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CAPÍTULO III: Uma tentativa de convergência interdisciplinar: a compreensão da crise

III. 2 – A instabilidade nos bancos de investimento

100 especulação através da separação entre bancos comerciais e de investimento, fica clara a vitória neoclássica.

Esta discussão histórica é de grande interesse também pelo o que ela revela sobre a performatividade. Além de ser ferramental, a performatividade de modelos econômicos é fundamentalmente ideológica. Ademais, o apelo ideológico dos pressupostos neoclássicos podem ser explicados pela relação íntima que eles mantêm com a cultura ocidental, isto é, a incorporação de uma noção atomística de pessoa, de uma igualdade concorrencial (Luz &

Fracalanza, 2013) e da crença em um equilíbrio de longo prazo independente da ação no curto prazo (MÜLLER, 2006).

101 remuneração10, relegando os salários a uma função de garantir a sobrevivência.

Aliado a isto existe uma ética de trabalho que valoriza o sacrifício, o

“trabalho duro”, como colocado pela autora. É comum o orgulho pelo “trabalho duro”, por trabalhar 120 horas em uma semana, não dormir duas noites seguidas, já que este trabalho duro não é um trabalho duro qualquer. É um trabalho altamente qualificado, que só pode ser realizado por pessoas altamente capazes e inteligentes, como demonstra o histórico escolar de quase todos os trabalhadores, além de dispostas a “darem duro” (Ibidem). Desta forma, o trabalho em Wall Street carrega um tom elitista, já que trabalham ali apenas os mais “espertos11”, os mais eficientes, os “melhores dos melhores”.

Juntamente com esta estrutura compensatória, aliada a um senso de superioridade que o trabalho em Wall Street carrega, é marcante do trabalho em bancos de investimento a alta rotatividade de seus funcionários, a insegurança e a falta de estabilidade no emprego. Ao contrário do que afirma Müller (2006), isto é, que a demanda por trabalho no mercado financeiro é pró-cíclica, Ho argumenta que a instabilidade no emprego é uma constante para quem trabalha em Wall Street. Ela é expressão direta da volatilidade do mercado, que o mercado financeiro deseja acompanhar, variando com as respostas dadas a ele. Quando, por exemplo, se desenvolve um novo instrumento financeiro toda uma nova seção é organizada para trabalhar com ele, demandando muitos novos funcionários, recém-graduados de Princeton ou Harvard ou de MBAs em instituições respeitadas como o MIT, além de ex-funcionários de outros bancos, vítimas da última onda de demissões. Quando, por sua vez, uma operação se torna obsoleta ou o banco quer preservar seu bônus e a cotação de suas ações, caso o ano não tenha sido muito lucrativo, seções inteiras são dispensadas. Esta instabilidade, no entanto, não é encarada com desespero por parte dos funcionários demitidos, já que

10 Esta transformação das comissões em fonte principal de renda, pelo menos quando estas são muito altas, gera nos sujeitos um comportamento de consumo frívolo e sem planejamentos de longo prazo (Ho, 2009), um dos reflexos da instabilidade penetrante da cultura de Wall Street.

11 Ser esperto em Wall Street é uma categoria que engloba tanto ter feito o curso superior em uma universidade de excelência, como Harvard e Princeton, quanto a capacidade de suportar a pressão do trabalho maçante, além do carisma necessário para cativar clientes e chefes.

102 rapidamente são reabsorvidos por outros bancos, expressando a volatilidade natural do mercado, a qual devem adaptar suas vidas (líquidas).

Neste sentido, trabalhadores de Wall Street precisam acreditar na nobreza de seu trabalho, na sua conexão com um mercado inerentemente volátil, que os caracteriza como parte de uma elite intelectual capaz de acompanhá-lo e de entendê-lo. Os bancos de investimento, frente às forças do mercado, não têm como objetivo controlá-las, mas antes de tudo expressá-las e deixar que o tão esperado equilíbrio de longo prazo conceda prosperidade a todos que a merecerem (Ibidem). A consolidação de Wall Street como uma elite intelectual representante do próprio mercado, este ente abstrato, promotor da prosperidade e do bem-estar de acordo com a teoria neoclássica, legitimou o seu papel de guardiã do shareholder value e de instituição mais qualificada para gerir as empresas americanas, cujo objetivo último tinha se tornado a geração de valor para seus acionistas. Desta forma, o modelo de trabalho e de gestão dos bancos de investimento foram gradativamente adotadas pelas empresas que haviam tornado líquidas, alastrando a volatilidade e a instabilidade, principalmente empregatícia, por toda a economia.

É possível, assim, identificar a estratégia adotada pelo mercado financeiro. Esta estratégia é, no mínimo, excêntrica, já que consiste na total ausência de diretrizes de longo prazo (strategy of no strategy), já que as decisões imediatas são sempre determinadas pela condição do mercado (Ibidem). O trabalho é sempre condicionado pela última operação a ser realizada, já que a renda dos bancos é fundamentalmente determinada pelo volume dos negócios que conseguem fechar. A atividade dos bancos de investimento, neste sentido, é uma função da quantidade de negócios e investimentos a serem realizados, em detrimento da qualidade destes ou de sua rentabilidade em longo prazo, o que demonstra a quase ausência do longo prazo no imaginário e na prática de Wall Street.

De acordo com o descrito acima, torna-se possível enxergar uma série de práticas e crenças que perpetuam a instabilidade nos bancos financeiros. A estrutura compensatória, meritocrática, aliada a uma ética de “trabalho duro”, a instabilidade no emprego, o senso de elite e de conexão com o mercado e a strategy of no strategy, que exclui o longo prazo das decisões estratégicas, são

103 os fundamentos para a construção social da crise (Ibidem). Quando, através da legitimidade dos bancos de investimento de Wall Street, da sua representação como elite intelectual e da ideologia do shareholder value, as outras três características foram impostas às empresas americanas, a instabilidade própria da alta finança se espalhou pela economia, trazendo consigo a sua fragilidade.

É quase óbvio o caráter problemático da imposição de uma lógica de curto prazo, cujo objetivo único é geração de valor para acionistas, sobre empresas industriais. A indústria não pode se basear em respostas imediatas ao mercado, já que o ciclo de produção é necessariamente de longo prazo e depende do planejamento para o seu sucesso, assim como acontece para qualquer aplicação em capital fixo.

Assim, a crise está praticamente instaurada. A revolução dos acionistas ajudou a transformar empresas com um comportamento saudável em relação ao endividamento (hedge) em empresas com alto risco de endividamento (especuladoras) e desprovidas de perspectivas de crescimento no longo prazo.

Por outro lado, o mercado financeiro impõe a sua legitimidade através de uma máscara hedge, mas ao mesmo tempo age como especulador, ao se atrelar profundamente ao mercado, já que é no mundo do movimento dos preços que a especulação vive (Müller, 2006). É desta forma que se realiza a transição de hedges para especuladores, de acordo com uma abordagem “on the ground”, uma definição dada por Ho ao método etnográfico.

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