CAPÍTULO 2 – A TRAJETÓRIA DE ARLEQUINA: DA ORIGEM AOS DIAS DE
2.6 A influência da transmídia no desenvolvimento de Arlequina
Conforme pontuado neste capítulo, diferente de outros vilões e heróis da DC, que tiveram sua origem nos quadrinhos, Arlequina nasceu na animação. Isso a diferencia não apenas na mídia de origem, mas em como seu cânone é constituído. Não é algo novo o fato de heróis serem representados em mídias variadas, contudo, elas não passavam de adaptações de fatos explanados anteriormente nos quadrinhos, e não o oposto. Arlequina trouxe essa característica incomum e rara dentro do gênero, herança da importância que Batman: A Série Animada e toda a DCAU trouxeram para o cânone da DC comics. É claro que ela não foi a única personagem canonizada do TIMMVERSE, mas pode ser considerada a mais expressiva devido à sua popularidade e grande impacto tanto comercial como nas tramas do universo canônico, que lhe
105 Refere-se a pequenas sagas dentro de um título ou saga maior. No caso de As Sereias de Gotham, o arco
(Ex)Amigas é um arco, pois constitui em uma pequena saga com contexto próprio e fechado.
106 DCCOMICS. Gotham City Sirens, Volume 1, 2009. Disponível em: https://bit.ly/2Nzpnd1. Acesso em: 13
rendeu títulos solo, diferente de outros personagens como Senhor Frio e Lock-Up. É também importante destacar que ela não foi a primeira nem a única personagem de origem exterior aos quadrinhos que ganhou grande expressividade, sendo canonizada e recebendo título próprio. A heroína Batgirl foi criada como coadjuvante para o seriado Batman (1960), como explanado no capítulo 1. Assim como Arlequina, ela foi ganhando cada vez mais popularidade e foi desenvolvendo uma narrativa própria exterior aos eventos do título Batman.
Essa natureza narrativa é nomeada por Jenkins (2008) de transmídia, que consiste na importância de diversas plataformas midiáticas para ter a totalidade de compreensão de uma história, de uma narrativa.
Uma história transmídia desenrola-se através de múltiplas plataformas de mídia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. Na forma ideal de narrativa transmídia, cada meio faz o que faz de melhor – a fim de que uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado como atração de um parque de diversões. Cada acesso à franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário ver o filme para gostar do game, e vice-versa. Cada produto determinado é um ponto de acesso à franquia como um todo. A compreensão obtida por meio de diversas mídias sustenta uma profundidade de experiência que motiva mais consumo (JENKINS, 2008, p. 138).
Como explicado, os quadrinhos ainda continuam sendo a plataforma midiática canonizadora de fatos e personagens na DC Comics, embora nem sempre o fato de algo estar nos quadrinhos signifique ser um fato canônico, é importante ressaltar que os quadrinhos possuem fatos principais e oficiais, enquanto há tramas paralelas que não tem ligação com esses fatos, devido à pluralidade de roteirista e liberdade criativa. No entanto, o processo para se oficializar personagens e informações pode estar ligado ao extremo sucesso em outras formas de mídia. E este, curiosamente, continua sendo o caso de Arlequina atualmente, característica que a acompanhou em toda a sua trajetória, abordando animações, jogos e cinema.
Mesmo após sua canonização, Arlequina foi presente e intensa até o fim da DCAU, mantendo sua popularidade, o que lhe garantiu aparecimento em outras produções da franquia Batman. Uma das mais expressivas foi a série de jogos Arkham, na qual rendeu duas DLCs107 focando na Arlequina: A primeira, intitulada A Vingança de Arlequina (Harley Quinn’s
Revenge) de 2012; DLC de Batman: Arkham City (2011), na qual ela atua como a principal
antagonista e Histórias de Arkham: Arlequina (Harley Quinn Story Pack) de 2015, DLC de
107 Sigla de “Downloadable content”, ou seja, conteúdos extras que o jogador tem a opção de comprar para expandir
Batman: Arkham Night. Arlequina é a personagem controlável. A maior contribuição da série
de jogos está ligada ao figurino da personagem, que deixa de limitar-se ao traje clássico de Arlequim, variando diversas roupas e cabelos coloridos, característica que a acompanhou na maior parte das mídias posteriores, incluindo os quadrinhos. Os jogos também trouxeram um lado assustador da vilã que não havia sido tão explorado até então, graças à temática soturna dos jogos.
Figura 55 - Arlequina em Batman: Arkham Asylum (2009)
Fonte: arkhamcity108
108 ARKHAMCITY.COM. Arlequina em Batman: Arkham Asylum (2009). Disponível em: https://bit.ly/2MvyaId.
Figura 56 - Arlequina em Batman: Arkham City (2011)
Fonte: polygon.com109
Figura 57 - Arlequina em Batman Arkham City, DLC A Vingança de Arlequina (Harley Quinn’s Revenge), 2012
Fonte: worldclassvillains110
109 POLYGON.COM. Arlequina em Batman: Arkham City (2011). Disponível em: https://bit.ly/2QveLdO. Acesso
em: 14 set.2018.
110 WORLDCLASSVILLAINS. Arlequina em Batman Arkham City, DLC A Vingança de Arlequina (Harley
Figura 58 - Arlequina em Batman: Arkham Night; DLC Histórias de Arkham: Arlequina (Harley Quinn Story Pack), 2015
Fonte: steamcommunity.111
Após sua reformulação com o reboot em Os Novos 52 (2011), momento que esse estilo visual realmente se consolidou, deixando o antigo uniforme como algo histórico e nostálgico tanto para os fãs como para a própria Arlequina. Sempre com seu cabelo à mostra, mantendo o mesmo penteado da série clássica de 1992, quando Harley estava sem seu uniforme. E assim como na série de jogos, as cores de seu cabelo variam, fazendo conjunto com o traje usado. Na Figura 57 está o primeiro visual da personagem nos quadrinhos após o abandono do uniforme clássico, no entanto, foi mantida a paleta de cores para fazer referência a ele. Mesmo assim é possível perceber a herança visual deixada pelos jogos.
111 STEAMCOMMUNITY.COM. Arlequina em Batman: Arkham Night; DLC Histórias de Arkham: Arlequina
Figura 59 - Arlequina em Harley Quinn Vol 2 #24 (2016)
Fonte: dccomics112
Outro caso semelhante, e mais recente, foi a influência da entrada da personagem no cinema, com o filme Esquadrão Suicida (Suicide Squad), 2016, inspirada na formação do grupo no reboot Os Novos 52, iniciado em 2011. O filme compõe o Universo Estendido DC (Dc
Extended Universe/ DCEU), como é conhecido pelos fãs113, ou Universo da Liga da Justiça (Justice League Universe), como é oficialmente chamado pela Warner Bros114, que integra os
112 DCCOMICS.COM. Arlequina em Harley Quinn Vol 2 #24 (2016). Disponível em: https://bit.ly/2NSU1OI.
Acesso em: 15 set.2018.
113 Disponível em: https://screenrant.com/dceu-movie-universe-official-name/. Acesso em: 15 set.2018. 114 Disponível em: https://screenrant.com/dceu-new-name-dc-films/3/. Acesso em: 15 set.2018.
atuais filmes da DC Comics, que se iniciou com O Homem de Aço (Man Of Steel)115, 2013. Esquadrão Suicida é o terceiro filme da franquia e, apesar de ter sido a décima maior bilheteria de 2016, o filme foi bastante criticado devido ao grande marketing em torno do vilão Coringa, que no fim teve uma participação pífia e inexpressiva, além da trama confusa e mal desenvolvida; no entanto a atuação de Margot Robbie como Arlequina foi bastante aclamada tanto pelos fãs como pela mídia116; o que rendeu muitos produtos licenciados e homenagens em outras mídias. O figurino e a aparência de Margot Robbie, especialmente com os cabelos azul e rosa, influenciaram a aparência canônica de Arlequina, tanto nos quadrinhos como nas animações e jogos. Os cabelos da Arlequina de Margot Robbie tiveram inspiração na série de jogos Arkham, assemelhando-se muito ao Batman: Arkham City (2011) e Harley Quinn Story
Pack (2015). Os designs podem ser conferidos nas figuras 54 e 56 deste capítulo. Figura 60 - Margot Robbie como Arlequina em Esquadrão Suicida (2016)
Fonte: refinery29.com117
115 Os outros filmes da DCEU lançados até o momento são: Batman VS Superman: A Origem da Justiça (Batman
V Superman: Dawn Of Justice - 2016); Esquadrão Suicida (Suicide Squad – 2016); Mulher-Maravilha (Wonder Woman - 2017); Liga da Justiça (Justice League – 2017);
116 Disponível em: http://time.com/4368577/margot-robbie-suicide-squad-harley-quinn/. Acesso em: 15 set.2018.
117 REFINERY29.COM. Margot Robbie como Arlequina em Esquadrão Suicida (2016). Disponível em:
Figura 61 - Arlequina em Harley Quinn 2. Renascimento (2017)
Fonte: batman.fandom118
Figura 62 - Arlequina em Injustice 2 (2017)
Fonte: youtube119
É importante destacar que, apesar da influência multimídia nas caracterizações de Arlequina, ela não funciona exatamente como Jenkins (2008) descreve, pois a estrutura
118 BATMAN.FANDOM.COM. Arlequina em Harley Quinn 2. Renascimento (2017). Disponível em:
https://bit.ly/2QDL2PQ. Acesso em: 15 set.2018.
narrativa e continuidade de história dos quadrinhos dentro do gênero de super-herói, por natureza, estão sempre em construção. Uma obra pode desmentir a outra, por exemplo. Jenkins cita obras como Matrix e Star Wars, que contém informações adicionais canônicas a cada mídia utilizada, que completam a história e expandem aquele universo, tendo até mesmo referências entre si. O mesmo não acontece nos quadrinhos, ao menos, não de forma unificada, mas elas influenciam as regras da canonicidade de outras obras.
Por exemplo, a origem de Arlequina, descrita em Louco Amor e em Batman: A Série
Animada, é o ponto de partida para a caracterização de Arlequina em outras obras e mídias,
possuindo referências, mas não fazendo parte da mesma continuidade. Um exemplo está na Figura 61, em que a Arlequina de Rebirth, vestindo o uniforme da Arlequina clássica da série animada encontra o traje da Arlequina de Margot Robbie no filme Esquadrão Suicida. As três não são a mesma Arlequina, muito menos fazem parte do mesmo universo, mas a influência de uma na outra está intimamente presente ali, e se conectam com influências que foram canonizadas, montando uma comunicação de transmídia.
Figura 63 - Arlequina Rebirth com seu uniforme Clássico originado na série animada de 1992, encontra o uniforme da Arlequina de Margot Robbie, do filme Esquadrão Suicida de 2016. Harley Quinn #18.
Fonte: macscomics120
Isso não quer dizer que a transmídia descrita por Jenkins não aconteça dentro do gênero. O próprio quadrinho Louco Amor é uma plataforma que está transmidiaticamente ligada à
Batman: A Série Animada, pois trouxe elementos de continuidade que são canônicos dentro da
animação, porém era necessário que se lesse a HQ para tomar conhecimento da origem da vilã. Posteriormente, a obra foi adaptada para a animação, mas não deixa de ter tido essa natureza transmídia que Jenkins descreve. Outro exemplo, esse mais recente, é a série de jogos Injustiça (Injustice) (2013-2018), que além dos dois jogos, ainda conta com uma série em quadrinhos, que explora fatos não mostrados nos jogos, mas que são canonicamente ligados e citados nos próprios jogos, ou seja, os fatos dessa série de quadrinhos realmente aconteceram no universo dos jogos e são até mesmo citados neles, mas é necessário ler os quadrinhos para ter total compreensão dos fatos e vice-versa.