4. CONSTITUCIONALISMO BRASILEIRO
4.2. A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL E A PRIMEIRA CONSTITUINTE
Com relação ao Brazil, a política das côrtes foi toda de hostilidade.
Supprimiam-se os tribunaes, escolas, repartições existentes no Rio de Janeiro, desde que para alli se mudára a sede do governo. Algumas d’essas medidas seriam necessárias, mas outras eram absurdas e todas inopportunas.428
426 Autores como Guizot advogavam a teoria da desnecessidade da concessão da igualdade política, uma vez que o mecanismo de sufrágio censitário já obedecia por si a uma ordem social valorada pelo binômio: liberdade-propriedade, não sendo portanto arbitrária, para além de que seria a única forma de manter estes dois valores, pela segregação do primeiro, uma vez que o sufrágio universal se revelaria numa arma dos majoritários não-proprietários face aos proprietários, um verdadeiro cavalo de tróia que iria, uma vez concedido, subverter os valores primordiais e que urgia defender a todo o custo.
427 De base monárquica, o constitucionalismo europeu tinha como antítese do modelo de sufrágio censitário a forma republicana de estado, a qual começava a ser vista como o regime que iria suprir as desigualdades, não apenas relativas ao governo, mas atinentes a uma nova ordem política, econômica e social. A comunidade passa a lutar pelo direito de igualdade político-social, uma idéia de reconhecimento como membro da sociedade, baseada no pertencimento a esta, o que apenas se pode realizar por via do sufrágio universal.
428 In: CHAGAS, Manuel Pinheiro. Historia de Portugal, popular e ilustrada. Lisboa: Livraria Moderna, 1869 – 1874. Pág. 190.
134 D. João VI parte para Lisboa após quatorze anos de vivência tropical. Não tendo sido seu implementador formal, foi indubitavelmente o grande impulsionador, ainda que indireto da Independência do Brasil, ao lançar as bases estruturais para que mais tarde seu filho procedesse à efetiva materialidade do ato. Aparte disso, temos outras circunstâncias que, sem sombra de dúvida constituíram um óbice a uma unidade política entre os dois Reinos d’aquém e d’além mar: o papel das cortes, consubstanciado numa vertente neo-absolutista que molestando o papel do Rei, bem como de todas as demais instâncias com algum poder decisório, silenciavam qualquer ímpeto de partilha do poder, de dispersão ou pulverização de competências; desta forma o Brasil era visto como uma potencial ameaça, quer pelo símbolo do Príncipe Regente, quer pelo manancial de poder possibilitado pela crescente descentralização operada após a vinda da corte para o Brasil:
O que mais offendia as côrtes era a logar-tenencia dada ao príncipe D.
Pedro, e uma das medidas que arrancaram ao rei foi a demissão de seu filho e ordem expressa para vir viajar pela Europa. Ao mesmo tempo aconselhava-se ás juntas provinciais que não reconhecessem o governo do Rio de Janeiro. Nomeavam-se governadores para as províncias, e, para reforçar estas ordens, mandavam-se tropas portuguesas para o Brazil429
O impulso de controlo do poder em toda sua extensão operado pelas Cortes funcionava ante uma certa apatia de um monarca já fustigado pela idade e pelas vicissitudes passadas, não querendo de forma alguma menosprezar o papel de D.
João VI como um astuto governante, o qual conseguiu desferir a Napoleão o prefácio de sua queda, mantendo a independência nacional, ainda que para isso tenha que se ter aventurado a atravessar o Atlântico, fato único e exclusivo à data, tendo sido o primeiro monarca a realizar tal feito. Porém, tais expedientes não
429 In: CHAGAS, Manuel Pinheiro. Op., cit.. Pág. 191.
135 lograram êxito ante a jovialidade irreverente de D. Pedro, o qual, desde sempre em comunicações a seu pai revelava uma estrita fidelidade, não obstante sua parcimônia não se pôde coadunar com constantes agressões feitas por aquele órgão, de modo que se pode inclusivamente olhar no gesto de do Imperador, a tentativa de não deixar cair o Brasil naquilo que o Reino Português se estava a tornar, a partir de um império do legislativo, agregando valores diametralmente opostos àqueles que eram apregoados anteriormente à tomada do poder, nomeadamente, as tradicionais características do liberal constitucionalismo, enunciando a primeira a ser infringida, a divisão de poderes e a não aglutinação num só titular.
De fato, as cortes na sua atitude que alguns denominavam anti-brasílica, muito obraram para forçar uma Independência que poderia ter no entanto assumido contornos distintos. Essa propensão revelou-se desde a própria convocatória para o início dos trabalhos, ainda atinentes às Bases da Constituição, e posteriormente quando após compromisso firmado de que os assuntos respeitantes aos interesses do Brasil só seriam discutidos após a chegada de seus deputados representantes, se iniciam discussões olvidando o compromisso, fato aliás bastante contestado pelo dinâmico parlamentar Antônio Carlos de Andrada; para além das constantes agressões políticas materializadas numa efetiva tentativa de recolonização de um território que já havia alcançado níveis políticos e administrativos que não comportavam tal retrocesso. A análise de Pinheiro Chagas é bastante elucidativa neste sentido quando alega que: “as côrtes, obedecendo a um impulso apaixonado, multiplicavam os decretos que iam ferir os interesses e as pretensões do Brazil”430 e conclui que “o erro fôra capital, e, se as côrtes quizessem forçar o Brazil a proclamar a sua independência, não podiam proceder de outro modo”431.
Uma análise das cartas enviadas por D. Pedro I, a seu pai, enquanto Príncipe Regente do Brasil Reino demonstra a evolução de todo um contexto social
430 CHAGAS, Manuel Pinheiro. Op., cit.. Pág. 191.
431 CHAGAS, Manuel Pinheiro. Op., cit.. Pág. 191.
136 e político que realça o caminho trilhado até ao Ipiranga, tendo como protagonista aquele que foi o primeiro Imperador do Brasil ora independente.
Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1821.- Meu pae e meu senhor: Com bem desgosto pego na penna para communicar a vossa magestade do motim e boatos mui fortes que correm de plano pela cidade. A independência tem-se querido cobrir commigo e com a tropa; com nenhum conseguiu, nem conseguirá, porque a minha honra e a d’ella é maior que todo o Brazil; queriam-me e dizem que me querem acclamar imperador;
protesto a vossa magestade que nunca serei perjuro, que nunca lhe serei falso, e que elles farão essa loucura, mas será depois de eu e todos os portugueses estarem feitos em postas; é o que juro a vossa magestade, escrevendo n’esta com o meu sangue estas seguintes palavras: Juro sempre ser fiel a vossa magestade, á nação e á constituição portuguesa.432
Este pode ser encarado como o prefácio de um estado de ânimo que revelava toda uma adstrição à causa constitucional presente no pós-revolução de 1820 e ao início de um período que perfez um caminhar para uma independência face a todo um contexto sócio-político que em muito impulsionou essa mudança.
Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou prompto, diga ao povo que fico433
432Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Rio de Janeiro: Na Impressão Regia, 1817. Pág. 352.
433Fala de D. Pedro I em resposta a uma participação do senado da câmara por seu procurador, no seguimento de uma reunião das câmaras, e pela qual foi manifestado ao Príncipe a potencial independência com sua partida. In: Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 359.
137 Têm-se aqui a ruptura com o movimento constitucional liberalista de Lisboa, D. Pedro pela primeira vez vai deliberadamente contra as ordens das cortes que rogavam sua saída do Brasil, numa outra tentativa de enfraquecer o poderia político que o Reino detinha, aliado à imagem do Príncipe Regente, no lugar do Rei, o qual havia desde há muito perdido sua hegemonia face ao novo órgão centralizador, mas, pelo contrário aquele aglutinava toda uma carga política que dinamizava uma vertente senão independentista, ao menos não sujeita ao controlo legislativo, tal como sucedia no Reino Português. Nas palavras de Pinheiro Chagas: “já estava consubstanciada a causa do Príncipe D. Pedro, com a causa do Brasil”434, e a partir deste momento surgem duas reações distintas, de um lado a expulsão da divisão portuguesa estacionada no Rio de Janeiro sob o comando de Jorge de Avilez que vinha com ordens expressas para levar o Príncipe de volta à Europa, do outro, a obediência do general Madeira ao Governo de Lisboa, mantendo a soberania Portuguesa na Bahia.
Não obstante, por carta de 23 de janeiro de 1822 ainda era possível olhar uma certa aproximação ou tentativa de conter o ímpeto independentista, antes mesmo da expulsão da tropa portuguesa, num medir de forças verificado entre D.
Pedro e o General Jorge de Avilez, pelo qual o Príncipe respondia ao soberano congresso:
que elle fique ainda mais certo do quanto eu tenho trabalhado na união de ambos os hemispherios, que nem desordens d’esta poderão acabar e dissolver, nem poderão emquanto eu estiver contendo com todas as minhas forças a declaração da independência, já por alguns bem desejada e que será, a meu ver (que antes não queria ver), inevitável, a não serem tomadas em consideração as representações das províncias435
434 CHAGAS, Manuel Pinheiro. Op., cit.. Pág. 195.
435 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 362.
138 Menos de um mês depois, as tropas são efetivamente expulsas por ordem direta do quase Imperador, que, uma vez mais ousa afrontar as prerrogativas de comando do Soberano Congresso:
Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1822.- Meu pae e meu senhor: - Cansado de aturar desaforos á divisão auxiliadora e faltas de palavra, assim como a dee no dia 5 d’este mez me prometterem ficarem embarcados no dia 8, fui no dia 9 a bordo da União, e mandei um official dizer da minha parte á divisão, que eu determinava que no dia 10 ao romper do sol Ella começaria a embarcar, e que assim o não fazendo eu lhe não dava quartel e os reputava inimigos(...) Já ordenei, e se não executarem ámanhã, começo-lhes a fazer fogo.436
Não obstante, ainda após o incidente supra-referido, o Príncipe mantém um diálogo com as cortes, em suas comunicações com o Rei, nesta medida, admite a possibilidade da manutenção de um Reino Unido, assumindo a sua condição de regente e manifestando um interesse de promover um entendimento conforme que não passasse por uma declaração de independência:
Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 1822.- Meu pae e meu senhor.- (...) Desejo que vossa magestade faça apresentar esta ás côrtes, assim como o decreto que remetto incluso, para que ellas conheçam o interesse que tomo pela monarchia luso-brazilica, e o quanto sou despido de toda a ambição, e muito mais d’aquella que poderia provir-me da auctoridade de regente do vasto reino do Brazil e de logar-tenente de vossa magestade.437
436 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 363.
437 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 365.
139 Aos 23 de maio de 1822 novamente uma representação do senado da Câmara do Rio de Janeiro promove aquele que pode ser considerado o início do contexto constitucionalista brasileiro, o qual vai estar intrinsecamente ligado ao Decreto de 3 de junho do mesmo ano, o qual foi, nas palavras de Paulo Bonavides:
“uma medida de constitucionalização do Brasil”438 que “antecedia o ato da independência, consumado a 7 de setembro”439. Era pela primeira vez convocada uma Assembléia Geral Constituinte e Legislativa, composta por deputados eleitos de todas as províncias do Brasil, a qual teve por base, tal como em 1820 em Portugal, uma fórmula que delimitava sua efetivação, as Instruções de 19 de junho de 1822, da autoria de José Bonifácio de Andrada e Silva, mais uma vez, segundo a análise do eminente constitucionalista Paulo Bonavides: “Nascia, naquele texto, o direito constitucional positivo do Brasil: constitucionalmente a nossa independência se achava vazada ali e no decreto de 3 de junho.”440
De fato, o discurso de D. Pedro, viu-se modificado após os eventos supra-citados, desta forma, uma outra missiva relata expressivamente essa virada de atitude que corrobora a opinião do douto constitucionalista:
Rio de Janeiro, 19 de junho de 1822.- Meu pae e meu senhor:- (...) Circumstancias políticas do Brazil fizeram que eu tomasse as medidas que já participei a vossa magestade; outras mais urgentes forçaram-me, por amor á nação, a vossa magestade e ao Brazil, a tomar as que vossa magestade verá dos papeis officiaes que sómente a vossa magestade remetto. Por elles verá vossa magestade o amor que os brazileiros honrados consagram á sua sagrada e inviolável pessoa e ao Brazil; que a Providencia Divina lhes deu em sorte livre e que não quer ser escravo de luso-hespanhoes, quaes os infames déspotas (constitucionaes in nomne) d’essas facciosas, horrorosas e pestiferas côrtes.
438 BONAVIDES, Paulo e ANDRADE Paes. História Constitucional do Brasil. Brasília: Paz e Terra, 1988. Pág. 42.
439 BONAVIDES, Paulo e ANDRADE Paes. Op. Cit. Pág. 42.
440 BONAVIDES, Paulo e ANDRADE Paes. Op. Cit. Pág. 43.
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O Brazil, senhor, ama a vossa magestade, reconhece-o e sempre o reconheceu como seu rei; foi sectário das malditas côrtes, por desgraça ou felicidade (problema difícil de decidir-se); hoje, não só abomina e detesta essas, mas não lhe obedece, nem lhe obedecerá mais, nem eu consentiria tal, o que não é preciso, porque de todo não querem senão as leis da sua assembléia geral constituinte e legislativa, creada por sua livre contade para lhes fazer uma constituição que os felicite in eternum, se for possível.
Eu ainda me lembro e me lembrarei sempre do que vossa magestade me disse, antes de partir dois dias, no seu quarto: Pedro, se o Brazil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum d’esses aventureiros. Foi chegado o momento da quase separação, e estribado eu nas eloqüentes e singelas palavras expressadas por vossa magestade, tenho marchado adiante do Brazil, que tanto me tem honrado.(...) 441
Ante este relato, restam evidentes os claros desígnios do futuro Império, muito embora á custa das constantes agressões do Soberano Congresso, que aqui se quedam caracterizados por D. Pedro, salvaguardando a figura de seu pai, o qual, está aprisionado face a um novo contexto político inaugurado pela revolução liberal, e ao qual o Reino de além-mar não se pretende subjugar. É também nesta correspondência que se levanta a querela que divide a historiografia, no que concerne à veracidade das palavras alegadamente proferidas por D. João VI, enfatizando a tomada de seu filho da coroa do Reino do Brasil, face a um contexto revolucionário que colocasse em risco a ligação ao Reino Português, tendo uns como argumento, o texto da carta de D. Pedro a seu pai, supra-referida e sua confirmação por uma outra missiva, esta de D. João a seu filho dizendo: “Bem vejo que o Brazil não tardará a separar-se de Portugal. N’este caso, se me não puderes conservar a coroa, guarda-a para ti, e não a deixes cair em mãos de
441Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 368.
141 aventureiros”442; outros, utilizando-se da negativa de D. João VI, quando confrontado pelas Cortes perante esta questão, o que, no entanto se pode compreender como uma atitude de negação perante o confronto em curcunstâncias específicas, tais como aquelas vividas à época.443
Rio de Janeiro, 26 de julho de 1822: (...) quero dizer que é um impossível physico e moral Portugal governar o Brazil, ou o Brazil ser governado de Portugal. Não sou rebelde, como hão de dizer a vossa magestade os inimigos de vossa magestade; são as circumstancias444
Nesta outra correspondência é notória a continuidade da esfera de pensamento de D. Pedro, o qual não dispensa palavras difamatórias em relação ás côrtes, enfatiza a carga axiológica negativa, apelidando-as de luso-espanholas, numa clara acepção à influência de Cádiz e do modelo constitucional em muito por esta influenciado. O Princípe relata uma pretensa subversão do ideário constitucional liberal, em nome do qual se fez a revolução:
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1822.- Meu pae e meu senhor:- Tive a honra de receber de vossa magestade uma carta datada de 3 de agosto, na qual vossa magestade me reprehende pelo meu modo de escrever e fallar da facção luso.hespanhola (se vossa magestade me permitte, eu e meus irmãos brazileiros lamentamos muito e muito o estado de coacção em que vossa magestade jaz sepultado); eu não tenho outro modo de escrever, e como o verso era para ser medido pelos infames deputados europeus e brazileiros do partido d’essas despoticas côrtes executivas, legislativas e judiciárias, cumpria ser
442 Chagas, Manuel Pinheiro. Op., Cit. Pág. 175
443 Neste sentido, CHAGAS, Manuel Pinheiro. Op., cit.. Pág. 175.
444Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 371.
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assim; e como eu agora, mais bem informado, sei que vossa magestade está positivamente preso, escrevo esta ultima carta, sobre questões já decididas pelos brazileiros, do mesmo modo por que com perfeito conhecimento de causa estou capacitado que o estado de coacção a que vossa magestade se acha reduzido é que o faz obrar bem contrariamente ao seu liberal genio. Deus nos livrasse se outra cousa pensassemos! (...)445
Resulta uma efetiva ruptura contra qualquer intromissão do supremo órgão político português em território brasileiro:
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1822. (...) Firmes n’estes inabalaveis principios, digo (tomando Deus por testemunha e ao mundo inteiro) a essa cafila sanguinosa, que eu, como principe regente do reino do Brazil e seu defensor perpétuo, hei por bem declarar todos os decretos preteritos d’essas facciosas, horrorosas, machiavelicas, desorganizadas, hediondas e pestíferas côrtes, que ainda não mandei executar, e todos os mais que fizerem para o Brazil, nullos, irritos e inexequíveis, e como taes com um veto absoluto que é sustentado pelos brazileiros todos , que, unidos a mim, me ajudam a dizer: De Portugal nada, não queremos nada.446
Têm-se então o movimento independentista como uma reação sobretudo contra as côrtes e não contra o Reino Português simbolizado na figura de D. João VI. O contraponto liberalismo versus absolutismo, na esfera de uma alegada revolução liberal que no final resulta no aglomerar de competências num outro órgão
445 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 372.
446 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 373.
143 que não aquele materializado no papel do monarca, num monopolismo político que vêm a aprisionar de fato e de direito aquele que outrora foi o principal e exclusivo protagonista da cena política, tudo isto se infere dos textos assinados pelo Príncipe Regente, ora Imperador do Brasil após proclamar sua Independência:
Se vossa magestade cá estivesse seria respeitado, e então veria que o povo brazileiro, sabendo prezar sua liberdade e independencia, se empenha em respeitar a auctoridade real, pois não é um bando de vis carbonarios e assassinos, como os que têem a vossa magestade no mais ignomioso captiveiro447
A 3 de maio de 1823 é então instalada a Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil.
Como Imperador Constitucional, e muito especialmente como Defensor Perpétuo deste Império, Disse ao Povo no Dia 1.º de Dezembro do ano próximo passado, em que, Fui Coroado, e Sagrado , «Que com a Minha Espada Defenderia a Pátria, a Nação, e a Constituição, se fosse digna do Brasil , e de Mim» Ratifico hoje muito solenemente perante vós esta promessa448
Em seu discurso na abertura da Assembléia Constituinte, D. Pedro deixa antever um misto de governo forte, por si personificado com uma prevalência, claro está, do órgão executivo que assume, como tal, a própria Constituição que se
447 Collecção das leis, alvarás, decretos, cartas regias, &c., promulgadas no Brasil desde a feliz chegada de Elrey Nosso Senhor a este reino com hum indice chronologico. Cit. Pág. 373.
448 Discurso de D. Pedro I na abertura da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa. V. anexo VIII.
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144 haveria de votar teria que ser digna de si, o que, ademais suscitou extenuantes
144 haveria de votar teria que ser digna de si, o que, ademais suscitou extenuantes