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A instintualidade e a voracidade de Piggle

Em Natureza humana, Winnicott deixou bem claro a importância que ele atribuía aos instintos das crianças: “a chave para a saúde na primeira infância é o instinto” (1990, p. 57). Essa sua convicção fez com que ele, ao longo de seu trabalho com crianças, tomasse como tarefa examinar de perto o instinto e seu desenvolvimento. Não foi diferente com Gabrielle. Ele estava sempre atento às expressões instintuais de sua paciente e sempre atento também à ação que aquela expressão pudesse exigir dele mesmo para com ela. O interesse de Winnicott pela instintualidade da criança também estava relacionado ao seu interesse pela elaboração que a criança poderia fazer a partir de sua relação pessoal com seus instintos, o que ele denominou de elaboração imaginativa das funções corporais.

No caso de Gabrielle, uma das questões importantes relativas ao tema da instintualidade foi a observação de Winnicott em relação à voracidade dela. Conforme dito o primeiro capítulo, para a psicanálise winnicottiana é importante fazer a diferenciação entre a voracidade – que é entendida por ele como parte do amadurecimento normal – e a avidez, que o autor relacionou a problemas patológicos resultantes de uma privação.

Uma das primeiras brincadeiras de Gabrielle nas consultas foi a de desenhar uma boca grande em uma lâmpada e fazer ela “vomitar”. Logo depois ela encheu um balde de brinquedos até transbordar e continuou a brincadeira de vomitar. Para Winnicott, havia uma “impregnação oral” naquela brincadeira (1977, p. 36). Ele lembrou-se de ter dito à ela na consulta anterior que os bebês eram como o balde que ficava cheio por ter comido vorazmente (greedy) e disse para ela: “Winnicott é o bebê de Piggle; ele é muito voraz (greedy) porque gosta tanto de Piggle e de sua mãe, e comeu tanto que está vomitando” (1977, p. 36).

Esse é um bom exemplo da afirmação teórica de Winnicott de que a psique se forma a partir do material fornecido pela elaboração imaginativa das funções corpóreas nos termos do instinto dominante. Para ele, o que é dominante no bebê é o aparelho responsável pela ingestão. Gabrielle estava às voltas com sua elaboração pessoal de suas funções corporais

56 e Winnicott manejava a consulta de modo que esse processo fosse facilitado para ela. Ainda naquela consulta eles brincaram de passar a língua a redor dos lábios, falaram sobre fome, paladar, sensualidade oral e fizeram ruídos com a boca. Deram sequência também à brincadeira de comer vorazmente e Winnicott fez uma anotação: “na transferência, Winnicott é o bebê canibalesco voraz” (1977, p. 37).

Gabrielle saiu da sala para ver o pai e quando voltou encontrou Winnicott sentado ao chão, perto do balde de brinquedos transbordando e “vomitando no chão o tempo todo” (1977, p. 38). Segundo ele, ela estava séria e perguntou se poderia ficar com algum brinquedo. Winnicott percebeu a situação com clareza, decidiu um “curso de ação” e disse: “Winnicott, bebê voraz; quer todos os brinquedos”. Na lateral comentou: “Piggle não é voraz – Winnicott infinitamente voraz” (1977, p. 38).

Aproveitando essa brincadeira de comer e vomitar, Winnicott introduziu a questão do que é preto no interior da barriga. Ele chegou a perguntar para Gabrielle se seria escuro dentro da barriga dela e se ela sonhava com o preto do lado de dentro. Ela respondeu que tinha medo. Momentos depois ela chamou o pai para dentro da sala e começaram a brincar de nascer, ela descia de cabeça para baixo por entre as pernas do pai. Então ela disse: “acabei de nascer. E não era preto lá dentro”. Winnicott comentou: “primeiro alívio da fobia pelo preto” (1977, p. 40).

Na sessão, Winnicott relacionou comer e vomitar com interior, preto e ódio pelo novo bebê na barriga da mãe. Quando Gabrielle disse que não era preto lá dentro, Winnicott se sentiu recompensado pelas associações que fez durante a sessão. Para ele, Gabrielle havia desenvolvido a técnica de ser um bebê ao mesmo tempo em que permitiu que Winnicott representasse ser ela mesma. Ele escreveu nos comentários teóricos do final dessa segunda consulta que relacionou “ter bebês em termos de vomitar” (1977, p. 40). Comentou também que a gravidez poderia ser entendida como uma consequência da voracidade oral, do ato de comer compulsivo e resumiu a consulta: “através de Winnicott = Gabrielle = voraz = bebê tem direitos próprios” (1977, p. 41). O tema da voracidade foi fundamental para que Winnicott pudesse fazer todas essas conexões entre comer, vomitar, interior, preto, bebês e gravidez. Na sexta consulta, Gabrielle deixou de brincar de vomitar e Winnicott comentou: “a voracidade transformando-se em apetite” (1977, p. 80).

Outra questão importante relacionada à instintualidade de Gabrielle está no fato de ela chupar dedo. Na ocasião da quarta consulta, ao viajar de trem com o pai para ir para Londres, ela veio chupando o dedo. A mãe também relatou que, às vezes, Gabrielle chupava o

57 dedo, Winnicott comentou: “ligação entre chupar o polegar e a experiência orgástica com o objeto” (1977, p. 110).

No texto “Primeiras experiências de independência” (Winnicott, 1957h) o autor escreveu que quando uma criança chupa o dedo, duas coisas estão acontecendo: uma está relacionada com a excitação alimentar e outra é “uma fase mais afastada da excitação e está mais próxima do afeto” (1957h, p. 190). Segundo ele, a partir desta atividade afetiva, o dedo passa a ter importância para criança. Para Winnicott, trata-se da primeira possessão, da primeira coisa no mundo que pertence à criança e, contudo, não faz parte dela como o polegar. Winnicott escreveu: “até que ponto isso pode ser importante constitui uma prova evidente, portanto, do início de relações com o mundo” (1957h, p. 190).

As reflexões de Winnicott sobre o ato de chupar o dedo, muito comum entre crianças, o levaram a escrever sobre o início do sentido de segurança e das relações da criança como uma pessoa. Para ele, esses fatos são uma prova de que as coisas estão correndo bem no desenvolvimento emocional da criança e de que começam a acumular-se as recordações de relações (1957h, p. 191). A criança pode encontrar esse sentido de segurança no ato de chupar dedo, como também no ato de apegar-se a um bichinho de pelúcia. Piggle tinha também uma relação especial com Teddy, seu ursinho de pelúcia.

Winnicott escreveu que para os pais que são excessivamente higiênicos, não é fácil suportar um “objeto macio, imundo e mal cheiroso, simplesmente para que a paz se preserve” (1957h, p. 191). Segundo ele, a criança precisa desse tipo de objeto para poder arrancar-lhe pedaços e chupá-lo, essa sujeira é como uma forma primitiva de amor, um misto de afeição e destruição. As crianças usam esses objetos em tempos de aflição e separação, particularmente na hora de dormir (1957h, p. 191). Piggle tirou o enchimento de um bichinho de pelúcia de Winnicott, um veadinho, na décima segunda consulta.

Outro objeto que cumpriu um papel importante dentro do ambiente terapêutico foi um copinho de lavar olhos, o Optrex. Na nona sessão Gabrielle pegou o lava olhos e ficou colocando-o e retirando-o da boca provocando ruídos de sucção. Winnicott comentou que ela sentiu algo muito próximo de um “orgasmo generalizado”. Ela repetiu uma experiência de quando era bebê e logo em seguida lembrou-se da mãe dizendo: “eu gostava muito dela. Baaah. Isso é bom” (Winnicott, 1977, p. 108). Em seus comentários teóricos sobre o fato, Winnicott escreveu: “lembrança transformando-se em experiência erótica oral com qualidade orgástica” (1977, p. 110).

58 Para Winnicott, uma excitação pode ser local ou geral. A excitação geral contribui para que o bebê se sinta um ser total. No bebê, as excitações dominantes dizem respeito ao aparelho digestivo e, desse modo, o erotismo oral, envolto por ideias de natureza oral, é característico da primeira fase de desenvolvimento do instinto

Existe uma progressão de tipo de instinto ao longo da infância, culminando na dominância da excitação e da fantasia erótica genital que caracteriza a criança aprendendo a andar, a qual já percorreu plenamente todos os estágios anteriores. No intervalo entre a primeira fase, oral, e a última, genital, há variada experimentação de outras funções e o desenvolvimento das fantasias correspondentes. (Winnicott, 1990, p. 58)

Na maioria das vezes, Winnicott usa o termo voracidade (greed) para explicar as manifestações instintuais de Gabrielle, porém, na quinta consulta, Winnicott usou o termo avidez (greediness): “O vômito – resultado da voracidade (greediness) compulsiva” (1977, p. 69). Naquele momento, Gabrielle pegou o balde e disse: “não tem muitos brinquedos aqui dentro. Posso encher ele até ficar completamente cheio?” (1977, p. 69).