Katinsky (1997) afirma que os bons resultados dessa filosofia influenciaram
3 Lilienthal (1956) mostra que muitos viajantes norte-americanos levaram a confirmação deste papel da Autarquia como um exemplo a outros países. Para ilustrar isso, conta de uma viagem do Ministro Douglas, da Suprema Corte da Justiça Federal americana, a lugares como Rússia, Líbano, Síria e Índia, afirmando que em todos os lugares em que esteve, no início da década de 1940, a pergunta era porque motivos não podiam ter também uma TVA. Diante disso, a Autarquia se tornou um centro de instruções para técnicos estrangeiros, com a visita de milhares deles, principalmente depois da guerra.
diretamente os engenheiros e administradores de empreendimentos hidrelétricos do Brasil. Assim, os novos projetos foram concebidos dentro de um quadro de iniciativas governamentais, dada a amplitude de seus objetivos, que ultrapassavam, e muito, um empreendimento puramente voltado à produção de energia.
As ideias dessa iniciativa chegaram ao Brasil, já em 1933, através de Anhaia Mello, fervoroso defensor do planejamento regional americano e propagandista do New Deal que, através de suas palestras, influenciou cabeças na Escola Politécnica da USP. Anhaia Mello foi professor de Lucas Garcez, Lopez Leão, Souza Dias, entre outros, que foram os mentores das diretrizes da apropriação do potencial hídrico do estado de São Paulo, e que anos mais tarde originaria a CESP. A Companhia não só gerou energia, mas povoou regiões, fundou cidades, criou bases para a ocupação territorial do interior com suas barragens.
Convém destacar ainda no processo de implantação da indústria de energia elétrica brasileira, a influência da experiência americana da TVA – Tennesse Valley Authority, principalmente no que se refere aos aspectos relativos a planejamento integrado e ao uso múltiplo das bacias hidrográficas, ampliando os objetivos dos empreendimentos e abrindo perspectivas para a participação profissional dos arquitetos [...] A experiência da TVA caracteriza-se, dessa forma, como um trabalho de planejamento regional integrado, incluindo naturalmente o arquiteto na sua equipe profissional, como responsável não só pelas atividades ligadas às obras e edificações complementares, mas também interferindo na organização espacial e detalhamento construtivo das obras principais. (TSUKUMO, 1989, p.8-9).
Em 1944, o Dr. Apolônio Salles, Ministro da Agricultura do Brasil do primeiro Governo Vargas, visitou o Vale do Tennessee e declarou interesse em saber como essas represas poderiam ser aplicadas no caso brasileiro. Em 1946, a pedido do Governo Brasileiro, o Sr. Oren Reed, engenheiro construtor da TVA, estudou planos e relatórios e realizou uma viagem de inspeção à área do rio São Francisco. Suas conclusões foram favoráveis e afirmou que o projeto poderia ser organizado.
Quando o Presidente Eurico Gaspar Dutra visitou os EUA, em 1949, inspecionou o desenvolvimento da TVA e afirmou que transformaria o Vale do São Francisco, no Brasil, em uma área de oportunidades econômicas, como havia acontecido com o vale norte-americano.
A Companhia Hidroelétrica do São Francisco - CHESF foi criada assim, em 1945, adotando como modelo inspirador a experiência da TVA, não apenas para a estrutura organizacional do setor, com órgãos de jurisdição regional dotados de poderes federais, mas para a concepção do vale como um todo, no qual se aplicaria um plano de amplitude regional. Conforme Ueda (2007), esse espírito pode ser identificado pela realização de um estudo denominado Reconhecimento Geral do São Francisco, elaborado pela empresa Development and Resources, dirigida por um supervisor da TVA.4
4 Além das usinas, o plano previa doze açudes de irrigação, 33 hospitais, três centros de saúde, quatro postos de saúde, uma escola normal rural, docas com 27 portos fluviais, um estaleiro fluvial,
A CHESF foi a primeira intervenção direta do governo federal na produção de energia elétrica, com a construção da usina de Paulo Afonso. A linha básica de sua concepção foi o aproveitamento múltiplo das águas do rio São Francisco por meio da exploração da energia elétrica, da irrigação e da navegação. Contudo, o governo teve poucas iniciativas concretas no setor que continuava a ser desenvolvido por concessionárias particulares.5 Isso não significava a inexistência de investimentos federais no setor, tanto é que, por ocasião da implementação do Plano SALTE (1950), a CHESF juntamente com o Departamento Nacional de Obras contra a Seca - DNOCS, recebeu mais da metade dos investimentos destinados a todo o setor energético nacional.
Em 1948, ainda no governo Dutra, foi criada a Comissão do Desenvolvimento do São Francisco - CODEVASF que apresentou o plano geral para o aproveitamento econômico do vale em 1950, dando ênfase à irrigação e à geração de energia elétrica.
Quando Vargas reassumiu a segunda presidência a política de desenvolvimento foi mantida. Mas, o conceito de aproveitamento múltiplo, consagrado pela TVA, limitou-se à regularização da vazão dos rios, irrigação, garantia da navegação fluvial, piscicultura recreativa e comercial e a utilização para o lazer aquático. No governo de Juscelino Kubitschek, no entanto, tais objetivos foram deixados em segundo plano, uma vez que a navegação fluvial cedeu lugar às rodovias e a geração de energia elétrica tornou-se prioridade.6
Segundo Tsukumo (1989), o alto nível da engenharia brasileira na época, somado à influência da experiência estrangeira, aproximou engenheiros e arquitetos na procura da qualidade construtiva e ambiental dos empreendimentos hidrelétricos, considerados representativos não só de desenvolvimento tecnológico, mas também cultural do país. Segundo a autora, uma herança de administração pública da TVA podia ser percebida nesses planejamentos, nos quais se observava o espírito desenvolvimentista e modernizador, intuído da ocupação do território e do aproveitamento do potencial hidráulico; a atuação dos arquitetos nos programas das instalações técnicas e no planejamento operacional das usinas; as equipes de projeto passaram a conter profissionais de diversas áreas, atuando em conjunto e criando novas práticas de desenvolvimento de projetos; a utilização de conceitos como desenvolvimento unificado, múltiplo uso e interdisciplinaridade.
Cino Calcaprina (apud NOGUEIRA, 1979) afirma que o êxito desse tipo de planejamento deve ser atribuído aos seguintes pontos: a TVA fez coincidir o saneamento de uma região com as melhorias relativas à navegabilidade de um rio, com um programa de produção barata de energia elétrica, com o desenvolvimento
oito rodovias, várias estradas transversais e um serviço postal regional (LILIENTHAL, 1956, p.260).
5 Vale salientar que a Companhia Hidrelétrica do Vale do São Francisco (CHESF) foi a única iniciativa brasileira no apanhado sistematizado por David Lilienthal na edição de 1953 do livro TVA:
a democracia em marcha, cuja primeira edição data de 1943.
6 Ainda dentro do horizonte de influência da experiência norte-americana, a CHESF também se encarregou da construção de um núcleo residencial para os seus trabalhadores. O projeto inicial do acampamento, segundo Farah e Farah (1993), previu a construção de alojamentos para funcionários solteiros e três vilas residenciais, uma para engenheiros e altos funcionários, outra para mão de obra qualificada e uma terceira para famílias de operários, separando por bairros cada categoria de classe. A cidade de Paulo Afonso, situada à margem direita do rio São Francisco em território baiano, se encontrava dividida em duas partes: o acampamento da CHESF - fechado e controlado - e a vila Nossa Senhora de Fátima, conhecida como vila Poti - a “cidade-livre”.
industrial e ao mesmo tempo com o agrícola; criou um organismo planejador flexível, autônomo, forte e estruturado em sessões de especialistas que podiam atuar com uma rapidez inusitada nos canais burocráticos; empregou racionalmente os meios necessários para a realização do plano, executando programas técnico-econômicos enfocados segundo a conveniência econômica e segundo os interesses da coletividade; e despertou um profundo espírito de cooperação entre os habitantes da região e de colaboração entre órgãos públicos.
De acordo com Katinsky (1997), já em 1948, no primeiro governo de Adhemar de Barros, de 1947 a 1951, fundaram-se companhias estatais relativamente pequenas para suplementar o fornecimento de energia da Light e das companhias geradoras particulares então existentes, contudo, com uma filosofia de projeto inteiramente nova. Para o autor, a concepção das usinas hidrelétricas no estado de São Paulo pode ser esquematizada a partir de dois momentos qualitativamente diferentes:
primeiramente para atender a demandas definidas, como grandes empreendimentos fabris ou cidades e regiões circunvizinhas; e, em um segundo momento, definida pelo entusiasmo com a experiência norte-americana da TVA.
Em entrevista à autora, o arquiteto Julio R. Katinsky (2012) desenvolve mais essa ideia, reafirmando o entusiasmo dos engenheiros paulistas com duas experiências americanas na época. A primeira delas, uma grande barragem chamada Boulder Dam (Hoover Dam), no rio Colorado e, a outra, a TVA que foi o primeiro grande planejamento de caráter regional e intermunicipal de que se teve notícias. Segundo o arquiteto, isso foi muito importante “porque o país vivia uma condição de extrema dependência do capital internacional, assim, eles se sentiram dispostos a fazer uma autarquia semelhante à TVA”.