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CAPÍTULO 1 ± O ESPÍRITO SUBJETIVO E O CONCEITO ABSTRATO DE

1.1 Vontade e liberdade: dois termos intimamente relacionados

1.1.2 A vontade do espírito livre

1.1.2.2 A inter-relação entre vontade e pensamento

+HJHO DILUPD TXH VRPHQWH QD ³3VLFRORJLD´ R HVStULWR WRUQD-se sujeito para si

mesmo (Cf. HEGEL, E, v. 3, § 387). Isso significa que, para ele, a constituição da

subjetividade só se consuma por meio do pensar e do querer. Sabemos que na

³)HQRPHQRORJLD´RHVStULWRWRUQD-se eu, consciência, ou seja, interioridade subjetiva ideal

frente ao mundo exterior. Contudo, neste nível, o espírito encontra-se apenas no modo da

relação contraditória com seu outro e, portanto, apenas reflete-se como eu particular (Cf.

HEGEL, E, v. 3, § 387; § 413; § 443). Dessa forma, o verdadeiro conceito do eu, para

Hegel, é o conceito do espírito, que não se encontra fundamentalmente separado da

objetividade da natureza e que, aliás, mantém uma relação mediada e especulativa com a

mesma, sendo, pois, a idealidade subjetiva universal e racional. Por isso Hegel afirma que

³(QTXDQWR QmR VH SRGH GL]HU EHP GD FRQVFLrQFLD TXH WHP WHQGrQFLD >Trieb], pois tem

imediatamente o objeto, o espírito ao contrário deve ser apreendido como tendência por

ser essencialmente atividade [Tätigkeit]´(Y†RJULIRpPHXRFROFKHWHpPHX

É como sujeito essencialmente ativo, por conseguinte, que Hegel irá compreender o

espírito e sua relação com a objetividade natural. Esta determinidade, todavia, como

sabemos, desdobra-VHQD³3VLFRORJLD´ em duas atividades, a do pensar e a do querer; e é

por elas: 1º) que o espírito suspenderá a oposição primeira entre si mesmo e a objetividade

da natureza, determinando-se, desse modo, como sujeito livre auto-mediado, o que Hegel

FKDPD GH ³HVStULWR OLYUH´61, de maneira que 2º) é pela atuação conjunta de ambas as

atividades que o espírito livre, por fim, empreenderá ativamente a efetivação de sua

subjetividade livre na objetividade do mundo, afirmando-se como fundamento do domínio

Direito ± o que ocorrerá no OLPLDUGDSDVVDJHPSDUDR³(VStULWR2EMHWLYR´ como veremos.

Dado este ponto de partida, portanto, Hegel compreende o pensamento e a

vontade não como duas existências fixas e imóveis, separadas uma da outra. Antes,

consistem em modos (Weise) conjuntos pelos quais o espírito se manifesta (Offenbarung)

subjetivamente e desenvolve sua essência ativa. Sob esta perspectiva, o espírito é tanto

61

³2VGRLVPRGRVGRHVStULWRVmRIRUPDVGDUD]mRSRLVWDQWRQRHVStULWRWHyULFRFRPRQRHVStULWRSUiWLFR ±

embora por caminhos diversos ± se produz aquilo em que a razão consiste: uma unidade do subjetivo e do

REMHWLYR´(Y†DGHQGR3RUHVWDDILUPDomR+HJHOGHVWDFDTXHSHQVDPHQWRHYRQWDGHSURGX]HPD

unidade da subjetividade do espírito com a objetividade; cada uma por um caminho. Contudo, o que é preciso

destacar é que estas atividades atuam paralela e conjuntamente e, ao final, unificam-se de modo a formar o

³HVStULWROLYUH´TXHpDXQLGDGHGRSHQVDPHQWRHYRQWDGHHXQLGDGHGDVXEMHWLYLGDGHFRPDREMHWLYLGDGH&I

espírito teórico, quanto espírito prático. Ou seja, possui duas maneiras de atuar (tun) no

mundo, de modo que o pensar e o querer constituem, ambos, versões de sua tendência

ativa, de seu impulso (Trieb) para tornar-se efetivamente livre como sujeito. Assim,

pensamento e vontade, em Hegel, operam paralela e conjuntamente ± daí Quelquejeu

afirmar que a concepção de Hegel acerca da atividade teórica e prática é uma concepção

HVSHFXODWLYD ³1D HVIHUD GD SVLFRORJLD KHJHOLDQD D DWLYLGDGH WHyULFD H SUiWLFD GR HVStULWR

HQFRQWUDP VXD MXVWD HYROXomR VXD DUWLFXODomR UHFtSURFD VXD LPDQrQFLD FRUUHODWLYD´

(Quelquejeu, 1972, p. 156-157). Segundo este autor, o objetivo de Hegel é suspender o

modo de considerar do entendimento, ou seja, a concepção clássica que compreende

LQWHOLJrQFLDHYRQWDGHFRPRGXDVIDFXOGDGHVGLVWLQWDVTXHRSHUDPVHSDUDGDPHQWH³+HJHO

meditou longamente sobre a distinção clássica, escolástica e cartesiana sobre inteligência e

vontade: de acordo com a suspensão do regime do entendimento que ele tenta, ele não

SRGHSHUPDQHFHUQHVWDGLFRWRPLDUXLQRVDSDUD DYLGDGRHVStULWR´4XHOTXHMHX1972, p.

157).

Mais do que à tradição clássica, contudo, podemos sugerir: é Kant que Hegel

tem em mente quando elabora sua concepção especulativa sobre a vida do espírito, que

possui a atividade prática e a atividade teórica como correlativas e em íntima atuação

conjunta. Kant afirma na Introdução da Crítica da Razão Prática que a razão possui dois

usos eminentemente distintos e que o uso teórico concerne à faculdade de conhecer,

enquanto que o uso prático concerne à faculdade de produzir objetos correspondentes às

representações62. As duas faculdades da razão em Kant não se misturam, não se realizam

conjunta e reciprocamente, mas em terrenos separados. O uso teórico da razão opera no

domínio fenomenal, de conhecimento de objetos sensíveis. Enquanto que o uso prático

opera no domínio noumenal, segundo a possibilidade que a razão pura prática possui de se

auto-determinar livremente sem o concurso das leis de causalidade da natureza. Hegel

interpreta a concepção kantiana de que a razão pura possui dois usos distintos (um uso

prático e um uso teórico) como se o sujeito kantiano fosse dividido, cindido em si mesmo,

62

³2 XVRWHyULFR da razão ocupava-se dos objetos (Gegenstände) da simples faculdade de conhecer e uma

crítica da mesma , em relação a este uso, dizia justamente respeito à pura faculdade de conhecer, porque esta

levantava a suspeita, aliás ulteriormente confirmada, de que com facilidade se transviava para lá de seus

limites, entre objetos inacessíveis ou até conceitos mutuamente contraditórios. O caso é já diferente com o

uso prático da razão. Neste uso, a razão ocupa-se dos princípios determinantes da vontade, a qual é uma

faculdade ou de produzir objetos correspondentes às representações, ou de se determinar a si mesma à

produção dos mesmos (quer o poder físico possa ou não ser suficiente) isto é, de determinar a sua

em sujeito teórico e sujeito prático. Nesta medida, sua concepção da unidade concreta e

especulativa do espírito, vai contra a concepção kantiana, que considera os modos de

atuação do sujeito separadamente. É desta maneira que, no parágrafo 4 da Introdução da

Filosofia do Direito, Hegel certamente se refere a Kant:

No que concerne à relação entre a liberdade e a vontade, é necessário fazer as observações

seguintes. O Espírito é o pensamento em geral e o homem se distingue do animal pelo

pensamento. Mas não é necessário imaginar que o homem é de uma parte, um ser que pensa, e

de outra, um ser que quer; que em um de seus bolsos há o pensamento e, no outro, a vontade.

Isso seria uma representação vazia. A diferença entre o pensamento e a vontade é somente a

diferença entre a atitude prática e a atitude teórica. Mas não se trata de duas faculdades

diferentes, porque a vontade é uma forma particular do pensamento: o pensamento que se

traduz na existência empírica, o pensamento como impulso a se dar uma existência empírica

(FD, §4, adendo; o grifo é meu).

1RV SDUiJUDIRV GD ³3VLFRORJLD´ RQGH +HJHO WUDWD SURSULDPHQWH GR HVStULWR

livre, se refere explicitamente à filosofia kantiana mais de uma vez (Cf. HEGEL, E, v. 3, §

444; § 445), sobretudo quando trata da atividade teórica, criticando a filosofia crítica por

pôr em questão a possibilidade do conhecimento. Desse modo, afirma que a consideração

filosófica, que isola e considera separadaPHQWHDVDWLYLGDGHVGRHVStULWR³VHOLJDjJUDQGH

questão da época moderna: se é possível conhecimento verdadeiro, isto é, conhecimento da

YHUGDGH´(Y†Assim, parece-me que, de fato, o pano de fundo da concepção

especulativa hegeliana sobre os modos de atuar prático e teórico do espírito diz respeito à

crítica à filosofia kantiana.

Além disso, o problema, para Hegel, da separação entre a atividade prática e a

DWLYLGDGHWHyULFDVHUHODFLRQDFRPRSUREOHPDPDLVJHUDOGD³3VLFRORJLD´TXHGL]UHspeito

à unidade entre a subjetividade do espírito com a objetividade. Ora, para Hegel, como

sabemos, a finalidade própria do sujeito espiritual é justamente unificar sua interioridade

subjetiva com a objetividade, de modo que possa se afirmar livremente e sem oposição

perante o ser natural, ou seja, de modo que possa ser livre com o outro (Cf. HEGEL, E, v.

3, § 440; § 441; § 442; §443). Por conseguinte, a atividade prática e a atividade teórica do

espírito se concentram na consecução desta finalidade e, para isso, cada uma atua ao seu

modo, mas conjuntamente, como veremos logo nos parágrafos seguintes. No entanto, Kant,

ao considerar o sujeito dividido em si mesmo por duas faculdades essencialmente distintas,

não só permanece no engano de conceber a razão como um conjunto exterior de suas

faculdades (Cf. HEGEL, E, v. 3, § 445). Mais do que isso, Kant reafirma sua concepção de

que o sujeito é finito e apartado de sua relação com a coisa mesma, com o mundo

objetivamente válido em si. A concepção kantiana acerca do atuar teórico da razão ± que

sustenta que esta não é capaz de alcançar a verdade em si dos objetos da natureza ±

constitui, podemos dizer, R JUDQGH ³FDOFDQKDU GH $TXLOHV´ Ga filosofia kantiana, para

Hegel. E, assim, tal concepção não permanece adstrita somente nas considerações da

Crítica da Razão Pura, mas podemos afirmar que persegue e influencia Kant também em

suas considerações na Crítica da Razão Prática. Desse modo, por mais que Kant venha a

afirmar que o uso prático da razão é o ilimitado, o sem barreiras e o único capaz de

elevar-se livremente acima das leis naturais fenomenais (Cf. KANT, KpV, 2003, p. 57), para

Hegel, isso não salva o dualismo presente no uso teórico da razão ± entre pensamento e

verdade objetiva. Isso porque, conforme Hegel, o uso prático da razão em Kant permanece

na oposição antinômica do sujeito em relação à objetividade natural63 e,

conseqüentemente, na oposição do sujeito prático noumenal em relação à realização de si

no mundo objetivo, uma vez que o ideal subjetivo da vontade kantiana conserva-se sempre

como mera possibilidade, apenas como uma meta subjetiva a se alcançar que toma a forma

GRVLPSOHV³GHYHU-ser´ (Sollen) (Cf. HEGEL, E, v. 1, § 234; E, v. 3, § 415; Cl, 1968, p.

719)64. Portanto, Hegel não só critica Kant por considerar o sujeito dividido em teórico e

prático, mas ± ao tratar da atividade do pensamento e da vontade ± se refere criticamente à

filosofia kantiana por esta permanecer na consideração de um sujeito teórico e prático

finitos, separados radicalmente da coisa mesma, da objetividade e da natureza.

É assim que, em sua abordagem especulativa, rompendo com o ponto de vista

de Kant, Hegel afirma: 1º) que o espírito é sujeito essencialmente ativo e uno; 2º) que se

constitui como sujeito prático e também como sujeito teórico de modo inseparável e

imanente e 3º) que estas duas modalidades de sua atuação operam conjuntamente em vistas

da afirmação da subjetividade livre do espírito em relação mediada com a objetividade do

mundo e com a natureza.

Nesta medida, Hegel considera o pensamento como aquela atividade própria do

espírito pela qual este, ativamente, racionaliza o objeto dado sensivelmente, transforma a

exterioridade material da natureza em uma forma interiorizada (Erinnerten), por meio da

63

A separação da atividade prática da vontade em relação à naturalidade na filosofia prática de Kant, será

central para a minha tematização sobre a concepção de vontade livre em Hegel, como veremos no segundo

capítulo. Pois, para Hegel, a atuação prática do espírito livre não se estabelece além da natureza, mas com ela

± muito diferentemente da concepção kantiana

64

9HUHPRVPHOKRUHVWDFUtWLFDGH+HJHODR³GHYHU-VHU´GDILORVRILDSUiWLFDGH.DQWQRVHJXQGRFDStWXORQD

seqüência dialética de múltiplos momentos (intuição, representação e pensar) ± momentos

estes que se encontram, em última instância, submetidos ao conceito do conhecer. Desse

modo, a finalidade específica do pensamento, enquanto inteligência, é produzir o

conhecimento racional e verdadeiro do objeto. É unificar, de modo especulativo e

mediado, por meio de sua atividade de idealização, a subjetividade da inteligência com a

verdade da objetividade natural (Cf. HEGEL, E, v. 3, § 443; § 444; § 445). A vontade, de

outro modo, toma o ponto de partida oposto. Ela não procura preencher a subjetividade do

espírito com a forma racionalizada do objeto. Antes, o querer procura concretizar na

exterioridade seus fins e interesses subjetivos, dando-lhes a forma da verdade objetiva em

si e para si e marcando o mundo com o sinal da subjetividade livre do espírito (Cf.

HEGEL, E, v. 3, § 443; § 444; § 469). Com efeito, estas atividades do espírito, apesar de

possuírem papéis específicos em vista de suas finalidades comuns, se interpenetram,

chegando mesmo a confundirem-se. É assim que +HJHODILUPDTXH³DYRQWDGHFRQWpPHP

si o elemento teórico, em outras palavras, a vontade se determina. Esta determinação é,

antes de tudo, alguma coisa de interior: o que eu quero, eu o represento, é um objeto para

PLP´$OpPGLVVR³,QYHUVDPHQWHQmRpSRVVtYHOWHUXPDDWLWXGHWHyULFDRXSHQVDUVHQmR

VH WHP YRQWDGH SRUTXH TXDQGR QyV SHQVDPRV QyV VRPRV LJXDOPHQWH DWLYRV´ )' †

adendo)65.

Finalmente, será a atuação conjunta e recíproca de ambas as atividades que

GHILQLUiDUHDOL]DomRPi[LPDGHOLEHUGDGHLGHDOTXHRHVStULWRDWLQJHQRFXUVRGR³(VStULWR

6XEMHWLYR´ $VVLP R SHQVDPHQWR SRU XP ODGRcompleta o impulso de objetivação da

vontade, por meio da atividade de interiorização do conceito no que tange às finalidades

subjetivas do querer. E, por outro lado, a vontade completa a idealidade simplesmente

interior do pensamento, objetivando no mundo o espírito. Esta atuação recíproca, enfim,

FLUFXQVFUHYH R ³HVStULWR OLYUH´ XQLGDGH especulativa do espírito teórico com o espírito

prático e unidade mediada da subjetividade ideal com a objetividade da natureza.

A vontade livre efetiva é a unidade do espírito teórico e do espírito prático: vontade livre que é

para si mesma como vontade livre, enquanto ela se suprassumiu o formalismo, a contingência e

a limitação do conteúdo prático rotineiro. (...). Essa determinação universal, a vontade a tem

como seu objeto e meta enquanto ela se pensa, sabe esse conceito seu, é vontade enquanto livre

inteligência (E, v. 3, § 481; o grifo é meu).

65

Segundo Quelquejeu, esta unidade inseparável e imanente entre a atividade teórica e prática do espírito,

que afirma Hegel, é uma retomada da concepção aristotélica tratada na Ética a Nicômaco ³$ GHFLVmR p

intelecto desejante, ou desejo refletido ± HHVWHSULQFtSLRpRKRPHP´$5,6727e/(6Ética a Nicômaco;

APUD QUELQUEJEU, 1972, p. 157-158).

Antes de concluirmos esta consideração sobre a reciprocidade de ambas as

modalidades do espírito, convém fazer ainda uma pequena discussão sobre a relação entre

o pensar e o querer, problematizando a visão de Hösle a este respeito. Pois o

esclarecimento desta problemática, de certo modo, pode nos auxiliar em nossa discussão

posterior sobre a relação entre pensamento e vontade no processo de estabelecimento da

infinitude da vontade livre, que é o objeto do terceiro capítulo desta Dissertação.

Segundo Hösle, a consideração hegeliana sobre as atividades prática e teórica

do espírito não é, entretanto, coerente ao longo de suas obras, tampouco na própria

Enciclopédia de 1830. Ele sustenta que há um problema de fundo na consideração

hegeliana sobre as atividades do espírito, pois afirma que ora Hegel concebe a atividade

prática como superior à atividade teórica, ora afirma o contrário (Cf. HÖSLE, 2007, p.

434-436). De acordo com Hösle, na Enciclopédia de 1827 e na própria Enciclopédia de

1830, Hegel afirma a superioridade do espírito teórico em relação ao prático. Nesta

perspectiva, para Hegel, o pensamento seria a atividade livre por excelência do sujeito

espiritual, uma vez que não possui barreiras exteriores, mas é a pura infinidade da palavra

pensada. No entanto, continua Hösle, em outras obras, Hegel afirma que o espírito prático

consistiria na atividade pela qual efetivamente a liberdade se realiza. Tais obras são a

Propedêutica Filosófica, na ³Enciclopédia Filosófica para a Classe Superior´, e as

Preleções sobre a Filosofia da Religião de 1824, que são, no entanto, obras não publicadas

em vida. &RQFOXL +|VOH TXH ³D FRQFHSomR KHJHliana da relação entre espírito teórico e

HVStULWRSUiWLFRpFRQWUDGLWyULD´+|VOHS

No entanto, esta leitura de Hösle não me parece considerar o verdadeiro

significado do que Hegel entende pela relação especulativa entre atividade teórica e prática

do espírito. Baseando-nos na Enciclopédia de 183066 ± que consiste na última versão da

Enciclopédia elaborada por Hegel para publicação ± observamos que, de fato, Hegel

afirma que o pensamento, e não a vontade, deve ser considerado como aquela atividade

ilimitada e infinita67. Mas, devemos nos perguntar: qual o significado desta afirmação?

66

Na EnciclopédiaGH+HJHOQmRGLVFRUUHVREUHXPDSRVVtYHO³VXSHULRULGDGH´GHXPDPRGDOLGDGHGR

espírito em relação à outra.

67

³'HYH-se declarar não menos fora de verdade, acerca da diferença do teórico e prático acima discutida, a

distinção segundo a qual a inteligência seria o limitado. É a vontade que pode ser declarada, de modo

Como ela se relaciona com o sentido do conjunto das afirmações de Hegel acerca da vida

especulativa do espírito? O que Hegel parece ter em vista precisamente com esta passagem

é criticar a noção kantiana, segundo a qual, o pensar é limitado pela experiência sensível e

que, movendo-se dialeticamente, não produz conhecimento verdadeiro. Para Kant, como

vimos, é a vontade que consiste na faculdade ilimitada da razão. Mas, segundo Hegel, de

outro modo, o pensamento é pura liberdade ilimitada, pois subsume toda a materialidade

da natureza sob seu atuar conceitual idealizante, que alcança a verdade em si e para si dos

objetos e, por isso, o pensamento, propriamente, sabe a verdade da objetividade externa

(Cf. HEGEL, E, v. 3, § 381; § 443; § 444; E, v. 1, § 21; § 24). Disso não se segue,

entretanto, que a vontade não seja também livre e infinita segundo seu conceito na

perspectiva hegeliana. Pois, para Hegel, não é questão de comparar e medir ambas as

³IDFXOGDGHV´GDUD]mR elegendo uma como a superior, mas, sim, de considerá-las em sua

relação especulativa. Assim, o querer, juntamente com o pensamento, encerra de modo

completo a liberdade infinita e ilimitada do espírito, pois o espírito pensante também

possui um aspecto de finitude, tanto porque primeiramente lida com a matéria sensível,

quanto porque permanece apenas na forma da interioridade, da liberdade ideal. Portanto,

deve objetivar suas determinações interiores para ser efetivamente livre e, desse modo,

precisa da atuação conjunta da vontade. Por outro lado, a limitação e finitude que sofre a

vontade constituem apenas um momento de seu conceito e tal limitação é, contudo,

suspendida pela atividade verdadeiramente racional do querer, que passa a possuir a

objetividade como seu fruto e lugar de sua perfeita realização sendo, pois, vontade infinita

e racional68. Portanto, Hegel, como afirma Hösle, não se divide e contradiz ao considerar

qual seria a atividade mais elevada do espírito. Ao contrário, para ele, isso não é questão ±

o que é questão é saber de que modo pensamento e vontade atuam conjunta e

reciprocamente (como vimos ao longo deste tópico) a fim de realizar a efetivação da

liberdade do espírito e suspender a finitude inicial própria a ambas as atividades. Somente

totalmente inverso, como o limitado, porque entra em luta com a matéria exterior que opõe resistência, com a

singularidade excludente do efetivo; e ao mesmo tempo tem, contraposta a si, outra vontade humana,

enquanto a inteligência, como tal, na sua exteriorização só avança até a palavra, essa fugaz realização

evanescente, que se produz em um elemento sem resistência, e é totalmente ideal´(Y†DGHQGR

68

³$YRQWDGHHPVLHSDUDVLé verdadeiramente infinita, porque ela é para ela mesma seu próprio objeto e,

por conseguinte, este não é algo de outro ou uma limitação para ela, mas, neste objeto, a vontade, ao

contrário, efetuou um retorno a si mesma´)'†RJULIRpPHX3DUDFKHJDUDHVWHHVWiJLRDYRQWDGH

antes passa por formas finitas de realização. Suas formas finitas (vontade natural e livre arbítrio) serão

analisadas por mim no segundo capítulo; e a suspensão desta finitude e estabelecimento de sua infinitude

racional ± que só ocorre com o concurso do pensamento ± analisarei no terceiro capítulo.

conjuntamente considerados é que podemos falar em inILQLWXGH QR kPELWR GR ³(VStULWR

6XEMHWLYR´HWDPEpPQRkPELWRGR³(VStULWR2EMHWLYR´

Por conseguinte, o melhor conceito para elucidar esta questão é o conceito de

³HVStULWROLYUH´TXHDERUGDPRVDFLPDque consiste na culminação dos esforços recíprocos

da atitude prática e teórica e que ± somente ele ± realiza completa e infinitamente a

liberdade do espírito considerado subjetivamente. No entanto, Hegel ressalta que tal

realização abarca apenas a idéia em si, o conceito subjetivo e ideal do espírito (Cf.

HEGEL, E, v. 3, § 482). O que quer dizer que este deve, além disso, tornar-se idéia para si,

fazer-se espírito objetivo.

Quando a certeza da razão, a unidade do subjetivo e do objetivo, não é mais formal, mas antes

preenchida; quando, pois, a idéia forma o único conteúdo do espírito ± então o espírito

subjetivo atinge sua meta e passa a ser o espírito objetivo. Este sabe sua liberdade, conhece

que sua subjetividade constitui, em sua verdade, a própria objetividade absoluta, e não se

apreende simplesmente em si mesmo como idéia, mas se produz como um mundo,

exteriormente presente, da liberdade (E, v. 3, § 444, adendo; o grifo é meu).

&RPHIHLWRTXDQGR+HJHOQRVIDODTXHRHVStULWRGD³3VLFRORJLD´pDUD]mRD

idéia perfeitamente realizada69, está dizendo, entretanto, que, neste nível, o Geist ± como

unidade de pensamento e vontade ± concluiu o modo de sua subjetivação

(Subjektivierung), afirmando-se infinitamente como subjetividade livre ideal em plena

unidade mediada com seu outro objetivo que é, para ele, a natureza. Contudo, além disso,

FDEH DLQGD DR HVStULWR UHDOL]DU HVWD ³LGpLD HP VL´ RX ³LGpLD VXEMHWLYD´ QD H[WHULRULGDGH

mundana, construir um mundo objetivo com a marca de sua idéia livre subjetiva. E esta

efetivação da unidade racional e ideal do espírito livre na objetividade é feita pela vontade

livre enquanto inteligência pensante, que possui a determinação de concretizar os desígnios

subjetivos do espírito na objetividade (Cf. HEGEL, E, v. 3, § 443; § 444). Por isso a

vontade, juntamente com o pensamento, além de atualizar maximamente a essência do

espírito, que é a liberdade, no modo da subjetividade ± situando-se, pois, QR ³(VStULWR

6XEMHWLYR´±, possui, por outro lado, a atividade finalista70 peculiar de realizar o conceito

69

Ver página 37.

70

Atividade finalista significa toda atividade que se funda na consecução de uma finalidade, de um objetivo,