3. MIGRAÇÃO E A INDÚSTRIA MADEIREIRA
3.3 A INDÚSTRIA MADEIREIRA NOS CAMPOS DE CIMA DA
Há uns dez anos, havia aqui apenas meia duzia de familias. Surgiu a indústria da madeira, e tudo se transformou, como por encanto. Vieram madeireiros de muitos municípios, quase todos de origem italiana. A população aumentou espantosamente. Cidade centenária, dormia na sua inatividade. O pinheiro operou milagre da transformação. Foi a vareta magica que acordou a bela adormecida.207
206 WAIBEL, Leo. Princípios da colonização européia no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Geografia, n. 2, abr-jun. 1949, p.180.
Nos relatos coletados por Fidelis Dalcin Barbosa, no trecho acima citado, percebe-se a transformação que a indústria madeireira impulsionou na região. Esta, como apontado acima, é principalmente fruto da exploração da Floresta com Araucária. A partir da década de 1930, a indústria madeireira toma conta deste setor, chegando o índice de exportação a aumentar em 302%208. Sua atividade avançou da área de Floresta Ombrófila Mista para a área dos Campos de Altitude.
Neste período o país alcançou altos níveis de exportação de diferentes produtos, inclusive a madeira. A crise e a recessão foram atravessadas com políticas protecionistas, objetivando desenvolver a indústria e o agronegócio de forma a defender o capital interno.209
Especificamente a industrialização do Rio Grande do Sul teve duas etapas principais; a primeira com a chegada de uma maior leva de imigrantes no final do século XIX, e a segunda desencadeada com a II Guerra Mundial. Com a proclamação da República em 1889, há um maior incentivo ao comércio, à indústria, ao que fazia parte do ideal de desenvolvimento210.
Dados de Relatório Oficial dão conta que em 1904 a exportação no Rio Grande do Sul atingiu o valor de 57.183:703$712211, enquanto em 1909 foi de 77.125:921$721212 e em 1920 197.879:307$200213.
208 Relatório de Governo do Rio Grande do Sul. Mensagem, Getulio Vargas. Rio Grande do Sul, 1930. p. 54. Disponível em: http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u813/ Acessado em abril de 2011.
209 LEOPOLDI, P. Antoniela Maria. A economia política no primeiro governo Vargas (1930-1945): A politica econômica em tempos de turbulência. In___: FERRERA, Jorge & Delgado. Lúcia de Almeida Neves. (org). O
Brasil republicano o tempo do nacional-estatismo do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Rio de Janeiro: Ed. Record Ltda,
2007, p. 243.
210 WENTZ, Liliane Irma Mattje. Os caminhos da madeira: região norte do Rio Grande do Sul(1902-1950). Passo Fundo: Ed. UPF, 2004, p.21
211 Mensagem Enviada a Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul pelo presidente Antonio Augusto Borges de Medeiros. Porto
Alegre, 1905, p. 19. Disponível em:
http://www.crl.edu/brazil/provincial/rio_grande_do_sul. Acessado em; dezembro de 2011.
212 Mensagem Enviada a Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul pelo Drº Carlos Barbosa Gonçalves. Porto Alegre, 1910,
p.35. Disponível em:
http://www.crl.edu/brazil/provincial/rio_grande_do_sul. Acessado em; dezembro de 2011.
Podemos interpretar este avanço na produção como resultado dos incentivos governamentais, das novas tecnologias e o melhoramento das estradas. Nesta mesma década o recenseamento do Brasil mostra a existência 1.207 serrarias, das quais 365 encontrariam-se no Estado do Rio Grande do Sul214.
A exploração da Araucária começou de forma mais intensiva com a construção no Paraná da ferrovia Paranaguá-Curitiba, em 1885, o que diminuiu o valor do transporte e deu início ao processo de expansão do mercado interno de madeiras215; sendo o Paraná pioneiro e seu principal produtor no país.
De acordo com Miguel Mundstock Xavier de Carvalho, “o Rio Grande do Sul estava numa situação intermediária entre o Paraná e Santa Catarina, pois ao mesmo tempo em que já tinha em 1920 uma indústria madeireira mais desenvolvida na região de araucária (como em Passo Fundo), também tinha centenas de pequenos engenhos de serra (...)”216. A região norte do Estado teve um impulso muito grande com a construção do trecho Santa Maria–Passo Fundo em 1889; Liliane Wentz, em seu estudo sobre a indústria madeireira no norte do Rio Grande do sul, afirma que a primeira serraria desta região foi construída em 1902. Outro fator impulsionador desta indústria foi a impossibilidade de importação da araucária no Brasil e na Argentina devido a Primeira Guerra Mundial217.
Os dados de exportação não representam a totalidade das retiradas já que muitas das madeireiras não declaravam o total das mesmas. O volume aumentava consideravelmente, demonstrando a
213 Mensagem Enviada a Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul pelo presidente Antonio Augusto Borges de Medeiros. Porto
Alegre, 1921, p.95. Disponível em:
http://www.crl.edu/brazil/provincial/rio_grande_do_sul. Acessado em; dezembro de 2011.
214 CARVALHO, Miguel Mundstock Xavier de; UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Programa de Pós-Graduação em História. O
desmatamento de florestas de araucária e o Médio Vale do Iguaçu: uma
história de riqueza madeireira e colonizações. Florianópolis, 2006. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-graduação em História. p.118.
215 Idem.
216 CARVALHO, Miguel Mundstock Xavier de. 2006. Op. Cit.p. 120. 217 Ibdem, p. 127.
expansão das vias de comércio e da importância que se incumbia à indústria madeireira.
O comércio de madeiras, no Rio Grande do Sul, representa mais da décima parte do tráfego ferroviário total do Estado, o que, por si só, bastaria para pôr em evidência a sua importância econômica. De facto, no ultimo decênio, esse trafego acusou: em: 1920...97.480 Tons. 1921...92.775 1922...124.244 1923...128.929 1924...122.354 1925...166.674 1926...170.455 1927...197.589 1928...184.572 1929...226.769
A velha questão dos transportes de madeiras rio- grandenses envolve, assim, para o Estado, um verdadeiro problema econômico218
No relatório percebe-se que de 1920 a 1929 houve um aumento de 232,63% no tráfego ferroviário da indústria madeireira. Nas décadas seguintes, 1940 e 1950, o aumento da produção coincide com o aumento da população.219 As grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevideo se abasteceram com a Mata de Araucária em sua vertiginosa expansão urbana. Ainda de acordo com Miguel Mundstock Xavier de Carvalho, a construção de Brasília, no final de 1950, se torna um dos maiores mercados para indústria da madeira possibilitando o crescimento destas e também das pequenas cidades onde estão instaladas220. Sendo assim, podemos supor que a expansão das grandes cidades possibilitou um crescimento, mesmo que em muitos casos momentâneo, das pequenas cidades.
218 Mensagem, Getulio Vargas. Rio Grande do Sul, 1930. p.52. Disponível em: http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u813/ Acessado em abril de 2011.
219 CARVALHO, Miguel Mundstock Xavier de. 2006. Op. Cit.p. 132. 220 Ibdem. p. 134.
Pedro Ari Minella, que juntamente com seus irmãos possuía uma serraria no 8º Distrito de Vacaria – atualmente Município de Monte Alegre – relata que o setor madeireiro: “Era o único serviço, digamos, que tinha naquele tempo, não tinha as indústrias. Tinha muitas serrarias aí com 10, 15 empregados”221. O transporte era por carreta, puxada por bois, até Caxias do Sul, onde era mais fácil garantir a venda para grandes madeireiras, como a Industrial Madeireira de Caxias. As estradas nem sempre estavam em boas condições; segundo Minella, como haviam muitos madeireiros e o poder público não possibilitava estas estruturas, estes se reuniam reivindicavam junto ao prefeito mais investimentos. Quando seus pedidos não eram atendidos, arrumavam as estradas utilizando a mão de obra dos trabalhadores das serrarias.222
Outro fato que demonstra a crescente produção madeireira e a necessidade de estrutura para o transporte era a falta de pontes nas estradas. No caminho para Caxias um particular construiu uma ponte e cobrava pela passagem, como um pedágio dos dias atuais. Assim, cada carreta de madeira pagava uma taxa para atravessar. Depois, com mais recursos e o avanço da tecnologia a prefeitura adquiria patrolas e se responsabilizava pela manutenção das estradas.223 A Figura 07, de Pedro Ari Minella, retrata a madeireira de sua família no Município de Vacaria:
221 MINELLA, Ari Pedro. Entrevista concedida a Esther Mayara Zamboni
Rossi em 20 de julho de 2011.
222 MINELLA, Ari Pedro. Entrevista concedida a Esther Mayara Zamboni
Rossi em 20 de julho de 2011.
223 ROSSI, Esther Mayara Zamboni. A Expansão da Indústria Madeireira e a transformação da paisagem no municipio de Vacaria - RS (1930-1970); 2012; Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em História) - Universidade Federal de Santa Catarina; Orientador: Eunice Sueli Nodari.
FIGURA 7: Madeireira de Pedro Ari Minella em Vacaria – Rio Grande do Sul,
1940
FONTE: Acervo pessoal de Pedro Ari Minella.
Podemos observar na fotografia a grandiosidade dos pinheirais ao fundo, das toras e também o transporte utilizado na época, com carroça e mulas e a madeira já em tábuas. As fotos demonstram o orgulho do trabalho realizado224 e a intensidade da extração das araucárias.
Máximo Alfonso Zamban também nasceu na serra, em Antônio Prado. Mudou-se com sua família para Muitos Capões, onde “derrubaram o mato”; entretando a terra neste local não era propicia para a agricultura e, à época, não existiam insumos, compraram uma terra com pinhais em Vacaria, também no 8º Distrito. O trabalho era, conta Zamban, “tudo a machado, veja bem, naquele tempo não tinha nem serrote”225. A terra foi comprada e o pinheiral não teve valor na compra, ou seja, não foi considerado, como mais tarde seria um bem em
224 GERHARDT, Marcos. História Ambiental (1930-85). In___: GERTZ, René & Golin, Nelson. (org). República da revolução de 1930 à ditadura
militar de (1930-1985). Passo Fundo: Ed. Méritos, 2007, p.528.
225 ZAMBAN, Máximo Alfonso. Entrevista concedida a Esther Mayara
separado da terra com alto valor. Como a terra era boa para agricultura, investiram em milho e trigo. Zamban lembra que naquela época não existia a soja, cultura incentivada mais tarde. Venderam então os pinheiros, mas os compradores não conseguiram pagar; a partir disto começaram a trabalhar com serrarias.
Segundo o Zamban, o trabalho era intenso, contínuo do dia à noite, expandindo-se tão rapidamente que mudaram-se para mais perto da estrada. Depois conseguiram comprar um caminhão, um trator com guincho para puxar as toras e construíram um moinho que ajudou muito no crescimento econômico da família. Quando a família não tinha posses, de acordo com o entrevistado, a convivência era ótima. Contudo, com o dinheiro apareceram problemas, por isto vendeu sua parte da serraria e do moinho por três promissórias. Estas promissórias, segundo ele, mais tarde valiam muito pouco e possibilitaram a compra de uma Kombi na qual trabalhou como motorista. Depois voltou a trabalhar com serrarias e chegou a possuir oito. A seguir vemos duas imagens das tábuas engradeadas; na Figura 08 percebe-se o tamanho das toras e na Figura 09 a quantidade da produção em uma das serrarias descritas nesta entrevista.
FIGURA 8: Madeireira de Máximo Alfonso Zamban em Vacaria – Rio Grande
do Sul, 1940.
FIGURA 9: Madeireira de Máximo Alfonso Zamban em Vacaria – Rio Grande
do Sul, 1940.
FONTE: Acervo pessoal de Máximo Alfonso Zamban.
Como pode-se perceber através das descrições e registros de serrarias, houve um aumento significativo da produção madeireira a partir da década de 1930. Um dos motivos que explica a procura pela madeira de araucária é a implantação a partir da década de 1930 do 3º Batalhão Rodoviário para o asfaltamento da atual BR-116, assim como o Batalhão Ferroviário para a construção do Tronco Principal Sul. Estes novos caminhos facilitaram a comunicação e o transporte das madeireiras e aumentaram a necessidade de consumo local de madeira.
Mesmo existindo centenas de pequenas serrarias no Rio Grande do Sul, as grandes madeireiras se organizavam buscando maiores incentivos do governo, aumentando sua produção e seus lucros.
Segundo pesquisa realizada para o Encontro Raízes de Vacaria, que reuniu pesquisadores dos municípios oriundos de Santo Antônio da Patrulha226, em 1951 na serra do Pelotas (região com grande quantidade de Araucárias, onde hoje encontramos o 6º distrito de Vacaria) muitas serrarias se instalaram. No livro resultante desde encontro, Raízes de
Vacaria I, algumas são citadas: as serrarias de Ourides Quadros, a
serraria da Tânia, onde a serra fita funcionava em turno integral227. Assim como as serrarias citadas acima, existiram diversas que não deixaram documentação ou não encontram-se acessíveis, de tal feita que mesmo a História Oral não pode ser utilizada na pesquisa de algumas madeireiras descritas nesta dissertação. É o caso da madeireira Itacolomi que foi uma das maiores da região, e da qual esta pesquisa possibilitou acesso a um álbum de Família. Organizado cronologicamente, nele encontramos as serrarias da família Adames, momentos familiares e a transformação de pequenas serrarias em grandes madeiras. Na Figura 10 abaixo, uma fotografia aérea da Madeireira Itacolomi, percebemos as dimensões que esta indústria alcançou:
226 Encontro realizado para apresentar resultados de pesquisas referentes a história dos Municípios emancipados do Município de Santo Antônio da Patrulha. Os dados da pesquisa estão no livro: KRAMER, Ana Maria de Lemos et al (Org.). Raízes de Vacaria I. Porto Alegre: Est, 1996.
227 KRAMER, Anamaria de Lemos et al (Org.). Raízes de Vacaria I. Porto Alegre: Est, 1996.p. 482.
FIGURA 10: Madeireira Itacolomi, década de 1960.
FONTE: Acervo Pessoal Família Adames
Ao passo em que dominavam novas tecnologias de beneficiamento das madeiras, as serrarias passaram a ser consideradas grandes indústrias, bem como as florestas são "industrializadas". Transformar a Floresta com Araucária em um produto industrializado pressupõe estudá-la, organizá-la de forma a aproveitar seu potencial comercial, contabilizando e racionalizando tempo e trabalho empregado. A mudança não é somente de instrumentos de trabalho mas também de percepção sobre a Floresta com Araucária. Esta fitofisionomia passa de espaço simbólico e de sobrevivência para os povos indígenas à espaço símbolo do inesperado, do medo e isolamento que dificultava as primeiras plantações dos imigrantes. A indústria madeireira partindo de um contexto maior, modifica novamente esta percepção e industrializa a Floresta com Araucária. Com isto os anos de 1960 são, segundo Gasperin, o auge da exploração madeireira.
Os anos de 1960 no meu entender foram os anos dourados da madeira, uma procura imensa de madeira. O que se produzia tinha colocação imediata, o consumo da madeira a nível nacional e para exportação não tinha que chegasse; então nos anos 60 foi os anos dourados que todo madeireiro. Se saiu bem, comprou a floresta, em seguida industrializou, comprou mais floresta, industrializou e tudo isso virou uma bola de neve que gerava emprego gerava, impostos girava a economia do local, era assim maravilhoso para todos em prol da exploração o que a natureza estava oferecendo no momento. Ainda nos anos 60 teve outra particularidade, começaram a ser industrializadas as madeireiras com tratores com guincho para a extração da tora; caminhões melhores tracionados com tração nas quatro rodas; e o sistema da industrialização de maquinário com a serra fita, três vezes mais rápida para a industrialização da tora. Então nessa época se passou a produzir três vezes mais do que se produzia anteriormente. As florestas começaram a ser industrializadas mais rapidamente e aí o segmento se industrializa, compra, industrializa, compra; era tão automático que a pessoa estava sempre jogando estoque na frente pros próximos cinco anos, dez anos, enquanto industrializava o que já estava em poder no momento.228
Ao se referir aos "anos dourados da madeira", o entrevistado evidencia o pensamento vigente na década de 60 em relação a economia regional, que configura a extração e crescente industrialização da araucária como o gerador de perspectivas comerciais futuras, quando realizam estoque planejado.
228 GASPERIN. Entrevista concedida a Esther Mayara Zamboni Rossi em novembro de 2014.
FIGURA 11: Madeireira Gasperin, aproximadamente 1960.
FONTE: Acervo pessoal Gasperin.
A Figura 11 da madeireira Gasperin mostra o clima com nevoeiro, típico da região, a paisagem dos campos e a enorme quantidade de madeira engradeada à espera de transporte ou da valorização do mercado crescente. E a grandiosidade das araucárias, que já se tornavam solitárias.
Além da madeira de Araucária e da produção de tábuas para exportação, a utilização para outros fins e a demanda por produtos para construção de casas diversifica a indústria e aumenta a exploração madeireira, acelerando o ritmo da extração. Michelon relata que em 1964 diversificou a produção familiar utilizando o Cedro para a produção de taubilhas (telhas de madeira).
E vendo isso em 1964, eu com 14 anos, nós começamos a fazer esse tipo de serragem com cedro, onde tinha um comércio muito bom e muito rentável nas fábricas de esquadria em Caxias e Flores da Cunha. Ali que a gente começou, depois a gente melhorou um pouquinho com a máquina com motor de moer trigo, usava aquele
motorzinho com circular, então como ele não tinha muita força se usava uma circular que cortava aproximadamente nove centímetros. Daí tu passava duas vezes aquele quarto de madeira, que se chamava quarto pra ele poder ultrapassar os dois lados da madeira e ficar um corte mais ou menos reto. Depois a gente começou a fazer tabuinha para cobrir casa, isso lá por 68/69, então derrubava os pinheiros em lugares piores, porque os lugares bons a serrarias daquela época já tinham acabado.229
Na produção das taubilhas os irmãos Michelon utilizaram um motor para moer trigo, uma adaptação para melhorar e acelerar a produção; percebe-se pois que as pequenas fábricas trabalhavam paralelamente às grandes madeireiras. Interessante que no final da década de 1960 as áreas de Floresta com Araucária mais densas e antigas já estavam se esgotando e as que restavam eram propriedades das grandes madeireiras. No final da década de 1960 e 1970, as áreas com maior volume madeirável com espécimes mais antigas já haviam sido ocupadas e industrializadas pelas grandes madeireiras. Apesar das inovações tecnológicas das grandes indústrias, existiam algumas serrarias que não modernizaram seus instrumentos rapidamente, o que acarretou em diversidade de técnicas e práticas no processamento da madeira; ou seja, uma diversidade de tempos tecnológicos. O desenvolvimento das técnicas e a expansão destas práticas fazem parte do processo de formação de território dos migrantes. Isto inclui formar um grupo que compartilha práticas e conhecimentos de interferência no ambiente. Michelon detalha os processos de corte e beneficiamento das toras:
(...) mas tem achar a veia da madeira, nos que existe uma veia. Então muitas vezes se perdia pinheiros, porque alguns são lisos com uma veia boa, e tem pinheiros com umas esporas dentro, igual espora de galinha, então quando você fazia a tabuinha com aquela espora ela dava goteira. Então simplesmente derrubava fazia a primeira tora com serrote né, serrote americano, e daí se tu
229 MICHELON, Romualdo. Entrevista concedida a Esther Mayara Zamboni Rossi em novembro de 2014.
rachava duas três que tinha as esporinha podia abandonar aquele pinheiro. Daí se fazia rachão, chamava-se rachão um pedaço de cinco por oito, cinco por dez, que servia para cerca pra porco, cerca pra vaca, mangueiras. E não era pregado, que naquela época não tinha prego, era amarrado com cipó; e depois que partiu (passou) a era das tabuinhas e começou a vir telhas a gente fazia adoela pra fazer quarto, barril e bordolesas (...).230
O conhecimento sobre o modo de processar a madeira nesta fitofisionomia, principalmente as especificidades da Araucária, foi construído ao longo do tempo. Através das fontes analisadas nesta pesquisa e na bibliografia anterior sobre o tema percebe-se que este conhecimento foi formatado ao longo do tempo, até atingir uma escala industrial. Experienciado e aprendido com os indígenas, depois nas primeiras serrarias das colônias, o lavrador nacional se profissionalizou e adequou ao mercado internacional. Para isto foram necessárias rapidez e técnica na produção. Estas mudanças na organização das serrarias podem ser percebidas na Figura 12 onde vemos na Indústria Itacolumi a entrada das toras no início do processamento, e na Imagem 13 da Indústria Gasperin que demonstra o aproveitamento das toras.
230 MICHELON, Romualdo. Entrevista concedida a Esther Mayara Zamboni Rossi em novembro de 2014.
FIGURA 12: Madeireira Itacolumi, década de 1960.
FONTE: Acervo Pessoal Família Adames FIGURA 13: Aproveitamento das Toras.
O desenvolvimento técnico acelerou o processo de desmatamento e facilitou o trabalho, que passa a ser planejado para um aproveitamento integral da madeira, ampliando assim o lucro obtido com a tora, conforme ilustra a Figura 13. Percebe-se nas entrevistas que, independentemente do tamanho das serrarias, em toda a região dos Campos de Cima da Serra o beneficiamento e a industrialização da madeira se desenvolvem rapidamente devido a demanda. Através de um dos entrevistados observa-se como operavam:
Então como eram as serrarias, meu pai trabalhou com locomóvel de 26 cavalos de força e eu terminei com as duas locomóveis que sobraram, uma era de 220 e cavalos e a outra com 270