CAPÍTULO 4 Alagoas: um lugar de negócios
4.1. A inserção de Alagoas nos negócios de escravos
Alagoas era uma pequena província do Nordeste do Brasil. Ocupada pela colonização portuguesa desde o século XVII, foi, até 1817, parte da capitania de Pernambuco. Nos tempos coloniais, eram três as principais vilas: Penedo, Alagoas (Santa Maria Madalena) e Porto Calvo. Com a emancipação, a cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro) passou a ser capital, mas nos anos vindouros, o crescimento político-econômico da vizinha Maceió e, principalmente, do Porto de Jaraguá, levaram a que uma elite política regional defendesse a mudança da capital para a nova cidade, o que ocorreu em 1839.211 A partir desse momento a cidade de Maceió conheceu um notório desenvolvimento urbano e econômico e consolidou-se como principal cidade da província.212
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Barros, Theodyr Augusto. O processo de mudança de capital ( Alagoas-Maceió) Maceió Departamento de História/CHLA/Ufal/impresso universitária, 1991.
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Uma boa síntese sobre o desenvolvimento urbano de Maceió no século XIX pode ser encontrado em: MARQUES, Danilo Luiz. Escravidão. Sobreviver e resistir: os caminhos para a liberdade de africanas livres e escravas em Maceió (1849-1888). Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013, capítulo 1.
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Ilustração 2 - Localização de Penedo e Maceió em relação às principais cidades litorâneas.
Enquanto Maceió assumia uma posição política e econômica de destaque, a Cidade do Penedo, que havia sido próspera nos tempos da América Portuguesa, mantinha a dinâmica comercial que caracterizou sua formação histórica. A antiguidade da ocupação refletia em sua expressiva população. Em 1828, Penedo era mais populosa que Maceió.213 Apenas na década de 1850, Maceió chegaria um patamar populacional semelhante.214 O tempo levaria a que a capital superasse a cidade ribeirinha, mas em 1872, Penedo continuava sendo mais populosa215 e até o fim do Império, ambas mantiveram-se como os dois pólos urbanos da província, 216 cada uma com sua área de influência delimitada.
Eram os portos das duas cidades que garantiam suas dinâmicas econômicas e urbanas. A configuração geopolítica da província após a elevação de Maceió à capital levou-a a se tornar o principal centro econômico da região sucro-canavieira da Zona da Mata, abrangendo em sua área de influência as antigas vilas de Porto Calvo e Alagoas. Maceió concentrava a exportação da principal região de produção de açúcar da província, e também de parte da
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Este parágrafo deteve-se à população das freguesias de Maceió e Penedo, assumindo apenas a freguesia de Jaraguá como parte de Maceió, visto que havia contiguidade entre as duas. As freguesias de Ipioca e Piaçabussu, que mantinham uma dinâmica próxima àquelas, mas não apresentavam continuidade na ocupação da área central, não foram consideradas. DUARTE, Abelardo. Notas sobre a população da Vila do Penedo (1828). Jornal de Alagoas - Suplemento. Maceió: 26.07.1953.
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Segundo relatório presidencial de 1857, a Freguesia do Penedo possuía 15.419 almas antes da epidemia de cólera de 1856 (quando morreram 3.100) e a de Maceió 12.630 (tendo perdido 700 almas na epidemia). Falla do Presidente da Província de Alagoas, Dr. Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, 1857, p.6.
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Pelo recenseamento de 1872, a Freguesia de Nossa Senhora do Rosário do Penedo somava 17.838 habitantes e a de Nossa Senhora dos Prazeres de Maceió, 12.619. À freguesia de Maceió, poderia se somar a população da Freguesia de Nossa Senhora Mãe do Povo de Jaraguá, contigua àquela, abrangendo a região portuária, com 3.671, totalizando 16.290. É importante notar que elas não eram as freguesias mais populosas da província, sendo que Assembléia, Atalaia e Passo do Camaragibe superavam-nas em população. Mas estes dados incluem a população de grandes espaços geográficos, onde a maioria da população era concentrada nos núcleos de produção rural. Pela impossibilidade de se determinar a população que vivia efetivamente na cidade, é difícil saber exatamente quando o espaço urbano de Maceió superou em população Penedo. BRAZIL, Império do. Recenseamento Geral do Império do. 1872.
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120 produção algodoeira do agreste. O movimento inverso ocorria com os bens de consumo, que entravam pelo porto da capital e dali seguiam para o interior.217
Penedo embora fosse um porto fluvial possuía franca ligação com o Oceano Atlântico, tornando viável sua inserção no comércio de cabotagem. As bases sócio-econômicas da cidade eram voltadas para o Rio São Francisco, e, a partir dele, para uma região pecuarista e algodoeira. O Baixo São Francisco, os sertões e parte do agreste, utilizavam o Porto do Penedo para comunicar-se com portos Atlânticos. O entreposto comercial também foi muito utilizado para escoar a produção de couro e algodão da região do Submédio São Francisco, especialmente da banda pernambucana, incluindo municípios como Tacaratu, Flores, Ouricuri e Floresta. E, apesar de haverem cidades ribeirinhas importantes na vizinha Sergipe, como Vila Nova (Neópolis) e Propriá, Penedo as superava em tamanho e em dinâmicas comerciais e assim também serviu aos interesses dos produtores dali.
De um modo geral, Maceió era o centro de uma região econômica de menor alcance territorial, mas de grande densidade populacional, enquanto Penedo mantinha relações com localidades muito mais distantes, mas cobrindo uma área de população dispersa. Juntas, polarizaram o comércio realizado pela província com as outras regiões do Império. A dinâmica comercial de Alagoas no Segundo Reinado foi caracterizada pela coexistência destes dois importantes pólos, cada qual com suas freguesias e seus circuitos próprios.
Baseadas no desenvolvimento do comércio e animadas por seus portos, nas duas cidades foram fundadas casas comerciais responsáveis por fazer a importação dos produtos de consumo - que crescia paralelamente à economia - e, principalmente, em organizar a exportação para o exterior e para outras províncias. A pauta de produtos não era muito extensa. Basicamente fundada sobre a produção agrícola, visto que a indústria foi muito incipiente no século XIX. Aparte algumas fabriquetas de óleo, charutos e sabão, a produção industrial na província praticamente começou com a criação da Araújo & Filhos em Penedo, que produzia óleos purificados (rícino, mamona, de nozes e de coco).218 Em 1857, iniciou-se a instalação da fábrica de tecidos União Mercantil, inaugurada em 1863 em Maceió.219 Os dois empreendimentos foram, praticamente, as únicas indústrias relevantes no Segundo Reinado. Coco, caruá, mel, arroz, lã barriguda, pedras de amolar e produtos do fumo tinham seu lugar
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Sobre as dinâmicas agrícolas e de ocupação do solo na Zona da Mata na segunda metade do século XIX, ver: ANDRADE, Juliana Alves de. Gente do Vale: experiências camponesas no interior da província de Alagoas (1870-1890). Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2014.
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Em 1850, a fábrica já estava instalada e exportava óleos para Pernambuco, Bahia, Sergipe e Rio Grande do Sul. Ver: Relatório do Presidente da Província de Alagoas, Dr. José Bento da Cunha Figueiredo, 1850, p. 37.
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121 na economia local e em certas conjunturas foram exportados.220 Mais regular foi a exportação de produtos pecuários, o couro e seus derivados (solas e meias solas, principalmente). Apesar de significativa, esta produção estava um passo atrás dos principais produtos de Alagoas, o açúcar de cana e o algodão. Em que pese a tradição construída sobre a cultura da cana, em vários momentos do século XIX a produção do algodão foi tão promissora quanto à produção da gramínea.221 Além dos produtos agrícolas, entre os anos 1850 e 1880, Maceió e Penedo estiveram intensamente envolvidas com o comércio interprovincial de escravos. Pelas duas cidades saíram praticamente 90% dos escravos legalmente exportados por Alagoas.
A existência, em uma província de pequenas dimensões territoriais, de duas cidades portuárias solidamente ligadas ao comércio de cabotagem nacional, cada qual com uma zona de influência própria, foi uma das características mais importantes da Alagoas Imperial. Apesar da forte estrutura agrária, o Segundo Reinado foi um momento em que as atividades comerciais tomaram grande fôlego. A existência de uma sólida classe de negociantes relativamente autônoma em relação aos grandes proprietários rurais foi fundamental para que o negócio interprovincial de escravos tornasse-se uma das principais atividades econômicas da província por cerca de 30 anos. Interessante que a historiografia e os historiadores fortemente ligados à cultura canavieira, praticamente silenciaram sobre o grupo capitalista de Alagoas Imperial. Exceto aqueles ligados diretamente aos engenhos, como o Barão de Jaraguá e Manoel Joaquim da Silva Leão, não encontrei referência a qualquer um dos importantes negociantes de Alagoas em toda a bibliografia consultada. De algum modo, essa classe capitalista foi legada à categoria de “homens esquecidos”, embora sua influência econômica e social não tenha sido pequena. Em grande medida, esse foco na sociedade do açúcar também ofuscou o papel de Penedo na história da província.