Capítulo 2. A FALÊNCIA EMPRESARIAL
2.6. A informação financeira e o risco de falência
Como vimos no ponto anterior, no processo de declínio e degradação da situação económico-financeira da empresa, esta começa a evidenciar sintomas que a colocam em risco de falência. Esses sintomas são detectados quer ao nível interno, manifestados no processo de elaboração do relato financeiro, quer ao nível externo a quando da auditoria ao relato financeiro. Neste ponto procura-se revelar de que forma a informação financeira deve reflectir o risco de falência em que a empresa se encontra.
Manifestação do risco de falência na contabilidade
Com o objectivo de obter uma imagem verdadeira e apropriada da situação financeira e dos resultados da empresa, o normativo contabilístico português estabelece os seguintes princípios contabilísticos geralmente aceites: a) da continuidade; b) da consistência; c) da especialização (ou do acréscimo); d) do custo histórico ; e) da prudência e f) da substância sobre a forma (POC, ponto 4.).
A aplicação do princípio da prudência significa que é possível integrar nas contas um grau de precaução ao fazer estimativas exigidas em condições de incerteza sem, contudo, permitir a criação de reservas ocultas ou provisões excessivas ou deliberada quantificação de activos e proveitos por defeito ou de passivos e custos por excesso.
Os utilizadores da informação contabilística pretendem que esta reflicta a incerteza e o risco, que os empresários assumem ao realizar os seus negócios, bem como a extensão e as possíveis consequências dos riscos assumidos, de forma clara e o quanto antes
possível. Pois o controlo financeiro só será efectivo se se detectar os problemas com suficiente antecipação.
Segundo Kirkegaard(1997,139) « o princípio da prudência resulta num adiar
sistemático do registo nas demonstrações financeiras dos proveitos e ganhos que ainda não são certos. Resultando numa sistemática distorção das demonstrações financeiras». Este adiar sistemático de registar nas demonstrações financeiras,
informação vital para a sobrevivência da empresa, que traduza a real solvabilidade da empresa, conduz ao que aquele autor designa por ‘dogma da imprudência’. Em épocas de prosperidade a empresa apresenta resultados inferiores aos que deveria apresentar, e posteriormente em épocas de recessão, de repente e inesperadamente a empresa tornar- se insolvente, sem tirar proveito de reservas acumuladas em anos de posperidade.
Para Kirkegaard(1997) a aplicação do princípio da prudência faz com que as demonstrações financeiras nunca forneçam aos seus leitores qualquer ideia de que a empresa em que investiram ou a quem concederam crédito poderá estar em sérias dificuldades. Daí que a avaliação do risco de falência passa por determinar outras relações de causa efeito que possam apurar as características de uma empresa em risco de falência. Sabendo da relação entre solvabilidade e risco de falência, «as
demonstrações financeiras que regularmente apresentam o valor exacto da solvabilidade da empresa são as mesmas demonstrações financeiras que constantemente mostram o risco de falência calculado»[Kirkegaard (1997,149)].
Cabe então aos profissionais da contabilidade, como intervenientes que se apercebem precocemente das reais dificuldades financeiras da empresa, fazer reflectir nas demonstrações financeiras o risco de falência, ou anotando em anexo as devidas observações. Pois é fundamental que gestores e investidores saibam com a devida antecedência da real situação financeira da empresa. É neste contexto que a aplicação do princípio da prudência poderá estar desajustado da actual realidade dos negócios.
Manifestação do risco de falência na auditoria
A aplicação do princípio da continuidade pressupõe que a empresa opera continuadamente, com duração ilimitada. Desta forma entende-se que a empresa não tem intenção nem necessidade de entrar em liquidação ou reduzir significativamente o volume das operações.
Quando se assume o princípio da continuidade como um pressuposto, postulado básico em que se fundamenta a teoria da contabilidade, pressupõem-se que a maioria da unidades económicas pretendem operar indefinidamente. Pelo que o pressuposto da continuidade só deve ser abandonado quando seja certo o fim da actividade.
O objectivo da auditoria das demonstrações financeiras, preparadas dentro de um esquema de políticas contabilísticas, é habilitar o auditor a expressar a sua opinião sobre tais demonstrações financeiras. Na medida em que a opinião do auditor contribui para dar credibilidade às demonstrações financeiras, a aplicação do princípio da continuidade, pressupõe uma tomada de consciência do risco de falência, na consideração da evolução previsível da empresa e da avaliação das perspectivas futuras. Aliás a norma n.º 570 do IFAC impõe aos auditores a responsabilidade da avaliação da continuidade da actividade empresarial quando face a determinada evidência informativa considerem que existem dúvidas razoáveis quanto à continuidade da empresa.
São os indícios de natureza financeira que, os mais proeminentes organismos internacionais reguladores da actividade de auditoria, designadamente o IFAC e a AICPA estabelecem como principais indicadores que põem em causa a continuidade da empresa.
Face à incerteza induzida pelo risco do negócio7 a aplicação do princípio da
continuidade deverá ser visto, a quando da avaliação do risco de falência, como uma
7 Este pode advir da instabilidade da procura, volatilidade do preço, volatilidade dos custos dos factores,
previsão e não como um pressuposto. Esta afirmação é sublinhada por Chen e
Church(1996) quando argumenta que a opinião do auditor quanto à continuidade da
empresa é de utilidade relevante, e fornece algum poder explanatório na previsão da falência empresarial, reduzindo a surpresa quanto à ocorrência de tal evento.
Os modelos de previsão da falência empresarial, como meio de avaliação do risco de falência, assumem-se como um importante instrumento para equacionar os problemas da continuidade da empresa. Funcionam como sinais de alerta e desempenham um papel importante na diminuição do risco de opinião do auditor.