Cada época institui mecanismos de punição específicos para preservar os valores vigentes nas diferentes sociedades. Contudo, a forma prisão, concebida como uma instituição social destinada à docilização dos indivíduos é anterior à sistematização das punições pelas leis penais, estando presente desde o período da vingança privada, caracterizado pela justiça criminal individual e desproporcional, passando pelo período da vingança divina e sua perversidade fundamentalista, e finalmente, alcançando apogeu na racionalidade e no humanismo modernista de Beccaria, a partir dos quais torna-se a punição por excelência.
A passagem da prisão-custódia e da era da espetacularização da violência e dos suplícios para a era iluminada da prisão-pena, que se dá a partir do século XVII, se opera menos em função dos ideais libertários do que
das necessidades de base econômica de um capitalismo industrial que emergia na Europa e que potencializou a criminalidade via urbanização das desigualdades sociais e proletarização das massas.
Defende Foucault (1979, p.188) que o capitalismo industrial introduz um novo modo de exercício do poder, contrário à concepção soberania-súditos, o poder disciplinar, instrumento fundamental para a constituição da sociedade disciplinar que se ocupa da extração do máximo de tempo e trabalho dos corpos. Assim, o punir cede lugar ao reformar para produzir.
Apenas na Idade Moderna, por volta do século XVIII, é que se dá o nascimento da prisão, ou, melhor dizendo, a pena de encarceramento é criada. Logo, o poder que opera este tipo de controle sobre a sociedade não é atemporal, mas tem sua especificidade na construção de uma determinada sociedade, no caso, a industrial, que, por meio de seu sistema judiciário, irá criar um novo tipo de instrumento de punição (MAIA, 2009, p.12)
Nesse contexto, o pensamento utilitarista do Panóptico de Jeremy Bentham aparece como modelo ideal dessa nova forma de conceber a prisão, que haveria de aproveitar a totalidade da força produtiva sem, entretanto, inviabilizá-la pela aplicação de suplícios deletérios. Daí por que a prisão-pena, ensina Foucault (2008, p.196):
(...) não foi primeiro uma privação de liberdade a que se teria dado em seguida uma função técnica de correção; ela foi desde o início uma ‘detenção legal’ encarregada de um suplemento corretivo, ou ainda uma empresa de modificação dos indivíduos que a privação de liberdade permite fazer funcionar (...)
Bentham elabora um modelo arquitetônico geral para a construção de estabelecimentos de vigilância que, embora nunca verdadeiramente implementado, tornou-se a materialização do poder disciplinar, influenciando as instituições sociais de controle a partir de então.
O Panóptico fundamenta-se no princípio da inspeção, pelo qual o disciplinamento dos internos seria alcançado pela vigilância perpétua, constante e totalitária, na medida em que se apropria do indivíduo em todos os seus aspectos. O projeto previa a construção de dois edifícios concêntricos, sendo o edifício central uma torre de vigilância no qual um observador invisível
teria uma visão completa e ininterrupta das celas individuais dispostas ao longo do edifício externo.
O poder disciplinar no Panóptico é então maximizado, pois introduz nos vigiados o sentimento de estar sendo diuturnamente inspecionado, operando o controle do indivíduo sem a necessidade de presença ostensiva, adestrando-o a agir pela atuação de uma instância onipresente, onividente e onisciente.
Tomando a realidade social em sua totalidade, as tecnologias disciplinares presentes no Panóptico conseguem a interiorização da coerção, que passa a controlar o corpo, numa relação de docilidade/utilidade que se coaduna com os propósitos penais do capitalismo industrial moderno (MALAQUIAS, 2008, p.170). Como explica Foucault (2008, p.119):
A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência.)
O modelo panóptico de disciplinamento e vigilância caracteriza a prisão como uma “instituição total”, na medida em que pretende o controle da vida do recluso em todos os seus aspectos.
Uma instituição total é um local de residência e trabalho no qual um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada.
Ensina Goffman (2008, p.11) que todas as instituições sociais apresentam certa tendência para o “fechamento”, representada pela exigência de tempo e interesse que impõe sobre seus participantes. No caso das instituições totais, como a prisão, tais exigências são intensificadas pelo rompimento com os padrões de comportamento que o indivíduo tinha no mundo exterior.
Isto posto, enquanto na sociedade “livre” o indivíduo desenvolve suas atividades em diferentes lugares, interagindo com diferentes co-participantes, sob a direção de diferentes autoridades e mediante a ausência de um plano racional geral, nas instituições totais tudo é centralizado, as atividades são realizadas num mesmo local, sob a regência de uma única autoridade e
sempre com a mesma mecânica, sujeita a um sistema de regras reunidas em um plano racional pensado em função dos objetivos da instituição.
Tais características, afirma Goffman (2008, p.22), transforma as instituições totais em “estufas para mudar pessoas” nas quais “cada uma é um experimento natural sobre o que se pode fazer ao eu”. E é justamente pela desconstrução das identidades pessoais que as instituições totais alcançam seus fins reformadores.
Ao adentrar numa instituição total, o indivíduo é submetido a um intenso processo padronizado de docilização e adestramento que vai despindo-o das disposições sociais de seu ambiente nativo, que até então, garantiam-lhe um conjunto de mecanismos de proteção exercidos conforme sua vontade.
A sutileza panóptica das instituições totais no emprego do poder disciplinar e a aparente eficiência dessas instituições como aparelhos para transformar os indivíduos, via dominação do corpo sem ingerências físicas, contribuiu para a construção de uma obviedade em torno da prisão. Como explica Foucault (2008, p.196) a prisão torna-se imediatamente aceita na exata proporção em que reproduz os mecanismos de treinamento presentes no corpo social, aproximando-se de uma escola, um hospital, ou uma fábrica.
Contudo, diferentemente da escola ou da fábrica, que implicam certa especialização de suas atividades, a prisão constitui-se como um aparelho disciplinar exaustivo que “deve tomar a seu cargo todos os aspectos do indivíduo, seu treinamento físico, sua aptidão para o trabalho, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições”. (FOUCAULT, 2008, p.198).
Esse treinamento ou disciplinamento exaustivo seria realizado mediante a utilização de determinadas técnicas corretivas: o isolamento, o trabalho, e a modulação da pena.
Segundo Foucault (2008, p.200) “o isolamento assegura o encontro do detento a sós com o poder que se exerce sobre ele”. A idéia é que o afastamento do recluso em relação ao mundo exterior e aos motivos que o levaram à infração, bem como a auto-reflexão ocasionada pela solidão atuem como instrumento positivo de reforma.
O trabalho como agente de transformação atuaria no sentido de incutir no indivíduo hábitos de ordem e regularidade, bem como os valores gerais de
uma sociedade industrial, para a qual o trabalho e o salário seriam formas morais para a condição de existência.
Por fim, a modulação da pena permitiria a correta graduação do encarceramento conforme as circunstâncias, assim, a individualização da punição recairia sobre o indivíduo como objeto de transformação, adequando- se às reações positivas ou negativas percebidas durante o processo de tratamento, numa relação de punição e recompensas.
Impende destacar que toda essa arqueologia prisional disciplinar é elaborada sob uma concepção burguesa de justiça penal, que procurava justificar uma ideologia liberal acerca do Estado, do direito, da justiça e da centralidade de um poder normalizador, tendo em vista suas próprias conveniências.
Ocorre que essa lógica corretiva moderna da delinqüência, sustentada de maneira clara numa relação de causalidade, jamais encontrou harmonia frente à realidade fática do universo prisional.
Ensina Foucault (2008, p.131) que o fracasso foi imediato e registrado quase ao mesmo tempo em que o próprio projeto, uma vez que desde 1820 se constata que a prisão, longe de transformar os criminosos, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los ainda mais na criminalidade.
A partir de então, aquilo que parecia um inconveniente transmutou-se numa utilização estratégica dos mecanismos de poder. A prisão (a prática) introduz um excesso em relação ao jurídico (a teoria), o penitenciário, que passa a criar um saber/poder próprio sobre os condenados, um saber quer permite multiplicar a utilidade da pena para a sociedade (FOUCAULT, 2008, p.210).
As técnicas penitenciárias fabricam o delinquente enquanto objeto biográfico complexo a se observar e conhecer, e fazem existir o criminoso antes do crime, o sujeito antes do fato, tornando-o útil no domínio econômico e no político.
Tal utilidade diria respeito, sobretudo, à imposição de limites toleráveis das ilegalidades, de modo a delimitar e estigmatizar o terreno dos benfeitores e dos malfeitores, as fronteiras da criminalidade e dos comportamentos reprováveis.
Com efeito, explica Perrot (2001, p.236) que nas sociedades industriais o processo de intensificação das relações entre os grupos se dá ao mesmo tempo em que a multiplicação de normas e interdições de aspectos repressivos, assim, a criação da organização penitenciária traz consigo uma legião de excluídos, de maneira que, a função prisional da reintegração social do condenado significa, no máximo, devolvê-lo à sociedade no nível social que lhe é próprio.
Assim, a prisão é a expressão máxima de um poder disciplinar característico da sociedade atual, que sutilmente vai extraindo saberes e interiorizando valores e comportamentos na consciência dos indivíduos como forma de manutenção de uma dominação.
Transformando o cidadão, de maneira geral, num integrante de uma rede, a sociedade de controle reproduz a lógica da globalização do capital que, fomentando um novo modelo de exclusão social, cria uma nova clivagem entre as classes sociais: consumidores e não consumidores, ou seja, refugos humanos. (MALAQUIAS, 2008, p.179).
Um cenário em que o político e o social são preteridos em favor do econômico, e que uma tendência acentuada a criminalizar os problemas socialmente produzidos vai atrofiando deliberadamente o Estado social e hipertrofiando o Estado penal (WACQUANT, 2001, p.80).
Entendido o caráter totalitário da prisão enquanto instituição disciplinar exaustiva, impende compreender os processos, estruturas e papéis sociais que subsistem em seu interior.