CAPÍTULO III - CONTROLE JURISDICIONAL E DISCRICIONARIEDADE
III.1. A inafastabilidade do controle jurisdicional e a discricionariedade
De nada adiantaria a submissão da Administração à lei se não houvesse órgão investido na função de controlar a legalidade de seus atos. Fosse a Administração submetida à lei, mas não houvesse qualquer órgão investido na função de controle de suas atividades, estaria ela livre para cometer as maiores atrocidades.
Como bem realçado pelo Prof. García de Enterría57, caso as leis não pudessem ser impostas à Administração pelos cidadãos, perderiam sua eficácia com relação ao Estado, sendo transformadas em meras recomendações morais, de boa conduta, sem força vinculante para a Administração.
O controle da legalidade dos atos administrativos é, assim, condição indispensável à configuração do Estado de Direito. É necessário, inclusive, para que se possa falar em função estatal. Isso porque, ausente o controle, os agentes públicos poderiam atuar exclusivamente em nome de seus próprios interesses, sem que com isso sofressem qualquer tipo de conseqüência jurídica.
Não é por outra razão que, conforme narra Afonso Rodrigues Queiró58, a instauração do que se convencionou chamar sistema de proteção e garantia dos direitos individuais em relação ao poder executivo, se deu através da submissão do executivo à lei, cuja observância seria assegurada por meio de uma jurisdição, através dos tribunais ordinários ou administrativos especiais.
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57 ENTERRIA, Eduardo García de. e FERNANDES, Tomás-Ramón. Curso de Derecho
Administrativo II. 1ª Edição. Buenos Aires. La Ley: 2006. p. 37.
58 QUEIRÓ, Afonso Rodrigues. A Teoria do Desvio de Poder em Direito Administrativo. Revista de Direito Administrativo 6/41-78. Rio de Janeiro. FGV:1946. p. 49.
No Brasil, ao estabelecer que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” o sistema constitucional adota o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional e elege, como competentes para o exercício de tal controle, exclusivamente, os Tribunais que compõem o Poder Judiciário.
Por força do referido princípio todo e qualquer cidadão tem o direito subjetivo à prestação jurisdicional, ou seja, tem o direito não só de ingressar em juízo buscando a preservação de seus direitos, mas também, ao devido processo legal e a uma decisão fundamentada, que leve em consideração seus argumentos e decida a questão de acordo com a ordem jurídica vigente.59
O controle jurisdicional da Administração pública é, portanto, atributo essencial da cidadania, constituindo a mais importante ferramenta de que dispõem os administrados para garantir o respeito de seus direitos pelo Estado. Como afirma Jessé Torres Pereira Junior
falar de controles sobre a Administração Pública é falar de cidadania, se se acolher, como própria e devida, a ética humanista, que põe o homem como princípio e fim de todos os esforços e empreendimentos rumo à construção do que o art. 3º, I, de nossa Carta Fundamental denomina de ‘sociedade livre, justa e solidária’60.
É preciso enfatizar, entretanto, que tal controle está adstrito a questões de legalidade, não podendo extrapolar os limites estipulados em lei. ______________
59 Zaiden Geraige Neto, em obra monográfica sobre o tema, afirma que o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional “visa a garantir ao jurisdicionado um processo célere com a devida segurança, e efetivo com a necessária justiça, norteado à luz do due process of
law e, por conseguinte, dos princípios da isonomia, do juiz e do promotor natural, do contraditório e ampla defesa, da proibição da prova ilícita, da motivação das decisões judiciais, do duplo grau de jurisdição – sem entrar no mérito de sua previsão Constitucional ou não – e outros.” (GERAIGE NETO, Zaiden. O Princípio da Inafastabilidade do Controle
Jurisidicional. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais: 2003. p. 29.)
Fosse de outra forma, estaria o órgão controlador interferindo indevidamente na atividade administrativa.
Assim, de um lado está o Judiciário obrigado, pela função que lhe é constitucionalmente atribuída, a realizar o controle de legalidade dos atos administrativos, por outro lado, entretanto, lhe é negado invadir esfera de competência exclusivamente administrativa.
A esse respeito, seguem as lições de Seabra Fagundes para quem o
mérito do ato administrativo constitui um aspecto do procedimento da Administração, de tal modo relacionado com circunstâncias e apreciações só perceptíveis ao administrador, dados os processos de indagação de que dispõe e a índole da função por ele exercida, que ao juiz é vedado penetrar no seu conhecimento.61
Prossegue o ilustre administrativista afirmando que a análise do mérito administrativo pelo juiz configuraria exorbitância de suas funções, “ultrapassando o campo da apreciação jurídica (legalidade ou legitimidade), que lhe é reservado como órgão específico de preservação da ordem legal, para incursionar no terreno da gestão política (discricionariedade), próprio dos órgãos executivos.” Acrescenta o autor que, nesse caso, o juiz
substituir-se-ia ao administrador, quando seu papel não é tomar-lhe a posição no mecanismo jurídico-constitucional do regime, senão apenas contê-los nos estritos limites da ordem jurídica (controle preventivo) ou compeli-lo a que os retome, se acaso transpostos (controle a posteriori)62.
É preciso enfatizar, entretanto, que o mérito do ato administrativo – assim considerada a parcela de competência incontrastável pelo Poder Judiciário ______________
61 SEABRA FAGUNDES, M.. Conceito de Mérito no Direito Administrativo. Revista de Direito Administrativo 23/1-24. Rio de Janeiro. FGV: 1951. p. 1.
– não se confunde com a discricionariedade conferida pela norma. Ocorre que, quando a lei confere parcela de liberdade ao agente público para agir, o faz como forma de possibilitar ao agente o melhor exercício de sua função, para que melhor cumpra o dever público que lhe foi atribuído. Só cabe falar em mérito, portanto, quando diante do caso concreto subsiste parcela de competência discricionária.
Tem-se, assim, que o estudo da discricionariedade – e conseqüentemente da amplitude do controle jurisdicional - nada mais é que a determinação dos limites da lei e do grau de liberdade conferido ao agente público, liberdade essa que, quando exercida nos estreitos limites da lei e de acordo com a finalidade legal que lhe preside, é insuscetível de apreciação pelo poder Judiciário63. Ocorre que a determinação dos limites estipulados em lei frente ao caso concreto não é tarefa simples, mas, pelo contrário, desperta grande polêmica tanto nos estudiosos quanto nos aplicadores do Direito.