm sido percebidas como possíveis catalizadores do desenvolvimento, a fim de reverter os efeitos perversos da globalização. Ao lado do Estado, a sociedade civil passou a ser vista como agente fundamental de transformação, tendo em vista que

compartilham instituições capazes de estimular objetivos comuns e, logo, a construção de um projeto articulado de desenvolvimento.

As teorias clássicas e suas predecessoras assinalaram que a economia está atrelada mais à ideia de movimento – logo, à evolução das suas estruturas –, do que a uma condição estática. A história do pensamento econômico apresenta complexificação das relações econômicas, onde se tem, progressivamente, a agregação e a transformação dos fatores considerados primordiais ao desenvolvimento.

Neste sentido, é possível depreender que os processos de desenvolvimento econômico mantêm relação híbrida com as características espaciais e territoriais de um determinado país ou região. Assim sendo, não existe diagnóstico estático do desenvolvimento, especialmente nos momentos de maiores crises, pois, as transformações geográficas, tecnológicas, sociais e econômicas se constituem uma nas outras.

A construção do pensamento econômico deve ser geograficamente localizada. A dinâmica da economia em um país com infraestrutura avançada, mão de obra qualificada, mercados interligados e logisticamente organizada é essencialmente distinta daquelas onde há o predomínio da agricultura tradicional, mercados regionalizados e infraestrutura precária. Neste sentido, a análise quantitativa do crescimento econômico de um país é importante, mas não suficiente, para promover o desenvolvimento nacional, pois é imprescindível pensar, também, a partir das diversidades regionais.

Para Boisier (2001), as fortes transformações que estão ocorrendo no modelo de acumulação de capital colocam problemas regulatórios, como a gestão do mercado de trabalho ou a adaptação e difusão da tecnologia moderna, fase expansiva do ciclo. Os instrumentos de intervenção do Estado perderam eficiência na regulação da economia, o que produz descompasso entre as demandas de regulação e o quadro socioinstitucional. Desta forma, as transformações que estão ocorrendo no sistema de intervenção do Estado adquirem caráter estratégico.

Conforme Brandão e Siqueira (2013), quanto à reconstrução institucional, a conjuntura não é muito alvissareira para as políticas de desenvolvimento regional, pois nos momentos de crise são circunstâncias geralmente de distanciamento das ações públicas. Essas são separadas das políticas estruturais e ficam neutralizadas pelos ciclos e alianças eleitorais.

O enfrentamento cotidiano dos problemas pontuais urgentes, assim como o conjunturalismo macroeconômico em busca do crescimento a qualquer custo ganham lugar, conspiram contra o planejamento, a visão a longo prazo, a visualização dos interesses políticos mais consistentes e a legitimação das políticas regionais.

O pensamento econômico deve ser descentralizado em direção às realidades alheias aos países hegemônicos. O desenvolvimento deve ser pensado a partir da valorização dos contextos nacionais, estaduais, regionais e municipais. É indispensável que sejam consideradas as riquezas do território, as forças produtivas particulares, bem como as instituições e, logo, os interesses dos atores sociais e governamentais regionais.

Encerra-se este capítulo, reiterando que a partir do entendimento e do aproveitamento das potencialidades regionais, é possível criar projetos de desenvolvimento que proporcionem mais do que resistência ao discurso da globalização, alternativa à verticalização da dinâmica econômica global. Para tanto, faz-se necessário haver suporte técnico e uma governança eficiente. No próximo capítulo, apresenta-se discussão sobre a formação socioespacial do Brasil, com foco no noroeste de Minas e na área de abrangência do CONVALES.

3 DINÂMICAS SOCIOESPACIAIS NA FORMAÇÃO SOCIOESPACIAL