1. INTRODUÇÃO
1.3. A importância do resgate do Phylogenetic Systematics (HENNIG, 1966)
Para além das defesas transformistas e temporalizantes que, de variadas formas, e partir
de diferentes panoramas ontológicos, pontuam a história da sistemática biológica, é somente
com Charles Darwin [1809-1889] que finalmente teremos uma proposta clara, e ancorada num
panorama causal da explicação da diversidade biológica (a seleção natural), de uma revolução
da história natural, em vista de sua historicização filogenética, i.e., onde a propriedade
transformacional subjacente à diversidade está fundada num eixo temporal de interconexão
filética. Ninguém, antes dele, inferiu tão inequivocamente que membros de um táxon são
similares porque eles descendem de um ancestral comum (MAYR, 1982, p. 209). Papavero &
Llorente-Bousquets (1994c, p. 119) falam que, das importantes modificações que Darwin
introduziu na taxonomia, por meio de sua obra Origem das Espécies (1859), a mais importante
foi a “temporalização das classificações”. Nesse sentido, ele redefine o conceito de afinidade,
que a partir de então, passa a denotar proximidade de descendência (sensu MAYR, 1982, p.
214), ao invés de qualquer outra conotação tipológica. A origem de tal postura pode ser
remontada ao seu período de 8 anos trabalhando na classificação dos Cirripedia, dando a ele
grandes insights sobre classificação, tanto teoricamente quanto praticamente (GHISELIN, 1969
apud MAYR, 1982, p. 211). O vínculo entre a dimensão explanatória, em torno do surgimento
das espécies, e a temporalização da classificação, se dá na medida em que Darwin incorpora,
na construção de sua teoria definitiva, a razão pela qual a seleção natural produz a
diversificação, e não meramente modificações adaptativas, das formas biológicas (CAPONI,
2009, p. 55), e a inferência de que “toda classificação verdadeira é genealógica” (apud MAYR,
1982, p. 210), tendo em vista que é sobre o princípio de divergência, atrelado à seleção natural,
que Darwin se refere quando infere que “essa é a origem da classificação e das afinidades dos
seres orgânicos de todas as épocas; porque eles parecem ramificar-se e subramificar-se, como
os membros de uma árvore a partir de um tronco comum” (DARWIN, 1977 [1858], pp. 9-10
apud CAPONI, 2009, p. 64). Na obra, Darwin já se adianta em ressaltar a importância na busca
de similaridades causadas por evolução convergente, tendo em vista seu poder de “confundir
taxonomistas” (MAYR, 1982, p. 212). É importante ressaltar que Alfred Russel Wallace
(1823-1913), comumente tido como proponente concomitante da teoria da evolução por seleção
natural, junto a Darwin, apesar de ter proposto uma tentativa de classificação das aves, com
base num panorama evolutivo e seletivo, em 1855, no seu Attempts at a natural arrangement
of birds (Tentativas de um arranjo natural dos pássaros) (PAPAVERO &
LLORENTE-BOUSQUETS, 1994c, p. 35), faz isso sob uma concepção seletiva que não necessariamente é
equivalente para com a concepção darwiniana, tendo em vista que o pensamento seletivo em
Wallace não equivale à matriz econômica subjacente a análise da variabilidade individual num
contexto populacional, mas à 'sorte' que podem ter diferentes sub-linhagens de uma mesma
linhagem, na luta pela sobrevivência (GAYON, 1992, p. 31 apud CAPONI, 2009, p. 59). Além
disso, o mecanismo proposto por Wallace aproxima-se de um transformismo substitucional, o
que fica claro no seu diagrama de afinidades para o grupo de aves Fissirostres (WALLACE,
1856 apud RAGAN, 2009, p. 23) [ilustrada no Anexo H]. Já o mecanismo darwiniano é mais
coerente, na medida que se aproxima de um transformismo diversificacional.
Como Papavero & Llorente-Bousquets (1994b, p. 117) evidencia no Anexo C, e
Amorim (2009, p. 5) comenta, “Darwin foi precedido, estava cercado e foi sucedido de
pesquisadores dedicados ao mesmo assunto, que adiantaram muitas de suas ideias”. Tratando
do contexto sociológico que dificulta a compreensão de tais multiplicidades de perspectivas
ofuscadas, Amorim continua comentando que “adicione-se o interesse na mitificação do gênio
e na diminuição do comum, além do pouco interesse realmente nas questões técnicas... com
frequência, mesmo na ciência, é mais conveniente separar Darwin do seu contexto, criar um
caso de long branch attraction e ter uma celebridade a mais”. O caso das redes de colaboradores
dos naturalistas europeus, no séc. XIX, que foram apagados das principais narrativas históricas
em sistemática biológica (sensu MOREIRA, 2002), é mais uma evidência desses
condicionamentos míticos que preenchem as concepções mais superficiais em torno da história
das ciências, e por consequência, também da história da sistemática biológica. De toda forma,
desde o começo do séc. XIX, nenhum taxonomista era mais capaz de dar conta do reino animal
e do reino vegetal ao mesmo tempo, o que explica as diferenças que já vinham acontecendo, e
que só se aprofundaram, a partir de então, entre as sistemáticas zoológica e botânica. Uma delas
diz respeito ao fato de a sistemática zoológica sofrer uma expansão considerável, tendo em vista
novos avanços tecnológicos para a preservação dos animais. Depois do impacto de Darwin,
através da teoria evolutiva por meio da seleção natural, e da influência de sua temporalização
da classificação biológica, os esforços em construir árvores filogenéticas se tornaram a mais
ativa preocupação dos zoólogos na segunda metade do séc. XIX, uma tendência que foi menos
influente na classificação botânica (MAYR, 1982, p. 216), apesar de ter afetado alguns autores,
como será brevemente comentado.
Além do já comentado esquema genealógico-geográfico desenhado por Buffon já no
séc. XVIII [ilustrado no Anexo E], em 1801 já temos uma representação diagramática em forma
de árvore, a Arbre botanique (Árvore botânica) [ilustrada no Anexo I], para representar o
arranjo natural da classificação botânica de Augustin Augier [1758-1825], no seu Essai d'une
Nouvelle Classification des Végétaux (Ensaio de uma Nova Classificação dos Vegetais)
(HELLSTRÖM, 2017, p. 19). Em 1809, Lamarck dá início a uma série de árvores evolutivas
dos animais que aparecerão nos estudos sistemáticos do sec. XIX, começando por sua árvore
presente no Philosophie zoologique (Filosofia zoológica) [ilustrada no Anexo J], de 1809,
seguida da árvore da vida animal [ilustrada no Anexo K], feita por Edward Eichwald
[1795-1876] em sua Zoologia specialis (Zoologia especial), de 1829, baseada numa proposta de Peter
Simon Pallas [1741-1811], em seu Elenchus Zoophytorum, de 1766. Em 1837, temos o famoso
e influente esquema diagramático, em forma de árvore, presente no caderno de anotações de
Darwin [ilustrado no Anexo L]. Um ano antes da publicação da obra Origem das Espécies
(1859), Heinrich Bronn [1800-1862] publica a árvore que representa o seu sistema dos animais,
com base em evidências de registro fóssil [ilustrada no Anexo M]. Com a publicação da
magnum opus de Darwin, temos acesso a sua Grande Árvore da Vida [ilustrada no Anexo N].
Um ápice dessa nova onda de construção de árvores filogenéticas se dá nas árvores construídas
pelo maior seguidor de Darwin fora da comunidade científica falante de inglês (tendo em vista
a existência de Thomas Henry Huxley [1825-1895]), além de ser um dos maiores
popularizadores da evolução, ao lado do próprio Darwin e do Lamarck, o biólogo alemão Ernst
Haeckel [1834-1919]. Apesar de Haeckel não aceitar cada detalhe dos argumentos presentes na
obra de Darwin, ele concordou inteiramente com a tese de que o sistema natural é
necessariamente genealógico, aproveitando entusiasticamente o diagrama de ramificação
abstrata, feito por Darwin em seu caderno de anotações de 1837 (RAGAN, 2009, p. 21). Apesar
de utilizar a ontogenia como forma de reconstruir o parentesco filogenético, as árvores
evolutivas desenvolvidas por Haeckel, visualmente muito chamativas e detalhadas, foram
amplamente discutidas em sua época, como por exemplo a sua árvore genealógica retratando
os três reinos da vida, do volume II do Generelle Morphologie der Organismen (Morfologia
Geral dos Organismos), de 1866 [ilustrada no Anexo O]. Pelo fim do séc. XIX, era um
lugar-comum das monografias, em zoologia de vertebrados, incluir táxons em forma de árvores
ramificadas. Um segundo alemão que incorporou a revolução que foi iniciada por Darwin na
história natural, foi o botânico August Eichler [1839-1878], que propôs um sistema filogenético
para a classificação das plantas, nos dois volumes do seu Blüthendiagramme: construirt und
erläutert (Diagrama Floral: construído e explicado), de 1875 e 1888, respectivamente. Tal
sistema influenciou diretamente a construção do sistema Engler, desenvolvido por Adolf Engler
[1844-1930], sendo o principal sistema de referência na sistemática botânica a partir do começo
do séc. XX.
Diretamente associada a essa inicial profusão de filogenias, o que pode-se tomar
enquanto as raízes da existência de um programa filogenético (sensu CAPONI, 2011b, p. 739)
(que reemerge no séc. XX a partir de diferentes abordagens), esteve a consolidação de um
panorama macrotaxonômico na sistemática biológica, i.e., a situação concreta na qual houve
uma onda de trabalhos em classificação que estavam sucessivamente lidando com categorias
superiores ao nível de gênero e espécie. Tal nível de trabalho taxonômico condicionou os
sistematas a lidarem com um universo comparativo absurdamente maior, requerendo uma
articulação teórico-prática mais delicada, principalmente quando este empreendimento esteve
vinculado ao programa filogenético. Como Mayr (1982, p. 217) discute, depois de 1880, houve
um gradual, porém notável, declínio no interesse na macrotaxonomia e nos estudos
filogenéticos. Durante o séc. XX, os morfologistas evolutivos tornaram-se gradativamente
menos interessados em buscarem explicações históricos e filogenéticas, o que se refletiu na
perda do interesse em desenhar árvores filogenéticas ou séries transformacionais. Na
redefinição e expansão do seu espaço disciplinar de conhecimento, muitos morfologistas
começaram a adotar novas tecnologias e desenvolver as chamadas abordagens de engenharia
para o estudo de evolução (TAMBORINI, 2020, p. 214). Mayr levanta alguns fatores para
explicar tal fenômeno na história da sistemática, desde de uma crítica à confusão conceitual
emergente, na medida em que o conteúdo destes novos trabalhos resgatava e transformava
termos antigos (quando até mesmo não criavam termos novos); até um fator que ele toma como
mais importante, consistindo na crescente competição da taxonomia para com outros ramos da
biologia. Como o autor descreve, “com as excitantes descobertas na biologia experimental
(citologia, genética mendeliana, bioquímica, fisiologia), muitos dos mais brilhantes jovens
biólogos foram para esta área”, resultando num desfalque de profissionais dedicados à
taxonomia, assim como um desfalque nos suportes institucionais, agora reduzidos, para esse
ramo da biologia
7(MAYR, 1982, p. 218-219).
O que aconteceu, a partir daí, foi uma transformação da atividade sistemática, saindo do
seu panorama macrotaxonômico e direcionando-se para um panorama microtaxonômico, na
medida em que as recentes propostas e descobertas, centralizadas numa abordagem mendeliana,
apontavam que a resolução dos problemas biológicos se dava no nível da espécie e/ou da
população. Aliado a isso, o consenso, depois de Darwin, de que agrupamentos naturais
refletiriam sua descendência com modificação, de nenhuma forma se desdobrou no consenso
acerca de qual destes dois aspectos seria o mais decisivo na consolidação de tais agrupamentos:
a descendência ou a modificação (SCHMITT, 2013, p. 119). Essa “nova sistemática”, por se
concentrar majoritariamente nesse nível específico, não ofereceu soluções para as necessidades,
ainda latentes, da macrotaxonomia (MAYR, 1982, p. 221). Na comunidade científica de língua
inglesa, o cenário ficou dividido entre dois programas de pesquisa (sensu LAKATOS, , 1978,
p. 47): o gradismo, representado por uma abordagem integrativa do conhecimento biológico,
porém com falhas a nível teórico (o que se desdobrou na defesa de vários grupos artificiais, a
partir dessa abordagem) e epistemológico (tendo em vista o caráter sociológico vinculado à
obliteração da validação de hipóteses causada pela influência das opiniões de autores já
hegemônicos em relação a cada grupo taxonômico). Esta nova sistemática era apenas uma parte
7A taxonomia tradicional, como um todo, sofrerá um fenômeno semelhante décadas depois, a partir do surgimento e influência da biologia molecular em toda ciência biológica, cooptando o próprio significado da pesquisa em sistemática, tendo por desdobramento uma profunda despriorização da atividade taxonômica tradicional em toda rede de fomento associada a este tipo de investigação (WHEELER, 2004).