2 MOBILIDADE E TRANSPORTE
2.3 A INCLUSÃO DO TRANSPORTE COMO DIREITO FUNDAMENTAL
Os movimentos sociais abordados acima colocaram em evidência o direito ao transporte e a questão da mobilidade urbana. Especificamente quanto às jornadas de junho de 2013, é possível apontar como uma consequência – ao menos indireta de sua repercussão – a retomada da tramitação da Proposta de Emenda Constitucional nº 90/2011 que incluiu o transporte no rol de direitos fundamentais sociais. Inicialmente apresentada em 29/09/2011 na Câmara dos Deputados pela Deputada Federal Luiza Erundina, a proposta foi remetida à Comissão de Constituição e Justiça vinte dias depois e lá permaneceu por mais de um ano e cinco meses, até março de 2013, quando Deputado Beto Albuquerque foi designado como relator CCJC.
Justamente em junho de 2013 67, período em que os protestos se espalhavam pelo país, o relator apresenta seu parecer favorável à admissibilidade da proposta. Importante ressaltar que o deputado entregou o seu relatório em apenas 11 sessões do Plenário da Câmara dos Deputados, utilizando menos da metade das 40 sessões que o procedimento de tramitação de uma Proposta de Emenda Constitucional prevê como prazo máximo. A partir de então a PEC 90/2011 passou a sofrer atualizações constantes no seu andamento até ser aprovada no
67 Informações sobre a tramitação da PEC retiradas do site oficial da Câmara dos Deputados. Disponível em <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=522343>. Acessado em 10 nov. 2017.
plenário da casa representante do povo, em dezembro de 2013, e enviada para votação no Senado.
Nesse procedimento, o Senado funcionou como Casa Revisora, avaliando apenas a admissibilidade da PEC, sem adentrar em considerações de mérito antes do Plenário. O trâmite 68 teve início no mesmo mês de dezembro de 2013 e quatro meses depois já havia parecer favorável à admissibilidade da proposta pelo relator da CCJ. Contudo, por conta do período de eleições ocorrido em 2014, a tramitação da PEC é suspensa, retornando apenas em junho de 2015. As votações ocorrem nos meses de agosto e setembro daquele ano, sem nenhum voto contrário, e a promulgação da Emenda Constitucional ocorre em 15 de setembro de 2015.
Como justificativa de sua proposta, a Deputada apresentou os seguintes argumentos:
A presente Proposta de Emenda à Constituição – PEC pretende acrescer o transporte ao rol dos direitos fundamentais, mediante sua inclusão entre aqueles direitos elencados no mencionado artigo 6º da Constituição Federal.
Esse artigo enumera aspectos relevantes da vida em sociedade. Educação, saúde, trabalho, dentre outros, são elementos centrais de políticas públicas necessárias ao alcance de uma coletividade que prime pela justa, garantia do desenvolvimento, erradicação da pobreza e promoção do bem comum, conforme preceitua o artigo 3°, também da Carta Magna.
Vetor de desenvolvimento relacionado à produtividade e à qualidade de vida da população, sobretudo do contingente urbano, o transporte destaca-se na sociedade moderna pela relação com a mobilidade das pessoas, a oferta e o acesso aos bens e serviços. Como é de amplo conhecimento, a economia de qualquer país fundamenta-se na produção e no consumo de bens e fundamenta-serviços, como também no deslocamento das pessoas, ações que são mediadas pelo transporte.
Desse modo, o transporte, notadamente o público, cumpre função social vital, uma vez que o maior ou menor acesso aos meios de transporte pode tornar-se determinante à própria emancipação social e o bem-estar daqueles segmentos que não possuem meios próprios de locomoção.
Portanto, a evidente importância do transporte para o dinamismo da sociedade qualifica sua aposição na relação dos direitos sociais expressos no art. 6º da Constituição.
Por oportuno, ressalte-se que, embora os direitos e garantias fundamentais componham a lista das cláusulas pétreas (vide o inciso IV, do § 4º do art. 60 da Carta da República), o entendimento jurídico aponta como inconstitucional apenas as emendas que tencionem abolir qualquer uma das salvaguardas manifestadas no texto da Lex Mater. Emendas objetivando modificá-los encontram amparo, devendo restringir-se a temas pertinentes, que não alterem o núcleo essencial das matérias estatuídas.
Atendendo a esses pressupostos, o artigo 6º foi alterado duas vezes, por meio da Emenda nº 26, de 2000, que acresceu a moradia aos itens nele contemplados, e pela Emenda nº 64, de 2010, que introduziu a alimentação como direito social.
Assim, contamos com o apoio dos nossos Pares para a aprovação da PEC aqui exposta.
68
Informações sobre a tramitação da PEC retiradas do site oficial do Senado Federal. Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/115729>. Acessado em 10 nov. 2017.
Durante a tramitação da proposta na Comissão de Constituição e Justiça, alguns deputados manifestaram apoio ao teor da mesma por entenderem que ela atendia às reinvindicações presentes nas jornadas de junho de 2013, conferindo à mesma “atualidade”. Dentre o grupo de parlamentares que apoiavam abertamente a aprovação da proposta, foram feitas referências diretas a bandeiras das manifestações, como melhorias no transporte público e a gratuidade dos mesmos 69, já demonstrando certo exercício interpretativo, tendo em vista que a justificativa da proposta não menciona expressamente a gratuidade do transporte público como decorrência do reconhecimento de sua fundamentalidade no ordenamento jurídico.
O relator da proposta na comissão, Deputado Beto Albuquerque, ressaltou à época que a constitucionalização daria prioridade às políticas públicas de transporte, obrigando o Poder Público à alocação de recursos para a matéria, em grau equiparado de importância com temas como saúde e educação. Em 13/06/2013 proferiu seu parecer favorável à admissibilidade da proposta, cabendo destacar trecho de seu voto:
Por fim, cabe lembrar que a aprovação da proposição sob exame se relaciona aos mais diversos direitos que são assegurados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela própria Constituição Federal de 1988. O direito ao transporte é chamado de direito-meio porque ele influencia e condiciona o acesso aos demais direitos, se constituindo em um elemento de vital importância para assegurar as condições necessárias para uma vida digna. Para um cidadão ter acesso à rede pública de saúde, por exemplo, ele precisará utilizar algum meio de transporte. O mesmo se aplica ao acesso à educação, centros culturais e de lazer, liberdade de ir e vir, local de trabalho, e tantos outros direitos que necessitam de deslocamento para serem exercidos e usufruídos.
Pelas precedentes razões, manifesto meu voto no sentido da admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição nº 90, de 2011.
Já a deputada propositora da emenda apontou diretamente para a possibilidade de judicialização do transporte, com a possibilidade do cidadão recorrer diretamente ao Judiciário para atendimento de seu direito. Em outras oportunidades, durante o processo de tramitação da PEC 90/2011, a referida deputada também defendeu mudanças no modelo de financiamento dos transportes urbanos por entender que, enquanto garantia fundamental, o transporte deveria ser totalmente subsidiado pelo governo 70.
69
Aprovada PEC que torna transporte direito social. CONSULTOR JURÍDICO. Disponível em:
<https://www.conjur.com.br/2013-jun-25/ccj-senado-aprova-pec-inclui-transporte-entre-direitos-sociais >.
Acessado em 22 nov. 2017.
70 Mobilidade urbana como direito social avança mais um passo. MOBILIZE. Disponível em:
<http://www.mobilize.org.br/noticias/5384/mobilidade-urbana-como-direito-social-avanca-mais-um-passo. html>. Acessado em 20 nov. 2017.
Foram realizadas uma série de seminários e audiências públicas para discussão de aspectos diversos do direito ao transporte 71 tais como sua condição de direito social, políticas tarifárias para os transportes coletivos urbanos e metropolitanos, as consequências de sua constitucionalização para as políticas públicas voltadas à melhoria da mobilidade urbana e transporte público sob a ótica das mulheres. Nesses eventos verificou-se a proximidade da proposta de emenda à constituição às pautas das jornadas de junho, com referências diretas às manifestações como explicação para a retomada da tramitação da PEC e a participação ativa de movimentos atuantes nos protestos na discussão do tema 72.
Em novembro de 2013 a proposta foi discutida e avaliada por comissão especial formada para avaliar o seu mérito. Durante a comissão, composta por vinte deputados, duas emendas à PEC foram propostas. A primeira previa a possibilidade de utilização de recursos provindos das Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) para barateamento das tarifas de ônibus nas cidades brasileiras. A segunda emenda pretendia incluir a promoção dos transportes urbanos e rural, bem como o estabelecimento e a implantação de política de mobilidade urbana entre as competências comuns à União, Estados e Municípios previstas no art. 23 da CF/88.
O Deputado Nilmário Miranda, relator da PEC na comissão especial, proferiu voto em que ressaltou a necessidade de mudança de ótica em relação ao transporte, deixando de ser tratado como mercadoria em prol de sua valorização como direito social 73. Embora tenha reconhecido que a inclusão do transporte no rol de direitos sociais fundamentais não surtirá “efeitos automáticos” para sua efetivação, a mudança permitirá que o Poder Público implemente mudanças no modelo vigente de transporte, inclusive com repercussões na esfera tributária, para que os custos do transporte sejam divididos equitativamente pelo conjunto da sociedade. Ao fim, proferiu seu parecer de recomendação de aprovação da PEC 90/2011.
Em dezembro de 2013 a proposta foi colocada para votação no plenário da Câmara dos Deputados e aprovada. Já no Senado Federal, a proposta foi aprovada em segundo turno em setembro de 2015, por unanimidade, sendo promulgada no dia 15 do mesmo mês.
71 Informações retiradas da página da Câmara dos Deputados sobre a tramitação da PEC 90/2011. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=522343>. Acessado em 15 nov. 2017.
72
PEC 90/2011 é discutida por deputados federais e representantes de movimentos sociais. ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Disponível em: <https://www.al.sp.gov.br/geral/noticia/ noticia. jsp?id=338962>. Acessado em 20 nov. 2017.
73 BRASIL. Câmara dos Deputados. Relatório Final da Comissão Especial destinada a proferir parecer à
proposta de emenda à constituição nº 90-A, de 2011, da Sra. Luiza Erundina, que 'dá nova redação ao art. 6º da constituição Federal, para introduzir o transporte como direito social'. Brasília, 2013. p. 18