Sob a categoria ‘bens de capital’ estão reunidos bens extremamente distintos como máquinas e equipamentos propriamente ditos, associados à indústria mecânica e ônibus e caminhões, referentes à indústria de material de transporte. Porém, o que realmente define um bem como sendo de capital é sua utilização em processos produtivos de outros bens e serviços sem que sofra transformação. Desta forma, um bem pode ser ou não caracterizado como de capital de acordo com o seu uso. Por exemplo, o refrigerador de uma residência destinado à conservação dos alimentos da família é um bem de consumo durável, enquanto o mesmo refrigerador utilizado em um restaurante passa a ser um bem de capital (ALEM; PESSOA, 2005).
O setor de bens de capital engloba a produção de máquinas e equipamentos utilizados por todos os sistemas produtivos e assume papel estratégico no processo de desenvolvimento econômico de um país, uma vez que incorpora a geração de tecnologia e, conseqüentemente, difunde progresso técnico para o restante dos setores econômicos. (NASSIF, 2007). Ao introduzir novos produtos e realizar modificações nos já existentes, proporciona-se um aumento no nível de produção e de produtividade, não só da indústria de transformação, como também na agricultura, nos serviços e em outros setores da economia. Essa difusão tecnológica se faz presente nas inovações oriundas de várias fontes (clientes, institutos de pesquisa, empresas de consultoria ou desenvolvidas pela própria empresa fabricante) (MEGLIORINI, 2003). A indústria de bens de capital, por estar articulada com outras indústrias, permite que uma “idéia” desemboque numa invenção, além de facilitar sua difusão. Ela materializa “idéias” sobre equipamentos e processos novos sob a forma de protótipos ou plantas piloto. Depois, sob condições comerciais, introduz os novos equipamentos e processos no mercado, provocando sua difusão (RESENDE, 1994).
Países que pretendem internalizar, sob condições de eficiência econômica, a produção de bens de capital, tendem a aumentar o grau de autonomia tecnológica, além de ampliar seu potencial de desenvolvimento econômico. Apesar disso, a abrangência e a diversidade dessa indústria e a sua variada complexidade tecnológica, sugerem que nenhum país é capaz de dominar (e nem seria conveniente) parcela expressiva dos segmentos
existentes (NASSIF, 2007). Isso faz com que o setor de bens de capital possua um padrão distinto de outros setores: a maioria dos países é, ao mesmo tempo, produtor, exportador e também importador, com volume comercializado expressivo. Esse comportamento se justifica de alguma forma, pelo elevado grau de especificidade técnica dos produtos (AVELLAR, 2008).
Segundo Santos et al. (2007), a indústria de bens de capital incorpora uma enorme diversidade de condições competitivas, inter e intra-setoriais, no que diz respeito a: - distintas categorias de bens produzidos;
- divisão entre segmentos produtores de bens seriados e sob encomenda;
- porte e divisão do controle da propriedade do capital das empresas líderes entre grupos nacionais ou estrangeiros; e
- nível de atualização tecnológica e assimetrias na capacidade de alavancagem financeira das empresas que operam nos diversos subsetores e geram padrões de concorrência diversos.
A configuração internacional do setor depende da demanda por bens de capital de outros setores, que se dá basicamente por duas maneiras: para reposição de máquinas ultrapassadas (de geração tecnológica defasada) e para ampliação da capacidade produtiva instalada (AVELLAR, 2004). Segundo Megliorini (2003), a demanda por reposição, conseqüência do ritmo de obsolescência física e tecnológica das máquinas e equipamentos que formam a estrutura produtiva das empresas, tende a ser mais estável, pois, pela lógica, as empresas buscam pelo menos manter, enquanto não conseguem expandir, sua estrutura produtiva. Já a demanda para expansão da capacidade produtiva depende do desempenho da economia. Em períodos de recessão, os investimentos para expansão da capacidade são adiados e, como conseqüência, o setor de bens de capital é um dos primeiros a sentir os efeitos com a redução das encomendas, passando a conviver com um aumento da capacidade ociosa. Por outro lado, quando da retomada dos investimentos, é um dos últimos setores a sentir os benefícios, até que as demais empresas atinjam um nível de produção que justifique a aquisição de novos equipamentos. Devido a essa dependência em relação às oscilações econômicas que ocorrem em outras cadeias produtivas e que afetam o setor de bens de capital, Perrotti (2008) sugere a necessidade de incentivos e investimentos públicos no setor.
As condições competitivas do mercado são heterogêneas, uma vez que estão relacionadas ao ritmo tecnológico do segmento industrial, ou seja, às características dos produtores e compradores dos bens de capital. As empresas de bens de capital também apresentam heterogeneidade quanto ao porte, incluindo desde empresas familiares, com pequena representatividade, até grandes grupos, que dominam o mercado internacional
(AVELLAR, 2008). Silva (2007) aponta ainda a diversidade quanto ao número de empresas, de segmentos e o grau de capacidade instalada.
A dispersão das empresas de bens de capital no mundo está baseada, principalmente, no grau de avanço tecnológico dos produtos fabricados. Os produtos de alta complexidade tecnológica se mantêm centralizados em países desenvolvidos e os produtos com menor grau de conteúdo tecnológico (como as máquinas-ferramenta tradicionais) e as atividades produtivas, como a manufatura, tendem a ser realizadas em países em desenvolvimento, que apresentam também como característica, uma forte dependência de componentes importados (AVELLAR, 2008). Segundo Perrotti (2008), é fato que a cadeia produtiva de bens de capital sob encomenda está bastante internacionalizada. Entre os fatores que concorreram para esta internacionalização está a ausência de escala de produção para alguns componentes, especialmente os com maior tecnologia embarcada. Com isto, os custos desta indústria passaram a depender mais da taxa de câmbio, sendo comum a prática de compra de “hedge” bancário (tipo de seguro fornecido pelos bancos para manter a moeda do contrato fixa em relação à moeda do país) para proteger os contratos, os projetos e as empresas.
A produção de máquinas e equipamentos mais complexos está concentrada em países desenvolvidos como Estados Unidos, União Européia (com destaque para Alemanha e Itália) e Japão, que se destacam como os maiores exportadores e, ao mesmo tempo, importadores de máquinas e equipamentos. A partir do início da década de 1990, a indústria de bens de capital passou a ser expressiva em países menos desenvolvidos, como o Brasil, por meio da aquisição de empresas locais por multinacionais (AVELLAR, 2008). Nos países em desenvolvimento, além do Brasil, somente Coréia do Sul, Taiwan, China e México possuem um setor de bens de capital expressivo (ALEM; PESSOA, 2005).
Avellar (2008) aponta que dentre os países em desenvolvimento, o Brasil, nas duas últimas décadas, se destaca com uma forte inserção internacional, como fornecedor de máquinas e equipamentos para os países do MERCOSUL. No entanto, a crise da economia argentina abalou sensivelmente sua posição, uma vez que era um dos principais compradores de bens de capital brasileiros. Diante disso, o Brasil buscou alternativas de mercado e hoje as exportações para os países desenvolvidos, pertencentes à Nafta e à União Européia, representam 53% dos bens de capital exportados.
A difusão das inovações tecnológicas no setor de bens de capital depende das características estruturais das empresas a montante (fornecedores e serviços de projeto) e do grau de desenvolvimento tecnológico das empresas a jusante, uma vez que a relação cliente-
fornecedor, ao longo do tempo, vem sofrendo alterações em termos de qualidade na prestação de serviços pós-venda, como a manutenção das máquinas e equipamentos (AVELLAR, 2008).