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2 O DIREITO E SUA INEFICIÊNCIA FRENTE À PSICOPATIA

2.1 A inimputabilidade e as medidas de segurança

Existem muitas formas de se estudar os saberes da humanidade, sendo, talvez, a mais detalhada e meticulosa delas, à análise de obras literárias, eis que retratam às características e as sapiências das épocas nas quais foram produzidas. Em 1605 (ano), na Espanha, Miguel Cervantes (1547 - 1616) publicou sua ilustre obra intitulada de “Dom Quixote de la Mancha”; em meados dos anos de 1600 (ano), na Inglaterra, William Shakespeare (1564 – 1616) publicou a notável peça batizada de “The Tragedie of Hamlet, Prince of Denmarke”; em 1882 (ano), no Brasil, Machado de Assis (1839 – 1908) publicou seu livro hilário denominado de “O Alienista”.

Todas as obras acima mencionadas, indiscutivelmente, foram elaboradas por alguns dos maiores escritores da literatura, os quais conseguiram como poucos, retratar as razões e as emoções de seus textos, mediante o emprego de um vocabulário arrojado e minuciosamente utilizado, ainda que em tempos diferentes, realidades distintas, escolas desiguais e com gêneros textuais próprios. No entanto, além da notável capacidade linguística das produções mencionadas, há particularidades que as conectam e se evidenciam como subsídios basilares de suas tramas. Quer nas desventuras de Dom Quixote, quer no ser ou não ser (eis a questão)

de Hamlet, quer na obsessão do Dr. Simão Bacamarte, o imperativo da loucura restou evidente, motivando as mortes e assassinatos que resultaram em desfechos trágicos para as narrativas.

Portanto, verifica-se que até mesmo a literatura em suas distintas aparições, identificou à loucura como elemento crucial na relação entre o homem e seus desvios comportamentais, restando necessário que o Estado no uso de sua função como gestor social, criasse e aplicasse mecanismos e políticas sociais para laborar às vidas, às condutas e os frutos da insanidade.

Então, com a finalidade de adentrar com maior sapiência no estudo relativo aos efeitos da loucura no sistema judiciário e no direito penal, verifica-se a essencialidade de abordar algumas perspectivas distintas acerca do tema. Inicialmente, será fundamental compreender como o Estado manuseou o emprego da pena para controlar os comportamentos sociais. Sendo assim será apresentada uma breve análise sobre a pena e seus efeitos. Essa ótica encontra seu nexo num panorama genérico. Segundamente, ocorrerá a demonstração dos mecanismos criados nas políticas criminais brasileiras, por meio da apresentação das legislações que abordaram as doenças mentais e as insanidades do homem, dispondo os modos e os meios de operação para com às vidas insanas e os comportamentos destrutivos que são frutos da sua existência. Nessa abordagem, evidencia-se o prisma especifico do direito penal brasileiro.

Relativamente aos pontos pertinentes de análise sobre a pena e sua função perante o coletivo social, torna-se fundamental conceituar a terminologia, verificar sua função e seus resultados almejados quando de sua imposição, desse modo, salienta-se os entendimentos do Doutrinar e Doutor em Direito Penal pela Universidade de Sevilha, Espanha, Cezar Roberto Bitencourt.

No tocante ao emprego da pena pelo Estado gestor social, bem como acerca da relação entre esses, destaca o supracitado autor:

Convém registrar que a uma concepção de Estado corresponde uma de pena, e a esta, uma culpabilidade. Destaque-se a utilização que o Estado faz do Direito Penal, isto é, da pena, para facilitar e regulamentar a convivência dos homens em sociedade. Apesar de existirem outras formas de controle social –algumas mais sutis e difíceis de limitar que o próprio Direito Penal, o Estado utiliza a pena para proteger de eventuais lesões a determinados bens jurídicos, assim considerados, em sua organização socioeconômica específica. (BITENCOURT, 2015, p. 130, grifo nosso)

Essas políticas descritas por Cezar Roberto Bitencourt, fundam-se na operação do Direito Penal como condão oportunizador do sumo controle social, pois é mediante essa atividade, que os regimes captavam todas as deliberações nauseabundas e aos seus causadores aplicava uma punição. Revela-se, nessa condição, o caráter punitivo da aplicação da pena.

Além dessa qualidade, a pena demanda de uma definição, a qual pode ser obtida ao adentrarmos no ordenamento jurídico brasileiro, por meio do Decreto de Lei nº 2.848, que foi assinado pelo então Presidente brasileiro Getúlio Vargas, em 07 de dezembro de 1940. Nesse diapasão, a referida legislação, em seu artigo 59, prevê que o Estado, por intermédio do Juiz de Direito, considerando as circunstancias do crime e de seu agente, aplicará uma sanção penal, que será responsável por reprovar o fato delitivo e prevenir futuras transgressões. Conquanto, a punição demanda também de uma alusão quanto sua funcionalidade, haja vista que no momento da punição de um individuo por fato maléfico a vida em coletividade e danoso a algum bem jurídico tutelado, o Estado visa produzir um resultado, o qual está consagrado dentro de algumas teorias elementares da pena, sendo elas às retributivas ou absolutas e às preventivas ou relativas.

Por conseguinte, torna-se admissível uma elucidação relativa a teorias absolutas/retributivas. É possível reconhecer às teorias absolutas como sendo as práticas punitivas mais arcaicas da história do homem. Os procedimentos são vislumbrados desde os prelúdios das práticas punitivas estatais, inclusive, até mesmo, coexistindo com as origens do próprio Estado.

Nesse sentido, a pena inerente às práticas absolutistas, possuía um cunho vingativo, eis que se pautava na reprodução de um mau, visando castigar o delinquente, puni-lo pela sua conduta delitiva, realizando a prática que fosse necessária para equilibrar a balança da justiça moral. Assim, a pena era idealizada objetivando ceifar episódio pregresso. Também, acentua- se para a explicação de Cezar Roberto Bitencourt (2015, p. 33, grifo nosso):

a característica essencial das teorias absolutas consiste em conceber a pena como um mal, um castigo, como retribuição ao mal causado através do delito, de modo que sua imposição estaria justificada, não como meio para o alcance de fins futuros, mas pelo valor axiológico intrínseco de punir o fato passado: quia peccatum. Por isso também são conhecidas como teorias retributivas.

Consoante às ponderações realizadas, vale-se a importância de se retratar como eram as organizações sociais da época na qual foram concebidas às teorias retributivas, eis que desde a aurora da vida coletiva, as compreensões morais, éticas, religiosas e os costumes dos meios, eram os preceitos básicos de qualquer raciocínio comportamental. Em vista disso e relativamente ao ponto em destaque, cita-se o seguinte comentário:

As características mais significativas do Estado absolutista eram a identidade entre o soberano e o Estado, a unidade moral e o Direito, entre o Estado e a Religião, além da metafisica afirmação de que o poder do soberano era-lhe concedido diretamente por Deus. A teoria do Direito divino pertence a um período em que não somente a religião, mas também a teologia e a política confundiram-se entre si. (BITENCOURT, 2015, p. 133, grifo nosso)

Outrossim, com a finalidade de encerrar às abordagens acerca da teoria absolutista, frisa-se seus principais fundadores e defensores, como sendo o filósofo prussiano Immanuel Kant (1724 – 1804), por intermédio de sua obra intitulada de “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, lançada em 1785; e o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), através do livro “Princípios da Filosofia do Direito”, publicado em 1820. Apesar da grande concordância de fundamento que existe entre ambos os autores, haviam algumas oposições entre suas lógicas, segundo o que Cezar Roberto Bitencourt aponta (2015, p. 133, grifo nosso):

é notória uma particular diferença entre uma e outra formulação: enquanto em Kant a justificação da pena é de ordem ética, com base no valor moral da lei pena infringida pelo autor culpável do delito, em Hegel é de ordem jurídica, com base na necessidade de reparar o direito através de um mal que restabeleça a norma legal violada.

Por outro lado, consequentemente as evoluções das organizações políticas e sociais que sucederam as composições absolutistas, bem como depois do distanciamento dos preceitos religiosos, afloraram às teorias relativas ou preventivas da pena, as quais foram criadas e sustentadas mediante as filosofias do inglês Jeremy Bentham (1748 – 1832), do italiano Cesare Beccaria (1738 – 1794) e do alemão Arthur Schopenhauer (1788 – 1860).

As teorias relativas e preventivas eram caracterizadas por sua funcionalidade em penalizar os delinquentes, pelos seus atos praticados e objetivando prevenir futuras condutas

criminosas, desse modo a pena não era um fim em si mesma, mas um meio de se atingir a finalidade de liquidação dos crimes.

Para as teorias relativas a pena se justifica, não para retribuir o fato delitivo cometido, mas, sim, para prevenir a sua prática. Se o castigo ao autor do delito se impõe, segundo a lógica das teorias absolutas, somente porque delinquiu, nas teorias relativas a pena se impõe para que não volte a delinquir. Ou seja, a pena deixa de ser concebida como um fim em si mesmo, sua justificação deixa de estar baseada em fato passado, e passa a ser concebida como meio para o alcance de fins futuros e a estar justificada pela sua necessidade: a prevenção de delitos. (BITENCOURT, 2015, p. 142, grifo nosso)

Nas teorias apresentadas, bem como em todas as práticas punitivas dos Estados no decorrer da história, havia previsões como à pena de morte e a prisão perpetua, exemplos da aniquilação da vida indesejada; e as penas contra a liberdade do homem, as quais visavam sua recuperação moral e a reforma de sua dignidade perante a sociedade. Naturalmente, quaisquer que fossem os meios sancionatórios aplicados pelo “carrasco” estatal, deduzia-se que o mesmo retinha como parâmetro o imperativo da racionalidade do homem, o que significaria que o delinquente goza de capacidade mental suficiente para reconhecer a irregularidade de sua conduta criminosa. Desse modo, o criminoso admite a antijuricidade do ato e, apesar disso, escolhe praticá-lo.

No tocante ao Estado, reitera-se que durante a análise do episodio delitivo e sua respectiva penalização, o responsável por tais procedimentos, pressupõe, muitas vezes, subjetivamente, que o delinquente reconhecia o caráter transgressor de sua ação e, portanto, avocaria a responsabilidade por fazê-lo. No entanto, ocorre que nem sempre a racionalidade esteve presente quando da atividade criminal e, após todo o processo da evolução dos preceitos acerca da loucura e do homem louco, tardiamente reconhecidos, as políticas estatais deliberaram de modo a valorar, especificadamente, às idiossincrasias dos indivíduos insanos e seus comportamentos.

Acontece que, num processo trivial como os precoces entendimentos acerca da racionalidade do “ser” malfeitor, bem como da irracionalidade dos “ser” da insanidade, perpassa-se uma política sustentada e elaborada de acordo com crenças, saberes e discursos construídos se fundando num senso comum generalizado e perpetuado no tempo. Salientam-

se, acerca dessas ponderações, os entendimentos do sociólogo francês, Pierre Félix Bourdieu (1930 – 2002):

[...] compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não- motivado os actos dos produtores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir. (Apud PAVEZI, 2009, p. 06)

Então, ainda que, paulatinamente, as políticas criminais se desenvolveram, pretendendo evoluir e amplificar seus métodos de controle dos resultados das exteriorizações da loucura no homem, seus propósitos esmoreceram ao insucesso, galgando outra vez para o senso comum. Ocasionando, na construção dos sistemas e políticas que se encontram atualmente em operação.

Em função disso, que a presente dissertação sinaliza para essencialidade da exposição das políticas criminais brasileiras, que visaram laborar as vidas insanas, as quais são mais suscetíveis a exteriorização dos desejos mais impetuosos do “ser”, significando o banimento da razão do homem, talvez, principal qualidade responsável por diferencia-lo de outra espécie. Nesse sentido, verifica-se que durante alguns séculos, alguns códigos normativos nacionais se indagaram e suscitaram questões pertinentes às circunstâncias e problemas apresentados até este momento da monografia, enfatizando-se, como exemplos, às compilações normativas criminais de 1830, famigerado Código Criminal Imperial, sancionado por Dom Pedro I; bem como o primeiro Código Penal dos Estados Unidos do Brasil, após a proclamação da república, no ano de 1890.

Deste modo, os reflexos das arguições abstratas das legislações supramencionadas encontram-se no atual Código Penal, decretado em 1940, pelo então Presidente Getulio Vargas, no qual discorreu acerca dos efeitos da loucura quando expressa num ato criminoso. Assim, o referido documento nomeou como “doente mental”, aquele energúmeno pela insanidade, bem como, finalmente, ao menos relativamente ao cenário nacional, ocorreu o tão aguardado e necessário reconhecimento da loucura, também, como de sua capacidade de perturbar a organização social.

Tendo em vista que, havendo a identificação da potencialidade do “doente mental”, em inferir na vida harmônica em sociedade, quando pratica alguma ação criminosa, o código

previu, então, a sua responsabilização, porém apontou que essa deveria ser atenuada em hipóteses nas quais o sujeito admitisse conhecer a ilegalidade de sua conduta; ou ser substituída sua punição, pela execução de “medidas de segurança”, quando era incapaz de compreender as implicações de seu comportamento.

Há de se destacar, que a loucura como um todo, restou evidenciada, principalmente no âmbito da história de sua construção, como sendo a expressão da emoção sobre a razão, não existindo meios de que o homem louco, soube-se do caráter danoso de suas condutas. Outrossim, acerca das políticas previstas no Código Penal, cita-se a elucidação do artigo 26, segundo Rafael de Tilio (2007, p. 202, grifo nosso):

O código penal em seu artigo 26 divide a imputabilidade (entendimento da ação, suas consequências e expiação da culpa) em três categorias, como imputaveis os que compreendem a conduta antijurídica agindo de maneira consciente e passíveis de pena de detenção, inimputáveis os que não sabem da gravidade e das consequências do ato cometido e passíveis de medida de segurança, e os semi-imputaveis que são os inimputaveis que cometeram o ato no chamado “intervalo lúcido” devendo cumprir penas diminuídas ou submetidos às medidas de segurança.

Nesse sentido, é pertinente para o desenvolvimento da problemática da ineficácia do sistema criminal brasileiro, atentar-se, essencialmente, aos indivíduos reconhecidos como inimputáveis e semi-inimputaveis, os quais representam a manifestação da insanidade e, portanto, recebem sanções diversas das tradicionais. Ocorre que, existe uma incoerência entre as pretensões discursivas das políticas criminais e seus mecanismos de efetivação e resultados.

A pretensão punitiva do estado, expressa por intermédio da pena, de acordo com o elucidado no trecho destinado a elucida-la, demonstrou que seu objetivo está vinculado aos propósitos retributivos, quando visa se utilizar de uma conduta nefasta para retaliar o criminoso, bem como a um designo preventivo, quando busca responsabilizar e recuperar o delinquente. Essas premissas estão desvinculadas com as práticas e efeitos das medidas de seguranças, as quais apenas retiram do meio social o “ser” da insanidade, ora, intitulado de “inimputável”.

O conjunto normativo penal brasileiro compreende o doente mental por suposição, como inimputável, reconhecendo sua capacidade defasada por inconsistências patológicas. Entretanto, restou confuso ao escolher como irá laborar acerca das condutas criminosas do

doente, pois reconhece o caráter criminoso do fato produzido pelo insano, mas não lhe aplica uma pena tradicional, com lógica teórica, eis que desvincula dele a responsabilidade pela prática e lhe impõe uma seletiva exclusão social. Á medida de segurança tem natureza segregacionista, porque, apesar de não ser por essência uma punição, visto que não se atrela as teorias da pena, é em si própria, um castigo ao homem.

Consequentemente, verifica-se que o Estado no momento de elaboração do instrumento legal, não possuía interesse em solucionar o problema apresentado, até por desconhecer como fazê-lo, visando, apenas, apurar se poderia ou não tradicionalmente sancionar o homem ou teria que nega-lo perante a sociedade, o excluindo dela. Alias, acerca dessa compreensão, destaca-se o seguinte trecho:

A justiça não estava preocupada com a doença mental do indivíduo (esta era atribuição do campo médico), mas sim saber se no momento da ação ele estava lúcido ou não para definir como deveria ser imposta a atribuição de responsabilidade, isto é, pena repressiva ou medida de segurança. (TILIO, 2007, p. 202, grifo nosso)

Ou seja, o Código Penal de 1940, que permanece vigente, jamais pretendeu cuidar das vidas insanas, que fosse buscando recupera-la ou trata-la, somente discutiu sobre sua capacidade em ser culpável. Por outro lado, as políticas criminais possuíam, igualmente, a finalidade simbólica de entregar ao povo uma sensação de segurança, bem como sabendo que não poderia atingi-la pelas vias tradicionais, mesmo sendo notável a periculosidade do louco, buscou retira-lo da sociedade como meio de “prevenção social”.

Tal prevenção social ocorreria por intermédio da aplicação da medida de segurança, a qual pode ser compreendida, de acordo com Alessandra Mascarenhas Prado e Danilo Schindler (2017, p. 629) como “a intervenção estatal na liberdade do indivíduo inimputável em razão de doença mental, que cometeu fato típico e antijurídico, à qual se atribui a função de tratamento, visando preservar a sociedade do perigo que o indivíduo representa”. O amparo legal deste método, está no artigo 97 do Código Penal (BRASIL, 1940), que elucida o seguinte: “Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial.”.

Tanto a prevista internação, quando do inimputável, quanto do tratamento ambulatorial, enquanto semi-imputável, seriam realizadas em conhecidos e horripilantes

manicômios, para onde eram destinados os oligofrênicos, os peiléticos, os esquizofrênicos, psicóticos, psicose maníaco-depressivo, depressivos, paranoicos, demais personalidades indesejadas naquela ambição pela comunidade ideal (TILIO, 2007, p. 203). Isto é, quaisquer indivíduos irracionais, equivaleriam a loucos, em praticando atos delitivos, por consequência na inimputabilidade.

Todavia, essa realidade se alterou com o advento da Lei nº 10.216/2001, intitulada de Lei da Reforma Psiquiátrica, onde se estabeleceu a segurança e os direitos dos doentes mentais, alterando as práticas que pregressamente eram efetuadas em manicômios. Tal ordenamento jurídico, na verdade, foi fruto de movimentos internacionais de encontro as práticas psiquiátricas nutridas durante a história do Ocidente, como por exemplo: a Declaração de Caracas, em 1990, impactando na América Latina e no Caribe, decorrente da Conferencia Regional para Reestruturação da Assistência Psiquiátrica, que dispõe sobre os serviços prestados nesses ambientes (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 1990).

No entanto, relativamente aos movimentos internacionais e nacionais expostos acima, salientam Alessandra Mascarenhas Prado e Danilo Schindler (2017, p. 630, grifo nosso) que:

Como contraponto ao modelo que tem como centro a internação em Hospital Psiquiátrico, a reforma psiquiátrica, movimento que tomou força a partir da década de 1970 no Brasil e culminou com a promulgação da Lei nº 10.216/2001, trouxe inovações no que diz respeito à política pública de saúde mental que deve ser adotada em todo o país. A Lei da reforma Psiquiátrica estabelece como regra, no que concerne à forma de tratamento, o atendimento em liberdade e a utilização de recursos extra-hospitalares (art. 4º); além disso, o art. 6º dispõe: “a internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos.

Desse modo, os procedimentos médicos previstos para serem aplicados nos hospitais psiquiátricos, num ambiente nosocômio, restrito e ambulatorial, passariam a serem praticados mediante a participação do sujeito que receberia os tratamentos e procedimentos terapêuticos, porém estando em liberdade e facultando seu envolvimento. Ou seja, visou destinar ao próprio louco e aos seus próximos, o anseio em ceifar a loucura, intrínseca ao “ser” do próprio louco. O contraditório e a dubiedade de rumos que tais políticas estatais estabelecidas na reforma do meio clínico, em que pese as inabaláveis disposições penais que antevieram as

reconfigurações e subsistem iguais até hoje, acarretaram em uma divergência que, basicamente, sacramentou a falha do processo punitivo. Em relação aos apontamentos realizados, cita-se:

As bases da reforma psiquiátrica representam a negação do quanto disposto na legislação penal. Enquanto a medida de segurança é utilizada, em regra, na modalidade de internação, no intuito de tratar e retribuir condutas

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