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I.2.2 A linguagem e os sistemas de conhecimento

3.3 Os princípios e a integridade

3.3.3 A integridade no direito

A aplicação do direito como integridade (mais estritamente o princípio judiciário da integridade) leva os juízes e demais aplicadores a partirem do pressuposto de que direitos e deveres resultam de normas criadas por um único autor – a comunidade personificada – como expressão coerente de justiça e equidade. A verdade das proposições jurídicas deriva de uma interpretação construtiva que oferece correto equilíbrio entre as duas referidas virtudes e o devido processo legal360, sendo, portanto, o resultado de uma reflexão de conteúdo, e não de validação meramente formal.

O direito como integridade361 é uma concepção hermenêutica em que seu conteúdo é tanto produto como fonte de interpretação da prática jurídica. O direito se apresenta como tendo origem em interpretações e como sendo continuidade delas. E

359 A hermenêutica filosófica empresta relevante papel à coerência na atividade interpretativa (GADAMER.,

Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Trad. Paulo César Duque Estrada. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998, p.65: [...] nada é de fato compreensível se não se mostrar efetivamente sob a

forma de um significado coerente.

360 DWORKIN, Ronald. O império do direito. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes,

2007, p. 272.

361 A integridade proposta por Dworkin nada mais é do que a especificação para o direito como fenômeno

interpretativo do que é a coerência para a hermenêutica de Gadamer: De fato, não é apenas uma unidade de

sentido imanente que pressupõe a operação concreta da compreensão: toda compreensão de um texto pressupõe

que ela seja orientada por expectativas transcendentais, cuja origem deve ser buscada no interior da relação

entre a intenção do texto e a verdade (O problema da consciência histórica. Trad. Paulo Cesar Duque Estrada. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998, p. 66). Assim, tomando o direito como um texto construído coletivamente pela comunidade de princípios, deve ele formar uma unidade coerente orientada por ideais transcendentais além do limite do texto, que para Dworkin são a justiça, a equidade e o devido processo legal, ou seja, o desdobramento de uma justiça geral que preliminarmente pode ser qualificada como a verdade para as instituições.

mais: o principal objeto das interpretações são os princípios. Nas palavras de Dworkin,

raciocinar em termos jurídicos significa aplicar a problemas jurídicos específicos [...]

uma ampla rede de princípios de natureza jurídica ou de moralidade política362.

A história tem grande importância para o direito como integridade. Não se trata de um resgate de todas as etapas históricas, nem mesmo de um direito que esteja entrando em desuso. Não se busca uma reconstrução de todas as regras vigentes na comunidade. Cuida-se de uma retomada horizontal em que direitos e deveres resultam de decisões coletivas oriundas do passado, que justificam a coerção; e seu conteúdo, sobretudo, reflete um sistema de princípios.

O ponto de referência do direito como integridade é o presente da comunidade de princípios. O retorno ao passado ocorre na medida em que a reconstrução contemporânea dos princípios o exija como condição de possibilidade de um futuro honrado. As decisões do passado e os princípios que as embasam se apresentam e se reconstroem continuamente numa visão otimista de que representam uma possibilidade atraente na prática da coerência de princípios que a integridade requer. Isso de modo algum exclui o conflito e a divergência que podem constituir terreno fértil para a elaboração de soluções conforme a integridade, a partir de uma interpretação imaginativa363.

3.3.3.1 A cadeia do direito

Uma interpretação criativa busca sua estrutura formal na intenção. Não se cuida de descobrir a intenção de determinada pessoa ou grupo histórico, mas de reconstituir um propósito a um texto, a dados ou a tradições que se interpretam. Toda interpretação pressupõe a existência de uma intenção e de uma coerência naquilo sobre o que se trabalha.

Pode-se metaforicamente justapor a atividade de um juiz ou de um aplicador do direito à de um crítico literário que destrincha as várias dimensões de

362 DWORKIN, Ronald. A justiça de toga. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 72.

363 DWORKIN, Ronald. O império do direito. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes,

valor em uma peça ou num poema complexo364. Juízes, ressalta Dworkin, são igualmente autores e críticos de sua própria obra, o que promove uma comparação mais fértil na relação literatura e direito com o gênero literário do romance em

cadeia365.

Nesse projeto, um grupo de autores redige um romance em que cada um interpreta os capítulos anteriores que recebeu para escrever o seu e abre caminho para o romancista seguinte. Cada um propõe o seu capítulo como o melhor possível para o romance que está sendo elaborado.

Algo semelhante ocorre com os juízes ou outros aplicadores do direito quando se dedicam a decidir um caso difícil. Tanto o romancista como os juízes se dedicam a criar em conjunto apenas um romance unificado, com a melhor qualidade possível. A obra não se pode apresentar como feita a várias mãos, como na verdade é, mas deve ser atribuída com fidedignidade a um único autor, como já dito à comunidade personificada.

A tarefa exigirá uma reflexão sobre elementos como trama, gênero, tema, objetivos etc. Um bom crítico trabalhará com tais questões de forma sofisticada e multifacetada, já que um bom romance não comporta apenas uma perspectiva. Também identificará níveis e correntes de sentido diferentes, mas não apenas um enfadonho tema.

Duas dimensões apresentam-se, nesse estilo literário, como eixos centrais: a da adequação e a da justificação. Na da adequação ressalta-se a fluência do texto e um poder de explicação geral, buscando uma interpretação que apreenda boa parte do texto, ainda que reconhecendo que ele não pode ser plenamente bem-sucedido e que algumas partes devem ser abandonadas. Na da justificação, o autor do romance em cadeia pode encontrar mais de uma interpretação que se ajuste ao texto. Terá de julgar

364 Idem. Ibidem, p. 275. Em outra obra Dworkin é mais explícito sobre a vinculação entre direito e arte

(DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. Trad. Luís Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p.249): transmito apenas meu entendimento de que política, arte e direito estão unidos, de algum modo, na

filosofia.

365 A metáfora do romance em cadeia não é casual. Ela reflete as preocupações estéticas da hermenêutica

filosófica que reinsere o juízo e o gosto entre os conceitos guias humanísticos (GADAMER, Hans-Georg.

Verdade e Método. Trad. Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1997, pp. 76 e seg. e GADAMER, Hans- Georg. Estética y hermenêutica. Trad. Antônio Gómez Ramos. Madri: Tecnos, 2001, pp. 55 e seg.)

quais das duas melhor se adéqua, colocando em jogo seus juízos estéticos mais profundos sobre as diferentes ideias que o romance poderia expressar.

Embora se fale nesses dois planos, não há como separá-los de maneira absoluta. Os juízos pessoais do aplicador, que surgem na dimensão da justificação, devem ser confrontados com a integridade do texto, na adequação, procurando, assim, a proposta de interpretação que lhe mantenha a coerência. Há entre essas duas dimensões um jogo circular que busca a coerência e ideais transcendentais como a justiça e a equidade.

O direito como integridade impele o juiz, ou o aplicador do direito, para que se considere como um autor na cadeia de sentidos que forma o direito. Outros colegas decidiram casos afins, e o juiz deve considerá-los como parte de uma longa história a ser interpretada de acordo com suas opiniões, que expressam a melhor proposta para a continuidade dessa história.

Dworkin propõe um juiz hipotético chamado Hércules para dar cabo a missões dessa ordem366. Contudo, ele apenas apresentará as respostas que julgar melhores no momento da decisão, e sua abordagem sobre os temas que lhe são postos será mais reflexiva e indagadora do que definitiva.

Hércules emite opiniões sobre adequação que se irradiam numa série de círculos concêntricos que atravessam as diversas áreas do direito. Então, para tratar de um caso de danos morais, ele inicialmente circunscreve-se à responsabilidade civil aquiliana, depois passando à contratual para verificar princípios aproveitáveis e comuns e assim por diante. Hércules tem uma visão construtiva dessa compartimentalização, em que as divisões do direito são vistas sob a melhor luz para solucionar os casos que se lhe apresentam367.

Isso é o reflexo de que os aplicadores do direito que aceitam o caráter interpretativo do direito como integridade, na decisão de casos difíceis, buscam um conjunto coerente de princípios que estruturem direitos e deveres a partir da melhor interpretação da vivência política de sua comunidade e de sua doutrina jurídica. Na dimensão de adequação, encontram-se limiares oriundos da história política da

366 DWORKIN, Ronald. O império do direito. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes,

2007, p. 287.

comunidade que restringem as convicções políticas368. É o que se dá, por exemplo, com a supremacia legislativa que se põe como um limite para a configuração da decisão de um julgador e também do administrador.

Noutro giro, surgirão os casos difíceis, quando numa análise preliminar não for possível prevalecer uma dentre duas ou várias interpretações. É a etapa da justificação. Cabe escolher entre as interpretações aceitáveis, perquirindo-se qual, da perspectiva de moral política, representa melhor as instituições e as decisões da comunidade369. As próprias convicções morais e políticas do aplicador estarão em questão, mas a serviço do direito como integridade, da comunidade de princípios na busca de uma correta proporção entre justiça, equidade e o devido processo legal.