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Ao som de tiros e canhões, aparecem as legendas que explicam o momento histórico. Ao fundo vemos imagens confusas de uma batalha e um quadro de Napoleão.
“No início do século XIX toda a Europa estava conturbada pela explosão do gênio guerreiro de NAPOLEÃO BONAPARTE.
D. João VI, príncipe regente de Portugal aliou-se com a Inglaterra, o que provocou a invasão de sua pátria pelas tropas de NAPOLEÃO.
A retirada forçada da corte portuguesa para o Brasil, em 1807, assumiu pela decisão de última hora, a dramaticidade de uma fuga.”
Após esta legenda, aparece outra, que refere-se à D. Pedro I:
“O seu testemunho de tão tumultuados acontecimentos, somado à carência de educação palaciana, por certo, marcaram o seu temperamento de homem de reações imprevisíveis.”
A representação de Dom Pedro é semelhante a descrita por Torres, em 1972:
“...temperamento arrebatado e sensual agravado por uma educação cheia de falhas, parcialmente feita no meio da rua, literalmente ao Deus-dará e o resto do
352 ARMITAGE, op.cit., p.223
ambiente deletério de uma corte absolutista em decadência e transplantada para o clima pouco ameno da América tropical...”353
Ao temperamento de D. Pedro muitos autores fazem referência. As suas “falhas”, nesse sentido, não são negadas pela maioria. Porém, alguns autores e o filme tentam ver
“o lado bom” dessa história, e de uma certa forma, absolvê-lo dos defeitos. Segundo Torres, foi justamente esse temperamento de D. Pedro que o fez proclamar a independência. E, nas legendas do filme aparece a mesma idéia:
“Daí, a aceleração do processo da Independência do Brasil, que teve suas raízes na Inconfidência Mineira”
Esta legenda atribui o processo de independência ao temperamento de D. Pedro e todas as circunstâncias que o levaram a ser do jeito que era.
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À imagem da última legenda vai sendo inserida a de D. Pedro, quando criança (Tarcísio Meira Jr.) comandando um exército infantil formado por negros e um outro garoto branco. Sua mãe aparece e comenta, ironicamente, a situação de seu filho, “criado como um porco, entre gente ignorante”. Em seguida aparece frei Arrábida que o repreende fisicamente, dando-lhe um puxão de orelha. Esta proximidade de Dom Pedro com pessoas populares é ressaltado em outros momentos do filme.
Vários autores referem-se às cartas mal escritas de Dom Pedro mostrando a sua falta de educação. Segundo Rangel, “É matéria recrescente de publicações, no desfear os méritos de D. Pedro, a sua pretendida e formal ignorância”354. Mas, este autor, discorre sobre os seus dotes e diz que, no final das contas, teve a educação na medida certa.
Tarquínio também tenta relativizar essa idéia de que ele fora um mal criado fazendo referências aos seus mestres e à sua inteligência, mesmo que não fosse um enérgico estudioso355. E valoriza os “...dons que lhe vieram com a vida, aquelas reservas de energia e resistência, de ímpeto puro e originalidade autêntica que marcam os homens do destino...”356. E aceita a falta de educação na infância como tendo sido boa por não ter-lhe deformado a essência: “sobrou-lhe intacto o rude vigor nativo”.
Assim como estes autores, o filme também se refere a um dom nato da personagem e a independência, realizada por este herói, aparece como sendo o destino: como se o
353 TORRES, João Camilo de Oliveira “Pedro, o homem e o príncipe” in: Minas Gerais – Edição especial 7 de setembro de 1972. Belo Horizonte, 1972 – p.11.
354 RANGEL,Alberto. Dom Pedro I e a Marquesa de Santos. São Paulo: Brasiliense, 1969, p.20
355 Segundo Tarquínio, Dom Pedro teria feito a viagem de Portugal para o Brasil lendo Eneida, aos nove anos de idade.
356 SOUSA, Octávio Tarquínio. A vida de Dom Pedro I. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, Liv. José Olympio, 1972 – vol.I, p.12
destino tivesse criado as circunstâncias propícias para que D. Pedro pudesse realizar o seu papel.
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Na última cena, da seqüência anterior, a câmera enquadra (em plongée), através de uma grade, o Frei Arrábida puxando a orelha de D. Pedro. Em seguida, aparece um plano aberto de um bosque e ao fundo D. Pedro galopa em direção à câmera. Há uma oposição entre essas duas cenas: na primei ra a criança é repreendida atrás de grades e na segunda galopa livremente. Esta parece ser uma idéia semelhante à presente no seguinte trecho de Tarquínio:
“Frades, padres, mestres, aias, cercando-o, não tiveram forças contra o seu fundo indômito, contra o vigor de sua têmpera. Do menino, em cuja educação não houve apuro, do príncipe desleixadamente preparado, subsistia um homem, no sentido mais completo de atributos varonis, de predicados másculos”357
A seqüência inteira vai mostrar este passeio de cavalo, ao som do hino da independência instrumental, e legendas, como uma apresentação do filme. Em um momento, a imagem da criança no cavalo é sucedida pela imagem de D. Pedro adulto na mesma posição que a criança. O tempo passou e a criança cresceu. Porém, parece significar que da mesma maneira como foi sua infância continua sendo sua juventude:
livre.
Esta relação direta entre infância e a maturidade, como se a primeira definisse a segunda, aparece em Tarquínio: “...essa primeira infância assim passada iria moldar-lhe algumas das mais características atitudes que assumiria depois. ‘O menino é o pai do homem’(...)”358. É uma concepção de que a infância explica as atitudes posteriores e que nela aflora a natureza essencial do homem359. De forma semelhante, esta idéia também aparece no filme.
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Essa seqüência começa com o plano de pernas, calçadas apenas com meias, se coçando, embaixo de uma mesa. A câmera vai subindo e vemos Dom João sentado e comendo. É a imagem comum do monarca bonachão e comilão. Atrás dele, sua mulher Carlota reclama de D. Pedro. O casal conversa sobre o comportamento ruim do filho. E,
357 SOUSA, Tarquínio, op.cit., vol.I, p.61
358 SOUSA, Octávio Tarquínio, op.cit., vol. I, p.13
359 Esta idéia de que a infância explica as atitudes da maturidade também está presente no filme Carlota Joaquina.
depois que Dom Pedro entra em cena, eles sugerem um casamento. Como se isto fosse uma forma de fazê-lo ter juízo.
Aqui está presente uma idéia de família muito diferente da que viviam os personagens. Em primeiro lugar, Dom João VI e Carlota Joaquina não habitavam o mesmo espaço, segundo vários autores, e é clássica a desavença entre os dois. Porém, funciona na narrativa como um elemento explicativo e de ligação. Na seqüência anterior Dom Pedro “cresce” e vai em direção a algum lugar. Nesta seqüência ele entra na sala onde se encontra com seus pais que falam no casamento. Na próxima, será a encenação do casamento.
D. Pedro, ao entrar, passa a mão em uma moça seduzindo-a e o pai refere-se à fama de namorador do filho. Isto parece querer dar conta da fama de D. Pedro de ter uma excessiva propensão sexual. No entanto, o filme passa muito rápido por essa questão e isso par ece ser justificado pela imagem heróica que o filme quer criar. Encenar o que a tradição menciona sobre os comportamentos de Dom Pedro no aspecto sexual seria degradante para a imagem de herói.
É interessante notar a postura da personagem que apesar de ter sido criado “como um porco, entre gente ignorante”, ou não ter recebido “educação palaciana”, ou ter sido repreendido pela mãe por não cumprimentar adequadamente seus pais, ainda assim tem uma postura física que o afasta desta descrição. Desde o início o ator mantém uma postura de galã. Já se comporta como se fosse um herói.
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Dom Pedro aparece ansioso à espera da noiva que não conhece. A seqüência é montada em plano e contra-plano. Leopoldina entra e é linda360. Dom Pedro fica satisfeito com isso. A maioria das descrições de Leopoldina pinta-a como feia, mas no filme ela é muito bonita. Representá-la como feia seria contrário ao filme e contra uma imagem que se tem de princesas: são sempre belas. Além disso, ela também é uma das heroínas da história e heróis costumam ser belos. Representá-la como uma “louraça feiarrona”, como a descreve Rangel, iria comprometer a imagem de bela princesa européia, bondosa, que foi importante na independência e se tornou a Imperatriz do Brasil.
Isto que se pode chamar de erro histórico é, na verdade, uma escolha que tem seus objetivos, não é um simples “erro”, é um erro intencional. Assim, neste aspecto, para o
360 No tratamento de roteiro de Abílio ela é descrita como em Rangel: “louraça feiarrona”, op.cit.
filme não importa o que dizem as fontes, importa a imagem que quer criar. Quando é preciso, as fontes são ignoradas...
É interessante notar a omissão das circunstâncias da viagem de Leopoldina para o Brasil. A esquadra que trouxe a futura esposa de D. Pedro demorou pois “Rebentara a revolução em Pernambuco ...Deveria ter partido em maio e só largou o Tejo a 6 de julho.”361 Como o filme omite as lutas e conflitos, também omitiu os conflitos em Pernambuco.
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Pedro e Leopoldina tocam juntos, ela ao piano e ele toca fagote. Os dois parecem estar em harmonia. Esta porém é quebrada quando dom Pedro desafina, propositalmente, e se levanta dizendo que vai ao Plácido. Leopoldina tenta conversar com ele para que se interesse mais pela política, atitude que já a enquadra como peça importante para os acontecimentos políticos. Quando Pedro menciona a vontade de seu pai de enviá-lo para Portugal, ela responde imediatamente: “Não deves ir, o nosso lugar é aqui, há muito por fazer.”362 Dom Pedro, no entanto, age como um garoto desinteressado pela política. Esta representação ressalta seu momento de estréia nos assuntos do Rei: o dia 26 de fevereiro, como veremos à frente.
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A seqüência 9 é feita como uma transição de uma seqüência para outra. Dom Pedro galopa até o ferreiro. Juntos eles forjam a ferradura e conversam sobre o botequim, sobre
“vinho, viola, e bailarinas”. Pedro diz que estará no botequim à noite. Neste trecho, aparece a imagem do Dom Pedro que ferra o seu próprio cavalo.
Na seqüência 10, há uma montagem paralela entre D. Pedro, na taberna, e Dom João, reunido com seus ministros devido à notícia de uma rebelião popular. Ao receber a notícia, dom João continua calmo, comendo o seu frango e pergunta: “ora, mas o que eles querem, seu Tomás Antônio?”. Em seguida, a câmera mostra, em plano aberto, a sala onde estão dom João e seus ministros e, ao fundo, vem entrando Carlota, reclamando e xingando.
Vemos novamente o botequim e Pedro se divertindo com uma moça, até que tocam o sino e aparece Frei Arrábida trazendo a notícia da rebelião. O príncipe decide ir até lá, e sai. Seus amigos, Plácido, João e Chalaça observam, enquanto um deles fala:
361 MONTEIRO, Tobias, op.cit.. p.181.
“Nosso bom amigo, príncipe dom Pedro, acaba de ingressar na vida política do rei.
Acabou-se a tranqüilidade dele”