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A impossibilidade jurídica do pedido como questão de mérito no CPC

3 O MODELO PROCESSUAL COOPERATIVO NO DIREITO PROCESSUAL

5.4 A impossibilidade jurídica do pedido como questão de mérito no CPC

O CPC atual trouxe, dentro deste contexto de delimitação conceitual do “mérito”, uma mudança significativa, que foi o desaparecimento da categoria das “condições da ação”, passando a reconhecer, por conta disso, a impossibilidade jurídica do pedido como uma questão de mérito, o que demonstra mais um exemplo de valorização do princípio da primazia do julgamento de mérito.

Rompendo-se com uma noção amplamente admitida no ordenamento jurídico brasileiro, cuja previsão estava expressa no CPC/1973 (que exigia o preenchimento simultâneo das três condições da ação - a possibilidade jurídica do pedido, a legitimidade ad causam de parte e o interesse de agir - para que se pudesse examinar o mérito), o texto do atual CPC não se reportou à “possibilidade jurídica do pedido”, como uma das condições da ação, porque tal categoria processual, para alguns doutrinadores, restou eliminada do novo sistema processual591.

Ao excluir a categoria das “condições da ação” do sistema processual civil brasileiro, passando a tratá-las ora como questões de mérito (possibilidade jurídica do pedido), ora como pressupostos processuais (interesse de agir e legitimidade ad causam), o CPC atendeu a reclamos antigos da própria doutrina brasileira, que sustentava, de há muito, a existência de apenas dois juízos valorativos a serem exercidos pelo órgão jurisdicional: o juízo de admissibilidade e o juízo de mérito, dada a desnecessidade lógica da terceira categoria processual autônoma criada pela Teoria Geral do Processo, qual seja, as denominadas “condições da ação”.

Há algum tempo, já se defende que tanto a possibilidade jurídica do pedido como a legitimidade ordinária da parte592 constituem, na verdade, questões de mérito, a desafiarem, pois, em suas ausências, verdadeiras sentenças de mérito, julgando

591 Este é o entendimento majoritário da doutrina processual civil pátria, bastando, para tanto, conferir

DIDIER JR., Fredie, Curso de direito processual civil. cit., p. 344-345, bem como CUNHA, Leonardo Carneiro da. “Será o fim da categoria condições da ação? Uma intromissão no debate travado entre Fredie Didier Jr. e Alexandre Freitas Câmara”. Revista de Processo. São Paulo: RT, n. 198, 2011, p. 227-235, sem desconhecer, porém, o entendimento contrário de CÂMARA, Alexandre Freitas, “Será o fim da categoria condições da ação? Uma resposta a Fredie Didier Jr.”. Revista de Processo. São Paulo: RT, n. 197, p. 261-269, 2011.

592 DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. cit., p. 344-345, bem como CUNHA, Leonardo

Carneiro da. “Será o fim da categoria condições da ação? Uma intromissão no debate travado entre Fredie Didier Jr. e Alexandre Freitas Câmara”. Revista de Processo. São Paulo: RT, n. 198, 2011, p. 227-235, sendo que esta dissertação, porém, considera a legitimidade ordinária como pressuposto de admissibilidade do processo, e não como questão de mérito, tal como apregoam os autores supracitados.

improcedente o pedido formulado, e não sentenças meramente terminativas, que extinguem o processo sem resolução do mérito, tal como ocorria no CPC/1973.

Realmente, se o juiz indefere o pedido formulado pelo autor, por entender que tal postulação é proibida expressamente pelo ordenamento jurídico, isso significa dizer que a parte não tem direito aquilo por ela exigido, tratando-se, portanto, de um pronunciamento jurisdicional de mérito, apto a acarretar, inclusive, a formação da coisa julgada material, e não de uma decisão referente à admissibilidade do processo, que apontaria para uma eventual inexistência de um pressuposto processual593594.

Neste sentido, o inciso VI do art. 485 do CPC, ao se referir, apenas, à ausência de legitimidade e à de interesse processual de agir como hipóteses de extinção do processo sem resolução do mérito, veio a corroborar a correção da tese doutrinária supracitada, que se envereda pelo reconhecimento da “possibilidade jurídica do pedido” como questão de mérito.

De igual modo, o art. 330 do CPC, ao relacionar as hipóteses de indeferimento da petição inicial, não mais indica a impossibilidade jurídica do pedido, tal como o fazia o inciso III do parágrafo único do art. 295 do CPC/1973.

Como visto, o texto do CPC vigente, diferentemente do que ocorria com o CPC/1973, não mais se refere às expressões “condições da ação” ou “carência de ação”, sendo possível extrair daí a intepretação de que, atualmente, não mais se reconhecem as condições da ação como categoria autônoma do direito processual civil.

Disso resulta outra conclusão, pela qual tanto a legitimidade ad causam de parte como o interesse processual de agir passaram a ser insertos na categoria “pressupostos processuais”, constituindo a primeira um pressuposto de validade subjetivo e o segundo um pressuposto de validade objetivo intrínseco595.

593 “A bem da verdade, a prática tem revelado não haver qualquer distinção entre a impossibilidade

jurídica e a rejeição do pedido, de tal sorte que uma sentença que extinga o processo sem julgamento do mérito por impossibilidade jurídica do pedido contém, indiscutivelmente, o mesmo sentido da que rejeita a pretensão formulada pelo autor, à mingua de amparo legal”(CUNHA, Leonardo Carneiro da. Interesse

de agir na ação declaratória. Curitiba: Juruá, 2002, p. 76-77).

594 Em idêntico sentido, é a opinião de Galeno Lacerda: “se julgar inexistentes as condições da ação,

referentes à possibilidade jurídica do pedido e à legitimação para a causa, proferirá sentença de mérito, porque decisória da lide” (LACERDA, Galeno. Despacho saneador. cit., p. 82), bem como Adroaldo

Furtado Fabrício, para quem “pelo menos as decisões envolvendo possibilidade jurídica do pedido e

legitimatio ad causam são sentenças de mérito” (FABRÍCIO, Adroaldo Furtado. A ação declaratória incidental. Rio de Janeiro: Forense, 1976. p. 22).

595 Como esclarece Cândido Rangel Dinamarco, “da perspectiva de quem examina o processo para

verificar se o provimento deve ser emitido ou não pode sê-lo, basta enunciar linearmente todos os requisitos dos quais tal emissão depende, sem a preocupação de agrupá-los em categorias. Todos eles situam-se em um só patamar operacional, sendo objeto de um dos dois juízos a serem feitos pelo juiz no processo: antes de se decidir sobre o teor do provimento de mérito a ser emitido, ele decide sobre se o

Em complemento, infere-se, outrossim, que restou reconfigurada a noção de “possibilidade jurídica do pedido”, que passou a se constituir uma questão de mérito, na atual sistemática processual civil.

Poder-se-ia questionar qual a relevância prática desta exclusão da categoria da condição da ação e, via reflexa, da inserção da “possibilidade jurídica do pedido” como questão meritória, para a presente dissertação, cujo objeto é o princípio da primazia da solução do mérito?

Contudo, há, sim, um ponto de conexão entre o assunto acima abordado e o objeto do presente trabalho, na medida em que, a partir do reconhecimento da impossibilidade jurídica do pedido como uma questão de mérito, surgiu uma discussão doutrinária quanto ao eventual cabimento do julgamento de improcedência liminar do pedido, tipificado no art. 332 do CPC, na hipótese de um pedido juridicamente impossível, ou seja, quando vedado expressamente pela ordem jurídica.

Em outras palavras, seria possível uma nova hipótese atípica de improcedência liminar do pedido?

Embora não haja nenhum dispositivo no CPC, que permita, seja genérica, seja especificamente, a rejeição liminar do pedido (improcedência liminar prima facie) nas hipóteses de pedidos expressamente proscritos pela ordem jurídica vigente ou que contrariem texto normativo não reputado inconstitucional (impossibilidade jurídica do pedido), é possível sim construir tal possibilidade a partir da conjugação dos princípios da eficiência, da boa-fé processual e da duração razoável do processo, todos positivados na legislação infraconstitucional de regência596.

proferirá ou não. Todos os pressupostos de admissibilidade do mérito situam-se no patamar das

preliminares, que antecede e condiciona o do julgamento do mérito” (Instituições de direito processual

civil. São Paulo: Malheiros, 2001. v. 2, p. 616-617).

6 A CONCRETIZAÇÃO E OS LIMITES DOGMÁTICOS DO PRINCÍPIO DA