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De início, é cabível citar que a supressão das garantias confronta o §1º do art. 49 da LRF no ponto em que este determina a conservação dos “direitos e privilégios contra coobrigados, fiadores e obrigados em regresso” (BRASIL, 2005), o que desautoriza a liberação desses garantidores da relação contratual que foi construída antes mesmo da Recuperação Judicial.

Ao comentar o dispositivo mencionado, Bezerra Filho (2013, p. 144) faz explanação precisa sobre o alcance dessa previsão, aduzindo que:

44 O credor com garantia de terceiro (v.g., aval, fiança etc.), mesmo sujeitando- se aos efeitos da recuperação, pode executar o garantidor. Um exemplo facilitará o entendimento: suponha-se uma limitada que emitiu uma promissória em favor de qualquer credor, tendo o sócio dessa limitada (ou qualquer terceiro) avalizado o título. Mesmo que o crédito esteja sujeito aos efeitos da recuperação, o credor pode executar o avalista. Deverá cuidar para, recebendo qualquer valor em qualquer das ações, comunicar nos autos da outra tal recebimento.

No mesmo sentido, leciona Campinho (2012, p. 150):

A recuperação judicial não afeta os direitos creditórios detidos em face de coobrigados, fiadores, e obrigados de regresso em geral, podendo o respetivo titular exercê-los em sua plenitude, sem qualquer limitação acarretada pelo estado. Dessa sorte, não pode, por exemplo, o avalista do emitente de uma nota promissória opor como defesa o estado de recuperação judicial do sacador devedor. A autonomia das obrigações cambiais permanece preservada. Cabe apenas ao credor avisar dos recebimentos totais ou parciais recebidos de qualquer dos co-devedores, sob pena de responder pelo ilícito locupletamento, nos termos do art. 940 do Código Civil [...].

Fosse de outra forma, haveria uma extensão das benesses da recuperação judicial a terceiros coobrigados, sem qualquer suporte legal para tanto, inclusive porque muitos desses coobrigados são pessoas físicas que sequer são legitimados para pleitear recuperação em juízo no sistema da LRF.

Ademais, cumpre reportar que é inadequada a tentativa de autorizar, por meio do plano recuperatório aprovado, e com base no §2º do mesmo art. 49 da LRF, a modificação das condições contratuais prévias dos direitos dados em garantia, vez que se impõe ao caso o processo sistemático de interpretação, o qual consiste, nas palavras de Maximiliano (2011 p. 104) em:

[...] comparar o dispositivo sujeito a exegese, como outros do mesmo repositório ou de leis diversas, mas referentes ao mesmo objeto [...] Por umas normas se conhece o espírito das outras. Procura-se conciliar as palavras antecedentes com as consequentes, e do exame das regras em conjunto deduzir o sentido de cada uma.

Nessa senda, torna-se forçoso reconhecer que, se o §1º dispõe especificamente pela conservação dos direitos dos credores contra os coobrigados da recuperanda, estas garantias devem ser preservadas em relação ao disposto no parágrafo seguinte, afinal a disposição genérica do §2º do art. 49 de possibilidade de modificação das “obrigações anteriores à recuperação judicial” (BRASIL, 2005) não tem poder de esvaziar o conteúdo do disposto no parágrafo imediatamente anterior.

45 No mesmo sentido foi o consignado no voto-vista (voto vencido) da Ministra Nancy Andrighi, no âmbito do julgamento do precedente mais recente, o Recurso Especial n° 1.700.487/MT, conforme trecho destacado:

As regras de hermenêutica não autorizam concluir que a previsão legal de que o plano de soerguimento possa dispor de modo diverso sobre as condições das obrigações originalmente contratadas seja estendida às garantias pactuadas. [...] Isso porque a norma que confere aos credores o direito de manutenção de seus direitos e privilégios em face de coobrigados, fiadores e obrigados de regresso está posta no parágrafo imediatamente anterior do mesmo dispositivo legal, de modo que seu substrato fático não pode, por imperativo lógico, ser abarcado pela regra do parágrafo subsequente. (STJ, 2019)

É bem verdade que pode haver algum grau de atecnia no posicionamento topográfico dos parágrafos do art. 49, vez que seria mais prudente estampar primeiro a regra geral, que determina a possibilidade das condições contratuais serem alteradas, e, em seguida, ressalvar as exceções, notadamente quanto à manutenção de direitos contra os coobrigados, porém, mesmo na configuração vigente, ainda é perceptível que a intenção da LRF é de preservar as garantias.

Na sequência, é importante enfatizar que a exclusão das garantias também desrespeita o §1º do art. 50 da LRF, o qual registra que, na alienação de bem gravado com garantia real, essas garantias só podem ser suprimidas ou substituídas com a concordância expressa do credor titular da mesma (BRASIL, 2005).

Por lógico que, em havendo a exclusão da garantia sob o pretexto da votação majoritária do plano, o devedor pode alienar livremente o bem antes constrito, contrariando o requisito expresso da lei que impõe a necessidade de aceitação dos credores diretamente afetados.

Assim é que, se houve a supressão de uma hipoteca, por exemplo, e o devedor em recuperação aliena o bem imóvel, essa hipoteca jamais poderá ser reestabelecida para poder ser executada, prejudicando o direito do credor irremediavelmente.

É também nesse contexto que se deve alertar que não procede a tese aventada durante o julgamento de suposta ausência de prejuízo real aos credores porquanto as garantias ficariam reestabelecidas no eventual descumprimento do plano, na forma do §2° do art. 6124.

24 “Art. 61. Proferida a decisão prevista no art. 58 desta Lei, o devedor permanecerá em recuperação judicial até

que se cumpram todas as obrigações previstas no plano que se vencerem até 2 (dois) anos depois da concessão da recuperação judicial. [...] § 2º Decretada a falência, os credores terão reconstituídos seus direitos e garantias nas

46 A interpretação, nesse ponto, também não foi sistemática, vez que essa hipótese pode ser contraposta pela observância do art. 6225 da LRF, que faculta ao

credor a execução específica do que lhe é devido em sendo descumprido o plano após o período de dois anos de fiscalização judicial.

Da mesma forma, se uma hipoteca é levantada por cláusula suspensiva de

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