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A INTENSIDADE DO TRABALHO: CENTRALIDADE PARA O CAPITAL

2 INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE: FUNDAMEN TOS TEÓRICOS

2.1 A INTENSIDADE DO TRABALHO: CENTRALIDADE PARA O CAPITAL

A intensificação do trabalho não é um fenômeno novo. Segundo Dal Rosso (2008), nenhum trabalho ocorre sem que envolva um gasto de energia pelo trabalhador, seja ele escravo, servil, autônomo ou assalariado. Marx (2008, p. 468) assinala que, por meio de novos métodos de organização do labor, “o capital induz o trabalhador a empregar realmente maior força de trabalho”. Na sociedade capitalista, a intensificação do trabalho se constitui como mais uma forma de exploração, ou seja, de obter mais trabalho em prol do acúmulo do capital.

Dal Rosso (2008) aponta ondas de intensificação no decorrer da história, que resultam das formas de reorganização do trabalho na sociedade capitalista. A primeira onda se deu durante a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. O alongamento das horas trabalhadas permitia a extração da mais-valia absoluta. Segundo Dal Rosso (2006b, p.31) “O número médio de horas de trabalho por ano subiu das 2,5 mil horas nos períodos pré-industriais para 3 mil a 3,5 mil horas durante as revoluções industriais.” Todavia, exposta a longas e extenuantes jornadas de trabalho, a classe trabalhadora se organizou e conseguiu reduzi-las. Com a limitação do tempo destinado ao labor, os capitalistas investiram em equipamentos mais modernos e impuseram ao trabalhador um novo ritmo e a exigência de mais trabalho. A intensificação do trabalho então assumiu papel central na extração da mais-valia relativa. A esse respeito Marx (2008, p. 467-468) relata que

a rebeldia crescente da classe trabalhadora forçou o Estado a diminuir coercitivamente o tempo de trabalho. [...] Essa redução, com o poderoso impulso que dá ao desenvolvimento da força produtiva e à poupança das condições de produção,

impõe ao trabalhador maior dispêndio de trabalho no mesmo tempo, mais elevada tensão da força de trabalho, preenchimento mais denso dos poros da jornada, [...]. Essa compressão de massa maior de trabalho num período dado significa, então, o que realmente é: maior quantidade de trabalho. Marx (2008) define a intensificação do trabalho como extração de mais trabalho. Ressalta a eliminação dos tempos de não trabalho, ou do que chama de porosidade na jornada de trabalho. Indica que o tempo de trabalho passou a ser mensurado de duas maneiras: pela sua extensão, sua duração, e pelo seu grau de condensação, sua intensidade.

No contexto da luta de classes em que a redução da jornada de trabalho se constituía como reivindicação fundamental dos trabalhadores, criaram-se as condições necessárias à intensificação do trabalho, uma vez que foi diante da impossibilidade de prolongamento da jornada pelos patrões que a intensidade do trabalho foi elevada, considerando o emprego de técnicas que induzem a mais trabalho, como por exemplo, o salário por peças.

A segunda onda de intensificação apontada por Dal Rosso (2008) ocorreu no início do século XX, sob a lógica dos modelos fordista e taylorista de organização do labor, marcada principalmente pelos estudos de Taylor (1966) sobre a “administração científica do trabalho”. Os movimentos desenvolvidos pelos trabalhadores na execução das tarefas foram minuciosamente estudados a fim de maximizar os resultados da produção e diminuir os desperdícios. Mueller (2010, p. 113) aponta em sua tese a implantação das “tecnologias gerenciais como meio de controlar objetiva (corpo) e subjetivamente (consciência) o trabalho vivo [trabalhadores] no seio da produção”. Além da máquina, o capital desenvolve métodos, técnicas, promove inovações de forma a controlar os trabalhadores (MUELLER, 2010).

A especialização é um aspecto marcante do taylorismo e consiste no aprofundamento da separação entre concepção e execução do trabalho. Braveman (1974) entende que a execução do trabalho controlada pelos trabalhadores se torna um obstáculo à imposição do ritmo de trabalho almejado pelo capital. Dessa forma, a separação entre concepção e execução se apresenta como determinante no controle do trabalhador. Com a adoção da gerência científica proposta por Taylor, o labor passou a ser muito mais direcionado, o trabalhador muito mais inspecionado e o trabalho fragmentado. A exploração capitalista por meio das novas tecnologias de organização do trabalho se tornou cada vez mais nociva aos trabalhadores.

A gestão do tempo de trabalho ganhou relevância. Mais uma vez, procurou-se diminuir a “porosidade”, os tempos de não trabalho da jornada. Sem a preocupação com a aquisição de novas tecnologias, mas com o controle sobre o ritmo e a velocidade e a separação entre concepção e execução do trabalho, o taylorismo tinha o objetivo de aumentar a intensidade do labor. Sua intenção era garantir novas formas de obter mais trabalho. Com o advento da esteira transportadora, símbolo do fordismo, o novo ciclo de organização do trabalho foi desenhado e assim os trabalhadores foram submetidos a nova forma de intensificação. [...] o real problema do método taylorista é aumentar a produtividade do trabalho. Já vimos que esse aumento da produtividade significa na realidade, um processo de intensificação ‘cientificamente’ estudado e implementado, pois a única variável que é substantivamente alterada é a ação do trabalhador, seu envolvimento, seu empenho, seu trabalho. Em suma, o funcionário é conduzido a produzir mais trabalho, a trabalhar mais no mesmo período de tempo considerado e dentro das condições técnicas vigentes (DAL ROSSO, 2008, p. 60-61).

A gerência do trabalho não foi determinante para calar os trabalhadores. Críticas a esse modelo de gestão emergiram e greves passaram a compor a realidade nas últimas décadas do século XX, somando-se a essa conjuntura a crise no modelo de produção em massa e o baixo crescimento econômico. Diante das adversidades, uma alternativa à organização do trabalho no capitalismo foi o toyotismo. Foi com base no modelo originário da fábrica Toyota, no Japão, que o trabalho sofreu uma nova reorganização e que se deu a terceira e, segundo Dal Rosso (2008), a mais cruel onda de intensificação do trabalho, que se estende até os dias atuais.

Alves (2011, p. 44) afirma que atualmente o toyotismo tem sido adotado por várias empresas em diversos setores da produção capitalista. Shiroma (1993) explica que nas bases desse modelo está a manutenção do “fluxo contínuo de produtos”, a produção vinculada à demanda do mercado, obtida por meio da aplicação do denominado just-in-time, que “significa produzir as unidades necessárias, no tempo necessário” (SHIROMA, 1993, p. 16). Dal Rosso (2008) assinala a redução da mão de obra empregada, o trabalho em equipe com diversificação de funções e a polivalência — um trabalhador opera diversas máquinas ao mesmo tempo — como características relevantes do toyotismo.

A adequação do trabalho às necessidades do mercado adequa também a exploração da força de trabalho, influenciando sua intensificação. Diante de demandas maiores e pela redução do número de trabalhadores, o labor é organizado de forma mais intensa ou mediante horas extras. A polivalência empregada por essa nova forma de organização do trabalho representa mais um fator de intensificação, um maior esforço por parte do trabalhador, de quem é exigido o conhecimento sobre diversas máquinas e operações (DAL ROSSO, 2008). Antunes (2006, p. 53) define a organização do trabalho no modelo toyotista como “um processo de organização do trabalho cuja finalidade essencial, real, é a intensificação das condições de exploração da força de trabalho [...]”.

Outro componente desse modelo é a manipulação da subjetividade dos trabalhadores, sob o discurso do colaborador, da participação, do pensar a empresa. Os trabalhadores são expostos a métodos e técnicas que disfarçam o controle e procuram explorar o comprometimento com o trabalho.

A organização toyotista do trabalho capitalista possui uma densidade manipulatória de maior envergadura. Na nova produção do capital, o que se busca ‘capturar’ não é apenas o ‘fazer’ e o ‘saber’ dos trabalhadores, mas a sua disposição intelectual-afetiva, constituída para cooperar com a lógica da valorização (ALVES, 2011, p. 110). Para Antunes (2006), o toyotismo busca apropriar-se da dimensão intelectual, das capacidades cognitivas, objetivando o envolvimento mais intenso da subjetividade operária. Não raro se observam, nas técnicas de gestão do trabalho, aspectos meritocráticos voltados à obtenção de melhores resultados. Sistemas de premiações individuais e de equipes de trabalho, bem como o cumprimento de metas, estão presentes em vários setores do mundo do trabalho material e imaterial. A esse respeito, Holzmann (2006, p. 314) acentua que “métodos e programas [do toyotismo] mostram-se aplicáveis também no setor de serviços”.

Dal Rosso (2008) ressalta que as formas de intensificação do trabalho são multiplicativas, ou seja, elas não desaparecem ao surgirem outros métodos, mas se sobrepõem. Afirma que “o trabalho contemporâneo é herdeiro de uma jornada mais reduzida em número de horas trabalhadas, mas também de um grau de intensidade muito maior do trabalho que em épocas anteriores” (DAL ROSSO, 2008, p. 68).

Esse breve histórico do processo de intensificação do trabalho até aqui relatado tem sua raiz no setor produtivo. Grande parte das produções a esse respeito contempla esse campo. Todavia, pesquisas atuais, como

a de Dal Rosso (2008), mostram que a intensidade do labor não é um fenômeno que se restringe à esfera do trabalho material, pois as técnicas de gestão também são usadas para intensificar o trabalho imaterial. 2.2 INTENSIDADE E TRABALHO IMATERIAL

Procuramos tecer, neste tópico, algumas considerações relevantes acerca do trabalho docente, buscando maior compreensão do que compõe a intensificação do trabalho dos professores. Para tanto, iniciamos com abordagem dos novos significados que a categoria “trabalho” abarca nos dias atuais.

Antunes (2006) defende uma compreensão ampliada de trabalho, por entender que ele assume novos significados na contemporaneidade. O autor aponta a imbricação que se dá entre o trabalho material e imaterial, observando uma expansão da atividade intelectual. Ainda que se possa pensar que a divisão entre concepção e execução do trabalho se encontra minimizada sob os impactos do modelo toyotista, o estranhamento persiste em relação ao que é produzido e para quem se produz.

A expansão do trabalho em serviços, em esferas não diretamente produtivas, mas que muitas vezes desempenham atividades imbricadas com o trabalho produtivo, mostra-se como outra característica importante da noção ampliada de trabalho, quando se quer compreender o seu significado no mundo contemporâneo (ANTUNES, 2006, p. 125). Braverman (1987), ao discorrer sobre as camadas médias do emprego na fase do capital monopolista, salienta:

Como a classe trabalhadora, ela [camada média] não possui qualquer independência econômica e ocupacional; é empregada pelo capital e afiliados, não possui acesso algum ao processo de trabalho ou meios de produção fora do emprego, e deve renovar seus trabalhos para o capital incessantemente a fim de subsistir. Esta parcela do emprego abrange os engenheiros, técnicos, quadro científico, os níveis inferiores da supervisão e gerência, o considerável número de empregados especializados e ‘liberais’ ocupados em mercadejamento, administração financeira e organizacional e semelhantes, fora da indústria capitalista, em hospitais, escolas, repartições públicas etc. (BRAVERMAN, 1987, p. 341).

Diante das novas significações que assume a categoria trabalho e do alcance do que hoje compõe a classe trabalhadora, podemos supor que os efeitos colaterais advindos da gestão do trabalho no capitalismo não se restringem ao trabalho material. Segundo Dal Rosso (2008), a manipulação dos graus de intensidade no capitalismo sempre esteve relacionada à obtenção de resultados. A gestão por resultados está incrustada atualmente em todos os setores, seja nos ligados diretamente à produção ou aos de serviços. No trabalho do tipo intelectual a gestão por resultados envolve a melhoria da qualidade e a quantidade dos serviços prestados, o que pressupõe um maior esforço do trabalhador (DAL ROSSO, 2006a). Ao pesquisar a intensificação do trabalho no setor de serviços e ao considerar a expansão do trabalho imaterial, o autor argumenta:

A emergência de sociedades em que a maioria dos empregos se localiza no setor de serviços levanta a possibilidade de surgimento de outros paradigmas de intensificação do trabalho, não necessariamente procedentes do paradigma industrial, uma vez que este paradigma apela eminentemente para o trabalho em seu sentido material e físico (DAL ROSSO, 2006a, p. 75).

A investigação a respeito da intensificação do trabalho imaterial se torna relevante e é necessário que o fenômeno seja compreendido, extrapolando a relação entre intensificação e esforço meramente físico. É urgente considerar a mobilização de todas as capacidades que são envolvidas no processo de trabalho, sejam elas intelectuais, afetivas, e os saberes dos trabalhadores (DAL ROSSO, 2006a). Segundo o autor, o conceito intensificação do trabalho foi bastante investigado e abordado na literatura relativa aos trabalhadores industriais, aqueles cujo trabalho claramente gera mais-valia. Contudo, faz as seguintes considerações relacionadas ao setor de serviços:

Os serviços com base na imaterialidade marcam diferenças significativas em relação ao trabalho industrial pelo fato de demandarem mais intensamente as capacidades intelectuais, afetivas, os aprendizados culturais herdados e transmitidos, o cuidado individual e coletivo. A intensidade em tais serviços não é adequadamente avaliada caso se expresse em termos corporais, físicos, materiais. Que é intensidade para um pesquisador, senão for considerado o aspecto imaterial de seu trabalho, o

apelo à inteligência? Que é para um professor, caso não seja levada em consideração a capacidade de relacionar-se com os estudantes? (DAL ROSSO, 2008, p. 33).

O trabalho docente, mesmo que de forma parcial, sem se constituir num trabalho que gera mais-valia, está condicionado à lógica do capital e também sofre um processo de intensificação. Dal Rosso (2006a, p. 87) expõe que “a imaterialidade do trabalho conduz à observação de impactos distintos sobre os corpos e as mentes dos trabalhadores. Como todo tipo de trabalho, os serviços apresentam formas próprias de intensificação”.

Estudos de diversos autores indicam a transformação pela qual vem passando a classe trabalhadora no decorrer dos anos, a imbricação entre trabalho material e imaterial, produtivo e improdutivo, o crescimento no setor de serviços e a redução dos trabalhadores da indústria devido à reestruturação produtiva. É no contexto do trabalho imaterial que situamos o trabalho docente. Faz-se necessário tecer algumas considerações acerca da natureza desse trabalho para que não se corra o risco de fazer uma mera transposição da intensificação do trabalho material para o imaterial.

É nesse contexto que se localiza o fazer docente na escola pública, que não produz mais-valia, mas se coloca como condição geral de produção para o capital (CGP) (BERNARDO, 1991) e, por essa condição, a educação e a escola pública são alvos de interesse não só das camadas populares, mas contraditoriamente também do capital; são administradas na lógica do mercado que procura condicionar o processo de ensino e o trabalho dos professores.

2.3 A EDUCAÇÃO COMO CONDIÇÃO GERAL DE PRODUÇÃO