Capítulo 4 – Questões relevantes e/ou polêmicas sobre a ampliação do
4.1 A incidência no processo do mandado de segurança
4.1.1 O cabimento dos embargos infringentes contra acórdão que julgasse a apelação no processo do mandado de segurança
Havia discussão sobre cabimento dos embargos no grau de apelação do mandado de segurança. A Lei nº 1.533/1951, em seu art. 20, revogou expressamente os dispositivos do CPC/1939 que versavam sobre mandado de segurança, e, em razão
dessa disposição, a doutrina majoritária à época defendia não serem cabíveis os embargos no curso do writ.
A referida lei específica que tratava do mandado de segurança vigorou por mais de trinta anos depois do advento do CPC/1973, o qual não dispôs sobre a matéria144.
Buscando pacificar a polêmica sobre o cabimento dos embargos, o Supremo Tribunal Federal editou, em 1976, a Súmula nº 597: “Não cabem embargos infringentes de acórdão que, em mandado de segurança decidiu, por maioria de votos, a apelação”.
Para muitos autores, entretanto, o procedimento célere do mandado de segurança não era incompatível com os embargos infringentes, mesmo porque o CPC/1973 era aplicado subsidiariamente aos procedimentos regidos por leis especiais145.
Ademais, o art. 12, da Lei nº 1.533/1951, ganhou nova redação com a Lei nº 6.071/1974, passando a assim dispor: “A sentença, que conceder o mandado, fica sujeita ao duplo grau de jurisdição, podendo, entretanto, ser executada provisoriamente”. Em razão disso, Gisele Heloísa Cunha, também defensora do cabimento dos embargos em mandado de segurança, afirmou que a interposição dos embargos em nada prejudicaria a executoriedade da sentença proferida em mandado de segurança, tendo em vista a clareza e a eficácia daquele art. 12146.
Ocorre que o Superior Tribunal de Justiça, na mesma linha do Supremo Tribunal Federal, editou, em 1996, a Súmula nº 169: “São inadmissíveis embargos infringentes no processo de mandado de segurança”. Conquanto não tenha afastado as críticas doutrinárias, o entendimento obstava veementemente o cabimento dos embargos contra acórdão que julgasse a apelação em mandado de segurança.
144 Nesse sentido: “Recurso especial. Mandado de segurança. Embargos infringentes. A Lei n. 1.533/51
é norma especial relativamente ao Código de Processo Civil. Norma specialis derogat generali. No processo da ação de segurança não há embargos infringentes. Não obstante sua interposição, ocorre coisa julgada se, em tempo hábil, a parte, a contar da publicação do acordão da apelação, não se vale do recurso idôneo. Recurso especial não conhecido” (STJ, REsp 1.489/PR, 2ª Turma, Rel. Min. Luiz Vicente Cernicchiaro, julgado em 29 nov. 1989).
145 Nesse sentido: ASSIS, Araken de. Manual..., p. 612; BARBOSA MOREIRA, José Carlos.
Comentários..., p. 524; GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. v. 2. 21 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 390.
Por fim, a Lei nº 12.016, de 2009, que viria a regular a matéria, revogou a Lei nº 1.533/1951, e dispôs expressamente, no art. 25, não serem cabíveis embargos infringentes no processo de mandado de segurança.
4.1.2 Na sistemática do CPC/2015
Como visto, a discussão sobre cabimento dos embargos infringentes no processo do mandado de segurança era extensa. Culminou-se a celeuma no descabimento dos embargos no curso do writ, com edição da Lei nº 12.016, de 2009.
Ocorre que, dado que o legislador do CPC/2015 suprimiu os embargos infringentes, o referido dispositivo perdeu sua eficácia, tornando-se “letra morta”. Por ser uma etapa necessária ao julgamento da apelação147, a regra do art. 942 não pode ser afastada
de processo algum, inclusive do mandado de segurança, sem que haja previsão expressa do legislador. A propósito, esse mesmo raciocínio conduziu o Superior Tribunal de Justiça a entender ser aplicável a técnica de julgamento nos processos em que se apura a prática de ato infracional por adolescente, regidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente148.
Portanto, qualquer interpretação analógica ligada aos embargos infringentes, nesse caso, que pretenda excluir a técnica de julgamento do curso do writ deve ser rechaçada149. Ademais, caso fosse esta a intenção do legislador do CPC/2015,
poderia ter assim se manifestado no § 4º do art. 942, em que arrolou as hipóteses de não incidência da regra da colegialidade ampliada.
147 CUNHA, Leonardo Carneiro da; DIDIER Jr., Fredie. Curso..., p. 103.
148 De acordo com o art. 198, do Estatuto da Criança e do Adolescente, aos procedimentos afetos à
Justiça da Infância e da Juventude devem ser aplicadas as regras do sistema recursal do CPC. Para a 5ª Turma, o art. 942 é aplicável em razão dessa disposição na lei especial (STJ, AgRg no REsp nº 1.673.215/RJ, 5ª Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 17 mai. 2018). No entanto, para a 6ª Turma, o art. 198 deve ser confrontado com o parágrafo único do art. 609, do Código de Processo Penal, que determina serem incabíveis os embargos infringentes no curso da ação penal ajuizada em face do réu maior de 18 anos quando a decisão não unânime em segunda instância for desfavorável ao acusado. Dessa forma, para garantir ao menor as mesmas prerrogativas do réu maior de 18 anos, o art. 942 só incidiria, no processo de apuração de prática infracional, quando o colegiado se manifestasse de maneira favorável ao adolescente (STJ, REsp nº 1.694.248/RJ, 6ª Turma, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 03 mai. 2018).
149 Em defesa da não incidência da técnica de julgamento no processo do mandado de segurança, ver:
ROSSI, Júlio César; SOUSA, Diego Crevelin. O incidente de quórum qualificado em julgamentos não unânimes no CPC: mais uma jaboticaba! Revista Brasileira de Direito Processual, Belo Horizonte, ano 25, n. 99, p. 145-161, jul./set. 2017. p. 155-156.
Convém salientar que o rito especial do mandado de segurança é totalmente compatível com a técnica de julgamento, a qual é célere, eficaz e útil ao aperfeiçoamento da decisão colegiada.
A apelação pode impugnar sentença proferida no processo do mandado de segurança, e seu julgamento pode ser estendido devido a existência de divergência. Por isso, é perfeitamente possível que a regra do art. 942 incida no curso do writ150.
4.2 Competência para julgamento dos embargos de declaração opostos contra