CAPÍTULO 1 – LUZ E SOMBRA: A MÚSICA DO LED ZEPPELIN
1.5 A imprensa e o estímulo ao Led Zeppelin IV
A relação entre o Led Zeppelin e a imprensa era ambígua: alguns setores elogiavam e outros depreciavam. Parte da imprensa norte-americana, principalmente a revista Rolling Stone, desdenhava da banda. Sobre o primeiro álbum, o crítico John Mendelsohn afirmou, por exemplo, que o Led Zeppelin era uma cópia do álbum Truth, do Jeff Beck’s Group, e que Jimmy Page era um produtor fraco e com pouca criatividade para escrever canções, apesar de ser um bom guitarrista de blues e saber explorar a sonoridade da guitarra por ser um instrume nto elétrico. Mendelsohn ainda inferiu que Babe I’m gonna leave you era uma canção maçante e redundante e que, frente a uma música acústica, Robert Plant uivava e John Bonham batia no chimbal com muita força. A conclusão do crítico musical terminava dizendo que o álbum foi um desperdício de talento por parte do Led Zeppelin porque era apenas uma cópia.123
O julgamento da Rolling Stone não levava em consideração a criatividade e o projeto de banda que era o Led Zeppelin. Segundo Edward Macan, os comentaristas dessas revistas estadunidenses não compreendiam que o rock não era um gênero musical pré-definido nos anos de 1960 e, por serem conservadores, faziam críticas desse tipo a algumas bandas.124 Chapple e Garofalo afirmaram que a Rolling Stone nunca foi revolucionária, pois Jann Wenner, seu dono, não queria se ligar ao underground, como ele disse:
123 MENDELSOHN, John. Led Zeppelin I review. Rolling Stone, Estados Unidos. Album Reviews. Disponível
em: https://www.rollingstone.com/music/albumreviews/led-zeppelin-i-19690315. Acesso em: 03 out. 2017.
124 MACAN, Edward. Rocking the classics : English progressive rock and the counterculture. New York: Oxford
Nunca me filiei na associação da imprensa underground e nunca partic ipei nessa coisa da reimpressão. Sentimos que estávamos a trabalhar para um público diferente, com uma atitude inteiramente diferente. Tentamos, desde o princípio..., funcionar numa base muito sólida, muito comercial. Nós também queremos ganhar dinheiro. Estamos no negócio, não temos vergonha disso, e es tamos a tratar da música. A música é a maior parte definível da cultura da juventude, é a coisa pela qual as pessoas se interessam e, o que é mais importante, foi o método de comunicação das pessoas.125
Com o pensamento estritamente capitalista e sem parecer se importar com os aspectos revolucionários dos finais da década de 1960, alguns dos redatores da revista começaram a se opor à postura não favorável aos movimentos políticos do período. O resultado foi a saída de indivíduos ligados aos movimentos políticos e do underground no início da década de 1970.126 Sendo assim, as críticas negativas aos aspectos psicodélicos do Led Zeppelin podem fazer parte de uma forma de pensar conservadora que partiu do próprio Wenner.
Nesse sentido, a banda foi afetada negativamente pelas avaliações recebidas, como na Rolling Stone, o que marcou a relação do Led Zeppelin com a imprensa até a morte de John Bonham.127 Provavelmente, o que garantiu o sucesso do grupo foram as apresentações ao vivo e, também, as canções tocadas nas rádios FMs. É possível que, se os álbuns fossem lançados antes dos shows, a banda não teria feito o mesmo sucesso. O mesmo Mendelsohn alfinetou o segundo álbum e continuou a fazer críticas negativas. O comentarista dizia, por exemplo, que precisou ouvir o álbum inúmeras vezes alterado por ervas para conseguir compreender Whole Lotta Love. Além disso, ironizou Jimmy Page ao chamá-lo de o melhor guitarrista de blues branco daquela época.128
O terceiro álbum, do mesmo modo, foi alvo de diversas opiniões depreciativas. A Melody Maker, revista que também analisava música, disse que o Led Zeppelin copiou os músicos de folk rock Crosby Stills and Nash. A Rolling Stone, por sua vez, desqualificou o terceiro álbum da banda. Segundo Lester Bangs, analista de música da revista:
De fato, a primeira vez que ouvi o álbum, minha principal impressão foi de um anonimato consistente da maioria dos sons – nenhum poderia errar a banda, mas nenhum truque destaca-se com algo estranhamente especial como fez o grande, brilhante Orangotango-gozador-chiador Plant e a guitarra “freak-out” que fez de
Whole Lotta Love um clássico ruim.129
125 WENNER, Jann apud CHAPPLE, Steve; GAROFALO, Reebee. Rock & Indústria: história e política da
indústria musical. Lisboa: Editorial Caminho, 1989. p. 217-218.
126 Ibid., p. 221.
127 DAVIS, Stephen. The hammer of the gods: The Led Zeppelin saga. New York: Berkley Publishing, 1985. p.
72-73.
128 MENDELSOHN, John. Led Zeppelin II review. Rolling Stone, Estados Unidos. Album Reviews. Disponível
em: https://www.rollingstone.com/music/albumreviews/led -zeppelin-ii-19691213. Acesso em: 05 fev. 2018.
129 No original: “In fact, when I first heard the album my main impression was the consistent anonymity of most of
Inicialmente, as críticas feitas pela imprensa não foram bem recebidas pelos quatro membros da banda.130 Para agravar a situação, diante dos outros dois álbuns, o terceiro foi o que menos vendeu, sendo considerado, na época, um fracasso comercial. A Atlantic Records também desaprovou o fato de o Led Zeppelin ter fugido da fórmula de sucesso do segundo álbum.
Jimmy Page, já no fim de 1970, levou Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham para Headley Grange, um antigo asilo na área rural da Inglaterra onde comporiam e gravaria m partes de um novo álbum. Quando ficou pronto, o guitarrista o levou para a Atlantic Records e a gravadora disse que as ideias do produtor eram um “suicídio profissional”. O motivo era latente: a capa não possuía título, menção à banda ou à gravadora. Se olharmos para ela, há apenas um camponês idoso carregando madeiras em um quadro pendurado em uma parede velha e descascada. Na parte de trás, observam-se prédios velhos. Ao abrir a capa, a parede com a moldura sobrepõe os prédios e o camponês está numa posição acima da dos prédios, provavelmente numa clara intenção de mostrar que o ambiente rural estaria acima do urbano. Além disso, os prédios estão velhos, o que demonstraria uma possível decadência deste ambiente. Na parte de dentro do álbum, há um desenho feito por Barrington Colby, que faz referência à carta do tarô relacionada ao eremita. Essa imagem está na parte de cima de uma montanha e, na parte de baixo, há uma figura humana ajoelhada e de braços abertos, como se pedisse redenção ao símbolo religioso.
Pensando nas duas imagens, a sensação que temos é que os ambientes mágicos e rurais libertariam o ser humano, tal como os freaks acreditavam. Segundo Jimmy Page, seu “coração estava tão afinado com os tempos antigos quanto com o que estava acontecendo”,131 embora ele admitisse que nem sempre estivesse de acordo com o novo. Logo, o Led Zeppelin IV poderia indicar uma visão sobre o passado e sobre o presente. O disco de vinil que continha as músicas vinha dentro de um envelope com quatro símbolos desenhados e a letra de Stairway to heaven, quarta música do lado A do vinil e maior sucesso da banda, ao lado de uma figura que alguns consideram que é John Dee, um mago na corte de Elizabeth I.132
the great, gleefully absurd Orangutang Plant-cum-wheezing guitar freak -out that made ‘Whole Lotta Love’ such a pulp classic”. BANGS, Lester. Led Zeppelin III. Rolling Stone, Estados Unidos, 26 nov. 1970. Album Reviews,
p. 34. Disponível em: https://www.rollingstone.com/mu sic/music-album-rev iews/led-zeppelin-iii-11228 4/ . Acesso em: 10 dez. 2017.
130 GODWIN, Robert. Led Zeppelin: The Press Reports... Ontario: CGn Publishing, 2003. p. 236.
131 PAGE, Jimmy apud TOLINSKI, Brad. Luz e Sombra: conversas com Jimmy Page. São Paulo: Globo, 2012.
p. 154.
132 WALL, Mick. Led Zeppelin: quando os gigantes caminhavam sobre a Terra. São Paulo: Lafonte, 2009. p. 306-
Figura 1 – Capa aberta do Led Zeppelin IV
Fonte: LED ZEPPELIN. Led Zeppelin IV. New York: Atlantic Records, 1971. 1 LP (42min.) / Acervo pessoal.
Figura 2 – The Hermit: capa interna
Fonte: LED ZEPPELIN. Led Zeppelin IV. New York: Atlantic Records, 1971. 1 LP (42min.) / Crédito: Barrington Colby / Acervo pessoal.
Figura 3 – Encarte com letra de Stairway to heaven
Fonte: LED ZEPPELIN. Led Zeppelin IV. New York: Atlantic Records, 1971. 1 LP (42min.) / Acervo pessoal.
Figura 4 – Encarte com Four Symbols
Sendo assim, nos capítulos seguintes, analisamos o Led Zeppelin IV e as suas relações com a contracultura do underground londrino. Levamos em consideração a fala de Jimmy Page a Brad Tolinski quase quarenta anos após o lançamento do quarto álbum.133 Ele disse que, desde o Led Zeppelin III, queria explorar uma nova década que já não era mais aquela do apogeu da contracultura. Mas o que seria, porém, explorar a nova década? Essa é a pergunta que tentamos responder tanto no segundo capítulo, com base nas letras das faixas, quanto no terceiro, em termos de sua musicalidade.
133 PAGE, Jimmy apud TOLINSKI, Brad. Luz e Sombra: conversas com Jimmy Page. São Paulo: Globo, 2012.