Ao longo dos últimos anos, não foram poucos os autores que discutiram a infografia como jornalismo. As definições são diversas. Comecemos por De Pablos que, em 1999, já defendia o que chama de infoperiodismo e explicava:
Infojornalismo é a infografia em geral como o telejornalismo é a televisão e o fotojornalismo a fotografia. Porém se trata de algo mais. Reforça o senti- do jornalístico ou informativo ao gênero frente à generalidade e à confusão; nem toda televisão, nem toda fotografia são jornalísticas. [...] A base do info- jornalismo é a infografia, porém não é só isto, pois implica em uma maneira de trabalhar que potencia este renascido gênero visual impresso, com a ajuda de jornalistas providos de cultura visual suficiente para saber em cada mo- mento o que é mais infograficamente conveniente (DE PABLOS, 1999, p. 43)[25].
Um pouco antes, em 1991, Peltzer, no prólogo do livro Jornalismo Icono-
gráfico, esclarecia:
Em diferentes seminários, conferências e aulas sobre informação gráfica e também em conversas pessoais com técnicos de informação gráfica ao longo dos últimos anos, verifiquei que existe um notório desconcerto na matéria. Não há praticamente duas opiniões coincidentes sobre a identidade do tra- balho informativo iconográfico: para uns é um novo gênero, para outros é mera ilustração, embelezamento das páginas de um jornal, ou cartografia de urgência (PELTZER, 1991, p. 11).
25 “Infoperiodismo es a infografía en general lo que teleperiodismo es a televisión o fotoperiodismo
a fotografía. Pero se trata de algo más. Subraya el sentido periodístico o informativo del género frente a la generalidade y la confusión; no toda televisión ni toda la fotografía son periodísticas. […] La base del infoperiodismo es la infografía, pero no se queda ahí, pues implica una manera de tra- bajar que potencia este renacido género visual impreso, con la ayuda de periodistas provistos de la suficiente cultura visual para saber en cada momento qué es lo más infográficamente conveniente.”
76 Infografia e Jornalismo: conceitos, análises e perspectivas
Partindo desta e de outras premissas explicitadas ao longo de seu livro, o pesquisador argentino defende que o que chama de informação visual não é um gênero informativo. Para ele, “trata-se de uma linguagem com todas as características modernas que actualmente enformam uma linguagem jor- nalística e a essa linguagem informativa pode chamar-se Jornalismo Icono- gráfico” (PELTZER, 1991, p. 27). Na sequência, ele vai definir os infográficos como um dos sete grupos de códigos visuais ou gêneros desta linguagem, isto é, do jornalismo iconográfico, ao lado de mapas, gráficos, símbolos, ilustra- ções, comics e iconografia animada.
Em 2009, em texto publicado na coletânea Mostra Nacional de Infografia, organizada por Mario Kanno, Alberto Cairo, após elogiar o estado da arte da infografia no Brasil, defendeu:
Tem uma frase que meus amigos brasileiros sabem que adoro repetir: a infografia não é arte; a infografia é um ramo do jornalismo que usa a arte, tomando emprestadas ferramentas do design gráfico, da ilustração, da cartografia, da estatística e de muitas outras disciplinas. Pois o objetivo central da infografia não é fazer as páginas ou os sites mais atrativos. É co- municar informação de um jeito confiável e bem contrastado. A infografia não pode se definir pelas técnicas envolvidas na sua elaboração, mas pelas suas regras e pelos objetivos que persegue. Eles devem ser os mesmos que qualquer outra área do jornalismo: rigor, precisão, seriedade. E ética tam- bém (CAIRO, 2009, p. 5).
Cairo alerta para a necessidade de que, por ser jornalismo e não mera ilustração, cada elemento de uma infografia deva seguir os mesmos princí- pios éticos e deontológicos inerentes à prática jornalística onde o compro- misso com a realidade deveria ser inegociável.
[...] inventar, em jornalismo, é motivo de demissão imediata. Por que, en- tão, é tão comum a ficcionalização em infografia? Porque, em muitas re- dações, o gráfico não é considerado jornalismo: é considerado “arte”. Algo que tem de ser lindo, antes que preciso e rigoroso (CAIRO, 2009, p. 5).
77 O infográfico e o jornalismo informativo
Como pode ser visto no capítulo anterior, também compreendemos que o infográfico pode ser uma modalidade jornalística, mas defendemos que sem- pre que usado na imprensa ele deve ter um compromisso com a veracidade das informações explicitadas. Neste sentido, entendemos que mesmo aquelas de caráter enciclopédico costumam cumprir uma função no produto jorna- lístico que não pode ser menosprezada ou esquecida em nome da estética ou de qualquer outro argumento similar. Por isso, defendemos que é contrapro- ducente negligenciar o ensino da infografia nos cursos de jornalismo. Ainda que admitamos que se trata de um trabalho interdisciplinar – o que pode ser comprovado na análise dos quadros das redações jornalísticas dos maiores veículos do Brasil – não há o que justifique a sua ausência nos currículos escolares como disciplina específica, própria, que precisa ser entendida em toda a sua complexidade, algo que passa por aquilo que Cairo aborda quando chama a atenção da necessidade de que cada elemento seja correspondente à realidade do fenômeno em pauta.
Não acreditamos que a infografia deva ser vista como um gênero à parte. Adotamos há algum tempo a perspectiva de Gomis (1991) que defende que o jornalismo pode ser compreendido a partir de dois gêneros: o informativo e o opinativo. Cremos que esta divisão pode ser usada não apenas no jorna- lismo impresso e propomos que, a depender do suporte, o que mudam são os formatos/tipos, não os gêneros e subgêneros, em si, exceto nos casos nos quais eles não se aplicam (p. ex., no rádio tradicional nunca haverá infogra- fia, por motivos óbvios). Temos, deste modo, adotado a seguinte estrutura organizativa dos gêneros jornalísticos – em especial o informativo, que nos interessa aqui mais diretamente:
Gênero Opinativo
Gênero Informativo
Subgêneros/modalidades ou espécies Notícia Reportagem Entrevista Perfil Infográfico
78 Infografia e Jornalismo: conceitos, análises e perspectivas
Assim o infográfico é relevante para a construção da narrativa jornalís- tica característica do gênero informativo como outras modalidades clássicas que conhecemos. E, se é assim, deveria estar presente no currículo dos cursos de Jornalismo do mesmo modo que as demais modalidades aqui citadas. Nos- sa provocação vai no seguinte sentido: se é inadmissível formar um jornalista que não saiba produzir uma notícia por que é aceitável que ele não saiba quase nada sobre infografia?